O lobo e a Pomba
The Wolf and the Dove
Kathelee E. Woodiwiss

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   Um Mito
     
    
    
    Em tempos remotos, quando os druidas viviam nas florestas do norte da Inglaterra e realizavam seus sabs nas noites de lua, um jovem, atrado pela batalha e 
pela violncia, estudou as artes da guerra at se tornar o melhor, o invencvel. Chamava-se de "Lobo" e atacava e saqueava para satisfazer seus desejos. Seus feitos 
chegaram aos ouvidos dos deuses, na alta montanha entre a terra e o Valhalla. Woden, rei dos deuses, enviou um mensageiro para destruir aquele homem arrogante que 
cobrava tributo dos homens e desafiava o destino. Os dois se encontraram, empunharam suas espadas, e a batalha feroz durou duas semanas de lua nova, estendendo-se 
dos penhascos brancos do sul s praias desertas e rochosas do norte. O guerreiro era realmente bom, pois nem o mensageiro de Woden conseguiu destru-lo, e voltou 
 montanha, admitindo seu fracasso. Woden pensou longa e profundamente, pois estava escrito que aquele que vencesse o mensageiro dos deuses conquistaria a vida eterna 
na terra. Woden riu, e o cu acima do Lobo tremeu. Ento o ar foi cortado por relmpagos e o rugido do trovo, e o jovem permaneceu de p, ousado, com a espada na 
mo.
    - Ento, voc ganhou a vida eterna - rugiu Woden, com uma gargalhada. - E me enfrenta com a espada desembainhada, pronto para a luta, mas atrevimento no significa 
valor, e no posso permitir que voc continue assolando a terra impunemente. Ter sua imortalidade, mas ter de se dobrar  vontade de Woden para prosseguir sua 
misso.
    Woden levantou-se com uma gargalhada sonora, e um relmpago atingiu a lmina insolente. Uma nuvem de fumaa elevou-se para o cu. No lugar onde o jovem estava, 
apareceu um lobo de ferro, vermelho, pronto para o bote, com os dentes arreganhados.-Dizem que num vale profundo, perto da fronteira com a Esccia, est a esttua 
de ferro, numa clareira escura, coberta de ferrugem, com trepadeiras enroladas no corpo e musgo cobrindo as pernas. Dizem que s quando a guerra assola a terra o 
poderoso lobo volta  vida e se transforma num guerreiro - ousado, forte, invencvel e selvagem.
    
    E agora as hordas de Guilherme cruzaram o canal, Harold desceu do norte e a guerra se aproxima...
    
    
    
    
    
    
   Captulo Um
    
    
    28 de outubro, 1066
    
    CESSOU O ESTRIDOR da batalha. Os gritos e gemidos silenciaram, um a um. A noite est quieta e o tempo parece imvel. A lua de outono, cansada e cor de sangue, 
brilha no horizonte indefinido, e o uivo distante de um lobo caando fazia tremer a noite, acentuando o silncio sinistro que envolvia a terra. Retalhos de nvoa
deslizavam sobre os pntanos, sobre os corpos mutilados dos mortos. A terra plana, com pedras esparsas, estava coberta com os restos dos hericos filhos da cidade.
Um jovem com no mais de doze primaveras jazia ao lado do pai. O vulto enorme e escuro de Darkenwald erguia-se alm, com a ponta aguda da nica torre espetando o
cu.
    No interior do castelo, Aislinn estava sentada sobre a esteira que cobre o assoalho, na frente da cadeira da qual seu pai, o falecido senhor de Darkenwald, dirigia
seu feudo. Uma corda spera estava amarrada no seu pescoo esguio, com a outra ponta atada no pulso de um normando alto e moreno, com cota de malha, encostado no
smbolo rusticamente gravado do status de Lorde Erland. Ragnor de Marte observava a selvageria com que seus homens destruam o castelo,  procura de objetos de valor,
galgando a escadaria para os quartos de dormir, batendo as portas pesadas, revistando cofres e depositando sobre um pano estendido no cho, aos seus ps, os trofus
mais valiosos. Aislinn viu sua adaga com pedras preciosas incrustadas no cabo e o cinturo de ouro filigranado, arrancado de sua cintura h poucos minutos, atirados
na pilha entre os outros tesouros que enfeitavam seu lar.
    Surgiam desavenas e brigas entre os homens, por causa de um ou outro objeto, mas eram rapidamente silenciadas a uma ordem do captor de Aislinn. Quase sempre,
o objeto que dera motivo  briga era depositado aos ps dele. Os invasores tomavam cerveja liberalmente e devoravam carne, po e qualquer outro alimento que encontrassem. 
Aquele cavaleiro com armadura de ferro, das hostes de Guilherme, que a mantinha prisioneira, levou  boca o chifre de touro e tomou um generoso gole de vinho, sem
se preocupar com o sangue do pai da jovem, que ainda tingia sua cota de malha. Quando nada mais prendia sua ateno, o normando girava e puxava a corda, magoando
a pele fina do pescoo de Aislinn. Cada vez que seu rosto se contorcia de dor, o cavaleiro ria cruelmente, satisfeito por ter conseguido alguma reao, e essa vitria
parecia-lhe abrandar o mau humor. Contudo, certamente ele preferia v-la chorar e pedir misericrdia. Aislinn continuava alerta e atenta e, quando olhava para ele,
era com uma expresso de calmo desafio, que o irritava. Outra qualquer estaria se arrastando aos seus ps, implorando piedade. Mas essa jovem... alguma coisa na 
atitude e na expresso dela, cada vez que ele puxava a corda, parecia desafi-lo. O cavaleiro no podia imaginar as profundezas daquele esprito, mas estava resolvido 
a test-lo antes do fim da noite.
    Ele a encontrara ao lado da me, Lady Maida, no hall do castelo, quando, com seus homens, arrombou a pesada porta, como se estivessem dispostas a enfrentar todo 
o bando de normandos invasores. Empunhando a espada ensangentada, ele parou do lado de dentro da porta, enquanto seus homens invadiram o palcio,  procura de inimigos 
prontos para lutar. Mas vendo que no havia ningum para receb-los alm das duas mulheres ao lado dos enormes ces de caa, os homens abaixaram as armas. Com pontaps 
e socos certeiros, dominaram e amarraram os ces, e voltaram-se ento para as mulheres, tratando-as quase do mesmo modo.
    Seu primo, Vachel de Comte, avanou para a jovem, disposto a fazer dela sua presa. Mas encontrou  sua frente Maida, pronta para defender a filha. Vachel tentou 
empurrar a mulher, mas ela estendeu a mo para a adaga dele e a teria tirado da bainha se o homem, percebendo sua inteno, no a tivesse derrubado com um golpe 
do seu guante de ferro. Com um grito, Aislinn ajoelhou ao lado da me, e, antes que Vachel a agarrasse, Ragnor adiantou-se e tirou brutalmente a rede da cabea da 
jovem, soltando a cascata de cabelos avermelhados e sedosos. O cavaleiro normando enrolou a mo nas mechas longas e puxou, obrigando-a a ficar de p. Ele a arrastou 
at uma cadeira, a fez sentar e amarrou seus pulsos e tornozelos fortemente. Maida, atordoada ainda, foi amarrada aos ps da filha. Ento os dois cavaleiros juntaram-se 
aos seus homens no saque da cidade.
    Agora, a jovem estava no cho, aos ps dele, vencida e quase  beira da morte. Mas de seus lbios no saa nenhuma palavra pedindo clemncia ou misericrdia. 
Por um momento, Ragnor ficou indeciso, reconhecendo naquela jovem uma fora de vontade que poucos homens possuam.
    Mas o cavaleiro no tinha idia da luta que se travava no ntimo de Aislinn para controlar o tremor do seu corpo e manter uma atitude orgulhosa, sem tirar os 
olhos da me. Maida servia os invasores com os ps amarrados, para evitar que desse um passo completo. Ela arrastava um pedao da corda que a prendia, e os homens 
divertiam-se pisando na ponta, fazendo-a cambalear e cair. Suas gargalhadas eram verdadeiros rugidos de satisfao quando ela caa, e a cada queda Aislinn empalidecia, 
mais forte para suportar o prprio sofrimento do que para assistir  humilhao da me. Quando Maida caa com uma bandeja cheia de comida ou bebida nas mos, o divertimento 
era total, e, antes de se levantar, levava pontaps e empurres, como castigo pela falta de cuidado.
    Ento os temores de Aislinn se renovaram quando Maida tropeou e derramou vinho sobre um soldado de rosto abrutalhado. O homem agarrou o brao de Maida com a 
mo enorme e brutal, obrigou-a a ficar de joelhos e com um pontap atirou-a para longe. Na queda, uma pequena bolsa saltou do cinto de Maida, mas ela levantou-se 
e, sob as imprecaes do normando, apressou-se a apanh-la do cho. Ia recoloc-la na cintura, mas, com um grito, o soldado bbado agarrou sua mo e tomou-lhe a 
bolsa. Maida tentou recuper-la, e a ousadia de seu gesto despertou a ira do soldado. Ele deu-lhe um murro na cabea que a fez girar, e o corpo de Aislinn enrijeceu, 
seus lbios se contraram e uma expresso feroz brilhou em seus olhos. Porm, o soco que dera parecera apenas divertir o homem. Esquecendo o tesouro por um momento, 
ele perseguiu a mulher que cambaleava, atordoada, desfechou-lhe outro golpe, e, segurando-a pelos ombros, comeou a espanc-la brutalmente. 
    Com um grito de revolta, Aislinn ficou de p, mas Ragnor puxou a corda com fora e ela caiu no cho. Quando conseguiu respirar novamente, viu a me inconsciente 
e imvel e o soldado, de p ao lado dela, sacudindo a bolsa em triunfo, com gritos de satisfao. Ele rasgou a bolsa, ansioso para ver que tesouros continha. Para 
seu desapontamento, encontrou apenas algumas folhas secas, que atirou no cho, praguejando com desprezo e fria. Jogou longe a bolsa rasgada e castigou com outro 
pontap o corpo inerte de Maida. Com um soluo de agonia, Aislinn tapou os ouvidos com as mos e fechou os olhos para no ver mais o sofrimento da me.
    - Chega! - rugiu Ragnor, abrandando sua crueldade ao ver a dor de Aislinn. - Se a velha sobreviver, poder nos servir.
    Apoiando-se nas mos, Aislinn levantou um pouco o corpo e voltou para seu captor os olhos cor de violeta, ardentes de dio. Seu longo cabelo ruivo caa despenteado 
sobre os ombros e o peito arfante, e, ali no cho, era como uma loba enfrentando o inimigo. Mas lembrou do sangue que tingia a espada de Ragnor quando ele entrou 
no castelo e das manchas em sua cota de malha, o sangue de seu pai. Lutou contra o pnico que ameaava roubar suas ltimas foras e contra a dor da perda e a autopiedade 
que a levariam  submisso. Controlou as lgrimas que subiam aos olhos, provocadas pelas emoes experimentadas pela primeira vez na vida e pela certeza profunda 
e atormentadora de que seu pai jazia sem vida na terra fria, no-abenoado pelos ritos sagrados, e por saber que ela no podia fazer nada. Estaria a misericrdia 
to ausente dos coraes daqueles normandos que mesmo agora, com a batalha vencida, no iam procurar um padre para encomendar as almas dos mortos?
    Ragnor olhou para a jovem sentada no cho, com os olhos fechados e os lbios trmulos entreabertos. No podia ver a luta que enfraquecia sua resistncia. Se 
ele tivesse se levantado naquele momento, teria satisfeito seu desejo de v-la se encolher de pavor, mas Ragnor pensava no cavaleiro sem nobreza que se apossaria 
de tudo que o rodeava.
    Antes do anoitecer eles tinham chegado, a galope, arrogantes como devem ser os conquistadores, para exigir a capitulao da cidade. Darkenwald no estava preparada 
para aquele inimigo. Depois da sangrenta vitria de Guilherme sobre o Rei Harold, em Senlac, quinze dias antes, correu a notcia de que o Duque normando estava marchando 
para Canterbury com seu exrcito, tendo perdido a pacincia com os ingleses, que, embora vencidos, lhe recusavam a coroa. O povo de Darkenwald respirou aliviado, 
pois o caminho para Canterbury passava longe da cidade. Mas no levaram era conta os pequenos grupos de cavaleiros enviados para atacar e saquear as pequenas cidades 
nos flancos do exrcito de Guilherme. Por isso, o grito da sentinela avisando da chegada dos normandos foi um choque para todos. Erland, embora leal ao rei morto, 
conhecia a vulnerabilidade de seu feudo e pretendia se entregar pacificamente se a provocao no tivesse sido insuportvel.
    Entre os normandos, apenas Ragnor de Marte sentia-se pouco  vontade naquela regio, enquanto atravessavam os campos, passando pelas casas dos camponeses, a 
caminho da manso cinzenta onde morava o senhor daquele feudo. Quando chegaram ao castelo, ele olhou em volta, Nada se movia nos prdios externos, e o local parecia 
deserto. A entrada principal, uma porta de carvalho com reforos de ferro, estava fechada. Nenhuma luz atravessava as peles finas que cobriam as janelas, e as tochas 
nos suportes de ferro, nos dois lados da porta, estavam apagadas. Tudo estava silencioso no interior do castelo, mas, quando o jovem arauto chamou, a porta foi parcialmente 
aberta. Um homem velho, de cabelo e barba brancos, alto e robusto, apareceu, empunhando uma espada. Saiu, fechou a porta, e Ragnor ouviu o som da tranca encaixada 
na parte de dentro. Ento o saxo voltou-se para os intrusos. Ficou imvel, e o arauto se aproximou, desenrolando um pergaminho. Confiante em sua misso, o jovem 
comeou a ler.
    - Oua, Erland, Lorde de Darkenwald. Guilherme, Duque da Normandia, reivindica a Inglaterra como seu domnio, por seu direito de soberania...
    O arauto leu em ingls as palavras que Ragnor havia preparado em francs. O cavaleiro ignorara o pergaminho ditado por Sir Wulfgar, um bastardo de sangue normando, 
pois, na sua opinio, era mais uma splica humilhante do que uma ordem formal de capitulao. Aqueles saxes, afinal, no passavam de vis infiis cuja arrogante 
resistncia devia ser esmagada sem misericrdia. Contudo, Wulfgar queria que fossem tratados como homens honrados. Eles foram vencidos, pensava Ragnor, pois agora 
deviam reconhecer seus senhores.
    Mas Ragnor comeou a ficar perturbado vendo a expresso no rosto do velho quando o arauto explicou que todos os homens, mulheres e crianas deviam ser levados 
 praa principal e marcados na testa com a marca de escravos e que o senhor do feudo devia se entregar, com toda a sua famlia como refm, para garantir o bom comportamento 
do povo.
    Ragnor mudou de posio na sela, olhando apreensivo  sua volta. Ouviram o cacarejo de uma galinha e o arrulho de uma pomba. Sua ateno foi despeitada pelo 
movimento de uma janela que se abriu ligeiramente na ala superior do castelo. O cavaleiro no podia ver o interior escuro, mas sentiu que algum, atrs das venezianas 
rsticas de madeira, o observava. Ragnor passou um lado do manto por sobre o ombro, liberando o brao direito e o punho de sua espada.
    Olhou outra vez para o orgulhoso senhor da manso, que o fazia lembrar seu pai - decidido, arrogante, sem inteno de ceder uma jarda sem antes ter ganhado dez. 
O dio cresceu no corao de Ragnor, alimentado pela comparao. O rosto do velho saxo ficava mais rubro e furioso  medida que o arauto lia as absurdas condies.
    De repente, uma brisa gelada aoitou o rosto de Ragnor, fazendo tatalar os gonfales como um prenncio de morte. Seu primo Vachel, ao seu lado, resmungou, comeando 
a sentir a tenso que fazia o suor brotar sob a tnica de couro que Ragnor usava debaixo da cota de malha. Sentia as palmas midas dentro dos guantes, e ele apoiou 
a mo sobre o punho da espada.
    Nesse momento, o velho lorde, com um brado de revolta, brandiu a espada com fria demonaca. A cabea do arauto rolou no cho, antes de o corpo desmoronar molemente. 
O espanto e a surpresa atrasaram por um momento a reao dos normandos, e nesse meio-tempo, camponeses, armados com foices, forcados e armas rsticas, saram de 
seus esconderijos, Sir Ragnor gritou uma ordem, praguejando contra si mesmo por ter sido apanhado de surpresa. Incitou o cavalo para a frente, contra os camponeses 
que saltavam e estendiam as mos para arranc-lo da sela. Brandia a espada  direita e  esquerda, abrindo cabeas e decepando mos. Viu Lorde Erland lutando contra 
trs soldados normandos, e por um instante passou por sua mente a idia de que Harold poderia ainda ser rei, se tivesse aquele velho do seu lado. Ragnor lanou o 
cavalo contra a massa humana, tendo como alvo Lorde Darkenwald, pois ele o via agora atravs de uma nvoa avermelhada que s se abrandou quando sentiu o corpo do 
senhor da manso sucumbir  sua espada. Os camponeses, percebendo seu intento, tentavam deter o avano do cavaleiro invasor. Lutaram galantemente para defender seu 
senhor, at o ltimo suspiro. No podiam superar homens treinados para a guerra. O poderoso garanho seguiu pisando nos corpos dos vencidos, at alcanar o objetivo. 
Lorde Erland levantou os olhos para a espada erguida e seu fim foi rpido quando a lmina de Marte atravs sou-lhe o crnio. Vendo seu senhor abatido, os servos 
dissolveram as fileiras e fugiram, e o clamor da batalha foi substitudo pelo lamento das mulheres, o choro das crianas e as batidas surdas do tronco de rvore 
contra a pesada porta de Darkenwald.
    De onde estava, sentada aos ps de Ragnor, Aislinn observava ansiosamente a me, esperando algum sinal de vida, e deu um suspiro de alvio quando Maida afinal 
se moveu. Ouviram um fraco gemido, e a pobre mulher tentou erguer o corpo, apoiada num cotovelo. Olhou em volta atordoada. Seu agressor avanou outra vez para ela.
    -  Traga-me cerveja, escrava! - rugiu ele, erguendo-a pela gola do vestido e atirando-a contra um barril de bebida, mas Maida, com os ps amarrados, caiu outra 
vez. Levantou-se com esforo, mas o soldado pisou no pedao de corda dependurado atrs dela, fazendo-a cair de joelhos. Satisfeito, ele gritou:
    -  Arraste-se, sua cadela! Rasteje como um co - disse, rindo, e Maida foi obrigada a servi-lo de joelhos.
    -  Cerveja! - gritou o homem, lanando para ela seu copo de chifre.
    Maida olhou para ele, confusa, e s compreendeu quando o homem a empurrou contra o barril outra vez. Quando ela entregou o chifre cheio de cerveja, outros homens 
exigiram o mesmo servio, e Maida continuou com seu andar trpego, servindo cerveja e vinho com a ajuda de dois servos, Hlynn e Ham, surpreendidos pelos normandos 
quando tentavam fugir.
    Maida servia os normandos, mas seus lbios feridos comearam a se mover numa ladainha montona. As palavras em saxo penetraram a mente de Aislinn e, com um 
horror que ela procurou no demonstrar, compreendeu que a me murmurava ameaas terrveis, que os homens no podiam compreender, e invocava os mais vis espritos 
dos pntanos para atorment-los. Se um deles pudesse entender o que Maida dizia, sem dvida a assaria no espeto, como a um leito. Aislinn sabia que a sobrevivncia 
das duas dependia apenas do capricho de seu captor. At seu noivo estava nas mos do inimigo. Aislinn sabia por ter ouvido os normandos falarem de outro bastardo 
que, obedecendo ordens de Guilherme, fora a Cregan exigir a capitulao da cidade. Kerwick estaria morto tambm, depois de ter lutado to galantemente ao lado do 
Rei Harold, em Hastings?
    Olhando para Maida, Ragnor pensou na pose rgia e na beleza madura que ela ostentava antes de ser espancada e ter o rosto deformado por seus homens. No conseguia 
ver o menor trao daquela mulher altiva na criatura imunda e trpega que servia os soldados, com o rosto contrado e o cabelo cor de cobre entremeado de fios brancos 
e sujo de sangue e p. Talvez a jovem aos seus ps estivesse vendo a si prpria quando observava atentamente a me.
    Um grito fez Aislinn desviar a ateno de Maida, e ela olhou em volta. A jovem serva Hlynn estava sendo disputada por dois soldados, que a puxavam de um lado 
para o outro. A tmida criada, com apenas quinze anos, nunca conhecera um homem, e agora enfrentava o pesadelo de um estupro iminente nas mos daqueles bandidos.
    Aislinn mordeu as juntas das prprias mos para no ecoar os gritos de horror de Hlynn. Sabia que muito em breve ela seria vtima do desejo de um dos homens. 
Quando rasgaram toda a frente do vestido de Hlynn, Aislinn sentiu a mo pesada em seu ombro, procurando cont-la. Mos calejadas e cruis assaltaram o corpo da jovem 
criada, macerando a pele macia. Aislinn estremeceu revoltada, sem poder tirar os olhos da cena brutal. Finalmente um dos homens derrubou o outro com um murro na 
cabea e, tomando nos braos a pobre Hlynn, que esperneava e gritava, saiu do salo. Desesperada, Aislinn imaginou se a jovem ia sobreviver quela noite, sabendo 
que as probabilidades eram poucas.
    O peso terrvel em seu ombro tornou-se ento insuportvel, e ela voltou novamente para seu captor os olhos violeta, cheios de dio. O normando retribuiu o olhar 
com um sorriso de escrnio nos lbios carnudos, zombando de seu desafio. O sorriso, porm, desapareceu ante a intensidade do desprezo no olhar da jovem. Os dedos 
dele se contraram, machucando-lhe o ombro. Sem poder mais se controlar, Aislinn gritou de raiva e ergueu a mo para esbofete-lo, mas Ragnor segurou seu pulso e 
a puxou para ele, apertando-a contra sua cota de malha. Com o rosto quase encostado no dele, Aislinn sentia o hlito quente da risada zombeteira de seu captor. Lutou 
para se livrar, enquanto Ragnor, com a mo livre, acariciava seu corpo, acompanhando as curvas suaves por cima da roupa. Aislinn estremeceu, odiando aquele homem 
com todas as fibras do seu ser.
    -  Porco imundo! - sibilou ela, sentindo algum prazer com a expresso de espanto de Ragnor ao ouvir as palavras em francs.
    -  O qu? - Vachel de Comte endireitou o corpo na cadeira, intrigado por ouvir uma voz feminina dizendo palavras que ele podia entender. No ouvia isso desde 
que sara de Saint-Valry. - Com todos os diabos, primo, a mulher no  apenas bonita, mas culta tambm - deu um pontap na sela de Lorde Erland. - Ora, vejam! Sorte 
a sua ficar com a nica mulher nesta terra maldita capaz de entender suas ordens na cama. - Com um largo sorriso, reclinou-se outra vez na cadeira. -  claro que 
devo levar em conta os inconvenientes do estupro. Mas, uma vez que a mulher pode entender o que voc diz, pode convenc-la a ser mais cordata. O que importa o fato 
de voc ter matado o pai dela?
    Ragnor olhou ferozmente para o primo e, largando Aislinn, deixou que ela casse aos seus ps outra vez. Sua superioridade sobre ela sofria mais um revs, pois 
a jovem falava francs, ao passo que ele no falava saxo.
    -  Cale a boca, jovem inexperiente - disse Ragnor para o primo mais moo. - Sua tagarelice me aborrece.
    Vachel, notando o estado de esprito de Ragnor, sorriu.
    -  Querido primo, voc se preocupa demais, do contrrio perceberia que foi um gracejo. O que Wulfgar pode dizer quando voc contar que foi atacado por esses 
miserveis pagos? O velho era uma raposa esperta. O Duque Guilherme no vai culpar voc. Mas qual dos dois bastardos voc teme mais? O duque ou Wulfgar?
    Aislinn, mais alerta agora, viu o rosto de Ragnor se contrair com fria mal disfarada. Suas sobrancelhas se juntaram, como uma nuvem de tempestade.
    -  No temo homem nenhum - rosnou ele.
    -  Oh-oh! - riu Vachel. - Pode dizer isso com muita bravura, mas ser verdade? Qual de ns aqui, esta noite, no est inquieto por causa do que fizemos? Wulfgar 
deu ordens para no lutarmos contra o povo da cidade, e ns matamos muitos dos que deviam ser seus servos.
    Aislinn ouvia atentamente. Algumas palavras eram estranhas para ela, mas conseguia compreender quase tudo. Esse homem, Wulfgar, era to terrvel a ponto de ser 
temido por aqueles cruis invasores? E seria ele o futuro senhor de Darkenwald?
    -  O duque prometeu estas cidades a Wulfgar - disse Vachel, pensativo. - Mas elas tm pouco valor sem os camponeses para trabalhar no campo e criar porcos. Sim, 
Wulfgar vai ter o que dizer e, como sempre faz, nenhuma palavra ser amvel.
    -  Vira-lata sem nome!-esbravejou Ragnor. - Que direito ele tem de possuir estas terras?
    -  Sim, primo. Tem razo para ficar ressentido. At eu fico. O duque prometeu fazer de Wulfgar o senhor destas terras, enquanto que ns, de origem nobre, no 
recebemos nada. Seu pai vai ficar muito desapontado.
    Com um esgar de desprezo, Ragnor disse:
    -  A lealdade de um bastardo para com outro nem sempre  justa para com os que merecem mais. - Segurou uma mecha dos cabelos de Aislinn e esfregou-a entre os 
dedos, sentindo prazer com a textura sedosa. - Eu juraria que, se Guilherme pudesse, faria de Wulfgar papa.
    Vachel passou a mo no queixo pensativamente e franziu a testa.
    -  Na verdade, no podemos dizer que Wulfgar no merece, primo. Quem alguma vez o venceu numa justa ou numa luta? Em Hastings, ele lutou com a fria de dez homens, 
com aquele viking sempre guardando suas costas. Ele manteve sua posio quando ns todos pensamos que Guilherme estava morto. Mesmo assim, fazer de Wulfgar um lorde 
 demais! - Levantou as mos em protesto. - Isso sem dvida vai fazer com que ele pense que  igual a ns.
    -  E quando foi que ele pensou diferente?-perguntou Ragnor. Os olhos de Vachel encontraram-se com os de Aislinn e ele sentiu o profundo desprezo da jovem. Vachel 
calculou que ela devia ter menos de vinte anos, uns dezoito, talvez. Eleja vira o temperamento forte da jovem. No seria fcil ensin-la a obedecer. Mas um homem 
que admirava a beleza poderia facilmente ignorar esse defeito, pois estava certo de que era o nico que ela possua. Seu novo senhor, Wulfgar, sem dvida ficaria 
satisfeito. O cabelo cor de cobre da jovem era como uma chama viva refletindo a luz do fogo. Uma cor de cabelo incomum entre os saxes. Porm, foram os olhos dela 
que o intrigaram. Agora, refletindo a fria que ela sentia, eram de um azul-escuro, quase roxo, retribuindo o olhar curioso dele. Mas, quando estava calma, tinham 
a cor suave das violetas, claros e brilhantes como a urze das montanhas. As pestanas longas e negras, agora abaixadas, estremeciam contra a pele muito branca. As 
mas do rosto eram delicadas e altas, e com o mesmo tom rosado dos lbios suaves. A idia de v-la sorrindo ou rindo incendiava-lhe a imaginao, pois os dentes 
eram belos e brancos, sem as manchas escuras que deturpavam a beleza de muitas mulheres. O nariz pequeno era levemente arrebitado, orgulhoso, e o queixo forte acentuava 
a perfeio das linhas. Sim, no seria fcil dom-la, mas era uma perspectiva realmente tentadora, pois, embora ela fosse mais alta e mais esbelta do que a maioria 
das mulheres, no lhe faltavam as suaves curvas femininas.
    -  Aah, primo - disse Vachel. - Acho melhor voc se divertir com esta jovem esta noite, pois amanh ela estar com Wulfgar.
    -  Aquele idiota! - zombou Ragnor. - Desde quando ele se incomoda com mulheres? Ele as odeia, pode estar certo. Talvez, se pudermos encontrar um belo senhor 
de terras para ele...
    Vachel sorriu.
    -  Se isso fosse verdade, primo, ns o teramos em nossas mos. Temo porm que ele no seja desse tipo. Sim, em pblico ele foge das mulheres como da praga, 
mas acredito que, na vicia privada, ele tenha tantas quantas voc ou eu. J o vi observando uma ou duas jovens, como se estivesse avaliando seus mritos. Nenhum 
homem olha desse modo para uma mulher quando prefere um belo lacaio qualquer. O fato de ele manter a privacidade de seus casos amorosos  uma das coisas que fascinam 
as mulheres. Mas  um mistrio para mim por que as jovens da corte de Guilherme vivem se oferecendo para ele. Certamente so tentadas apenas por sua indiferena.
    -  No tenho visto tantas mulheres assim interessadas nele - disse Ragnor.
    Vachel riu divertido.
    -  No, primo, e nem poderia ver, pois est quase sempre muito ocupado desencaminhando jovens mulheres para se preocupar com as
    que preferem Wulfgar.
    -  Vejo que voc  muito mais observador do que eu, Vachel, pois continuo achando difcil acreditar que uma mulher possa desej-lo, amaldioado e cheio de cicatrizes 
como ele .
    Vachel deu de ombros.
    -  O que  uma pequena marca aqui ou ali? Prova que o homem  ousado e valente. Graas a Deus, Wulfgar no alardeia esses pequenos atributos das batalhas, como 
fazem tantos dos nossos amigos nobres. Acho at mais suportvel seu modo brusco e lacnico do que aquelas histrias maantes de coragem e valor, tantas vezes contadas 
e recontadas. Vachel indicou com um gesto que queria mais vinho, e Maida aproximou-se, trmula, para servi-lo. Ela trocou um olhar rpido com a filha, antes de voltar 
a se afastar, murmurando sua revolta.
    -  No tenha medo, primo - disse Vachel. - Ainda no perdemos o jogo. Que importncia tem o fato de Guilherme favorecer Wulfgar durante algum tempo? Nossas famlias 
so importantes. No vo tolerar essa violao dos seus direitos quando souberem o que est acontecendo.
    Ragnor rosnou.
    -  Meu pai no vai ficar satisfeito quando souber que no me foi concedido nenhum pedao de terra para a famlia, nesta regio.
    -  No se amofine, Ragnor. Guy est velho e pensa como velho. Uma vez que ele fez a prpria fortuna, acha que  fcil para voc fazer o mesmo.
    Ragnor apertou o chifre com vinho at as juntas de sua mo ficarem brancas.
    -  Em certos momentos, Vachel, acho que o odeio. O primo deu de ombros outra vez.
    -  Eu tambm no tenho pacincia com meu pai. Imagine que ameaou me deserdar e expulsar de casa se eu tiver mais um bastardo com uma mulher qualquer.
    Pela primeira vez desde que arrombou a porta de Darkenwald, Ragnor inclinou a cabea para trs e deu uma gargalhada.
    -  Tem de admitir, Vachel, que sua quota est bem alta. Vachel riu com ele.
    -  E voc, primo, no pode falar de mim.
    -  Concordo, mas um homem precisa ter seu prazer. - Ragnor sorriu, e seus olhos escuros pousaram na jovem ruiva a seus ps. Acariciou o rosto dela, excitado 
com a idia daquele corpo esbelto apertado contra o seu. Impaciente, Ragnor estendeu a mo e, com um gesto rpido, rasgou uma parte do corpete do vestido dela. Os 
olhos ardentes dos invasores fixaram-se vidos nos seios seminus. Como tinham feito com Hlynn, gritaram palavras de encorajamento acompanhadas de gestos obscenos, 
mas Aislinn no se deixou dominar pela histeria. Segurou as duas partes do corpete rasgado, e s seus olhos falaram de seu desprezo e dio. Um a um, os homens silenciaram 
e desviaram os olhos, disfarando o embarao com grandes goles de cerveja, comentando em voz baixa que aquela mulher era, sem dvida, uma feiticeira.
    Lady Maida, em desespero, apertou com tanta fora um odre de vinho contra o peito que seus dedos ficaram esbranquiados. Amargurada, viu Ragnor acariciando sua 
filha. As mos dele moviam-se lentamente na pele macia e sob a roupa, onde nenhum homem jamais ousara tocar. Aislinn tremia enojada, e o dio e o medo gelados quase
sufocavam Maida.
    Maida olhou para a escadaria escura que levava aos quartos de dormir. Imaginou a filha lutando com Ragnor no leito do senhor daquelas terras, o leito que partilhara
com ele e onde dera a luz a Aislinn, Podia quase ouvir os gritos de dor provocados por aquele cavaleiro sinistro. O normando no teria compaixo, e nem Aislinn pediria
misericrdia. Sua filha tinha a obstinao e o orgulho de Lorde Erland. Jamais pediria para si mesma. Para outra pessoa talvez, mas nunca para si mesma.
    Maida passou lentamente para as sombras profundas do castelo. A justia no seria feita enquanto os assassinos de seu marido no sentissem a sua vingana.
    Ragnor levantou da cadeira, puxando Aislinn consigo, enlaando-lhe o corpo com os braos. Riu divertido quando ela tentou se desenvencilhar, deliciando-se com 
a expresso de dor em seu rosto.
    -  Como  que voc fala a lngua da Frana? - perguntou ele. Aislinn ergueu para ele os olhos cheios de dio e no disse nada.
    Ragnor sentiu a altivez de sua atitude e largou o brao dela. Compreendeu que nenhuma tortura a obrigaria a falar. Antes, quando perguntou seu nome, ela no 
respondeu. Foi a me que deu a informao quando percebeu que ele estava disposto a usar de violncia. Mas Ragnor sabia como domar a mulher mais arrogante.
    -  Peo que fale, Aislinn. Do contrrio vou arrancar toda a sua roupa e deixar que todos os homens se sirvam de seu corpo. Tenho certeza de que vai perder toda 
essa altivez.
    Com relutncia, Aislinn respondeu.
    -  Um trovador itinerante passou muito tempo neste castelo, quando eu era pequena. Antes de chegar aqui, perambulou por vrios pases. Conhecia quatro lnguas. 
Ele me ensinou sua lngua porque isso o divertia.
    -  Um trovador itinerante que diverte a si mesmo? No vejo qual era a graa - disse ele.
    -  Dizem que seu duque, desde menino, queria a Inglaterra no seu prato. Meu alegre trovador sabia dessa histria porque muitas vezes tocou e cantou para os nobres 
do seu pas. Duas ou trs vezes, quando era jovem, divertiu seu duque, at o dia em que contou a histria de um cavaleiro bastardo na presena dele e teve amputado 
o dedo mnimo. Meu trovador tinha prazer em me ensinar sua lngua porque, se algum dia a ambio do duque se realizasse, eu poderia chamar vocs todos de lixo da 
terra e vocs me compreenderiam.
    O rosto de Ragnor se crispou de raiva, mas Vachel riu, divertido, com os lbios encostados no copo.
    -  Onde est seu galante trovador agora, damoiselle ?-perguntou o jovem normando. - O duque detesta ser chamado de bastardo hoje tanto quanto antigamente. Talvez 
seu trovador desta vez perca a cabea, e no apenas o dedo mnimo.
    Com profundo sarcasmo na voz, Aislinn disse.
    -  Est onde nenhum mortal pode alcan-lo, a salvo da ira do duque.
    Ragnor ergueu as sobrancelhas.
    -  Esto me fazendo lembrar de coisas desagradveis. Vachel sorriu.
    -  Perdo, primo.
    Os pensamentos de Ragnor tomaram novo rumo quando olhou para os ombros seminus de Aislinn e para o vestido rasgado. Inclinou-se para tom-la nos braos, em meio 
a uma chuva de protestos e de uma linguagem surpreendentemente forte. Ele riu dos esforos dela para escapar, at o momento em que ela quase conseguiu, e ento, 
com o cenho cerrado, apertou-a contra o peito, imobilizando-a. Com um largo sorriso, inclinou a cabea, e seus lbios midos e ardentes pousaram nos dela. De repente, 
ele ergueu a cabea com uma exclamao de dor e um filete de sangue escorrendo do canto da boca.
    -  Sua viborazinha traioeira! - exclamou.
    Com um rosnado surdo, Ragnor ps Aislinn sobre um dos ombros, quase tirando a respirao dela quando a comprimiu contra a cota de malha, atordoando-a e deixando-a 
semiconsciente. Apanhando uma vela acesa para iluminar a escada escura, ele atravessou o hall e subiu, deixando para trs o vozerio dos invasores quando entrou no 
quarto principal do castelo. Fechou a porta com o p, ps o candelabro numa mesa e, caminhando at a cama, jogou Aislinn sobre as cobertas. Num movimento rpido, 
ela tentou escapar, mas a corda amarrada em seu pescoo a impediu. Com um sorriso cruel, Ragnor comeou a enrolar a corda no pulso, at Aislinn estar ajoelhada aos 
seus ps. Ento desenrolou a corda e prendeu-a com fora numa das colunas da cama de dossel. Lentamente comeou a se despir, deixando cair no cho descuidadamente 
a espada, o peitoral e a tnica de couro. S com uma camisa de linho e chausses, uma combinao de meia e cuecas justas, ele se aproximou da lareira acesa. Com apreenso 
crescente, Aislinn comeou a puxar a corda atada no seu pescoo, mas no conseguiu desatar o n. Ragnor atiou o fogo, acrescentou algumas achas de lenha e s ento 
comeou a tirar a camisa de linho e o chausses de l. A garganta de Aislinn se comprimiu dolorosamente quando viu o corpo magro e musculoso, perdendo toda esperana 
de lutar contra ele com alguma vantagem. Com um sorriso quase agradvel, ele se aproximou e acariciou-lhe o rosto com as costas da mo.
    -  A flor do espinheiro-murmurou ele.-Sim,  verdade, voc  minha. Wulfgar deu-me permisso para escolher uma recompensa depois de cumprir suas ordens. - Deu 
um riso abafado.-No posso imaginar melhor recompensa do que a jia mais valiosa destas cidades. O resto no merece nem ser notado.
    -  Espera recompensa por essa carnificina? - sibilou Aislinn. Ele deu de ombros.
    -  Os idiotas deviam saber que no podiam atacar cavaleiros armados e, quando matou o mensageiro do duque, seu velho pai selou a prpria sorte. Fizemos um bom 
trabalho para Guilherme. Mereo uma recompensa.
    Aislinn estremeceu, chocada com tanto desprezo pelas vidas que ele sacrificara. Afastou-se dele tanto quanto permitia a corda em seu pescoo.
    Ragnor deu uma gargalhada.
    -  Ser que meu pequeno pssaro quer fugir de mim? - enrolou a corda na mo e comeou a pux-la para si. - Venha, meu bem - disse, com voz suave. - Venha compartilhar 
o meu ninho. Ragnor ser gentil com voc.
    Com soluos abafados, Aislinn lutou em vo contra a fora dele. Finalmente, estava de joelhos ao ps de seu captor. Ragnor segurou o n debaixo do queixo dela, 
obrigando-a a inclinar a cabea para trs e a olhar para ele, quase sem poder respirar. Ento o normando estendeu a mo para trs e apanhou o odre de vinho que estava 
sobre um mvel.
    -  Tome um pouco de vinho, minha avezinha-disse ele e, com o rosto muito perto do dela, forou-lhe a bebida entre os lbios. Aislinn tossiu, engasgada, depois 
engoliu o vinho. Ragnor segurou o odre at ela no poder mais respirar. Soltando-a, ele sentou na cama e, curvando o pescoo para trs, encostou o odre aos lbios,
bebeu e ao mesmo tempo se banhou com a bebida vermelho-viva. Com olhos brilhantes, enxugou o rosto e o peito com a mo e comeou a puxar a corda. Agora, Aislinn
estava mais fraca, e ele puxou-a at seus rostos quase se tocarem. O cheiro azedo de cerveja e vinho no hlito dele quase a fez vomitar, mas, com um gesto brusco, 
Ragnor levou a mo  gola do vestido dela e rasgou-o de cima abaixo. Ele a soltou de repente, e Aislinn quase caiu para trs. Com um sorriso, ele deitou na cama 
e tomou mais um longo gole de vinho sem tirar os olhos de Aislinn, que, com medo e vergonha, tentava se cobrir.
    -  Agora, venha para mim, benzinho. No resista tanto - ordenou ele. - Afinal, tenho alguma influncia na corte de Guilherme, e voc poderia ter conseguido coisa 
muito pior. - Os olhos vidos de bbado passeavam pelo corpo de Aislinn. - Podia estar satisfazendo aqueles rudes idiotas l embaixo.
    Com os olhos arregalados de pavor, Aislinn tentou mais uma vez desfazer o n que a prendia. Ento, ficou imvel, arfando de dor e frustrao, mas com a cabea 
erguida e os olhos repletos de dio. Com um esgar de desprezo nos lbios e o cabelo longo despenteado brilhando  luz do fogo, mais do que nunca ela parecia um animal 
feroz pronto para o ataque. O desejo de Ragnor crescia a cada momento. Seus olhos ficaram mais escuros.
    -  Ah, no  um pequeno pssaro - murmurou ele, com voz rouca. - Mas um animal feroz, sem dvida. J que no vem a mim, eu vou a voc.
    Ragnor levantou da cama e Aislinn, com uma exclamao abafada, viu a prova da excitao dele. O normando caminhou para ela, com um meio-sorriso e o desejo ardendo 
nos olhos. Aislinn retesou o corpo e recuou cautelosamente. Um calafrio percorreu-a, e sua respirao se acelerou, at se transformar em soluos. Ela queria gritar, 
expressar seu terror, como Hlynn fizera. Sentiu o grito congelar na garganta e lutou contra o pavor que quase a sufocava. Ragnor continuou a avanar para ela com 
o sorriso maldoso, devorando seu corpo com os olhos vidos de ave de rapina, at o limite da corda a levar para os ps da cama. Seus braos e pernas estavam pesados 
como chumbo e no obedeciam mais s ordens do seu crebro. As sombras atrs dele tornaram-se embaadas, e ela s via agora o rosto belo e cruel.  luz trmula do 
fogo, o corpo esbelto e musculoso parecia recoberto por uma penugem clara. O pnico cresceu, e Aislinn mal podia respirar. Ragnor ps a mo em seu seio e Aislinn 
recuou, mas ele a puxou para a frente, at carem os dois sobre as peles que cobriam a cama. Agora, ela estava presa sob o corpo dele. O quarto girou ante seus olhos 
e a voz dele soou abafada no seu ouvido.
    - Voc  minha, damoiselle - as palavras eram arrastadas e indistintas. Ragnor encostou o rosto na bela coluna do pescoo dela, e seu hlito, quente e pesado, 
parecia queimar sua pele. Acariciou com os lbios os seios dela e murmurou outra vez: - Voc  minha. Eu sou o seu senhor,
    Aislinn no podia se mover. Estava nas mos dele e nada mais importava agora. O rosto do normando ondulou ante seus olhos, sua vista obscureceu. O peso do corpo 
nu a comprimia contra as peles do leito. Logo tudo estaria terminado...
    Maida olhou demoradamente para os dois corpos enlaados, agora silenciosos e imveis. Inclinou a cabea para trs e sua gargalhada sobrepujou os risos e o vozerio 
da sala do castelo. O uivo de um lobo faminto rasgou a noite, juntando-se ao riso insano da mulher. L embaixo, os invasores se calaram, com um calafrio percorrendo 
seus corpos. Alguns fizeram o sinal-da-cruz, pois jamais tinham ouvido nada igual, e outros, imaginando a ira de Wulfgar, pensaram que ele estava chegando.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
     
   Captulo Dois
    
    AISLINN ACORDOU lentamente, ouvindo algum chamar seu nome de muito longe. Esforou-se para acordar e empurrou o brao pesado que estava sobre seu corpo. Sem 
acordar, o normando virou para o outro lado. Adormecido, Ragnor parecia inocente, com a violncia e o dio escondidos sob a mscara do sono. Mas Aislinn olhou para 
ele com desprezo, odiando-o pelo que fizera, lembrando claramente as mos em seu corpo, a presso do corpo dele sobre o seu. Balanou a cabea, impaciente. Agora 
sua preocupao seria a possibilidade de ter um filho dele. Oh, que Deus no permita!
    -  Aislinn - a voz outra vez, e, voltando-se, Aislinn viu a me de p ao lado da cama, contorcendo as mos com medo e desespero. - Precisamos nos apressar. No 
temos muito tempo - Maida estendeu uma tnica de l para a filha. - Devemos sair agora, enquanto a sentinela est dormindo. Apresse-se, minha filha, por favor.
    O terror que Aislinn percebeu na voz da me no encontrou resposta em seu ntimo. Ela estava incapaz de qualquer sentimento.
    -  Se quisermos fugir, precisamos nos apressar - suplicou Maida. - Venha, antes que eles acordem. Pelo menos uma vez pense na nossa segurana.
    Aislinn levantou da cama, cansada e dolorida, vestiu a tnica simples, no se importando com a aspereza do tecido cru de l, sem a
    proteo da combinao de linho por baixo. Temendo despertar o normando, olhou apreensiva para a cama. Mas ele dormia tranqilamente. Oh, pensou ela, como devem 
ser agradveis seus sonhos para que descanse assim serenamente. Sem dvida a vitria sobre ela os adoava consideravelmente.
    Aislinn foi at a janela e abriu as venezianas de madeira com um gesto impaciente. A luz fraca do nascer do dia acentuava sua palidez e sua fragilidade. Comeou 
a se pentear com os dedos. Mas a lembrana dos dedos de Ragnor, longos e morenos, puxando seus cabelos, obrigando-a a ceder aos seus caprichos, a fez parar e, levando 
para a frente dos ombros a cabeleira farta e brilhante, deixou que casse solta at abaixo da cintura.
    -  No, minha me - disse ela, com voz firme. - No fugiremos hoje. No enquanto nosso morto querido jaz  merc dos lobos e das aves de rapina.
    Com passos decididos, ela saiu do quarto, e a me, frustrada e indefesa, a seguiu Desceram a escadaria e passaram cautelosamente por entre os normandos adormecidos,
espalhados pelo cho.
    Como uma sombra silenciosa, Aislinn caminhava na frente da me. Abriu a pesada porta de Darkenwald e parou de repente, quase sufocada pelo fedor intenso da morte.
Controlando a nusea, caminhou entre aquelas formas grotescas, at chegar ao corpo do pai. O velho lorde jazia de costas sobre a terra fiel, com o brao direito 
estendido, a espada presa aos dedos rgidos e um esgar de desafio nos lbios sem vida.
    Aislinn parou por um momento, e uma nica lgrima desceu por seu rosto. Ele morreu como vivera, com honra e regando o solo sedento, que tanto amava, com o prprio 
sangue. Ela sentiria falta at dos seus acessos de fria. Quanto sofrimento, quanto desespero: Quanta solido, quanta morte!
    Maida aproximou-se e apoiou-se na filha, cansada e ofegante. Olhou para o corpo do marido com um suspiro longo e spero. Num lamento, que comeou como um gemido 
surdo e terminou num brado de dor, ela disse:
    -  Ah, Erland, no  justo voc nos deixar com esses ladres saqueando o castelo e nossa filha como brinquedo de uma noite para esses malditos!
    Maida ajoelhou-se e puxou o peitoral do marido, como se quisesse obrig-lo a se levantar. Mas suas foras falharam e ela exclamou, cheia de desespero.
    -  O que vou fazer? O que vou fazer?
    Aislinn passou para o outro lado e tirou a espada da mo do pai. Segurando ento o brao inerte, tentou arrastar o corpo para um lugar mais abrigado. Maida segurou 
a outra mo do marido, mas s para tirar o anel de sinete do dedo nodoso e frio. Vendo que Aislinn a observava, disse com voz chorosa:
    -   meu! Parte do meu dote! Veja, o timbre de meu pai. - Sacudiu o anel na frente do rosto da filha.-Vai ficar comigo-disse, em tom de splica.
    Sobressaltaram-se ao som de uma voz forte. Maida levantou de um salto, o rosto contrado de medo. Largou a mo do marido morto e fugiu, atravessando o campo 
de batalha coberto de mortos, desaparecendo no meio das moitas, na margem do pntano. aislinn deixou cair o brao do pai e voltou-se com uma calma deliberao, que 
a surpreendeu, para enfrentar a nova ameaa. Seus olhos se arregalaram de espanto ao ver o garanho negro, enorme, como nunca vira antes, que parecia nem sentir 
o peso do cavaleiro e caminhava cuidadosamente, escolhendo o caminho entre os corpos no cho. Aislinn ficou imvel, procurando dominar o terror inspirado por aquela 
gigantesca apario, que a fazia mais do que nunca consciente de sua vulnerabilidade e de sua condio de mulher. A testa do homem estava encoberta pelo elmo, mas 
dos dois lados do protetor do nariz os olhos cinzentos pareciam penetrar seu corpo. A coragem de Aislinn se desfez ante aquele olhar, e a garra fria do medo apertou-lhe 
o corao.
    O escudo, dependurado ao lado da sela, mostrava um lobo negro rompante, em vermelho e dourado, com banda sinistra, indicando que o cavaleiro era bastardo. Se
no fosse pelo temor quase reverente inspirado por aquela figura alta e forte e pelo tamanho inslito de sua montaria, Aislinn teria lanado o insulto no rosto dele.
Contudo, apenas ergueu o queixo, num gesto de desafio indefeso, e seus olhos cor de violeta, cheios de dio, encontraram os dele. Os lbios do cavaleiro crisparam-se 
e ele disse em francs, sem disfarar o desprezo.
    - Porcos saxes? Nada escapa  sua ganncia?
    Com o mesmo tom de profundo desprezo, Aislinn disse, com voz clara e firme:
    -  O que est dizendo, senhor cavaleiro? Os bravos normandos
    no podem nos deixar sepultar nossos mortos em paz? Estendeu o brao para o campo de batalha. Ele disse, desdenhoso:
    -  Pelo fedor, acho que demoraram demais para fazer isso.
    -  No o quanto devamos esperar,  o que vai dizer um de seus companheiros quando acordar e no me encontrar ao seu lado. - A despeito de seus esforos, as 
lgrimas lhe assomaram aos olhos.
    Sem se mover, parecendo perfeitamente  vontade na sela, o homem a examinou com ateno. Aislinn sentiu os olhos dele, observadores. A brisa leve moldava a tnica 
de l ao seu corpo, revelando os mnimos detalhes das curvas perfeitas. O olhar ousado parou por um momento no busto dela, que arfava de revolta. Aislinn sentiu 
o sangue subir ao rosto. Enfurecia-a o fato de ele fazer com que se sentisse uma camponesa examinada pelo senhor.
    -  Deve ser grata por ter mais alguma coisa a oferecer a Sir Ragnor do que isso - com um gesto, indicou os corpos espalhados.
    Aislinn tremeu de raiva, e ele desmontou e aproximou-se dela. Em silncio, ela sentiu o olhar que parecia penetrar at as profundezas de seu ser. O cavaleiro 
tirou o elmo e segurou-o na curva do brao, enquanto retirava o capuz justo de malha. Com um sorriso, mediu-a outra vez de alto a baixo e estendeu a mo para segurar 
uma mecha dos cabelos brilhantes.
    -  Sim, agradea por ter mais para oferecer, damoiselle.
    -  Eles deram o melhor que tinham. Eu gostaria de ter uma espada para dar tanto quanto eles.
    Com uma exclamao de desdm e expresso de nojo, ele olhou outra vez para a carnificina. A despeito de sua revolta, Aislinn o observou com ateno. Era alto, 
devia ter pelo menos mais dois palmos do que ela, e Aislinn tinha boa estatura. O cabelo escuro despenteado era manchado de sol e, embora a longa cota de malha fosse 
pesada, seus movimentos eram naturais e confiantes. Aislinn imaginou que, com trajes da corte, devia provocar muitos suspiros das mulheres. Os olhos eram bem separados, 
e as sobrancelhas formavam arcos perfeitos, embora naquele momento estivessem franzidas, juntando-se no alto do nariz longo e fino, fazendo-o parecer um animal predador. 
A boca era larga, os lbios finos e bem-feitos. A cicatriz que ia do meio da face at o queixo estava plida, e os msculos do rosto moviam-se, tensos e raivosos. 
Com um movimento brusco, ele voltou-se para ela outra vez, e um rosnado surdo subiu-lhe aos lbios. Aislinn assustou-se com a expresso selvagem dos seus olhos. 
Parecia um animal que acabava de farejar a presa. No, mais do que isso. Um lobo, pronto para se vingar de um inimigo de muitos anos. De repente, ele deu meia-volta 
e, com passos largos e decididos, caminhou para o castelo. Quando ele entrou, foi como se um trovo tivesse entrado junto. Aislinn ouviu a voz alta e indignada, 
e a debandada dos invasores apavorados ecoou nas paredes espessas. Esquecendo sua raiva, Aislinn escutou e esperou. Maida apareceu num dos lados do castelo e chamou-a 
com gestos nervosos. Com relutncia, Aislinn voltou  tarefa que se impusera e outra vez segurou o brao do pai. Mas parou de repente, ouvindo um grito selvagem, 
e viu Ragnor ser atirado para fora do castelo. Sua roupa e sua espada seguiram o mesmo trajeto e caram no cho, ao lado dele.
    -  Imbecil! - gritou o cavaleiro, saindo do castelo e parando ao lado dele. - Homens mortos no tm nenhuma utilidade para mim!
    Com os olhos brilhando de satisfao, Aislinn deliciou-se com o espetculo de Ragnor levantando-se rapidamente, indignado e humilhado. Com um esgar de raiva, 
ele estendeu a mo para a espada, mas deteve-se vendo a advertncia nos olhos cinzentos.
    -  Escute bem, Ragnor. O cheiro do seu corpo pode se misturar ao de suas vtimas.
    -  Wulfgar, filho de Sat! - disse ele, com voz spera e furiosa. - Chegue mais perto para que eu possa faz-lo em pedaos.
    -  Neste momento no estou disposto a lutar com um chacal nu e uivante.-Notando o interesse de Aislinn, ergueu o brao na direo dela. - Embora a dama deseje 
a sua morte, infelizmente voc ainda  til para mim.
    Ragnor voltou-se bruscamente, surpreso, e viu o olhar de zombaria de Aislinn. Seu rosto se crispou de raiva, e ele mordeu o lbio furioso. Com uma exclamao 
abafada, ele vestiu suas chausses e caminhou para ela.
    -  O que a trouxe aqui?-perguntou.-Por que saiu do castelo? Com um riso abafado e os olhos cheios de dio, ela respondeu.
    -  Porque eu quis.
    Ragnor olhou para ela, imaginando como poderia domar aquela rebeldia sem destruir a beleza do rosto e a perfeio do corpo, de cujo calor ele lembrava ainda 
junto ao seu. Era difcil libertar-se daquela lembrana deliciosa. Era a primeira vez que via uma mulher com a coragem de um homem.
    Estendeu o brao e segurou o pulso delicado da jovem.
    -  Entre agora e espere por mim. Logo vai aprender que  minha e que deve me obedecer.
    Aislinn puxou o brao.
    -  Pensa que porque dormiu comigo uma vez  meu dono? -
    sibilou ela. - Oh, senhor cavaleiro, tem muito que aprender, pois jamais serei sua. Meu dio estar entre ns dois pelo resto da minha vida. O sangue do meu 
pai clama por vingana, lembrando-me da sua crueldade. Agora, seu corpo deve ser enterrado e, queira o senhor ou no,  o que vou fazer. S poder me impedir derramando 
meu sangue tambm.
    Ragnor segurou-a brutalmente, magoando os braos delicados. Sabendo que Wulfgar os observava atentamente, crescia sua frustrao por no poder obrigar aquela 
mulher a obedec-lo.
    -  Existem outras pessoas mais capazes para fazer isso-rosnou ele, entre os dentes cerrados. - Faa o que estou mandando.
    Com as linhas do rosto acentuadas pela determinao, ela olhou nos olhos negros do cavaleiro.
    -  No - disse ela, em voz baixa. - Prefiro que seja feito por mos amorosas.
    Uma batalha silenciosa travava-se entre eles. Ragnor fechou a mo, como se fosse espanc-la. Depois, bruscamente a empurrou. Aislinn cambaleou e caiu. Ragnor, 
de p ao seu lado, olhou para ela com olhos vidos. Aislinn puxou para baixo a tnica de l, cobrindo rapidamente as pernas, e olhou para ele com frieza.
    -  Desta vez vou ceder, damoiselle, mas no teste minha pacincia outra vez.
    -  Um cavaleiro realmente generoso - zombou ela, levantando-se e passando a mo no pulso dolorido. Olhou para ele com desprezo, por um momento, depois para o 
guerreiro parado nos degraus que levavam  porta do castelo. Wulfgar fitou-a nos olhos com um sorriso zombeteiro.
    Aislinn deu as costas a ele rapidamente e no viu a expresso apreciativa de seus olhos. Inclinou-se e mais uma vez comeou a puxar o corpo do pai pelo brao. 
Os dois homens a observavam, e finalmente Ragnor fez meno de ajud-la, mas Aislinn o repeliu com um gesto. -  Saia daqui! - exclamou.-No pode nos deixar em paz 
nem por um momento? Ele era meu pai! Deixe-me enterr-lo!
    Ragnor deixou cair os braos ao longo do corpo e depois comeou a se vestir, sentindo o vento frio da manh.
    Com esforo e determinao, Aislinn conseguiu arrastar o corpo do pai para a sombra de uma rvore, no muito longe do castelo. Um passarinho voou clere por 
entre os galhos sobre sua cabea e ela o observou, invejosa de sua liberdade. Assim distrada, no notou a aproximao de Wulfgar. Mas, de repente, um objeto pesado 
caiu aos seus ps, e, sobressaltada, ela virou rapidamente e o viu. Ele indicou a p.
    -  Mesmo mos amorosas precisam de alguma ajuda, damoiselle.
    -   to generoso quanto seu irmo normando, senhor cavaleiro - zombou ela, altiva. - Ou ser que agora devo dizer meu senhor?
    Com uma mesura formal, ele disse:
    -  Como quiser, damoiselle. Aislinn ergueu o queixo.
    -  Meu pai era o senhor destas terras. No ficaria bem para mim cham-lo de Senhor de Darkenwald - respondeu, ousadamente.
    O cavaleiro normando deu de ombros, imperturbvel.
    -  Todos me chamam de Wulfgar.
    Frustrada na sua inteno de embara-lo, Aislinn ficou calada. Entretanto, o nome no era desconhecido, pois lembrava-se de ter ouvido Ragnor e o primo, na 
noite anterior, falando sobre ele, cheios de dio. Talvez lhe custasse a vida provocar assim aquele homem.
    -  Pode ser que o seu duque d estas terras para outra pessoa, depois de o senhor as ter tomado para ele - disse Aislinn. - Ainda no  dono delas, e talvez 
jamais venha a ser.
    Wulfgar sorriu.
    -  Vai descobrir que Guilherme  um homem de palavra. Estas terras so praticamente minhas agora, pois muito em breve toda a Inglaterra pertencer a ele. No 
baseie suas esperanas em falsos desejos, damoiselle, pois eles no levam a parte alguma.
    -  O que vocs me deixaram para depositar esperanas? - perguntou Aislinn, com amargura. - Que esperana sobrou para a Inglaterra?
    Ele ergueu as sobrancelhas com ar zombeteiro.
    -  Desiste to facilmente, chrie? Pensei ter percebido em voc uma vontade forte e determinada. Eu me enganei?
    A ironia a irritou mais ainda.
    -  Zomba de mim gratuitamente, normando. Ele riu da fria nos olhos dela.
    -  Vejo que nenhum pretendente jamais eriou suas belas penas antes. Sem dvida seu gnio os impedia de fazer com que reconhecessem o seu lugar.
    -  Pensa que  mais capaz do que eles? - zombou ela. Com um movimento da cabea, indicou Ragnor, que os observava de longe. - Como pretende fazer isso? Ele se 
valeu da dor fsica e me violentou. Vai fazer o mesmo?
    Olhou para ele com os olhos cheios de lgrimas, mas Wulfgar balanou a cabea e levantou delicadamente o queixo dela.
    -  No, tenho mtodos muito melhores para domar uma mulher como voc. Onde a dor nada obtm, o prazer pode ser a melhor arma.
    Aislinn empurrou a mo dele.
    -  Est muito confiante nas suas possibilidades, Sir Wulfgar, se pensa que vai me dominar com bondade.
    -  Jamais fui bom para mulher alguma - disse ele calmamente, e um calafrio percorreu o corpo de Aislinn.
    Por um momento ela procurou nos olhos dele o sentido daquela frase, mas no o encontrou. Sem dizer mais nada, ela apanhou a p e comeou a cavar. Wulfgar notou-lhe 
a inexperincia e sorriu.
    -  Devia ter obedecido Ragnor. Duvido que a preocupe tanto o fato de ter dormido com ele.
    Com um olhar gelado e cheio de dio, Aislinn respondeu: -- Pensa que somos todas prostitutas, procurando sempre o caminho mais fcil? - perguntou. - Ficaria 
surpreso se soubesse que acho isto muito mais agradvel do que ter de me submeter quele verme. - Fixou os olhos cinzentos. - Normandos... vermes. Acho que no h 
diferena.
    Wulfgar falou lentamente, como para enfatizar as palavras.
    -  Reserve seu julgamento a respeito dos normandos depois que eu a levar para a cama, damoiselle. Talvez prefira ser possuda por um homem, e no por um idiota 
relinchante.
    Aislinn olhou para ele revoltada, incapaz de dizer uma palavra. Ele parecia estar confirmando um fato, no fazendo uma ameaa, e ela teve certeza de que, mais 
cedo ou mais tarde, partilharia a cama com esse normando. Olhou para os ombros largos e fortes e imaginou Se no seria esmagada por aquele corpo grande e musculoso. 
Apesar do que dissera, provavelmente ele a magoaria como Ragnor, sentindo prazer em v-la sofrer.
    Aislinn pensou nos vrios pretendentes que recusara at que seu pai, perdendo a pacincia, resolveu escolher Kerwick. para ela. Mas agora no seria mais uma 
dama da nobreza, apenas uma serva para ser usada e passada adiante. Aislinn estremeceu, pensando nisso.
    -  Voc pode ter conquistado a Inglaterra, normando, mas pode estar certo de que no me dominar com tanta facilidade.
    -  Estou certo de que terei grande prazer nessa competio, e maior prazer nos frutos da minha vitria.
    Aislinn respondeu, com desdm:
    -  Idiota presunoso! Pensa que sou uma de suas prostitutas normandas para ficar  disposio do seu capricho. Logo vai aprender que no  nada disso.
    Ele riu.
    -  Tenho certeza de que alguma coisa vai ser ensinada, mas a qual dos dois, veremos. Entretanto, estou inclinado a acreditar que serei o vencedor.
    Com essas palavras, ele se afastou, e pela primeira vez Aislinn notou que ele mancava de uma perna. Seria lembrana de um ferimento ou defeito de nascena? Aislinn 
desejou que, em qualquer dos dois casos, fosse bastante doloroso e inconveniente.
    Percebendo que Ragnor a observava, ela recomeou a cavar, amaldioando mentalmente aqueles dois homens. A p castigava furiosamente a terra, como se Aislinn 
estivesse castigando um deles. Notou ento que eles pareciam estar discutindo acaloradamente. Wulfgar falava baixo, mas a ira trovejava em suas palavras. Tentando 
conservar um pouco de orgulho, Ragnor continha-se.
    -  Recebi ordens de assegurar estas terras para voc. Os conselheiros ingleses do duque garantiram que iramos encontrar somente criados velhos e inexperientes. 
Como podamos saber que o velho lorde e seus criados iam nos atacar com tanta fria? O que queria que fizssemos, Wulfgar? Deixar que nos matassem sem ao menos procurar 
nos defender?
    -  Vocs no mandou ler as ofertas de paz que eu mandei? - perguntou Wulfgar. - O velho lorde era orgulhoso e devia ser abordado com cuidado, para evitar derramamento 
de sangue. Por que no foram mais cautelosos, em vez de chegarem aqui como invasores,
    exigindo suas terras? Meu Deus, ser que voc  to incapaz que preciso estar sempre ao seu lado, mostrando como se lida com homens dessa envergadura? O que 
voc disse a ele? Ragnor respondeu com desprezo:
    -  Por que tem tanta certeza de que no foram suas palavras que acenderam sua ira? O velho lorde nos atacou, a despeito de sua sugesto de paz. Eu no fiz nada, 
apenas deixei que o arauto lesse o pergaminho que voc me deu.
    -  Est mentindo - rosnou Wulfgar. - Eu ofereci a ele e a todas as pessoas de sua casa um tratado que garantia-lhes a segurana se depusessem as armas. Ele no 
era tolo. Aceitaria de bom grado, para salvar a famlia.
    - Evidentemente, voc se enganou, Wulfgar - disse Ragnor com desdm. - Mas quem pode provar o contrrio? Meus homens no conhecem esta lngua pag, e o arauto 
falava fluentemente. S eu e o arauto vimos o documento. Como vai provar as acusaes contra mim?
    - No precisamos de provas - disse Wulfgar. - Eu sei que voc assassinou esses homens. Ragnor riu, com desprezo.
    -  Qual  a pena por livrar uns poucos saxes da misria de sua vida? Em Hastings, voc matou muito mais do que um punhado de camponeses.
    O rosto de Wulfgar estava inexpressivo.
    - Eu assumi o compromisso porque todos diziam que as foras de Cregan eram mais poderosas, e deixei a seu cargo estas terras, pensando que teria o bom senso 
de convencer o velho lorde a ceder sem luta. Nisso, confesso que errei e me arrependo de lhe ter confiado esta misso. A morte do velho lorde no significa coisa 
alguma. Mas vai ser difcil substituir os camponeses.
    Ouvindo essas palavras, Aislinn se descuidou e caiu sobre a p, batendo com fora no cho. Mal conseguindo respirar, ficou imvel com seu sofrimento, querendo 
gritar e chorar de desespero. Para aqueles homens, uma nica vida no tinha importncia, mas para ela, que amava e respeitava seu pai, era uma vida preciosa e querida.
    A discusso terminou, e mais uma vez a ateno dos homens se voltou para ela. Wulfgar gritou, chamando um dos servos do castelo. Quem apareceu foi Ham, um jovem 
forte de treze anos, que saiu pela porta ajudado pela ponta da bota de um normando. -  Enterre o seu senhor - ordenou Wulfgar, mas o menino no compreendeu. O normando 
mandou que Aislinn explicasse o que queriam dele e, resignada, ela lhe entregou a p. Ficou ali parada, com expresso solene, enquanto ele cavava, e ouviu o normando 
bastardo chamar os homens para recolherem os mortos.
    Aislinn e Ham envolveram o corpo numa pele de lobo e o puseram na cova, com a espada sobre o peito. Quando a ltima p de terra caiu sobre ele, Maida se aproximou 
timidamente e deitou sobre o monte de terra, chorando e se lamuriando.
    -  Um padre - soluou ela. - O tmulo precisa ser abenoado por um padre.
    -  Sim, minha me - murmurou Aislinn. - Vamos mandar chamar um padre.
    aislinn estava apenas tentando confortar a me, pois no tinha idia de como poderia mandar chamar um padre. A capela de Darkenwald, deserta depois da morte 
do padre, alguns meses atrs, fora devorada pelo fogo. O monge de Cregan atendia o povo de Darkenwald h algum tempo. Mas sair  procura dele seria arriscar sua 
vida, mesmo que conseguisse sair sem ser vista, o que era pouco provvel. Seu cavalo estava preso no estbulo onde dormiam alguns normandos. Consciente da prpria 
impotncia, Aislinn pouco podia fazer para reconfortar Maida. Sua me, porm, estava muito perto da loucura, e Aislinn temia que mais esse desapontamento lhe roubasse 
a razo.
    Aislinn ergueu os olhos e viu Wulfgar retirando a armadura do seu cavalo, o que indicava que ele pretendia ficar em Darkenwald, e no em Cregan. Era a escolha 
mais lgica porque, embora a cidade tivesse um menor nmero de habitantes, o castelo era mais espaoso e mais apropriado para alojar um exrcito. Erland o planejara 
pensando no futuro. Era uma construo quase toda de pedra, portanto mais protegida contra fogo e ataques dos inimigos do que o de Cregan, feito de madeira. Sim, 
Wulfgar ia ficar e, a julgar pelo que tinha dito, pretendia servir os prprios prazeres. Sobrecarregada por mais um temor, o de ser requisitada por aquele cavaleiro 
temvel, pouco consolo podia oferecer a qualquer outra pessoa. - Senhora? - disse Ham.
    Aislinn notou que o jovem, preocupado com o estado de Maida, voltava-se para ela  procura de autoridade e orientao. No sabia como agir com aqueles homens 
que falavam uma lngua estranha. Incapaz de dar uma resposta, Aislinn deu de ombros e se dirigiu para onde estava Wulfgar. Quando viu que ela se aproximava, o normando 
interrompeu seu trabalho. Hesitante, Aislinn olhou para o homem e o enorme animal, sentindo um pouco mais do que apreenso.
    Wulfgar alisou a crina sedosa do cavalo, segurando o brido, e olhou para ela. Aislinn respirou fundo.
    -  Meu lorde-disse ela, com esforo. Era difcil cham-lo assim, mas pela sanidade de sua me e para que os mortos de Darkenwald tivessem um enterro cristo, 
ela podia dobrar seu orgulho por algum tempo. Continuou com voz mais forte e decidida. - Gostaria de fazer um pequeno pedido...
    Ele fez um gesto afirmativo sem dizer nada, mas seu olhar era avaliador e impassvel. Percebendo a desconfiana dele, ela teve vontade de amaldio-lo por ser 
um estrangeiro e um invasor de sua privacidade. Aislinn nunca achou fcil parecer dcil. Mesmo quando o pai se enraivecia com ela, como, por exemplo, quando recusava 
os pretendentes  sua mo, ela no se curvava, nem se acovardava, sem medo daquela fria que fazia tremer muitos homens. Contudo, quando queria, era capaz de comover 
o corao do velho pai para fazer suas vontades. Agora, usaria o mesmo recurso para conseguir do normando o que queria.
    -  Milorde, peo a presena de um padre.  um pedido insignificante... mas para esses homens que morreram...
    Wulfgar assentiu com um gesto e disse:
    -  Ser providenciado.
    Aislinn se ajoelhou na frente dele, humilhando-se por um breve momento. Era o mnimo que podia fazer para conseguir um enterro cristo para os mortos de Darkenwald.
    Com um resmungo, Wulfgar estendeu o brao e a fez levantar. Aislinn olhou para ele surpresa.
    -  Fique de p, mulher. Eu respeito mais o seu dio - disse ele, e, voltando-se, entrou no castelo.
    Os servos de Cregan, bem guardados por alguns homens de Wulfgar, foram incumbidos de enterrar os mortos de Darkenwald. Surpresa, Aislinn viu Kerwick entre eles, 
marchando atrs de um enorme viking a cavalo. Aliviada por ver que ele estava vivo, Aislinn ia correr para ele, mas Maida a segurou pela tnica.
    -  Eles o mataro. Os dois homens que lutam por voc. Aislinn reconheceu que a me tinha razo e ficou grata pelo conselho. Acalmando-se, ficou observando Kerwick 
de longe. Os servos tinham dificuldade para entender o que os guardas diziam. Aislinn estranhou, pois ensinara a lngua dos franceses a Kerwick e ele era um bom 
aluno. Finalmente, eles se entenderam e comearam a separar e preparar os corpos para o funeral, todos, exceto Kerwick, que ficou parado, olhando com horror aquela 
carnificina. De repente ele virou para o lado e vomitou. Os homens de Wulfgar riram, e Aislinn I os amaldioou em silncio. Seu corao foi todo para Kerwick, Ultimamente 
ele vira muita guerra. Mas Aislinn queria que ele sei controlasse enfrentando com dignidade e fora os invasores, Em vez disso, estava sendo objeto de ridculo. 
Furiosa com a zombaria dos normandos, ela correu para o castelo. Sentia vergonha por ele e por todos que se humilhavam na frente do inimigo. De cabea baixa, ignorando 
os olhares lascivos dos homens, Aislinn foi parar nos braos! de Wulfgar. Ele estava sem o peitoral de malha e conversava com Ragnor, Vachel e o viking que havia 
chegado com Kerwick. Wulfgar| a afastou, mantendo a mo nas costas dela.
    - Bela damaiselle, ser que posso ter a pretenso de acreditar que est impaciente para dormir na minha cama?-zombou ele, erguendo uma sobrancelha.
    S o viking deu uma gargalhada, pois Ragnor franziu a testa e olhou para Wulfgar com cime e dio. Mas foi o bastante para acender o gnio de Aislinn, fazendo-a 
esquecer toda a cautela. Aquela humilhao era insuportvel. Seu orgulho ardeu como uma chama, incitando-a a uma atitude impensada. Num assomo de raiva, ergueu o 
brao e esbofeteou o rosto de Wulfgar marcado pela cicatriz.
    Um silncio de espanto pairou na sala. Todos esperavam que Wulfgar abatesse com um s golpe aquela mulher atrevida. Todos! sabiam como ele tratava as mulheres. 
Geralmente no dava grande importncia a elas e muitas vezes demonstrava seu desprezo, afastando-se sem uma palavra quando uma delas tentava conversar. Nunca mulher 
alguma o tinha esbofeteado. As jovens o temiam e fugiam do seu olhar. Porm, aquela jovem, que tinha tanto a perder, acabava de demonstrar uma louca coragem.
    No breve momento em que Wulfgar olhou para ela, Aislinn caiu em si e sentiu medo. Estava to horrorizada pelo que fizera quanto ele estava surpreso. Ragnor parecia 
satisfeito, provando que no conhecia aquele homem. Num gesto brusco e inesperado, Wulfgar segurou os braos de Aislinn e puxou-a para ele, num apertado abrao. 
Ragnor era magro e musculoso, mas Wulfgar era uma esttua de ferro. Recobrando o flego, Aislinn entreabriu a boca, que foi fechada imediatamente pelos lbios ardentes 
de Wulfgar. Os homens gritaram palavras de encorajamento, exceto Ragnor, que, com o rosto contrado de raiva, fechou as mos dos lados do corpo furiosamente. O viking 
exclamou.
    -  Ho, a mulher encontrou um homem  sua altura!
    Wulfgar ps a mo na nuca de Aislinn, forando os lbios dela contra os seus, machucando, procurando, exigindo. Aislinn sentia o corao dele batendo forte contra 
seu peito e o corpo firme e ameaador. Wulfgar a abraava pela cintura, e a mo na nuca parecia capaz de esmagar sua cabea. Mas nas profundezas desconhecidas de 
seu ser, uma fagulha se acendeu e subiu, despertando sua mente e seu corpo da fria reserva, escaldando, fundindo os dois num torvelinho dos sentidos. Todo seu ser 
sentia-se agradavelmente estimulado pela proximidade, pelo gosto, pelo cheiro dele. Uma excitao morna inundou seu corpo e ela parou de lutar. Como se tivessem 
vontade prpria, seus braos se ergueram e o enlaaram, e o gelo derreteu num calor intenso que se igualava ao dele. Pouco importava que ele fosse inimigo, ou que 
os homens estivessem observando e gritando sua aprovao. Era como se s os dois existissem. Kerwick jamais conseguira quebrar a fria reserva de Aislinn. Seus beijos 
no despertavam nenhuma paixo, nenhum desejo, nenhuma impacincia para se entregar a ele. Agora, nos braos do normando, ela cedia a uma vontade mais forte, retribuindo 
o beijo com uma paixo de que jamais se imaginara capaz.
    Wulfgar a soltou bruscamente e, para espanto de Aislinn, no parecia nem um pouco perturbado por aquela experincia avassaladora. Nenhum recurso de fora poderia 
fazer com que ela descesse tanto. Envergonhada, Aislinn se deu conta de sua fraqueza contra o domnio daquele normando, baseada no no medo, mas no desejo. Perturbada
com sua reao ao beijo, ela o atacou com a nica arma que lhe restava, a palavra.
    -  Bastardo sem nome da Normandia! Em qual esgoto seu pai encontrou sua me?
    Ouviram-se exclamaes de espanto, mas a reao ao insulto limitou-se a uma breve centelha nos olhos de Wulfgar. Seria ira? Ou talvez dor? Era difcil dizer. 
Seria presuno querer que sua ofensa atingisse aquele guerreiro com corao de ferro. Wulfgar ergueu uma sobrancelha.
    -   estranho seu modo de demonstrar gratido, damoiselle -  disse ele. - Esqueceu que me pediu um padre?
    A violncia desapareceu, e Aislinn censurou a prpria tolice. Tinha jurado que os tmulos seriam abenoados, mas por causa desse ato idiota os mortos de Darkenwald 
seriam enterrados sem nenhuma! honra. Olhou para ele, incapaz de pedir ou de se desculpar.
    Com uma risada breve, Wulfgar disse:
    -  No tema, damoiselle. Minha palavra  um juramento. Ter  seu precioso padre com tanta certeza quanto a de que partilhar a| minha cama.
    Os homens riram, mas o corao de Aislinn se apertou.
    -  No, Wulfgar! - exclamou Ragnor, num assomo de raiva.-1 Por tudo que  sagrado, esse limite voc no vai ultrapassar. Esqueceu  sua promessa de que eu podia 
escolher qualquer coisa que me agradasse? Oua bem, eu escolhi essa mulher como recompensa por ter tomado estas terras.
    Wulfgar voltou-se lenta e deliberadamente para o cavaleiro furioso. A ira trovejava surdamente em suas palavras.
    -  Procure sua recompensa nos campos, onde est sendo enterrada, pois esse  o seu pagamento. Se eu soubesse o preo que pagaria, i teria mandado um cavaleiro 
mais sensato.
    Ragnor investiu para a garganta de Wulfgar, mas Vachel o impe-  diu, segurando-o pelo brao. Ragnor procurou em vo se livrar das mos do primo.
    -  No,  loucura, meu primo-murmurou no ouvido de Ragnor.  - Desafiar o lobo dentro de sua caverna, quando seus homens esperam vidos para sentir o gosto do 
nosso sangue. Pense, homem.  Voc j no deixou sua marca na mulher? Agora o bastardo nunca saber de quem ser o bastardo que ela conceber.
    Ragnor acalmou-se. A expresso de Wulfgar no mudou, apenas a cicatriz no rosto ficou muito branca, sobressaindo na pele bronzeada de sol. Com um olhar de desprezo
para os primos nobres e bem-nascidos, disse:
    -  No vejo nenhuma competio. A semente do fraco no germina, mas a do forte sempre encontra solo frtil.
    Aislinn sorriu, satisfeita com a discusso. Eles lutavam entre si,  aqueles inimigos conquistadores. Seria fcil incentivar esse desacordo e esperar que se destrussem
mutuamente. Ergueu a cabea outra vez com orgulho, animada com aquela troca de palavras contundentes, e percebeu que Wulfgar a observava. Os olhos cinzentos pareciam
descobrir os mais profundos segredos de sua alma. O normando sorriu, como se achasse divertido o que via na expresso dela.
    -  A jovem no deu sua opinio - observou ele, voltando-se para Ragnor. - Deixemos que ela escolha entre ns dois. Se o escolhido for voc, De Marte, est encerrada 
a discusso. Permito que fique com ela.
    Vendo cair por terra suas esperanas, Aislinn ficou confusa. No ia haver luta, pois Wulfgar estava disposto a ceder, sem mais discusso. Seu plano falhara.
    Viu o desejo intenso nos olhos de Ragnor e a promessa de uma terna recompensa. Wulfgar, porm, parecia zombar dela. No lutaria por sua posse. Seu orgulho ferido 
dizia que devia escolher Ragnor, desprezando o bastardo. Seria um prazer ferir aquele ego. Mas no podia ceder de modo algum a Ragnor. Ela o odiava e o desprezava 
como a qualquer verme rastejante do pntano. E no perderia a oportunidade dessa vingana, por menor que fosse.
    A escolha ficou mais difcil quando os guardas normandos entraram, conduzindo Kerwick. De p, no meio daqueles homens enormes que se destacavam pela simples 
presena, era impossvel evitar ser vista por Kerwick. Ergueu os olhos para os dele e viu apenas sofrimento e desespero. Aislinn no conseguiu compreender a splica 
silenciosa daqueles olhos. Kerwick no tinha nenhum ferimento aparente, mas sua tnica e seus cales estavam sujos de terra, e o cabelo louro, desgrenhado. Ele 
sempre fora um estudioso, amante dos livros e das artes da guerra. Parecia deslocado, um homem gentil entre invasores selvagens. Aislinn teve pena dele, mas no 
podia fazer nada, no quando o inimigo esperava sua resposta.
    -  Damoiselle - insistiu Wulfgar. - Esperamos que nos diga qual  o seu desejo. - A ltima palavra foi acentuada e dita com um sorriso desdenhoso. - Qual de 
ns dois vai escolher para ser seu amante?
    Aislinn viu Kerwick arregalar os olhos e sentiu um frio no estmago. Sentia-se sufocada e nauseada com os olhares lascivos dos homens  sua volta, mas procurou 
ignor-los, deixar que os idiotas resfolegassem como animais. E Kerwick teria de suportar sozinho a dor imensa que aparecia em seus olhos. Dizer que ele era seu 
prometido seria exp-lo ao desprezo e  zombaria daqueles homens rudes.
    Com um suspiro resignado, Aislinn resolveu transpor mais esse obstculo.
    -  Ento devo escolher entre o lobo e o falco, e sei que os gritos do falco se parecem com os de um corvo preso numa armadilha. - Ps a mo no peito de Wulfgar. 
- Assim sendo, escolho voc. Desse modo,  sua tarefa domar a megera. - Riu com amargura. - Agora, o que foi que ganhou com esse jogo de sorte?
    -  Uma bela dama para aquecer meu leito - respondeu Wulfgar, acrescentando com ironia: - Ou ganhei mais do que isso?
    -  Nunca - sibilou Aislinn. Olhando furiosa para ele. Ragnor aceitou a derrota em silncio, os punhos cerrados a nica evidncia de sua ira. Wulfgar olhou para 
ele por sobre a cabea de Aislinn e disse.
    - Minhas ordens foram bem claras. Cada homem teria direito  sua parte dos despojos. Antes de voltar aos seus afazeres, Ragnor, voc e seus homens devem deixar 
tudo que apanharam aqui. - Apontou para a pilha de despojos da noite anterior. - O Duque Guilherme vai escolher sua parte primeiro, s depois disso recebero o pagamento 
por seu trabalho.
    Ragnor parecia prestes a explodir. Com os msculos do rosto muito tensos, abria e fechava a mo nos copos da espada. Finalmente tirou uma pequena bolsa do colete 
e atirou-a sobre a pilha. Aislinn reconheceu o anel da me e vrias peas de ouro que pertenciam ao seu pai. Um a um, os homens devolveram o que tinham guardado, 
e no fim a pilha de despojos estava duas vezes maior. Ento, Ragnor deu meia-volta e saiu furioso, empurrando Kerwick da sua frente e seguido por Vachel. Quando 
a pesada porta se fechou, Ragnor bateu com a mo fechada na outra.
    -  Eu vou mat-lo-jurou.-Com minhas prprias mos vou arrancar seus braos e suas pernas. O que aquela jovem v nele? Eu no sou um homem bonito?
    -  Acalme sua ira - disse Vachel. - O tempo ver seu fim. A mulher s deseja criar desavenas entre ns. Vi isso nos olhos dela, quando discutamos. Ela odeia 
toda a Normandia. Tenham cuidado com ela, como teriam com uma vbora, mas saibam que ela pode ser um trunfo em nossas mos, pois ela detesta Wulfgar tanto quanto 
ns detestamos.
    Ragnor disse, com um esgar de desprezo:
    - Sim, e como no ia detestar? Um bastardo com aquela cicatriz, nenhuma mulher poderia am-lo.
    Com um brilho intenso nos olhos, Vachel disse:
    -  Daremos tempo para que ela conquiste o lobo com sua beleza e, quando ele estiver enfraquecido, atacaremos.
    -  Sim - Ragnor balanou lentamente a cabea. - E a mulher ser nossa arma. Juro que ela me enfeitiou, Vachel. Ainda desejo aquela megera. Com cada fibra do 
meu corpo. Sinto o calor do seu corpo nu junto ao meu, e a possuirei na primeira oportunidade.
    -  Logo dormir outra vez com ela, primo, quando o lobo no mais existir.
    -  Vou cobrar essa promessa, Vachel - disse Ragnor. - Pois estou decidido a possuir aquela mulher, de um modo ou de outro.
    
   
   
   
   
   Captulo Trs


     POUCOS cativos de Darkenwald, libertados depois de passarem a noite acorrentados expostos ao ar frio de outubro, estavam atordoados e atnitos com a derrota 
do dia anterior. As mulheres foram at a praa com comida e agasalhos, e aquela que encontrava o companheiro o levava para casa. Outras assistiram, caladas e chocadas, 
ao enterro dos seus homens. Outras ainda, depois de procurar em vo entre os vivos e os mortos, voltavam para casa desanimadas, sem saber se veriam outra vez o marido, 
o filho ou o irmo.
    Aislinn observava tristemente a cena, da porta do castelo. Os mortos estavam sendo enterrados pelos servos de Cregan, sob a direo de dois cavaleiros de confiana 
de Wulfgar. Aislinn os ouviu falar de um terceiro, que ficara em Cregan para garantir a paz. Maida, com o rosto inchado de tanto chorar, foi at o grande carvalho 
e depositou um ramo de flores na sepultura do marido. Agachada, ela gesticulava, como se estivesse falando com Erland, e chorava, cobrindo o rosto com as mos.
    O pai de Aislinn tinha sessenta e cinco anos quando foi morto, e Maida, apenas cinqenta. Embora j grisalho, enquanto a mulher estava ainda em pleno vio da 
maturidade, o amor que existia entre eles iluminava cada hora do dia. Uma vez que o irmo mais velho morrera, vtima da peste, Aislinn era o centro da ateno e 
do carinho dos pais, e o castelo, um lugar de paz e de amor, isolado dos grupos de conquistadores que inundavam a Inglaterra como as mars. Erland era sensato, e 
conduziu seu povo e sua famlia durante os reinados dos vrios reis. Agora, porm, parecia que a destruio da guerra atingira suas cidades, como para compensar 
tantos anos de paz.
    Maida levantou-se lentamente e, parecendo perdida e desamparada, olhou em volta com expresso vaga e tristonha. Comeou a voltar para o castelo, arrastando os 
ps, relutando em encontrar aqueles rostos estranhos que agora pareciam encher todos os corredores e todas as salas. Algumas mulheres aproximaram-se, com suas queixas 
e lamentaes, como sempre haviam feito, esperando consolo e ajuda, indiferentes ao sofrimento que a sufocava. Maida escutou durante algum tempo, com o rosto inexpressivo, 
os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Um soluo subiu do peito de Aislinn, vendo a me naquele estado. Maida mais parecia uma pobre insana do que a dama 
do solar.
    De repente, Maida ergueu as duas mos, como se no pudesse mais suportar as lamentaes das mulheres, e gritou:
    -  Afastem-se de mim! Tenho meus prprios problemas. Meu Erland morreu por vocs, e agora vocs recebem seus assassinos sem reclamar. Sim! Vocs os deixaram 
entrar em minha casa, violentar minha filha e roubar tudo que tnhamos!
    Maida comeou a puxar os cabelos, e as mulheres recuaram assustadas. Com passo incerto e lento, ela caminhou para a porta e entrou, sem ver Aislinn.
    -  Que elas procurem suas ervas e tratem dos seus ferimentos - murmurou Maida, com os lbios inchados. - Estou farta de suas doenas, de suas feridas, de seus 
tumores.
    Angustiada, Aislinn viu-a desaparecer no interior do castelo. Aquela no era a me que ela conhecia, to cheia de amor e compaixo pelo povo da cidade. Maida 
passara a vida procurando razes e ervas nos pntanos e nas florestas, preparando poes, chs e pomadas para curar as dores e as doenas dos que chegavam  sua 
porta. Ensinara a Aislinn a arte de curar e as virtudes das ervas e razes, bem como onde encontr-las. Agora, expulsava o povo de sua porta e no atendia mais suas 
splicas. Portanto, Aislinn devia assumir essa responsabilidade. Ela a aceitou como uma bno, como um blsamo para sua mente.
    Pensativa, Aislinn alisou com as duas mos a tnica de l que vestia. Primeiro precisava se vestir adequadamente, protegendo-se dos olhos vidos dos normandos, 
e depois, ao trabalho.
    Subiu a escadaria, e no seu quarto lavou-se e penteou o cabelo. Depois vestiu a camisa macia e sobre ela uma tnica limpa de l cor de malva. Alisou a tnica 
com um sorriso triste. Nada de espartilho, nenhum colar como enfeite. Os normandos no sabiam resistir  cobia.
    Resolvida a no pensar mais nisso, Aislinn foi ao quarto da me apanhar os remdios, o quarto que partilhara com Ragnor na vspera. Empurrou a porta pesada e 
parou, surpresa. Wulfgar estava sentado na cadeira de seu pai, na frente do fogo, aparentemente despido. O viking, ajoelhado aos seus ps, fazia alguma coisa na 
parte superior da perna do cavaleiro. Os dois sobressaltaram-se quando ela entrou. Wulfgar, erguendo-se a meio na cadeira, estendeu a mo para a espada, e Aislinn 
viu que ele no estava despido, mas com uma pequena tanga, usada pelos guerreiros sob a armadura. Notou tambm o pano sujo e escuro sobre sua coxa, seguro pelos 
dedos grossos e longos de Sweyn, o viking. Wulfgar sentou outra vez e largou a espada, certo de que aquela jovem esguia no era uma ameaa.
    -  Peo que me perdoe, senhor - disse Aislinn, com frieza. - Vim apanhar as ervas de minha me e no tinha idia de que estivesse aqui.
    -  Ento, apanhe o que veio buscar-disse Wulfgar, observando que ela havia trocado de roupa.
    Aislinn foi at a mesinha onde a me guardava as ervas e voltou-se, com a bandeja nas mos. Os dois homens estavam outra vez atentos ao curativo, e aproximando-se 
Aislinn viu o sangue seco no pano, e notou que a perna estava inchada e inflamada.
    -  Tire suas mos desajeitadas desse ferimento, viking - ordenou ela. - A no ser que queira tomar conta de um mendigo perneta. Afaste-se.
    O viking ergueu os olhos interrogativamente para ela, mas obedeceu. Pondo a bandeja de lado, Aislinn ajoelhou-se entre os joelhos de Wulfgar e ergueu cuidadosamente 
as pontas do curativo, examinando o ferimento com as pontas dos dedos. O pano estava grudado num corte longo e profundo, do qual saa um lquido amarelado.
    -  Est inflamado - murmurou ela. - Certamente o corte se abriu de novo.
    Aislinn foi at a lareira, mergulhou um pano de linho na gua que fervia no caldeiro dependurado sobre o fogo e retirou-o com um eraveto. Com um sorriso de 
vis, ela o aplicou sobre o curativo, e Wulfgar quase saltou da cadeira. O normando cerrou os dentes e procurou ficar imvel. De modo nenhum ia deixar que aquela 
sax testemunhasse seu sofrimento. Olhou para ela, ali de p, com as mos na cintura, como que duvidando de sua capacidade de curar. Mas Aislinn disse, indicando 
a perna.
    -  Isso vai soltar a crosta e limpar o ferimento - e com uma risada breve e irnica acrescentou: - Trata melhor seus cavalos do que a si mesmo.
    Ela foi at onde estavam as armas dele e retirou a adaga da bainha. Sweyn aproximou-se dela, com o machado de guerra na mo, mas Aislinn foi at a lareira e 
ps a lmina da adaga sobre os carves acesos. Quando se voltou para eles, os dois homens a observavam, desconfiados.
    -  O galante normando e o feroz viking, por acaso temem uma simples jovem sax? - perguntou ela.
    -  No  medo o que eu sinto - respondeu Wulfgar -, mas no  natural que aplique suas artes em um normando. Por que est tratando do meu ferimento?
    Aislinn deu-lhe as costas e comeou a esfarelar algumas ervas secas dentro de gordura de ganso. Enquanto preparava o unguento amarelo, disse.
    -  H muito tempo minha me e eu tratamos do povo desta cidade. Portanto, no tema que eu o prejudique com minha inexperincia. Se eu o trasse, Ragnor tomaria 
o seu lugar, e muita gente ia sofrer sob seu domnio, especialmente eu. Assim, minha vingana ter de esperar algum tempo.
    -  Isso  bom - disse Wulfgar, olhando para ela. - Se executasse sua vingana agora, acredito que Sweyn no ia gostar. Ele desperdiou grande parte de sua vida 
tentando me ensinar a tratar as mulheres.
    -  Aquele brutamontes! - zombou ela. - O que ele pode fazer comigo que j no foi feito, alm de acabar com a minha escravido?
    Wulfgar inclinou-se para a frente e disse:
    -  Seu povo tem uma prtica milenar em todos os mtodos de tirar a vida, e o que ainda no sabem, so muito capazes de adivinhar.
    -  Est me ameaando, milorde? - Aislinn ergueu os olhos para ele, interrompendo por um momento seu trabalho.
    -  No, eu jamais a ameaaria. Posso fazer promessas, mas no ameaas. - Olhou para ela demoradamente, depois recostou na cadeira. - Se fosse do seu agrado, 
gostaria de saber seu nome.
    -  Aislinn, milorde. Aislinn, a ltima de Darkenwald.
    -  Bem, procure fazer o pior, Aislinn, enquanto estou  sua merc - ele sorriu. - Minha vez chegar logo.
    Aislinn empertigou-se, ofendida por ele lembrar o que estava para acontecer. Deixando a vasilha com o medicamento na frente da lareira, ela ajoelhou-se e firmou 
o joelho dele com o lado do corpo, sentindo os msculos de ferro da perna do normando contra seu peito. Levantou o pano molhado e retirou com facilidade o curativo, 
revelando um corte longo, vermelho, purulento, que ia do joelho at quase a virilha.
    -  Uma lmina inglesa? - perguntou ela.
    -  Uma lembrana de Senlac. - Ele deu de ombros.
    -  O homem tinha m pontaria- observou Aislinn, examinando o ferimento. - Teria me poupado muita coisa se acertasse um pouco mais acima.
    Wulfgar riu com desdm.
    -  Ande com isso. Tenho muito o que fazer.
    Aislinn levantou-se, apanhou uma vasilha com gua quente, sentou de novo e comeou a lavar o ferimento. Depois de remover todo o tecido escuro e o sangue seco, 
ela apanhou a adaga do fogo, e Sweyn aproximou-se com o machado na mo. Aislinn olhou calmamente para o enorme viking.
    Wulfgar sorriu com sarcasmo.
    -  Para que voc no corrija a m pontaria do saxo, poupando-se de ter de suportar minha companhia na cama - deu de ombros. - A masculinidade de Sweyn  tantas 
vezes posta  prova que ele quer preservar a minha tambm.
    Aislinn olhou friamente para ele.
    -  E o senhor, milorde, no quer ter filhos? Wulfgar ergueu a mo, com um gesto cansado.
    -  Eu ficaria mais descansado se no houvesse possibilidade disso. J existem bastardos demais.
    Aislinn sorriu com ironia.
    -  Eu tambm ficaria muito mais feliz, milorde.
    Aislinn aplicou a lmina em brasa em toda a extenso do ferimento, fechando a carne aberta e tirando grande parte da inflamao. Wulfgar no emitiu nenhum som 
quando o cheiro de carne queimada
    encheu o ar, mas todos os seus msculos ficaram tensos. Ento, Aislinn aplicou o medicamento espesso. Feito isso, cobriu tudo com uma pasta de po molhado e 
enrolou toda a coxa com ataduras de linho limpas. Ela recuou e examinou o prprio trabalho.
    -  Daqui a trs dias eu retiro o curativo. Sugiro que mantenha a perna em repouso esta noite.
    -  J aliviou um pouco - disse Wulfgar, muito plido. - Mas preciso caminhar com ela, para que no fique rgida.
    Dando de ombros, Aislinn apanhou a bandeja de ervas e, quando passou por detrs da cadeira dele para apanhar as outras ataduras, notou outro ferimento inflamado, 
logo abaixo do ombro. Quando tocou o lugar com a ponta do dedo, Wulfgar voltou-se de repente, sobressaltado, e Aislinn riu.
    -  Este no precisa ser cauterizado, milorde. Basta uma picada com a ponta da lmina e um pouco do medicamento - disse ela, comeando o tratamento.
    -  Meus ouvidos certamente me traram. - Ele franziu a testa. - Seria capaz de jurar ter ouvido alguma coisa sobre sua vingana poder esperar.
    Bateram  porta, e Sweyn abriu. Kerwick entrou carregando vrios objetos de Wulfgar. Aislinn ergueu os olhos rapidamente, mas logo os baixou para a bandeja de 
ervas. No queria despertar as suspeitas de Wulfgar, que observava enquanto o jovem arrumava seus pertences e sua arca perto da cama. Kerwick parou por um momento, 
viu Aislinn, desviou os olhos e saiu do quarto sem uma palavra.
    -  Meu brido! - resmungou Wulfgar.-Sweyn, leve tudo para fora e no deixe que tragam Huno para o quarto tambm.
    Quando o viking saiu e fechou a porta, Aislinn apanhou outra vez a bandeja.
    -  Um momento, damoiselle - disse Wulfgar.
    Aislinn voltou-se para ele, e Wulfgar, levantando-se, experimentou cautelosamente pr o p no cho. Certificando-se de que a perna podia suportar o peso do corpo, 
vestiu uma camisa e foi abrir as janelas. Examinou ento o quarto.
    -  Vou ficar neste quarto - disse, com voz distante. - Mande retirar as coisas de sua me e fazer uma limpeza.
    -  Diga, por favor, milorde - perguntou Aislinn, com ironia. - Para onde devo mandar levar as coisas de minha me? Para o chiqueiro, onde esto os outros porcos 
ingleses?
    -  Onde voc dorme? - perguntou ele, ignorando o sarcasmo.
    -  No meu quarto, a no ser que algum o tenha tomado.
    -  Pois leve tudo para l, Aislinn. - Os olhos dele encontraram os dela. - Vai usar muito pouco seu quarto de agora em diante.
    Corando intensamente, Aislinn odiou-o por mais uma vez lembrar o seu futuro. Esperou que ele a dispensasse, e o silncio os envolveu. De costas, ela o ouvia 
andar de um lado para o outro, atiando o fogo, abrindo e fechando uma arca. De repente, a voz do normando soou alta e spera.
    -  O que aquele homem significa para voc?
    Aislinn voltou-se rapidamente, confusa por um momento.
    -  Kerwick, o que ele  para voc?
    -  Nada - disse ela.
    -  Mas voc o conhece, e ele a conhece! Aislinn conseguiu se controlar um pouco.
    -   claro. Ele  o senhor de Cregan, e nossas famlias fazem muitos negcios.
    -  Ele no tem mais nada para negociar. No  mais senhor de coisa alguma. - Wulfgar a observava atentamente. - Ele chegou muito tarde, depois que a cidade se 
rendeu. Quando o intimei a se render, ele se desfez da espada e tornou-se meu escravo-disse, coro desprezo.
    Mais segura agora, Aislinn disse, tranqilamente:
    -  Kerwick  mais um estudioso do que um guerreiro. O pai o treinou para ser cavaleiro, e ele lutou bravamente com Harold.
    -  Ele vomitou como um covarde por causa de alguns homens mortos. Nenhum normando o respeita.
    Aislinn baixou os olhos para esconder sua compaixo.
    -  Ele  um homem gentil, e aqueles homens eram seus amigos. Kerwick conversava com eles e fazia versos sobre seu trabalho. J viu muita morte desde que os normandos 
chegaram s nossas terras.
    Wulfgar cruzou as mos nas costas e ficou parado, imponente e enorme, na frente dela. Estava de costas para a luz, e Aislinn via apenas os olhos cinzentos e 
calmos.
    -  E o que me diz daqueles que no morreram?-perguntou. - Quantos fugiram e se esconderam nas florestas?
    -  No sei de nenhum - disse ela, e era apenas meia-verdade. Vira alguns chegarem na borda do pntano quando seu pai caiu, mas no podia dizer seus nomes, nem 
sabia se estavam livres ainda.
    Wulfgar estendeu o brao e segurou uma mecha do cabelo macio e brilhante de Aislinn. Os olhos cinzentos e intensos no se afastavam do seu rosto. Aislinn sentia 
sua vontade enfraquecer, e o sorriso do normando dizia que ela no o tinha enganado.
    -  No sabe de nenhum? - zombou ele. - No importa. Logo eles viro servir o seu senhor, bem como voc.
    Ps a mo no ombro dela e puxou-a para si. Abandeja tremeu nas mos de Aislinn.
    -  Por favor... - murmurou ela, com voz rouca, com medo daqueles lbios que a excitavam tanto. - Por favor - as palavras eram mais um soluo.
    A mo do normando desceu pelo brao dela, numa carcia, e ele a deixou.
    -  Providencie a arrumao do quarto - ordenou, com voz suave, prendendo-a com o olhar.-E se as pessoas a procurarem, trate a todos como me tratou. So minhas 
tambm, e bem poucas.
    Saindo apressadamente do quarto, Aislinn quase colidia com Kerwick, que carregava outra parte da bagagem de Wulfgar. Aislinn passou por ele rapidamente, para 
no se trair. Correu para seu quarto e comeou ajuntar seus pertences com mos trmulas, furiosa por ser to vulnervel  provocao do normando. Que estranho poder 
tinham aqueles olhos que zombavam dela?
    Aislinn saiu do castelo no momento em que alguns servos eram levados para o ptio. Com grilhes nos tornozelos, mal conseguiam andar entre os normandos a cavalo. 
No seu enorme cavalo de guerra, Wulfgar parecia extremamente ameaador para aquela gente simples.
    Aislinn mordeu o lbio quando um dos prisioneiros tentou fugir, mas, com os ps agrilhoados, no podia competir com o garanho de Wulfgar. Cavalgando atrs do 
jovem, Wulfgar o apanhou pela gola da camisa e suspendeu-o para a frente de sua sela. Os gritos do menino foram silenciados com uma palmada no traseiro. Wulfgar 
o despejou no meio dos outros prisioneiros, que se afastaram para no serem pisados pelo cavalo.
    Foram levados para a praa como porcos amarrados, e Aislinn suspirou com alvio quando viu que ningum estava ferido. Ela recuou quando Wulfgar se aproximou 
e apeou do cavalo.
    -  No mataram ningum na floresta? - perguntou ela, ansiosamente.
    -  No, eles fugiram como fazem os bons saxes - replicou ele. Com um olhar furioso, Aislinn deu meia volta e entrou no castelo. Darkenwald parecia comear a 
ficar em ordem e, comparado 
    noite anterior, o jantar decorreu num atmosfera tranqila. Os normandos estavam instalados, e no havia mais disputas, pois todos sabiam que Wulfgar era quem 
mandava. Os que o invejavam no tinham coragem para enfrent-lo, e os que o respeitavam reconheciam seu merecimento.
    Aislinn substituiu a me como senhora do solar, sempre consciente da presena dominadora de Wulfgar. Durante o jantar, o normando conversou quase o tempo todo 
com Sweyn, ignorando-a completa-mente, o que a intrigou, uma vez que ele insistira na sua presena ao seu lado. A princpio Aislinn relutou. Sua me ia servir o 
jantar, com os outros servos, e Aislinn achava que devia ficar ao lado dela.
    -  O lugar de uma criada no  ao lado do senhor - disse ela com amargura, quando ele indicou a cadeira ao seu lado.
    Os olhos frios de Wulfgar fixaram-se nela.
    -  , sim, quando o senhor o deseja.
    Kerwick permaneceu perto da mesa de Wulfgar, oferecendo comida e vinho, como um criado comum. Aislinn preferia que ele no estivesse ali. Detestava sua fingida 
resignao. Ragnor, por sua vez, os observava atento. Aislinn sentia o dio dele por Wulfgar como algo slido e tangvel, achando quase divertido o fato de ele estar 
to ofendido por ela pertencer agora a Wulfgar.
    Hlynn, com um olho roxo e o queixo inchado, timidamente servia vinho aos normandos e se encolhia medrosa quando gritavam com ela ou estendiam as mos para apalpar 
seus seios ou suas ndegas. Seu vestido estava fechado na frente por um fio de linha grossa, e os homens apostavam para ver quem seria o primeiro a rasg-lo outra 
vez. Como Hlynn no entendia uma palavra do que eles diziam, era presa fcil das armadilhas jocosas daqueles homens.
    Maida parecia indiferente ao sofrimento da jovem, mais interessada nos restos de comida que os homens atiravam para os ces. Vrias vezes Aislinn a viu levando 
 boca restos de comida, e o fato de ver que a me estava faminta no contribuiu para melhorar seu apetite.
    O conserto do vestido de Hlynn durou at quase o fim do banquete, quando Ragnor decidiu descarregar sua frustrao na pobre moa. Segurando-a com brutalidade, 
cortou com a adaga o cordo que fechava a frente do vestido e levou a boca aos seios jovens, sem se importar com a luta v da moa para se libertar.
    Nauseada, Aislinn desviou os olhos, lembrando aqueles mesmos lbios ardentes nos seus seios. No olhou quando ele saiu da sala carregando Hlynn; apenas estremeceu. 
Depois de alguns momentos, ela ergueu a cabea, um pouco mais controlada, e seus olhos encontraram os de Wulfgar. Aislinn apanhou o copo de vinho e bebeu at o fim.
    -  O tempo tem asas cleres, Aislinn - comentou ele. - Por acaso  seu inimigo?
    Aislinn desviou os olhos dos dele. Sabia o que ele queria dizer. Como Ragnor, Wulfgar estava cansado do banquete e pensando em outra forma de divertimento.
    -  Repito, damoiselle, o tempo  seu inimigo?
    Aislinn voltou-se e com surpresa viu o normando inclinado para ela, to perto sentia que o hlito quente no rosto. Os olhos, quase azuis agora, procuraram os 
dela.
    -  No - respondeu. - Acho que no.
    -  No est com medo de mim, est? - perguntou Wulfgar. Aislinn balanou a cabea bravamente, fazendo ondular o cabelo
    longo.
    -  No temo homem algum. S temo a Deus.
    -  Ele  seu inimigo?
    Aislinn desviou os olhos. Deus permitira que aqueles homens da Normandia invadissem sua casa e suas terras, mas no competia a ela questionar Seus motivos.
    -  Espero que no-respondeu ela -, pois Ele  a minha nica esperana. Todas as outras falharam - ergueu o queixo com altivez. -Dizem que o duque  um homem 
devoto. Se temos o mesmo Deus, por que precisa matar tantos de ns para conquistar o trono?
    -  Edward e Harold juraram que o trono seria dele. S quando Harold se trancou na sala com o rei moribundo, percebeu a oportunidade e disse que a ltima vontade 
de Edward era que ele herdasse a coroa. No podemos provar que ele mentiu, mas... - Wulfgar deu de ombros. - Por direito de nascimento, a coroa pertence a Guilherme.
    Aislinn olhou para ele.
    -  O neto de um mero curtidor de peles? Um...
    Mas parou subitamente, percebendo de repente o que ia dizer.
    -  Bastardo, damoiselle - Wulfgar terminou a frase para ela e sorriu com ironia. - Uma desgraa que atinge muitos de ns, sinto dizer.
    Aislinn corou intensamente e baixou os olhos. Wulfgar recostou na cadeira.
    -  Os bastardos tambm so humanos, Aislinn. Suas necessidades e seus desejos so iguais aos de todas as outras pessoas. Um trono  to tentador para o filho 
ilegtimo quanto para o bem-nascido, talvez mais.
    Wulfgar levantou e, segurando-a pelo brao, puxou-a para si. Erguendo uma sobrancelha, com um brilho divertido nos olhos, enlaou-a pela cintura e apertou-a 
contra o peito forte e musculoso.
    -  Ns tambm procuramos saciar nossos desejos. Venha, meu amor, preciso domar uma megera. Estou cansado da companhia de homens e de lutas. Esta noite quero 
uma atividade mais delicada.
    Aislinn olhou para ele, furiosa, mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, um grito de revolta soou no salo. Kerwick investiu para os dois, empunhando sua 
adaga. Com o corao disparado, Aislinn ficou imvel, esperando o ataque, sem saber se o alvo de Kerwick era ela ou Wulfgar. Gritou quando o normando a empurrou 
para trs dele, preparando-se para enfrentar Kerwick desarmado. Mas Sweyn, que no confiava em ningum, estivera observando o jovem saxo o tempo todo, e notou que 
ele olhava para Aislinn de modo estranho, embora disfarado. O viking agiu rapidamente. Ergueu o brao e atingiu Kerwick com as costas da mo enorme, jogando-o no 
cho. Com o p no rosto do jovem, ele retirou facilmente a adaga de sua mo e atirou-a contra a parede. Quando o homem do Norte ergueu o machado para decapitar o 
vencido, Aislinn gritou:
    -  No, pelo amor de Deus, no!
    Sweyn olhou para ela, e todos na sala observavam a cena. Soluando, histrica, Aislinn segurou o colete de pele de Wulfgar.
    -  No! No! No deve lhe fazer mal! Eu lhe peo, poupe sua vida!
    Maida adiantou-se e passou a mo nas costas da filha, choramingando de medo.
    - Primeiro matam seu pai. Agora, seu noivo. Eles no poupam ningum.
    Wulfgar voltou-se rapidamente para ela, e Maida gritou apavorada, recuando.
    -  O que est dizendo, bruxa? Este  o noivo dela? - perguntou.
    Maida fez um gesto afirmativo.
    -  Sim, iam se casar dentro de pouco tempo.
    Wulfgar olhou para o jovem saxo e depois para Aislinn com expresso acusadora. Finalmente, voltou-se para Sweyn, que esperava.
    - Leve o homem para os ces e o acorrente com eles-trovejou. - Trato disso amanh.
    Com um gesto afirmativo, o viking segurou a tnica de Kerwick e levantou-o do cho como um ttere.
    -  Pode ter certeza, pequeno saxo - disse Sweyn -, esta noite voc foi salvo por uma mulher. Uma boa estrela o protege.
    Tremendo ainda incontrolavelmente, Aislinn viu Kerwick ser levado para onde estavam os ces e atirado no meio deles. Os animais latiram e se agitaram. Na confuso, 
ningum viu Maida esconder a adaga de Kerwick sob o vestido.
    Aislinn voltou-se para Wulfgar.
    -Devo-lhe este favor - murmurou suavemente, com voz trmula, mas aliviada.
    Ele rosnou:
    -  Deve mesmo? Muito bem, logo veremos quanto vale a sua gratido. Quando concordei em chamar um padre, voc me agradeceu com seu dio. Mentiu quando disse que 
aquele covarde no significava nada para voc - riu com desdm. - Devia ter me contado, em vez de deixar que a bruxa velha fizesse a revelao.
    Aislinn enfureceu-se outra vez.
    -  Menti para que voc no o matasse - respondeu, furiosa. -  assim que resolve as coisas, no ?
    Os olhos de Wulfgar escureceram, irados.
    -  Pensa que sou tolo, damoiselle, para matar escravos valiosos para mim? Mas  certo que ele teria encontrado a morte h pouco, se a velha no tivesse dito 
que era o seu prometido. Pelo menos, sabendo disso, posso entender a razo do seu ato de loucura.
    -  Poupou a vida dele agora, mas e amanh? - perguntou ela, ansiosamente.
    Ele deu de ombros.
    -  Porque pensar no amanh? Ser feita a minha vontade. Talvez uma dana na ponta de uma corda, ou outro divertimento qualquer.
    Aislinn sentiu um aperto no corao. Teria ele salvado Kerwick de uma morte rpida para v-lo enforcado ou torturado para distrair seus normandos? -  O que est 
disposta a oferecer em troca da vida dele? Voc mesma? Mas isso no  justo. No conheo a mercadoria que estou recebendo - segurou o pulso dela. - Venha, vamos 
ver.
    Aislinn tentou se afastar, mas os dedos dele apertaram seu brao e, embora no sentisse dor, no podia se libertar.
    -  Tem medo de no valer uma vida? - zombou ele.
    Com pequena resistncia, Aislinn subiu com ele a escadaria de pedra. Wulfgar dispensou o guarda da porta de seu quarto e, abrindo-a, empurrou-a para dentro. 
Fechou e trancou a porta e parou, encostado na parede, com os braos cruzados no peito e um sorriso nos lbios.
    -  Eu espero, damoiselle - seus olhos percorreram cada curva de seu corpo. - Ansiosamente.
    Aislinn empertigou o corpo com dignidade.
    -  Vai ser uma longa espera, sire - disse, com desdm. - No fao o papel de prostituta.
    Wulfgar continuou sorrindo.
    -  Nem pelo pobre Kerwick? Uma pena. Amanh ele certamente vai desejar que o tivesse feito.
    Com um olhar cheio de dio, Aislinn disse:
    -  O que quer de mim?
    Ele ergueu lentamente os ombros fortes.
    -  Seria um bom comeo ver quanto vale a troca que estou fazendo. Estamos sozinhos. No precisa ser tmida.
    Os olhos de Aislinn dardejaram.
    -  O senhor  odioso. O sorriso acentuou-se.
    -  Foram poucas as mulheres que j disseram isso, mas voc no  a primeira.
    Aislinn olhou em volta, desesperada, procurando algum objeto para atirar nele.
    -  Vamos logo, Aislinn. Estou ficando impaciente. Vamos ver o que voc vale.
    Ela bateu o p delicado no cho.
    -  No! No! No! No vou agir como uma prostituta!
    -  Pobre Kerwick - suspirou ele.
    -  Wulfgar, eu o odeio! - exclamou ela. Ele no se abalou.
    -  Eu tambm no tenho grande amor por voc. Detesto mulheres mentirosas.
    -  Se me detesta, por que isto, ento?
     Wulfgar riu discretamente.
    -  No preciso am-la para dormir com voc. Eu a desejo. Isso basta.
    -  No para mim! - exclamou Aislinn, balanando a cabea furiosa.
    Wulfgar riu, sacudindo os ombros.
    -  Voc no  virgem. Que diferena faz mais um homem? Aislinn mal podia falar, de tanta raiva.
    -  Fui possuda uma vez,  fora - exclamou. - Isso no quer dizer que eu seja uma mulher da rua.
    Ele franziu as sobrancelhas.
    -  Nem mesmo por Kerwick?
    Contendo um soluo de frustrao, Aislinn deu as costas a ele, com o corpo todo tremendo de raiva, dio e medo, incapaz de suportar aquela zombaria. Lentamente, 
desatou a tnica e deixou-a cair no cho. Depois, foi a combinao que se amontoou em volta dos tornozelos bem-feitos.
    Wulfgar aproximou-se e parou na frente dela. Os olhos dele, como ferros em brasa, percorreram seu corpo, como que avaliando cada curva esplndida e macia com 
uma intensidade que a deixou quase sem ar. Com porte altivo, Aislinn deixou que ele a examinasse, odiando-o e ao mesmo tempo com uma estranha excitao envolvendo 
todo o seu corpo jovem.
    -  Sim, voc  bela - disse Wulfgar com voz rouca, acariciando um de seus seios.
    Aislinn retesou os msculos, mas, com vergonha e surpresa, sentiu prazer ao contato delicado daquela mo to forte. Ele passou um dedo entre seus seios, descendo 
at a cintura fina. Sim, ela era bela, com pernas longas, corpo esbelto, seios bem-feitos, a pele delicadamente rosada. Seios que pediam a carcia de um homem.
    -  Acha que valho a vida de um homem? - perguntou ela, friamente.
    -  Sem dvida - respondeu o normando. - Mas esse jamais foi o caso.
    Aislinn olhou para ele sem compreender, e o normando sorriu.
    -  A dvida de Kerwick no  sua. A vida dele pertence s a ele. Eu a concedo. Sim, ser punido porque foi grande a ofensa. Mas nada do que voc fizer poder 
mudar o que reservei para ele.
    Aislinn ficou rubra de raiva e ergueu o brao ameaadoramente, mas Wulfgar segurou seu pulso e puxou-a para ele, rindo do seu esforo para se libertar. Aislinn 
sentiu as mos dele em seu corpo, tocando aqui e ali. Wulfgar sorriu, olhando-a nos olhos.
    -  Minha megera feroz, voc vale sem dvida a vida de qualquer homem, mesmo que toda a vida de um reino estivesse sendo julgada.
    -  Tratante! - exclamou ela. - Seu idiota ordinrio. Seu... bastardo!
    A presso dos braos dele aumentou e o sorriso desapareceu de seus lbios. Seus corpos estavam to unidos que pareciam um s. Aislinn mordeu o lbio para no 
gritar de dor. Sentia a fora do desejo dele. Atordoada, gemeu baixinho, em agonia, apertada no abrao cruel.
    -  Lembre-se de uma coisa, damoiselle - disse ele, com frieza. - No dou muita ateno s mulheres, menos ainda a uma mentirosa. Na prxima vez que mentir para 
mim, vai sofrer muito mais do que j sofreu.
    Dizendo isso, ele a empurrou, e Aislinn caiu junto aos ps da cama e ficou no cho, tremendo, com o corpo dolorido, humilhada e envergonhada. Ergueu os olhos 
e viu o normando apanhar uma corrente que seu pai usava para prender os ces. Quando Wulfgar caminhou para ela, com a corrente na mo, Aislinn encolheu-se, apavorada. 
Suas palavras teriam provocado tanta fria que ele ia agora espanc-la, para se vingar? Em que inferno se lanara quando preferiu Wulfgar a Ragnor? Certamente ele 
ia mat-la. Seu corao batia forte e descompassado e, quando Wulfgar inclinou-se para ela, Aislinn levantou-se de um salto, e, com uma exclamao de pavor, tentou 
fugir das mos do normando que se estendiam para ela.
    -  No! - gritou ela. Passou por debaixo do brao dele e, reunindo as foras que lhe restavam, correu para a porta. Os dedos fracos tentaram erguer a tranca, 
mas Wulfgar, mesmo mancando por causa da perna ferida, moveu-se rapidamente e quase a alcanou. Aislinn sentia o hlito dele em sua nuca. Com um grito, ela correu 
para a lareira, com a mente em turbilho, pensando apenas em fugir dele. Mas tropeou no tapete de pele de lobo e, antes que pudesse recuperar o equilbrio, Wulfgar 
lanou-se sobre ela. Antes de se estatelarem no cho, Wulfgar conseguiu fazer com que ela ficasse por cima dele, protegendo-a do impacto que, embora violento, aparentemente 
no provocou nele qualquer desconforto. Aislinn no teve tempo para
    descobrir se ele fizera de propsito, porque estava ocupada demais tentando se libertar. Esperneou e agitou os braos e depois girou o corpo para um ataque frontal. 
Percebeu seu erro quando ele riu e prendeu-a sob seu corpo.
    -  Solte-me! - disse ela, ofegante, virando a cabea de um lado para o outro. Tremia tanto que seus dentes batiam como se estivesse com frio, ali, perto da lareira, 
com o calor do fogo quase escaldando sua pele. Com os olhos fechados, sentia o olhar intenso dele em seu rosto. - Solte-me! Por favor!
    Para seu espanto, Wulfgar se levantou e ajudou-a a ficar de p. Com um sorriso irnico, olhou para os olhos cheios de lgrimas da jovem e estendeu a mo para 
afastar uma mecha de cabelo do rosto dela. Aislinn cruzou os braos na frente do corpo para esconder sua nudez e olhou para ele sobriamente, sentindo-se maltratada 
e ferida.
    Com uma risada, Wulfgar segurou a mo dela e levou-a de volta para perto da cama. Apanhou a corrente outra vez, e Aislinn tentou escapar novamente, mas ele a 
fez deitar no cho. Ento atou uma ponta da corrente no poste da cama de dossel e a outra no tornozelo dela. Aislinn olhou para ele, sem compreender. Percebendo 
o espanto dela, Wulfgar sorriu.
    -  No pretendo perd-la como Ragnor a perdeu-zombou ele. - No h mais nenhum saxo bravo e tolo para voc enterrar, portanto, duvido que voc sasse de Darkenwald 
enquanto eu estiver dormindo. A corrente  longa e permite uma certa amplitude de movimento.
    -  O senhor  extremamente bondoso, milorde - a ira suplantando outra vez o medo, - No imaginei que fosse to fraco a ponto de precisar me prender para fazer 
o que quer comigo.
    -  Poupa energia - riu ele. - E j vi que preciso de toda ajuda possvel para domar a megera.
    Wulfgar foi at a lareira e comeou a se despir, arrumando cuidadosamente a roupa que tirava. Encolhida, nua, no cho frio, Aislinn o observava sobriamente. 
Vestido apenas com o chausses, ele ficou parado, olhando pensativamente para as chamas, passando distraidamente a mo na perna ferida para aliviar a dor. Aislinn 
tinha notado que, desde que entraram no quarto, ele parecia claudicar muito menos.
    Com um suspiro, Aislinn apoiou o queixo nos joelhos, pensando nas batalhas que ele j devia ter enfrentado. Uma longa cicatriz, talvez resultado de um golpe 
de espada, marcava-lhe o peito bronzeado. Vrias outras, menores, espalhavam-se pelo corpo, e os msculos sob a pele queimada de sol eram testemunhas de uma vida 
dura e de muito tempo a cavalo e brandindo uma espada. Era evidente que era um homem de ao, e mais evidente ainda o motivo pelo qual ela no podia se livrar dele. 
A cintura era fina, a barriga musculosa e firme, os quadris estreitos, e as pernas longas e bem-feitas sob a meia de malha que as cobria.
    Ali,  luz bruxuleante do fogo, ele parecia cansado e distante, e Aislinn quase podia sentir a exausto que minava suas foras. Sentiu um resqucio de pena por 
aquele inimigo normando, compreendendo que o que o sustentava era apenas a vontade frrea, naquele momento.
    Suspirando, Wulfgar espreguiou-se, distendendo os msculos cansados. Sentou ento e tirou o chausses, arrumando-o junto com as outras peas de roupa. Quando 
ele se voltou, Aislinn conteve a respirao, temerosa outra vez, com a viso de sua masculinidade. Encolheu-se mais ainda, tentando esconder sua nudez. Como que 
s ento lembrando de sua presena, Wulfgar olhou para ela e viu o medo nos olhos cor de violeta. Erguendo as sobrancelhas, ele sorriu e, inclinando-se, apanhou 
algumas peles de lobo que cobriam a cama, atirando-as para ela.
    - Boa noite, meu amor - disse ele, simplesmente. Atnita e aliviada ao mesmo tempo, Aislinn olhou para ele por um momento. Ento, enrolou no corpo as peles de 
lobo e deitou no cho duro e frio. Wulfgar apagou as velas e deitou bem no centro da cama de casal dos pais dela; logo adormeceu. Aislinn ajeitou as peles em volta 
do corpo e sorriu, satisfeita.
    
    
    
    
    
    
   Captulo Quatro
    
    AISLINN FOI rudemente acordada na manh seguinte, com uma violenta palmada que a fez gritar de dor. Abriu os olhos e viu Wulfgar com um largo sorriso, sentado 
na beirada da cama. Estendeu para ela toda a sua roupa e deliciou-se com os seios bem-feitos e a pele macia antes de Aislinn se vestir rapidamente.
    -  Voc  uma mulher preguiosa - zombou ele. - Quero que traga gua para me lavar e que me ajude a me vestir. Minha vida no  to ociosa quanto a sua.
    Aislinn olhou zangada para ele, passando a mo no traseiro ardido.
    -  Voc tambm dorme profundamente - disse ele.
    -  Espero que tenha dormido bem, milorde-disse ela, olhando para ele. - Parece bem descansado.
    Com um olhar penetrante e cheio de calor, ele disse.
    -  Muito bem, damoiselle.
    Aislinn corou e caminhou apressadamente para a porta.
    -  Vou apanhar gua - disse, saindo do quarto.
    Maida aproximou-se quando ela enchia o balde com a gua que aquecia no grande caldeiro sobre o fogo.
    -  Ele tranca as portas, ou pe guardas junto delas - choramingou ela. - O que podemos fazer para livr-la dele? No  homem para voc, esse animal. Ouvi seus 
gritos a noite passada.
    -  Ele no me tocou - disse Aislinn, pensativa. - Dormi no cho, ao lado da cama e ele no me tocou.
    -  Por que faria uma coisa dessas? - perguntou Maida. - No  por bondade, isso  certo. Esta noite ento ele vai possu-la. No espere at l. Fuja. Fuja.
    -  No posso - disse Aislinn. - Ele me acorrenta  cama. Maida abafou um grito, horrorizada.
    -  Ele a trata como um animal. Aislinn deu de ombros.
    -  Pelo menos no bate em mim - mas lembrando a palmada daquela manh, passou a mo no lugar ainda dolorido. - S um pouquinho.
    -  Se voc o aborrecer, ele a mata.
    Aislinn balanou a cabea, lembrando o momento em que ele a abraara fortemente contra o peito. Mesmo furioso, no a maltratara.
    -  No, ele  diferente.
    -  Como voc sabe? Seus prprios homens o temem.
    -  No tenho medo dele - disse Aislinn com orgulho.
    -  Isso  tolice! - exclamou Maida, com voz chorosa. - De nada vai adiantar ser orgulhosa e obstinada como seu pai.
    -  Preciso ir agora - murmurou Aislinn. - Ele est esperando para se lavar.
    -  Vou descobrir um meio para ajud-la.
    -  Me, no se preocupe com isso! Temo por voc. Aquele homem chamado Sweyn guarda as costas do seu senhor como um falco. Ele a matar se tentar qualquer coisa. 
E acho Wulfgar mais aceitvel do que o resto desses chacais.
    -  Mas e Kerwick? - sibilou Maida, olhando para ele enrodilhado no meio dos ces.
    Aislinn deu de ombros.
    -  Ragnor acabou com o nosso compromisso.
    -  Kerwick no pensa assim. Ele ainda quer voc.
    -  Ento, ele precisa compreender que h uma semana vivemos num mundo diferente. No somos livres. Agora eu pertencia Wulfgar, e Kerwick tambm. No somos melhores 
do que escravos. S temos os direitos que eles nos concedem.
    Maida disse, com desprezo na voz:
    -   estranho, minha filha, ouvir voc falar assim, voc, sempre to altiva.
    -  O que temos para sermos arrogantes agora, me?-perguntou Aislinn, com voz cansada. - Nada. Precisamos pensar em nos mantermos vivos e em ajudar uns aos outros.
    -  Voc descende de uma das melhores famlias da Saxnia. No vou permitir que tenha um filho bastardo.
    Os olhos de Aislinn cintilaram de fria.
    -  Preferia que eu tivesse um filho de Ragnor, o assassino de meu pai?
    Maida torceu as mos, angustiada.
    -  No fique zangada comigo, Aislinn. S penso em voc.
    -  Eu sei, me - suspirou Aislinn. - Por favor, pelo menos espere um pouco para vermos que espcie de homem  Wulfgar. Ele ficou furioso com a carnificina que 
seus homens fizeram. Talvez seja um homem justo.
    -  Um normando? - exclamou Maida.
    -  Sim, me, um normando. Agora, preciso ir.
    Quando Aislinn abriu a porta do quarto, viu Wulfgar semivestido e com a testa franzida.
    -  Demorou muito, mulher - rosnou ele.
    -  Perdoe-me, senhor-murmurou Aislinn. Ps o balde no cho e ergueu os olhos para ele.-Minha me temeu por minha segurana a noite passada, e eu parei um momento 
para tranqiliza-la, dizendo que no fui molestada.
    -  Sua me? Quem  ela? No vi nenhuma senhora do castelo, embora Ragnor tenha dito que ela ainda est aqui.
    -  A que o senhor ontem chamou de bruxa - disse Aislinn, suavemente. -  a minha me.
    -  Aquela - resmungou Wulfgar - ... me parece que ela foi castigada por alguma mo muito forte.
    Aislinn inclinou a cabea, afirmativamente.
    -  Ela agora s tem a mim, e se preocupa comigo-engoliu em seco. - Fala em se vingar.
    Wulfgar olhou para ela com ateno, agora completamente alerta.
    -  Est me avisando de alguma coisa? Ela pode tentar me matar?
     Aislinn abaixou os olhos, nervosa.
    -  Talvez. No tenho certeza, milorde.
    -  Est me dizendo isso porque no quer v-la morta?
    -  Oh, que Deus me livre! Eu jamais me perdoaria se deixasse isso acontecer. Ela j sofreu bastante nas mos dos normandos. Alm disso, seu duque nos mataria 
a todos se o senhor fosse morto. Wulfgar sorriu.
    -  Estou avisado. Tomarei conta dela, e vou mandar Sweyn ficar alerta.
    Com um suspiro de alvio, Aislinn disse:
    -  Agradeo muito, senhor.
    -  Agora, menina - disse ele, respirando fundo. - Deixe que eu acabe de me vestir. Voc demorou demais e no tenho tempo para me lavar. Esta noite, porm, quero 
tomar um banho, e vou ficar muito zangado se demorar outra vez.
    Apenas Kerwick estava no salo quando Aislinn desceu atrs de Wulfgar. Seu prometido estava ainda acorrentado com os ces, mas acordado. Ele a observou atentamente 
quando Aislinn atravessou a sala ao lado de Wulfgar.
    Wulfgar indicou que Aislinn devia sentar ao seu lado, e a prpria Maida os serviu de po quente, carne e favos de mel. Kerwick no tirou os olhos de Aislinn, 
at Maida comear a servir. Ento, a fome suplantou qualquer sentimento. Depois que os dois se serviram, Maida apanhou o po que sobrou e levou para Kerwick, tirando 
apenas um pequeno pedao para si mesma. Agachou-se ao lado dele e comearam a conversar em voz baixa, evidentemente tendo encontrado alguma coisa em comum no sofrimento. 
Enquanto comia, Wulfgar os observava, e de repente bateu com a faca na mesa, exigindo ateno. Aislinn viu uma rpida centelha de ira nos seus olhos, substituda 
por uma expresso tensa e pensativa. Tentou imaginar o que o havia irritado, mas as palavras dele interromperam seus pensamentos.
    -  Bruxa velha, venha c.
    Maida aproximou-se, encolhida, como quem espera um castigo.
    -  Fique de p, mulher - ordenou Wulfgar. - Endireite as costas, pois eu sei que pode.
    Lentamente, Maida obedeceu. Ficou parada, com o corpo ereto, na frente dele, e Wulfgar recostou na cadeira.
    -  Voc era Lady Maida, antes da morte de seu marido?
    -  Sim, senhor-Maida inclinou a cabea como um passarinho, e olhou nervosamente para a filha que esperava, imvel.
    -  E era voc a senhora deste solar?
    Maida engoliu em seco nervosamente, e inclinou de novo a cabea, assentindo.
    -  Sim, senhor.
    -  Ento, senhora, no est me servindo como deve fazendo o papel de tola. Veste-se com andrajos, disputa a comida com os ces e lamenta sua nova situao, quando, 
se tivesse demonstrado a mesma coragem de seu marido e declarado sua posio, estaria agora ocupando o lugar a que tem direito. Est tentando enganar meu povo. Portanto, 
eu ordeno, trate de se lavar e vista-se dignamente, e no continue com essa farsa. Ficar no quarto de sua filha. Agora, v fazer o que estou mandando.
    Maida se afastou, e Wulfgar recomeou a comer. Quando ergueu os olhos, viu que Aislinn o observava com uma expresso quase terna.
    -  Por acaso percebo menos dio em seu corao, damoiselle? - Riu, vendo-a franzir a testa. - Tome cuidado, jovem. Vou dizer a verdade. Depois de voc, vir 
outra. E mais outra. Nada no mundo pode me prender a uma mulher. Portanto, proteja seu corao.
    -  Senhor, exagera demais sua atrao - respondeu ela, indignada. - Se sinto alguma coisa pelo senhor,  dio. O senhor  o inimigo, e como tal deve ser desprezado.
    -  De verdade? - disse ele, com riso nos olhos. - Ento, diga-me uma coisa, maimoselle, sempre beija o inimigo com tanto calor?
    Aislinn corou intensamente.
    -  Est enganado, senhor. No era calor, apenas resistncia passiva.
    Wulfgar sorriu.
    -  Devo beij-la outra vez, damoiselle, para provar que tenho razo?
    Aislinn olhou para ele com desdm.
    -  Uma serva nem pode pensar em contrariar seu senhor. Se imaginou uma resposta ardente, quem sou eu para negar?
    -  Voc me desaponta, Aislinn-zombou ele.-Desiste de lutar com muita facilidade.
    -  Minha escolha resume-se em ceder, senhor, ou me arriscar a outro beijo, ou ainda a coisa pior, ser maltratada como na noite passada. Temo que meus ossos no 
resistam a outro castigo igual. Prefiro ento ceder.
    -  Em outro momento, damoiselle
    Kerwick recuou para a sombra quando a grande porta se abriu e Ragnor entrou na sala com um halo branco em volta da cabea, formado por sua respirao no ar gelado. 
Parou na frente de Aislinn com uma ligeira curvatura.
    -  Bom dia, minha avezinha. Ao que parece, teve uma boa noite. Aislinn sorriu delicadamente. Se ele podia fazer o jogo da polidez
    formal, ela tambm podia.
    -  Sim, senhor cavaleiro. Muito boa.
    Ela percebeu a surpresa de Ragnor e sentiu o olhar penetrante de Wulfgar. Naquele momento, pensou que odiava os dois com a mesma intensidade.
    -  Uma noite muito fria, boa para ser aquecido por uma mulher
    - Observou Ragnor tranqilamente, voltando-se ento para Wulfgar.
    - Quando estiver cansado de farpas e espinhos em sua cama, deve experimentar aquela criada Hlynn-sorriu, passando o dedo no lbio ferido. - Ela obedece todas 
as ordens sem reclamar, e garanto que seus dentes no so to afiados.
    Wulfgar resmungou.
    -  Prefiro um jogo mais animado.
    Ragnor deu de ombros e se serviu de cerveja. Wulfgar esperava pacientemente.
    -  Arruum - pigarreou Ragnor, deixando o chifre vazio sobre a mesa.-Os camponeses esto trabalhando como ordenou, Wulfgar, e os homens esto de guarda contra 
os ladres e os bandos de desocupados, ao mesmo tempo tomando conta dos servos.
    Wulfgar aprovou com uma inclinao de cabea.
    -  Destaque patrulhas para percorrer os limites das terras - pensativo, desenhando com a ponta da faca nas tbuas speras da mesa, continuou: - Organize grupos 
de cinco homens que devem voltar dentro de trs dias, e envie outros grupos todas as manhs, exceto no Sab. Cada grupo deve seguir numa direo, um para o leste, 
outro para o oeste, um para o norte e um para o sul. O sinal de alarme deve ser um toque de corneta na marca da milha ou uma fogueira na marca das cinco milhas. 
Assim saberemos que cada patrulha completou sua misso e seremos avisados se alguma delas no completar.
    Ragnor resmungou.
    -  Seus planos so muito bons, Wulfgar, como se sempre soubesse que seria senhor de terras.
    Wulfgar ergueu as sobrancelhas e no disse nada. Comearam a falar sobre outras coisas. Aislinn os observava, notando as diferenas entre os dois. Ragnor era 
arrogante e superior, e exigia lealdade
    absoluta de seus homens. Wulfgar era calmo e reservado. Comandava mais pelo exemplo do que pela fora, e simplesmente esperava que seus homens o seguissem. No 
questionava a sua lealdade, mas parecia saber que todos preferiam perder a vida a desapont-lo.

    Pensando nisso, Aislinn ergueu os olhos e, com uma exclamao abafada, levantou-se a meio na cadeira. No alto da escada estava sua me, exatamente como ela a 
conhecia h tantos anos, pequena, mas altiva e imponente. Maida estava vestida como a senhora do solar, com um xale cobrindo os cabelos e disfarando as equimoses 
do rosto. Desceu a escada com sua graa e seu porte naturais, e o corao de Aislinn se encheu de alegria e alvio. Sim, aquela era sua me.
    Wulfgar aprovou em silncio, mas Ragnor levantou-se com um berro e, antes que pudessem impedi-lo, correu para ela e agarrou-a pelos cabelos. O xale ficou em 
suas mos, e Maida caiu com um grito, outra vez com aquele sorriso idiota nos lbios. Era doloroso para Aislinn ver a me desaparecer, sendo substituda pela velha 
bruxa, que agora, toda encolhida aos ps de Ragnor, implorava por misericrdia como uma ladra vulgar que tivesse roubado a roupa que vestia. Com um soluo, Aislinn 
abaixou a cabea, ouvindo as splicas chorosas da me.
    Ragnor ergueu o punho fechado para a mulher.
    -  Como se atreve a vestir essas roupas e se pavonear na frente de seus senhores como uma dama da corte? Sua porca sax. No vai ganhar nada com isso, pois logo 
os lobos estaro comendo seus ossos secos!
    Ragnor inclinou-se para segur-la, mas Wulfgar deu um soco na mesa.
    -  Pare! - ordenou ele - No faa nenhum mal  mulher, pois ela est vestida assim por minha ordem.
    Ragnor olhou para ele.
    -  Wulfgar, agora voc est passando dos limites! Voc est pondo esta bruxa velha acima de ns. Guilherme costuma afastar todos os senhores de terras que resistem 
e substitu-los por gente nossa, nossos heris que tomaram as terras para ele. Voc se apossa da minha recompensa e pe esta mulher acima dos outros saxes idiotas 
e...
    -  No deixe que a ira ofusque sua viso, Ragnor - disse Wulfgar. - Pois at voc pode ver que esses pobres infelizes no suportam mais ver sua antiga senhora 
reduzida a uma escrava e comendo com os ces. Por ela, so capazes de empunhar armas e nos atacar outra vez. E ento teremos de mat-los, e s sobraro velhos e 
crianas para nos servir. Voc acha que ns, os soldados do duque, devemos arar os campos e ordenhar as cabras? Ou devemos deixar a esses saxes um pouco de orgulho 
para amenizar seus temores e fazer com que trabalhem para ns at tomarmos posse das terras, quando ento ser tarde demais para se levantarem contra ns? No lhes 
concedo nada, mas eles diro que isto  muito mais. No fim, pagaro os impostos e ser a minha vez de ficar satisfeito. Nenhum mrtir jamais sofreu com conforto. 
Nenhum santo morreu no meio de sedas e ouro. Isto no passa de um gesto de efeito. Ela  ainda a senhora deles. Ningum precisa saber que obedece apenas  minha 
vontade. Ragnor balanou a cabea.
    -  Wulfgar, no tenho dvida de que, se Guilherme algum dia for vencido, voc vai aparecer como o irmo h muito tempo desaparecido e tomar a coroa. Mas guarde 
bem as minhas palavras - sorriu com maldade. - Se voc errar algum dia, eu rezo para ser testemunha do seu erro, e minhas mos empunharo o machado que h de separar 
seu corao bastardo desses lbios que cantam canes de honestidade e atraem os bons para um fim cruel.
    Com uma mesura irnica, ele saiu da sala, e, quando a porta bateu atrs dele, Aislinn correu para a me. Procurou acalm-la, pois a pobre mulher, enrodilhada 
no cho, chorava confusa, sem saber que seu algoz j tinha sado. Aislinn passou o brao pelos ombros dela e, aconchegando a cabea da me contra o peito, comeou 
a acalent-la, murmurando suavemente com os lbios em seus cabelos.
    De repente, notou que Wulfgar estava de p ao lado delas, olhando para Maida com uma expresso quase de pena.
    -  Leve-a para o quarto e tome conta dela.
    Aislinn ergueu a cabea, irritada com o tom autoritrio, mas ele j caminhava para a porta. Acompanhou-o com os olhos por um momento, revoltada com o modo pelo 
qual ele usava seu orgulho e o de seu povo em benefcio prprio, mas depois voltou toda a ateno para a me e, ajudando-a a se levantar, subiu com ela a escada 
e levou-a para o quarto com toda a ternura do seu amor. Procurou acalm-la do melhor modo possvel, ajudou-a a se deitar e ficou acariciando os cabelos grisalhos 
at que os gemidos se transformassem em soluos e os soluos num sono agitado. Aislinn procurou arrumar um pouco a desordem causada pelos invasores no quarto agora 
silencioso.
    Quando abriu a janela para a brisa morna da manh, ouviu uma voz montona anunciando a execuo do castigo de vinte chicotadas. Olhou para fora e, com uma exclamao 
abafada, viu Kerwick com o peito nu, amarrado  estrutura de madeira no centro da praa, e Wulfgar ao lado dele, sem o elmo, os guantes e a cota de malha, que estavam 
dependurados na espada, enterrada no cho. Assim desarmado, mas como o senhor, preparava-se para aplicar o castigo. Segurava com o brao estendido a corda grossa, 
destranada at trs teros de seu comprimento para formar trs pontas, cada uma terminada por um n. Quando acabou a leitura da sentena, a brisa parou tambm, 
e a cena imobilizou-se por um momento. Ento, Wulfgar levantou e abaixou o brao, a corda sibilou no ar e Kerwick estremeceu convulsivamente. Do grupo de pessoas 
reunidas na praa ergueu-se um gemido surdo e longo, e o brao de Wulfgar subiu e desceu novamente. Dessa vez o gemido partiu dos lbios de Kerwick. O terceiro golpe 
ele suportou em silncio, mas no golpe seguinte, com as costas em brasa, ele gritou. Na dcima chicotada, seus gritos se transformaram em gemidos entrecortados, 
e na dcima quinta ele apenas estremeceu contra as cordas que o prendiam. Quando foi desferida a vigsima chicotada, um suspiro de alvio subiu do povo, e Aislinn 
afastou-se da janela, soluando, atordoada, como se tivesse ficado sem respirar durante todo aquele tempo. Os soluos se transformaram em exclamaes de revolta, 
e ela saiu do quarto, as lgrimas descendo pelo rosto, e abriu a pesada porta do solar. Aproximou-se de Kerwick, partilhando seu tormento, mas ele estava desacordado, 
amarrado ainda. Aislinn olhou para Wulfgar, frustrada e furiosa.
    -  Ento, tirou este pobre homem do meio dos ces para satisfazer seu capricho em suas costas desprotegidas! - exclamou ela. - No bastou roubar suas terras 
e fazer dele seu escravo?
    Wulfgar jogara o chicote no cho, depois do ltimo golpe, e limpava o sangue de Kerwick de suas mos. Disse, com voz rigidamente controlada:
    -  Mulher, este tolo tentou me matar no meio dos meus homens. Eu disse que seu destino estava traado e que voc nada podia fazer a respeito.
    -  Ser o senhor to poderoso-disse ela com sarcasmo-que se vinga com as prprias mos desse homem que viu sua prometida maltratada e humilhada?
    Irritado, Wulfgar deu um passo para ela e disse com severidade:
    -  Foi o meu corao que ele tentou apunhalar. Assim, meu brao deve castigar suas costas com os golpes da justia.
    Aislinn ergueu o queixo e abriu a boca para falar, mas Wulfgar continuou:
    -  Olhe para eles! - estendeu o brao na direo do povo na praa. - Agora sabem que qualquer tolice ser castigada pela mesma justia e que o chicote pode atingir 
suas costas como atingiu as dele. Portanto, no me aborrea com essas alegaes de inocncia, Aislinn de Darkenwald, pois foi sua culpa tambm. E voc, que escondeu 
a verdade, merece sofrer com o sofrimento dele. - Os olhos cinzentos estavam fixos nela. - D graas por suas costas delicadas no serem expostas ao mesmo castigo. 
Mas com isto fica sabendo que minha mo no se conter para sempre.
    Wulfgar voltou-se para seus homens.
    -  Agora tosem este tolo e depois deixem que seus companheiros salguem seus ferimentos e aliviem a dor. Sim, tosem todos eles para que adotem a moda normanda 
nesta temporada.
    Aislinn, confusa, s compreendeu quando os homens cortaram o cabelo de Kerwick e rasparam sua barba. Um murmrio ergueu-se do povo, e alguns homens tentaram 
fugir, mas foram impedidos pelos normandos e um a um levados para o meio da praa, onde compartilharam a ltima parte do castigo de Kerwick. Muitos levantavam-se 
embaraados, passando a mo nos queixos nus e rosados e no cabelo curto, e escondiam-se dos olhos do povo, pois agora levavam a marca dos normandos e tinham perdido 
a glria dos saxes.
    Furiosa, Aislinn entrou no solar, foi at o antigo quarto dos pais e apanhou uma tesoura. Soltou os cabelos e, quando ergueu a mo para cort-los, a porta foi
aberta violentamente. Um golpe rpido e pesado atingiu seu pulso e a tesoura voou para longe. Com uma exclamao abafada, sentiu a mo em seu ombro, obrigando-a
a se voltar. O olhar frio extinguiu sua fria.
    -  Est me submetendo a uma dura prova, jovem - rosnou Wulfgar. - E vou avisar. Para cada mecha de cabelo que cortar receber uma chicotada nas costas!
    Sentindo os joelhos fracos, Aislinn estremeceu de medo, pois ento no imaginara at onde a ira dele podia chegar. Sua revolta desaparecia comparada com aquela
fria; segura pelas mos fortes, compreendeu a bobagem que ia fazer e s conseguiu murmurar, timidamente:
    -  Sim, senhor, eu cedo. Por favor, est me machucando.
    O olhar de Wulfgar se abrandou e ele a abraou, apertando-a contra o peito. Murmurou com voz rouca.
    -  Ento, ceda completamente, damoiselle. Conceda-me tudo. Por um longo momento, ele a beijou apaixonadamente, e mesmo
    naquele rude abrao ela sentia um calor relaxante invadir seu corpo, naquela luta silenciosa de duas vontades.
    Wulfgar finalmente tirou os lbios dos dela, e Aislinn viu nos olhos dele uma expresso estranha e misteriosa. Ento ela foi atirada para cima da cama. Com passos 
largos, ele foi at a porta, voltou-se e olhou para ela, agora com desaprovao.
    -  Mulheres! - resmungou, saindo do quarto e batendo a porta. Aislinn sentia-se completamente confusa, revoltada com apropria
    reao. Sua mente girava num torvelinho. Que homem era aquele que ela podia odiar to intensamente e ao mesmo tempo sentir prazer no seu abrao? Seus lbios 
correspondiam aos dele, contra a sua vontade, e seu corpo cedia quase feliz  sua fora.
    Wulfgar saiu da casa e gritou uma ordem para seus homens. Sweyn aproximou-se correndo com seu peitoral e seu elmo.
    -  A jovem  fogosa - observou o viking.
    -  Sim, mas vai aprender-disse Wulfgar, laconicamente.
    -  Os homens esto apostando qual dos dois vai ser domado - disse Sweyn, falando lentamente. - Alguns dizem que  o lobo quem vai perder as presas.
    Wulfgar olhou para ele.
    -   mesmo?
    Sweyn balanou a cabea afirmativamente, ajudando-o a pr o peitoral.
    -  Eles no compreendem o seu dio pelas mulheres como eu compreendo.
    Wulfgar riu, pondo a mo no ombro do amigo.
    -  Deixe que faam as apostas, se isso os diverte. Voc e eu sabemos que qualquer mulher  engolida antes de encostar a mo na boca do lobo.
    Erguendo a cabea, Wulfgar olhou para o horizonte distante.
    -  Vamos agora. Desejo muito conhecer esta minha terra prometida.
    O solar estava silencioso, com poucos homens de Wulfgar de guarda. Aislinn sentia-se quase  vontade, sem a vigilncia de tantos olhos. Continuou a tratar os 
feridos. Wulfgar dera ordens para que seus homens a deixassem sair, e ela passou a maior parte do dia nessa tarefa. No fim da tarde, j havia cauterizado e medicado 
quase todos, o que era um alvio, pois o cheiro da carne queimada e os ferimentos abertos revoltavam seu estmago. Durante todo o tempo pensava em Kerwick, imaginando 
para onde o teriam levado. S muito mais tarde soube a resposta. Dois servos carregaram-no para o saio e deitaram-no cuidadosamente entre os ces. Os animais o 
rodearam inquietos, ganindo e esticando as correias que os prendiam, e Aislinn, furiosa, os afastou.
    -  Por que o deixam a? - perguntou ela para os camponeses, quase no reconhecendo os dois homens com o cabelo cortado e o rosto sem barba. Eram nativos da cidade 
e vinte anos mais velhos do que ela.
    -  Ordens de Lorde Wulfgar, senhora. Assim que tivesse salgados seus ferimentos e recobrasse os sentidos, devamos traz-lo para o meio dos ces.
    -  Seus olhos talvez os enganem-disse ela, zangada, indicando com um gesto Kerwick ainda desacordado.
    -  Senhora, ele desmaiou a caminho daqui. Dispensando-os com um gesto impaciente, Aislinn ajoelhou ao
    lado do noivo, com os olhos cheios de lgrimas.
    -  Oh, Kerwick, quanto mais ter de sofrer por minha causa? Lembrando com assustadora clareza da advertncia de Wulfgar,
    de que ela no estava livre do mesmo castigo, Aislinn examinou as costas de Kerwick, com uma nova sensao de medo.
    Ham aproximou-se com ervas e gua, lgrimas ainda descendo pelo rosto. Com o cabelo cortado, parecia mais jovem ainda. Ajoelhou ao lado dela e entregou os medicamentos, 
olhando com tristeza para as costas castigadas de Kerwick. Enquanto preparava o blsamo, Aislinn ergueu a cabea para afastar o cabelo do rosto e viu a expresso 
tristonha de Ham. O rapaz abaixou a cabea, constrangido.
    -  Lorde Kerwick sempre foi bom para mim, senhora - murmurou -, e eles me obrigaram a assistir a isto, sem poder fazer nada para ajud-lo.
    Inclinando-se para frente, Aislinn comeou a aplicar o blsamo nas costas de Kerwick,
    -  No havia nada que qualquer homem ingls pudesse fazer. Foi um aviso para todos ns. A justia deles ser rpida e rigorosa. Certamente mataro quem tentar 
a mesma coisa outra vez.
    O rosto do jovem se crispou de raiva.
    -  Ento dois pagaro com a vida- O que assassinou seu pai e Wulfgar, que a desonrou e fez isto com Lorde Kerwick.
    -  No pense em loucuras - advertiu Aislinn.
    -  A vingana ser doce, senhora.
    -  No! No deve pensar nisso! -exclamou Aislinn, preocupada. - Meu pai morreu como um heri, lutando e empunhando sua espada. Levou muitos com ele. Sim, as 
canes sobre sua bravura sero cantadas at muito depois de os invasores deixarem nossa terra. Quanto a Kerwick, seu castigo foi pequeno, pois o ato que praticou 
sem dvida merecia a morte. No foi Wulfgar quem me desonrou, mas o outro, Ragnor. Isso sim pede vingana. Mas escute bem o que vou dizer, Ham. A vingana  minha, 
e o sangue desse homem me pertence - deu de ombros, e falou com mais sensatez: - Mas fomos vencidos numa luta justa, e durante algum tempo devemos ceder aos vitoriosos. 
No devemos pensar nas perdas de ontem, mas na vitria do futuro. Agora v, Ham, e no arrisque sua vida por um ato de loucura.
    Ham abriu a boca para dizer alguma coisa, mas apenas fez uma mesura e saiu da sala. Aislinn voltou ao trabalho e viu que Kerwick a observava com seus olhos azuis.
    -  Loucura? Um ato de loucura? Foi a sua honra que eu queria salvar-tentou se mover, mas estremeceu de dor e ficou imvel.
    Chocada com tanta amargura, Aislinn no encontrou palavras para se defender.
    -  Voc procura a vingana de modo muito estranho. Quase com alegria foi para o quarto dele, e sem dvida procura mat-lo abrindo as pernas para ele. Maldio. 
Maldio! - gemeu ele. - Seu juramento no significa nada? Voc  minha! Minha prometida! - tentou se mover outra vez, mas, com um gemido, tornou a deitar-se.
    -  Oh, Kerwick - disse Aislinn, ternamente. - Escute o que vou dizer. Fique quieto - segurou-o para que no tentasse se levantar outra vez. - O remdio logo 
aliviar a dor dos ferimentos, mas temo que no exista medicamento para a mgoa que ouo em suas palavras. Eu fui violentada. Escute minhas palavras e procure se 
acalmar. Esses homens so cavaleiros protegidos por suas cotas de malha, e voc nada pode fazer contra eles agora, sem a sua espada. Para que sua cabea no role 
no cho, eu peo, no procure usar a arma dos covardes. Sabe que o julgamento deles ser rigoroso, e no quero v-lo decapitado pela pouca honra que me resta. Nosso 
povo precisa de uma voz que faa justia, e no quero deix-lo sem um defensor. Escute bem. No me obrigue a abrir outro tmulo ao lado do de meu pai, nem o obrigarei 
a aceitar uma noiva desonrada. Cumpro o meu dever onde eu acho que ele est agora. Devo aos homens que foram fiis ao meu pai e que o protegeram at o Fim. Se eu 
puder aliviar suas vidas, por pouco que seja, terei feito alguma coisa boa. Portanto, no me julgue com muita severidade, Kerwick, eu imploro. Kerwick soluava tristemente.
    -  Eu a amei! Como pode deixar que outro homem a tenha nos braos? Sabe que eu a desejava como um homem deseja a mulher a quem ama, mas s podia possu-la nos 
meus sonhos. Voc me pediu para no desonr-la antes do casamento e, como um tolo, eu concordei. Agora, voc escolheu seu amante como se o conhecesse h muito tempo. 
Como desejo agora ter possudo voc como queria. Talvez, assim, eu pudesse tir-la da minha mente. Mas agora s posso imaginar os prazeres que voc concede ao meu 
inimigo.
    -  Imploro seu perdo-murmurou Aislinn, suavemente. - Eu no sabia que ia mago-lo tanto.
    Sem poder suportar a atitude dela, Kerwick encostou o rosto na palha e soluou desesperadamente. Aislinn levantou-se e se afastou, sabendo que no podia fazer 
nada mais para aliviar tanta dor, nem das costas dele nem de sua mente. Com a vontade de Deus e talvez com o tempo ele conseguisse fazer o que ela no podia.
    Aislinn olhou para a porta e viu Wulfgar de p, com os ps afastados, segurando as luvas de ferro, observando-a. Ela corou intensamente e perguntou-se o quanto 
ele teria ouvido, mas logo lembrou que o normando no entendia sua lngua.
    Aislinn subiu a escada, sob o olhar intenso de Wulfgar, e s se sentiu segura quando entrou no quarto e fechou a porta. Com um soluo, atirou-se na cama para 
chorar, como se todo o sofrimento do mundo estivesse sobre seus ombros. Kerwick podia no compreendo sua escolha do senhor normando. Para ele, Aislinn era uma mulher 
sem moral que se humilhava aos ps do bastardo e entregava a ele si sorte para fugir a maiores sofrimentos. Chorou lembrando do normando, de seu desdm, e bateu 
com as mos desesperadamente nas peles que cobriam a cama, odiando-o com todo o seu ser.
    "Ele pensa que estou aqui para satisfazer seus caprichos", pensou furiosa. "Mas o lobo tem muito que aprender, pois no me possui ainda e jamais possuir, no 
enquanto eu puder sobrepujar sua lgica normanda. Antes disso, ele estar domado."
    Absorta nesses pensamentos, no ouviu a porta do quarto se abrir e fechar, mas virou-se sobressaltada quando Wulfgar disse:
    -  Parece disposta a encher o canal com suas lgrimas.
    Aislinn levantou-se rapidamente da cama e olhou para ele, ajeitando o cabelo despenteado. Seus olhos estavam vermelhos, e o rosto corado de revolta por ter sido 
surpreendida naquele estado.
    -  Meus problemas so muitos, Lorde Wulfgar, mas a maioria parece vir do senhor - disse com ironia. - Meu pai morto, minha me tratada como uma escrava, minha 
casa saqueada e minha honra brutalmente roubada. No acha que tenho motivos para chorar?
    Wulfgar sorriu. Sentou de frente para ela, batendo com a luva na perna, enquanto a observava.
    - Concordo que tem motivo para lgrimas. Pode chorar livremente e no precisa ter medo de mim. Na verdade, neste momento eu a considero mais forte do que a maioria 
das mulheres. Voc suporta muito bem o sofrimento - riu de leve. - Na verdade, o sofrimento parece combinar com voc.-Levantou, aproximou-se dela, e Aislinn ergueu 
os olhos. - Pois, para ser sincero, pequena megera, fica mais bela a cada minuto. - Continuou com expresso severa: - Mas mesmo uma bela mulher deve conhecer seu 
senhor. - Jogou as luvas no cho. - Apanhe minhas luvas e, quando fizer isso, compreenda que voc me pertence. Como essas luvas, voc no pertence a mais ningum.
    Os olhos cor de violeta de Aislinn cintilaram de revolta.
    -  No sou uma escrava - disse, com altivez -, nem uma luva, para ser usada e jogada de lado sem mais nem menos.
    Ele ergueu as sobrancelhas e sorriu com ironia. Mas os olhos continuavam frios como ao, demolindo a fortaleza da vontade dela.
    -  No pode ser, damoiselle? Eu posso fazer com que seja. Sim, eu posso. Posso possu-la neste momento, saciar-me com seu corpo e ir embora sem sequer olhar 
para trs. Est se julgando muito mais do que . pois na verdade no passa de uma escrava.
    -  No, senhor - disse Aislinn, com voz baixa e decidida, que abalou a certeza dele. - Uma escrava abdicou da escolha de viver ou morrer e no tem outro caminho 
seno a obedincia. Se eu chegar a esse ponto, no hesitarei em procurar esse refgio.
    Wulfgar estendeu o brao e, com a mo sob o queixo dela, puxou-a para si. Seus olhos suavizaram-se, e ele franziu a testa por um momento, percebendo a resistncia 
passiva da jovem.
    -  Sim - murmurou ele, em voz baixa -, acho que voc no  escrava de nenhum homem - retirou a mo e virou de costas. - Mas no me pressione, damoiselle - virou 
a cabea e olhou para ela -, pois do contrrio posso reconsiderar e provar que tenho razo.
    Aislinn corou sob a intensidade do olhar dele.
    -  E ento, senhor, o que acontece? - perguntou ela. - Serei apenas outra mulher para satisfazer seus caprichos e ser posta de lado como um par de luvas usadas? 
Nenhuma mulher virtuosa o impressionou e deixou alguma lembrana em sua mente?
    Wulfgar riu.
    -  Oh, elas procuram me encantar, mas eu as evito, e nenhuma permaneceu em minha lembrana por muito tempo.
    Aislinn sentiu que a vitria estava prxima e ergueu as sobrancelhas, imitando a expresso dele.
    -  Nem mesmo sua me? - zombou ela, certa de ter marcado um tento.
    Mas ento estremeceu de medo. O rosto dele se crispou, os olhos dardejaram furiosos. Wulfgar tremia de raiva, e Aislinn pensou que ia ser fisicamente castigada.
    -  No - rosnou ele, com os dentes cerrados. - Menos do que todas, aquela nobre dama!
    E com passos largos, saiu do quarto, deixando Aislinn confusa. A transformao foi to brusca que evidentemente no havia nenhum amor pela me no corao do 
filho bastardo.
   Captulo Cinco
    
    
    Wulfgar SAIU DA sala com passos decididos e atravessou o ptio, com o rosto virado para o sol poente, procurando acalmar sua ira. Ouviu-se um grito e um brao 
se estendeu apontando. Wulfgar olhou na direo indicada e viu uma nuvem de fumaa negra erguendo-se atrs de uma colina.  sua voz de comando, um grupo de homens 
montou rapidamente e acompanhou Sweyn e Wulfgar. Os grandes animais partiram no fim de tarde de outono, na direo da fumaa.
    Quando chegaram ao topo da colina, desceram rapidamente a encosta, rumo a uma enorme pilha de palha e a um pequeno barraco que ardiam em chamas. A cena irritou 
Wulfgar. Viram seis ou sete homens mortos no cho, entre eles os que ele enviara para montar guarda. Os outros eram normandos, mortos pelas flechas dos pequenos 
proprietrios rurais. Quando se aproximaram da cabana, viram uma jovem brutalmente usada e morta, semicoberta pelo que restava de seu vestido. Uma mulher idosa, 
ferida e suja de fuligem, arrastou-se para fora de uma vala e caiu de joelhos, soluando, ao lado do corpo da moa. Uns doze homens provavelmente tinham conseguido 
fugir, mas o que chamou a ateno de Wulfgar foram seis cavaleiros que desapareciam entre as moitas, na outra extremidade do campo. Mandou que seus homens partissem 
em perseguio dos que estavam ainda no campo e com Sweyn saiu no encalo dos seis cavaleiros. Suas montarias, grandes e fortes, partiram num galope veloz, com os 
msculos retesando e relaxando a cada movimento.  medida que ganhavam terreno, Wulfgar desembainhou a espada e ergueu a voz num grito furioso de guerra, ecoado 
por Sweyn, que galopava logo atrs. Dois dos fugitivos voltaram-se para enfrent-los. Wulfgar virou um pouco a rdea do seu cavalo e passou ao lado deles, mas Sweyn 
atacou de frente, derrubando um com o impacto e golpeando o peito do outro com seu machado. Wulfgar olhou rapidamente para trs, viu que Sweyn no estava em perigo 
e voltou sua ateno para os quatro homens na sua frente. Os cavaleiros, vendo-se em maioria, pararam e prepararam-se para a luta. Outra vez soou o grito de guerra 
de Wulfgar, e seu cavalo, sem diminuir a marcha, lanou-se sobre os animais mais fracos. A espada e o escudo de Wulfgar cantavam com a fora dos golpes, e ento 
a lmina longa abriu, de um s golpe, um deles da cabea at os ombros, deixando-o morto na sela, e o cavalo afastou-se, atordoado. A fria da carga atirou homens 
e cavalos uns contra os outros. Obedecendo  presso dos joelhos de Wulfgar, Huno parou de repente e virou para a esquerda, duplicando a fora do golpe da lmina 
que girou no ar, atingiu com violncia o escudo de um dos adversrios e penetrou profundamente em seu pescoo. O homem soltou um grito gorgolejante, e Wulfgar, com 
a ponta do p, empurrou o corpo para trs, para libertar sua espada. O terceiro homem ergueu o brao para desfechar o golpe, e a espada de Wulfgar separou o brao 
armado do ombro do adversrio. A lmina voltou para acabar com seu sofrimento, e ele caiu sob as patas do animal. O ltimo, vendo os companheiros vencidos e mortos, 
voltou-se para fugir e foi apanhado nas costas pela lmina impiedosa. A fora do golpe o derrubou da sela.
    Quando Sweyn chegou para ajudar na luta, encontrou Wulfgar olhando a carnificina e limpando o sangue da espada. O viking coou a cabea e examinou os corpos 
pobremente vestidos, mas com armas e escudos de cavaleiros.
    -  Ladres?
    Wulfgar fez um gesto afirmativo e embainhou a espada.
    -  Sim, e ao que parece saquearam o campo de batalha de Hastings. - Com a ponta do p, virou um dos escudos que estava emborcado no cho, revelando o braso 
dos ingleses. - Os abutres no respeitaram nem os seus concidados.
    Os dois guerreiros reuniram os cavalos e amarraram os corpos neles. Voltaram assim para a cabana quando o sol desaparecia no
    horizonte. Ao cair da noite, enterraram os mortos, marcando as sepulturas com cruzes. Onze homens, no campo aberto, tinham se rendido sem luta. Dois ergueram 
as espadas e ganharam com isso um pequeno pedao de terra.
    Wulfgar deu um cavalo para a velha, pequeno pagamento pela perda da filha, mas ela aceitou, surpresa com a generosidade do novo senhor de Darkenwald.
    Os ladres foram postos em Fila e amarrados com uma nica corda passada por seus pescoos e as mos atadas nas costas. Quando o pequeno grupo iniciou a volta 
para Darkenwald, a lua surgiu no cu.
    Wulfgar desmontou na frente da manso, deu ordens aos seus homens para prender os ladres e designou alguns para montar guarda. Dispensou os outros e caminhou 
para o castelo. Assim que entrou, parou ao lado da porta, e, franzindo a testa, olhou para Kerwick, que dormia entre os ces. Atravessou a sala e serviu-se de uma 
boa dose de cerveja October. Com a caneca na mo, aproximou-se do saxo vencido. A bebida forte o aqueceu e o ajudou a relaxar, e Wulfgar sorriu, sem tirar os olhos 
de Kerwick.
    - Acho que voc admira muito as virtudes da jovem mulher, meu amigo ingls - murmurou ele. - O que ganhou com isso, a no ser sofrimento?
    O homem adormecido no o ouviu, e Wulfgar afastou-se na direo da escada, flexionando o brao que empunhara a espada com tanta fria algumas horas antes. Abriu 
a porta do quarto, iluminado apenas pela luz da lareira e por uma nica vela bruxuleante. Wulfgar sorriu, vendo a grande banheira de madeira cheia de gua morna 
e mais gua fervendo no caldeiro sobre o fogo. Uma poro de carne, queijo e po estava aquecendo na lareira. Pelo menos essa jovem Aislinn podia providenciar o 
seu conforto e, como sua escrava, aprenderia a obedecer. Olhou pensativo para a jovem que dormia enrodilhada na poltrona na frente do fogo e examinou o rosto perfeito. 
O cabelo, iluminado pelas chamas, parecia cobre derretido, e a pele era lisa e macia. Wulfgar parou por algum tempo, partilhando o sono da bela mulher. Os lbios 
de Aislinn estavam entreabertos, e o rosto corado com o calor do fogo. Os seios subiam e desciam sob o vestido, e por um momento todas as lembranas de outras mulheres 
desapareceram da mente de Wulfgar. Cautelosamente, inclinou-se, apanhou uma mecha dos cabelos dela e levou-a aos lbios, inalando o perfume fresco e limpo. Endireitou 
o corpo de repente, surpreendido com a excitao provocada por aquele ato. Com o movimento brusco, a bainha de sua espada bateu na poltrona. Aislinn acordou sobressaltada, 
mas quando o viu sorriu sonhadoramente.
    -  Meu senhor.
    Observando o movimento do corpo bem-feito, Wulfgar sentiu o sangue pulsar nas tmporas. Recuou e, apanhando o copo, tomou um grande gole de cerveja. Comeou 
a tirara armadura. De manh, Sweyn mandaria um pajem limpar as marcas da luta, lubrificar e polir o couro e os metais.
    Com uma tnica leve e os cales justos, Wulfgar apanhou outra vez o copo de chifre e voltou-se para Aislinn. Ela estava de novo enrodilhada na cadeira, observando 
os movimentos do corpo esguio e musculoso do guerreiro com uma certa admirao. Quando ele voltou a olhar para ela, Aislinn levantou-se e ps uma acha de lenha no 
fogo.
    -  Por que no foi se deitar ainda, damoiselle? - perguntou, secamente. - A noite est adiantada. Deseja alguma coisa de mim?
    -  Meu senhor ordenou um banho pronto para quando voltasse, e conservei a gua morna e seu jantar aquecido. No importa qual vem primeiro. Ambos o esperam.
    Wulfgar observou-a com ateno.
    -  No ficou preocupada com sua segurana quando parti? Confia tanto nos normandos?
    Aislinn olhou para ele e cruzou as mos na nuca.
    -  Ouvi dizer que enviou Ragnor numa misso e, como sou propriedade sua, seus homens mantm distncia. Devem ter muito medo do senhor.
    Wulfgar bufou, ignorando a provocao.
    -  Com a fome que estou, sou capaz de comer um javali assado. D-me comida para que possa tomar depois um banho com calma.
    Aislinn voltou-se para obedecer, e Wulfgar observou o movimento gracioso do corpo dela, lembrando muito bem de como o vira sem roupa. Quando a jovem passou por 
ele, para pr a comida na mesa, mais uma vez ele sentiu o perfume delicado de lavanda em maio. A vitria daquele dia elevou seu esprito, a cerveja aqueceu seu corpo 
e agora a proximidade dela e o perfume tantalizador agitavam seus sentidos como nunca antes. Aislinn voltou-se e viu o olhar perscrutador fixo nela. Mesmo  luz 
fraca da vela, Wulfgar notou que ela corava. Quando ele se aproximou, Aislinn recuou. O normando parou e olhou
    nos olhos cor de violeta. Ps a mo sobre um dos seios dela e sentiu o corao aos saltos.
    -  Posso ser to gentil quanto Ragnor-murmurou ele, com voz rouca.
    -  Meu senhor, ele no foi gentil - sussurrou ela, imvel, constrangida, sem saber se fugia ou lutava. A mo de Wulfgar no acariciou, mas ficou parada, como 
se ele estivesse muito cansado e o menor movimento exigisse suas ltimas foras. O polegar afagou a ponta do seio dela.
    -  O que tem a, minha jovem? - brincou ele. -  uma coisa que me interessa.
    Aislinn ergueu o queixo.
    -  Meu senhor, j fez esse jogo antes e no pode mais me enganar. No preciso descrever o que o senhor j conhece, pois me viu completamente despida e sabe muito 
bem o que h sob este vestido.
    -  Ah, fala com muita frieza, mulher. O fogo precisa aquecer seu sangue.
    -  Eu prefiro que esfrie um pouco o seu. A risada de Wulfgar ecoou no quarto.
    -  Oh, acho que encontrarei prazer aqui, na cama e fora dela. Aislinn empurrou as mos dele.
    -  Venha jantar, meu senhor. Sua comida vai esfriar.
    -  Voc fala como uma esposa, e ainda no  nem minha amante - zombou ele.
    -  Fui muito bem instruda sobre os deveres de esposa - replicou Aislinn. - No sobre os de amante. Os primeiros so mais naturais para mim.
    Wulfgar deu de ombros.
    - Pois ento considere-se minha mulher, se isso lhe agrada, pequena Aislinn.
    -  No posso fazer isso sem a bno de um sacerdote - respondeu ela, friamente.
    Wulfgar olhou para ela com um sorriso divertido.
    -  E poderia depois que o sacerdote pronunciasse algumas palavras?
    -  Poderia, meu senhor - disse ela, serenamente. - As jovens raramente podem escolher seus maridos. O senhor  como qualquer outro homem, com a diferena de 
ser normando.
    -  Mas disse que me odeia- zombou ele.
    Aislinn deu de ombros.
    -  Conheo muitas moas que odeiam os homens com quem se casaram.
    Wulfgar aproximou-se dela e observou-a com olhos atentos. Aislinn sentia o hlito momo no rosto e olhou para frente, ignorando-o.
    -  Homens velhos que precisam de ajuda para se deitar sobre as jovens com quem se casam - disse ele. - Diga a verdade. No so todos velhos e decrpitos, esses 
maridos odiados?
    -  No me lembro, senhor - respondeu ela.
    Com um riso suave, Wulfgar ergueu uma mecha de cabelos sobre o seio dela, tocando a pele de Aislinn levemente.
    -  Tenho certeza de que est lembrada, damoiselle. Nenhuma mulher se queixaria se tivesse um marido forte e jovem na cama, especialmente nas noites de inverno 
- murmurou. - Garanto que no ia se entediar.
    Aislinn olhou para ele com ar zombeteiro.
    -  Meu senhor, est pedindo minha mo? Wulfgar olhou para ela com as sobrancelhas erguidas.
    -  O qu? Passar a corrente no meu pescoo? Nunca! Ele recuou um passo, mas Aislinn o desafiou com os olhos.
    -  E o que me diz de seus filhos bastardos?-perguntou ela. - O que faz com eles?
    Ele rosnou.
    -  Por enquanto no tenho nenhum. - Olhou para ela com um sorriso zombeteiro. - Mas com voc pode ser diferente.
    Aislinn corou furiosamente.
    -  Agradeo o aviso - disse, com sarcasmo, no mais fria e controlada, mas ofendida. Ela o odiava porque aquele homem parecia se divertir com sua ira e sabia
como provoc-la.
    Wulfgar deu de ombros.
    -  Talvez voc seja estril. Aislinn respondeu furiosa:
    -  Tenho certeza de que isso o agradaria. No teria de se preocupar com bastardos. Mas seria errado do mesmo modo me tomar sem os ritos do matrimnio.
    Wulfgar riu e sentou  mesa.
    -  E voc, jovem casadoura.  obstinada demais. Se eu a tomasse para esposa, sem dvida ia querer amaciar minha mo e poupar seu
    povo. Sacrificar-se pelos camponeses e por sua famlia, um grande gesto. - Franziu a testa. - Mas no concordo com suas nobres intenes.
    -  O padre no veio hoje-disse ela, bruscamente, mudando de assunto, quando ele comeou a comer. - Esqueceu sua promessa de cham-lo para benzer as sepulturas?
    -  No - respondeu Wulfgar, mastigando. - Ele viajou no sei para onde, mas, quando voltar a Cregan, meus homens o traro aqui. Dentro de poucos dias, talvez. 
Tenha pacincia.
    -  Algumas pessoas viram a casa de Hilda em chamas. Provavelmente ladres. O senhor os apanhou?
    -  Sim. - Olhou atentamente para ela. - Duvidava que os apanhasse?
    Aislinn sustentou o olhar dele.
    -  No, senhor. J descobri que  um homem que consegue tudo que quer. - Virou para o lado. - O que vai fazer com eles?
    - Eles mataram a filha da mulher, e eu matei quatro deles. Meus homens mataram mais quatro. O resto jurou que no tomou parte no crime, mas  claro que todos 
se serviram dela. De manh, sero chicoteados e vo trabalhar no campo para pagar  velha mulher a vida da filha. Depois disso, sero propriedade minha, meus escravos.
    O corao de Aislinn estremeceu, no pelos homens, mas lembrando o chicote na mo do normando.
    -  A repetio tornar seu trabalho tedioso - murmurou ela.
    -  No vou aplicar o castigo. Os homens de sua cidade se encarregaro de puni-los, em nome da velha mulher.
    -  Vocs tm costumes estranhos - disse Aislinn, intrigada. Ele mastigou um pedao de carne e olhou demoradamente para
    ela. Constrangida, Aislinn procurou ocupar as mos.
    -  Os ladres voltaram para lutar?-perguntou, suavemente. - Geralmente so um bando de covardes. J estiveram aqui antes, atormentando meu pai.
    -  No, apenas aqueles que Sweyn e eu perseguimos. Aislinn olhou rapidamente para ele.
    -  E no foi ferido?
    Wulfgar recostou-se na cadeira com os olhos nos dela.
    -  No. Exceto isto. - Mostrou as palmas das mos. Aislinn deixou escapar uma exclamao abafada quando viu as bolhas enormes. - Os guantes so muito teis, 
damoiselle, fui um tolo em deix-los aqui.
    -  Deve ter brandido sua espada com muita fria.
    -  Sim, minha vida dependia disso.
    Quando ele se levantou e comeou a se despir para o banho, ela virou de costas, delicadamente. Embora fosse um costume antigo as mulheres ajudarem os visitantes 
no banho, seu pai jamais permitiu que ela fizesse isso, e Aislinn sabia o quanto ele desconfiava dos homens e de seus apetites.
    "Voc  uma jovem muito bonita", dissera Erland, certa vez, "e capaz de excitar um santo. No precisamos alimentar problemas que podem ser evitados."
    Assim, at a noite com Ragnor, Aislinn no conhecia nada sobre o corpo masculino.
    Quando estava apenas com a pequena tanga, Wulfgar chamou-a. Aislinn olhou para trs e viu que ele estava apontando para o curativo na perna. Apanhando a tesoura 
que ele tirara de suas mos, ela ajoelhou ao lado do normando e tirou o curativo. O ferimento estava em  processo de cicatrizao, e Aislinn recomendou cuidado para 
no  reabri-lo, olhando para o lado, at ouvi-lo entrar na banheira.
    -  No quer me acompanhar, damoiselle?
    Aislinn deu meia-volta bruscamente, com os olhos arregalados, e  perguntou, incrdula:
    -  Meu senhor?
    Wulfgar riu e ela compreendeu que ele estava apenas se divertindo, mas seus olhos a examinaram da cabea aos ps, com calorosa apreciao.
    -  Em outro momento, Aislinn... talvez quando nos conhecermos melhor - sorriu ele.
    Corando intensamente, Aislinn afastou-se para um canto escuro do quarto, de onde podia observar sem ser vista. Wulfgar olhou vrias vezes na direo dela, tentando 
enxergar atravs da sombra que envolvia.
    Finalmente ele terminou o banho e saiu da banheira. Aislinn ficou imvel, temendo despertar o desejo dele. Sem a roupa entre eles, uma coisa podia acontecer. 
Era mais prudente ficar longe do se alcance.
    Quando ele falou, Aislinn sobressaltou-se.
    -  Venha c, Aislinn.
    Um frio percorreu sua espinha. Hesitou, imaginando o que ele faria se fugisse, como na noite anterior. A porta no estava trancada. Talvez pudesse chegar at 
ela em tempo. Mas abandonou imediatamente essa idia. Caminhou para ele com as pernas fracas, como um condenado  morte caminha para o cadafalso. De p, na frente 
dele, sentiu-se pequena e indefesa. Sua cabea mal chegava ao queixo de Wulfgar, porm, a despeito do medo que a dominava, enfrentou o olhar do guerreiro. Wulfgar 
sorria zombeteiramente.
    -  Pensou que eu tinha me esquecido da corrente, minha senhora? No ouso confiar tanto assim em voc.
    Aliviada, Aislinn permitiu docilmente que ele lhe passasse a corrente em volta do tornozelo. Ento, sem outra palavra, ele trancou a porta, apagou a vela e se 
deitou na cama, deixando-a ali de p, confusa e agradecida. Finalmente, ela foi para os ps da cama, onde as peles de lobo estavam ainda estendidas no cho. Sentindo 
o olhar dele, Aislinn despiu a tnica, ficando s de angua e camisa, soltou o cabelo e comeou a escov-lo, intrigada com aquele homem que a tinha ao alcance das 
mos e no fazia nada. Olhou para a cama e viu Wulfgar apoiado num cotovelo, observando atentamente seus movimentos. Aislinn ficou paralisada, incapaz de se mover.
    -  A no ser que esteja preparada para me fazer companhia na cama esta noite, mulher - disse ele, com voz rouca -, sugiro que deixe sua toalete para amanh. 
Minha mente no est to cansada a ponto de esquecer os encantos escondidos sob essa roupa, e pouco me importaria voc querer ou no.
    Com um gesto de assentimento, Aislinn se deitou rapidamente e cobriu-se com as peles.
    Vrios dias se passaram sem mais qualquer evento desastroso, porm Aislinn no esqueceu as advertncias de Wulfgar, embora ele a tratasse mais como serva do 
que como amante. Ela costurava suas roupas, servia suas refeies e o ajudava a se vestir. Durante o dia ele parecia esquecer dela, ocupado com seus homens, organizando 
defesas para o caso de assalto de ladres ou de saxes leais. Chegou mensagem de Guilherme, informando que o exrcito estava detido por motivo de doena e que Wulfgar 
devia manter sua posio at a chegada de seu chefe. Wulfgar no fez qualquer comentrio, mas Aislinn, observando-o, teve a impresso de que ele recebeu a notcia 
com agrado. s vezes ela o observava, de longe. Wulfgar parecia sempre no controle de qualquer situao. A um servo humilde, que tentou impedir a entrada dos normandos 
em sua casa,  procura de armas, foi oferecida uma escolha. Ter sua casa queimada com ele dentro ou permitir a entrada dos soldados. O pobre homem percebeu logo 
a inteno dos normandos quando Wulfgar mandou acender uma tocha e imediatamente abriu as portas de sua pobre casa, onde eles encontraram vrias armas primitivas. 
Depois de intenso interrogatrio, o homem disse que as armas estavam ali antes da chegada dos conquistadores e que no sabia de nenhuma conspirao entre servos 
para derrubar o novo senhor.
    Quando a porta do quarto era trancada e os dois ficavam a ss,| Wulfgar no tirava os olhos dela, e Aislinn sentia que estava andando sobre gelo muito fino. 
As mos dela tremiam sob a intensidade do olhar do normando. Todas as noites ela percebia que Wulfgar ficava acordado, na cama, um longo tempo.
    Certa noite, Aislinn acordou tremendo de frio e levantou-se  atiar o fogo, mas a corrente no seu tornozelo no permitia que chegasse at a lareira. Parou, indecisa, 
transida de frio, com os brao em volta do corpo, pensando num meio de se aquecer. Voltou-se notando movimento atrs dela. Wulfgar ps as pernas para fora cama. 
O corpo nu era apenas uma sombra no escuro.
    -  Est com frio? - perguntou ele.
    A resposta foi uma inclinao de cabea, e os dentes batendo  nos outros. Wulfgar apanhou uma coberta de pele da cama e envolveu-a nela. Depois, foi at a lareira 
e ps algumas achas de lenha no fogo. Esperou que as chamas se erguessem brilhantes e, voltando  Aislinn, soltou a corrente que a prendia e olhou-a nos olhos. A 
luz i fogo desenhava seu perfil.
    -  Voc me d sua palavra de que no vai tentar fugir? Aislinn fez um gesto afirmativo.
    -  Para onde mais posso ir?
    -  Ento, est livre.
    Com um sorriso de gratido, ela disse:
    -  No gostei de ficar acorrentada.
    -  Eu tambm no gostaria - respondeu ele, voltando para cama.
    Depois disso, Aislinn passou a ter maior liberdade de movimentos. Podia andar pela cidade sem ser seguida. Parecia que jamais algum fora to bem guardado quanto 
ela. Porm, no dia em que Ragnor voltou e aproximou-se dela, no ptio, Aislinn verificou que ainda a observavam. Dois homens de Wulfgar estavam ostensivamente por 
perto.
    -  Ele a guarda muito bem e me envia em misses distantes - resmungou Ragnor, olhando em volta. - Deve ter medo de perd-la.
    Aislinn sorriu.
    -  Ou talvez, Sir Ragnor, ele o conhea muito bem. Zangado, ele disse:
    -  Parece muito satisfeita. Ento, seu senhor  um grande amante? No tenho essa impresso. Acho que ele prefere rapazes bonitinhos a belas mulheres.
    Aislinn arregalou os olhos com fingida inocncia e zombaria.
    -  Mas, senhor, com certeza est brincando! Ele  o homem mais forte que j vi. - Ragnor apertou os lbios, e Aislinn continuou, divertindo-se com a brincadeira: 
- Ser que posso admitir que ele me encanta?
    Com o rosto inexpressivo, Ragnor disse:
    -  Ele no  bonito.
    -  Oh? - era uma pergunta. - Eu o acho bonito. Mas, afinal, isso tem pouco a ver com o resto, no  mesmo?
    -  Est caoando de mim - disse Ragnor, desconfiado. Aislinn fingiu simpatia.
    -  Oh, senhor. No estou, juro que  verdade. Est dizendo que meus sentimentos so falsos? Ou que no posso amar algum que me trata com gentileza e aquece 
todo meu ser com as mais doces palavras?
    -  Ento, o que v nele? - perguntou Ragnor. - No posso imaginar.
    Aislinn deu de ombros.
    -  Ora, senhor, sei que seu tempo  precioso e no posso torn-lo durante horas para explicar como uma mulher reconhece seu verdadeiro senhor e as coisas mais 
ntimas e profundas que, partilhadas, os unem um ao outro. Ora, no posso nem comear a explicar...
    Um tropel de cavalos quebrou a paz da cidade e, voltando-se, eles viram Wulfgar e seus homens aproximando-se do castelo. Com a testa franzida, o grande normando 
parou sua montaria ao lado dos dois. Desmontou, deu as rdeas ao seu cavaleiro, Gowain e, depois de ver seus homens seguindo para o estbulo, disse:
    -  Voltou cedo.
    -  Sim - respondeu Ragnor -, patrulhei o norte, como me mandou, mas sem resultado. Os ingleses se trancaram em casa para  no serem espionados. No posso imaginar 
o que eles fazem entre as quatro paredes. Talvez se divirtam com suas mulheres, como voc parece estar se divertindo com esta jovem.
    Wulfgar olhou rapidamente para Aislinn, e ela corou.
    -  A jovem diz que voc  muito bom no jogo - disse Ragnor, olhando para o bastardo com uma sobrancelha erguida.
    Wulfgar sorriu tranqilo.
    -  Diz mesmo? - Ps a mo casualmente no ombro de Aislinn e acariciou-lhe a nuca, sentindo-a ficar rgida ao seu contato. Sempre sorrindo, disse: - Ela tambm 
me agrada bastante.
    -  Eu digo que ela mente - desafiou Ragnor. Wulfgar riu, divertido.
    -  Porque lutou contra voc. Como qualquer jovem, ela responde melhor a um toque delicado.
    Ragnor disse, com desprezo:
    -  Wulfgar, ela no se parece nem um pouco com um rapazinho. Estive pensando se voc no a tomou por um garoto.
    Aislinn sentiu a ira de Wulfgar nos dedos que enrijeceram em seu ombro, mas ele falou calmamente, com perfeito controle.
    -  Fala sem pensar, meu amigo. No imaginei que desejava esta jovem  custa de sua vida. Mas eu o perdo, reconhecendo que ela  capaz de transtornar qualquer 
homem. No seu lugar eu tambm me sentiria assim. - A mo desceu para a cintura de Aislinn, e Wulfgar puxou-a para si. - Acho melhor voc procurar Hlynn. De manh 
vai partir e passar para o comando do duque. No vai ter muito tempo para mulheres.
    Sempre com a mo na cintura de Aislinn, Wulfgar voltou-se e caminhou para o castelo. Kerwick, acorrentado entre os ces, ergueu os olhos com fria e cimes quando 
o normando acariciou o traseiro de Aislinn, antes de deix-la ir. Atento  mo de Wulfgar, o jovem no viu o olhar irado de Aislinn e o sorriso zombeteiro do normando. 
Aislinn subiu a escada, chamando Hlynn e mandando-a apanhar gua. Wulfgar observou-a, at ela entrar no quarto, e ento voltou-se para Kerwick.
    -  Pequeno saxo, se falasse a minha lngua, eu o congratularia por seu bom gosto. Mas voc e de Marte no so prudentes, desejando a jovem desse modo. Ela partiu 
seus coraes e os jogou fora. Logo aprender a no confiar nas mulheres como eu no confio. - Ergueu um copo de cerveja, como que brindando o homem acorrentado. 
-
    Mulheres. Devem ser usadas. Acariciadas. Deixadas. Mas jamais as ame, meu amigo, Aprendi isso quando era muito pequeno.
    De p, na frente da lareira, Wulfgar terminou de tomar a cerveja, olhando pensativamente para o fogo. Depois, voltou-se e subiu a escada. Com surpresa, viu que 
o quarto estava vazio. Furioso, imaginou o que aquela mulher pretendia fazer agora. Podia compreender que ela quisesse se vingar de Ragnor, mas no permitiria que 
o fizesse tambm alvo de sua vingana. Com passos decididos, foi at o quarto cedido para a me dela e abriu a porta, sem bater. Sobressaltada, Aislinn cruzou os 
braos sobre os seios nus e Hlynn deu um salto, derrubando o balde com gua com o qual preparava o banho de sua ama. A criada recuou assustada quando Wulfgar se 
adiantou e ficou de p, ao lado da banheira, olhando para Aislinn, rubra de clera.
    -  Importa-se, senhor? - disse ela, entre os dentes cerrados. Ele sorriu, e ela corou intensamente sob o olhar perscrutador.
    -  No, no me importo, damoiselle.
    Aislinn sentou na banheira, espirrando gua por todos os lados, e olhou para ele com desprezo, execrando sua atitude casual, que sem dvida dava a Hlynn a certeza 
de que eram amantes.
    Wulfgar apontou para a criada.
    -  Acho que Ragnor est  procura dela.
    -  Eu preciso dela - respondeu Aislinn secamente. - Como pode ver muito bem.
    -  Estranho-zombou Wulfgar, com os olhos nos seios dela. - Pensei que tomasse banho de manh, quando no estou em casa.
    -  Geralmente  o que eu fao. Mas com tanto aperto extra, achei que precisava me lavar.
    Rindo, Wulfgar passou a mo na nuca.
    -  Diga-me, damoiselle,  porque no suporta a idia de Ragnor dormir com outra mulher que mantm esta jovem aqui?
    Com um olhar assassino, ela respondeu:
    -  De Marte pode se divertir com qualquer cortes normanda, mas Hlynn no est acostumada ao modo primitivo com que vocs se apossam das mulheres. Ele a machuca, 
e, se o senhor tivesse alguma compaixo na alma, no a entregaria livremente a ele.
    -  No me interesso por assuntos de mulher. - Wulfgar deu de ombros, estendendo a mo para um anel cor de cobre que pendia do farto cabelo preso no alto da cabea 
de Aislinn.
    -  Eu sei - retrucou ela secamente. - Procura me diminuir aos olhos do meu noivo com suas carcias inconvenientes. Se ele estivesse livre, nunca me trataria 
desse modo.
    Ele riu, agachando-se ao lado da banheira.
    -  Devo libert-lo, damoiselle'? Acho, porm, que o pequeno saxo gosta mais de voc do que voc dele.
    Olhou para Hlynn, encolhida num canto, bem longe dele. Depois, perguntou, com impacincia:
    -  Ser que ela precisa ficar to assustada? Diga que  sua patroa que eu quero na minha cama, no ela.
    Aislinn olhou para a jovem trmula.
    -  Meu senhor no lhe far mal, Hlynn - disse, em ingls. - Talvez eu possa convenc-lo at mesmo a dar a voc sua proteo. Acalme seus temores.
    A jovem loura sentou-se no cho, temerosa ainda do normando, confiando em que, se algum podia salv-la, era Aislinn.
    -  O que disse a ela? - perguntou Wulfgar.
    Aislinn ficou de p na banheira e apanhou uma toalha, sentindo os olhos vidos do normando em seu corpo. Saiu do banho e ficou ao lado dele, enrolada na toalha.
    -  Eu disse que o senhor no vai fazer mal a ela - respondeu Aislinn. - Exatamente o que me mandou dizer.
    -  Se eu entendesse sua lngua, poderia ter certeza de que no est me fazendo de tolo.
    -  A prpria pessoa se faz de tola. Ningum pode fazer isso se no permitirmos.
    -  Voc  sensata, alm de bela-murmurou Wulfgar. Passou o dedo lentamente no brao dela, numa leve carcia, e Aislinn voltou-se com um olhar de splica. Estavam 
to prximos que o lado da perna dela tocava a parte interna da dele, encostada na banheira. Era como se uma descarga eltrica passasse entre os dois, incendiando 
seus sentidos com intenso desejo. Aislinn sentia-se fraca e insegura. A reao de Wulfgar foi mais fsica, e ele respirou fundo, entre os dentes cerrados, como se 
atingido por um golpe no estmago. Fechou os punhos para controlar os impulsos provocados por aquela proximidade. Sabia que Hlynn os observava, admirada de que ele 
pudesse reagir to fortemente a uma mulher, na presena de outra pessoa. Wulfgar agradeceu o fato de estar usando sua cota de malha, mas o linho molhado que envolvia 
o corpo de Aislinn era por demais tentador. Com incrvel fora de vontade, conseguira se conter enquanto ela estava no
    banho- Mas agora, perto daquele corpo magnfico, coberto apenas por um pano de linho molhado, era mais difcil pensar com lgica. O desejo o dominou, quase ultrapassando 
sua vontade frrea.
    -  Meu senhor -- murmurou Aislinn, suavemente. - Disse que no somos mais do que escravas. Tem direito de dar Hlynn a quem quiser, mas eu peo, tenha compaixo. 
Ela sempre nos serviu muito bem, e est disposta a continuar a servir, mas no como prostituta para seus homens. Seus sentimentos so delicados. No os maltrate, 
fazendo com que ela o odeie tanto quanto aos homens que se servirem dela. Por favor, tenha compaixo. Ela no fez nada para merecer essa crueldade.
    Wulfgar franziu a testa.
    -  Est tentando negociar com a vida de outra pessoa, Aislinn? Est disposta a partilhar do meu leito se essa jovem no for obrigada a ceder aos desejos de Ragnor?
    Aislinn respirou fundo.
    -  No, Wulfgar. Estou apenas fazendo um pedido. Nada mais.
    -  Voc pede muito, sem dar nada em troca. J pediu por Kerwick, agora pede por essa jovem. Quando vir a mim por si mesma?
    -  Minha vida est em jogo, senhor?-perguntou ela, olhando-o nos olhos.
    -  E se estivesse?
    -  Acho que, nem mesmo assim, eu conseguiria fazer o papel de prostituta.
    -  Viria voluntariamente, se me amasse?-perguntou o normando olhando atentamente nos olhos dela.
    -  Se eu o amasse? - repetiu ela. - Meu amor  tudo que me resta para dar voluntariamente. O homem a quem eu amar no precisar implorar minha mo, nem os direitos 
conferidos pelo casamento. Ragnor tomou o que eu guardava para meu prometido, porm meu amor  ainda s meu para dar a quem meu corao escolher.
    -  Voc amava Kerwick?
    Ela balanou a cabea lentamente, e respondeu com sinceridade.
    -  No, jamais amei homem algum.
    -  E eu jamais amei mulher alguma - disse ele. - Mas j desejei muitas.
    -  Eu no desejo nenhum homem -disse Aislinn em voz baixa. Wulfgar acariciou o rosto dela e depois o pescoo bem-feito.
    Sentiu o tremor sob seus dedos e sorriu com zombaria. 
    
    -  Acho que vive um sonho de moa, damoiselle. Percebendo a zombaria, Aislinn ergueu o queixo, e teria respondido  altura se Wulfgar no tivesse encostado um 
dedo em seus lbios.
    -  A jovem Hlynn est encarregada de atend-la at Ragnor partir, amanh. Ele provavelmente logo encontrar outra. E, a no se que queira tomar o lugar dela, 
aconselho-a a ficar perto de mim para seu prprio bem. Todos sabem que  voc que Ragnor deseja, e nisso no  diferente de qualquer outro homem do seu campo ou 
do meu. Meus homens mantero distncia, mas os dele talvez no. Acredito que logo vai descobrir a segurana do nosso quarto, se tiver de se defender.
    Aislinn sorriu, com uma covinha no canto da boca.
    -  Reconheo a vantagem de dormir ao seu lado, meu senhor,; no com o senhor.
    Com um sorriso malicioso, Wulfgar caminhou at a porta.
    -  Logo reconhecer as vantagens disso tambm, minha da Pode estar certa.
    No banquete daquela noite, Aislinn, como sempre, sentou ao lado de Wulfgar, e Ragnor escolheu o lugar em frente a ela, admirando o penteado caprichoso da jovem, 
preso no alto da cabea. A pele acetinada tinha o brilho saudvel da juventude, o rosto estava corado e os olhos cintilantes. Quando ela se voltou para responder 
a uma pergunta de Wulfgar, Ragnor observou com olhos vidos o corpo esbelto no vestido de veludo verde e a nuca descoberta e tentador Ragnor, com um desejo quase 
incontrolvel, sentia-se enganado roubado de seu premio suntuoso pela cobia e pelo desejo do bastardo. Inclinou-se para ela.
    -  Ele est me mandando para o campo de Guilherme-resmungou. - Mas no vai conseguir me manter longe de voc por muito tempo.-Passou os dedos de leve pela manga 
dela. - Posso lhe dar mais do que ele. Minha famlia  importante. Posso contar com ela para melhorar minha posio. Venha comigo e no se arrepender.
    Aislinn empurrou a mo dele com desprezo.
    -  Meu lar  Darkenwald. No ambiciono tesouro maior. Ragnor observou-a por um momento.
    -  Ento acompanhar sempre o homem que possuir este castelo?             -  Pertence a Wulfgar, e eu perteno a ele - respondeu ele secamente, para encerrar 
o assunto, e voltou-se para Wulfgar.
    Ragnor recostou-se na cadeira, pensativo.
    Depois da refeio, Wulfgar saiu por alguns momentos e Aislinn procurou a proteo de seu quarto, como ele recomendara. Mas Ragnor a esperava na sombra, no corredor 
estreito. Quando ele se adiantou, Aislinn, tomada de surpresa, ficou parada. Com um sorriso confiante nos belos lbios, ele tomou-a nos braos.
    -  Wulfgar se descuida de voc, Aislinn - murmurou ele, com voz rouca
    -  Ele no imaginou que voc ia perder o juzo - disse ela friamente, tentando se libertar dos braos dele.
    A mo de Ragnor acariciou-lhe lentamente o seio e desceu para os quadris.
    -  Nunca pensei que a lembrana de uma mulher pudesse me atormentar tanto - disse ele, com voz rouca.
    -  Voc s me quer porque Wulfgar me escolheu - disse Aislinn com desprezo, empurrando o peito dele.-Largue-me! Procure outra mulher para acariciar e deixe-me 
em paz.
    -  Nenhuma me agrada tanto quanto voc-murmurou ele, com a boca encostada no cabelo dela, a paixo fazendo ferver seu sangue. Estendeu o brao e abriu a porta 
do quarto.-Wulfgar vai se demorar com seus cavalos e seus homens, o tolo, e Vachel prometeu ficar sentado do lado de fora desta porta para avisar de sua chegada. 
Quando o bastardo se aproximar, ele bate na porta. Venha ento, minha avezinha, no temos tempo a perder.
    Aislinn comeou a lutar com mais empenho, tentando arranhar o rosto dele, mas Ragnor segurou-lhe os pulsos e prendeu os braos dela nas costas, apertando-a contra 
seu peito, com um sorriso satisfeito.
    -  Eu juro, mulher, que voc  muito mais ardente do que aquela jovem que Wulfgar escolheu para mim. - Riu, pensando no outro homem. - Ele vai ver que no me
contento com pouco quando um fino banquete me atrai muito mais.
    Ragnor levantou-a nos braos, entrou no quarto e fechou a porta com o p.
    -  Seu verme nojento! Vbora de Hades! - esbravejou Aislinn, lutando inutilmente para se libertar. - Prefiro morrer a me submeter a voc outra vez!
    -  Duvido, minha avezinha. A no ser que seja capaz de se obrigar a morrer nos prximos momentos. Agora, relaxe, serei gentil.
    -  Nunca! -gritou Aislinn.
    -  Pois ento, seja como quer - respondeu ele.
    Ragnor atirou-a na cama e deitou em cima dela antes que Aislinn tivesse tempo de rolar para o lado. A jovem continuou a luta feroz, suas mos acompanhando as 
dele e cobrindo imediatamente as partes de seu corpo que ele descobria. Se tivesse foras para continuar a luta at a chegada de Wulfgar... Mas no sabia quando 
ele ia voltar, e aos poucos perdia terreno na luta para preservar o pouco de dignidade que ainda lhe restava. Ragnor estava rasgando sua roupa, arrancando a tnica 
que cobria seus seios. Aislinn sentiu os lbios quentes e midos em sua pele e estremeceu de nojo.
    -  Se voc pode dormir com aquele urso do Wulfgar-murmurou ele, com voz rouca, junto ao pescoo dela -, ento vai sentir o verdadeiro prazer com um homem experiente.
    -  Seu ignorante desajeitado - disse ela, procurando se afastar -, voc  um menino imberbe, comparado a ele.
    De repente um estrondo ecoou no quarto, sobressaltando-os. Bruscamente Ragnor rolou de cima dela, procurando, espantado, a origem do rudo que fez tremer as 
paredes. Aislinn voltou-se e viu Wulfgar de p na porta escancarada. Aos seus ps estava Vachel, gemendo, dominado. Com uma calma que no contribuiu para amenizar 
o medo de Ragnor, Wulfgar ficou parado, com um p sobre o peito de Vachel. Olhou rapidamente para Aislinn, avaliando o dano infligido, enquanto ela ajeitava apressadamente 
a roupa rasgada; depois, seus olhos fixaram-se em Ragnor, que estava imvel e muito plido.
    -  No tenho por habito matar um homem por causa de uma mulher - disse Wulfgar, lentamente. - Mas voc, Sir de Marte, est abusando muito da minha pacincia. 
O que me pertence  s meu, e no posso permitir que duvidem do meu direito de propriedade. Ainda bem que Sweyn me avisou de que alguma coisa errada estava acontecendo 
por aqui, com Vachel escondendo-se nas sombras no lado de fora da porta do meu quarto. Se tivesse feito o que pretendia, talvez no visse a luz do sol amanh.
    Voltou-se e chamou Sweyn com um gesto. Um sorriso iluminou o rosto de Aislinn quando o enorme viking entrou e tirou o normando nobre do seu lado. Ragnor procurou 
resistir praguejando contra o homem nrdico e seu chefe. Wulfgar assistia a tudo com um sorriso.
    -  Atire a carcaa dele no chiqueiro - disse ele para Sweyn, e depois apontou para Vachel. - Depois venha apanhar este aqui e faa
    o mesmo com ele. Vo gostar da companhia e tero tempo para meditar sobre o perigo de invadir a minha propriedade.
    Depois que todos saram, Wulfgar fechou a porta e voltou-se para Aislinn. Ela sorria, agradecida, mas, quando ele se aproximou, saiu apressadamente da cama.
    -  Sem dvida Sir Ragnor vai querer se vingar dessa ofensa ao seu orgulho - disse ela, com um largo sorriso, satisfeita com a humilhao do cavaleiro. - No 
o castigando, infligiu um golpe severo ao seu orgulho. Eu jamais pensaria numa vingana to perfeita.
    Wulfgar observou-a quando ela se afastou da cama, com porte altivo, segurando os pedaos do vestido contra o corpo.
    -  E certamente  muito do seu agrado ver dois homens brigando por sua causa. De qual dos dois prefere se ver livre? Eu sou uma ameaa maior  sua paz de esprito 
do que Ragnor.
    Aislinn sorriu olhando nos olhos dele.
    -  Meu senhor, pensa que sou tola? No dou um passo sem lembrar que o fato de ser sua propriedade constitui minha proteo. Sei que no paguei ainda por essa 
defesa, pela qual sou muito grata, mas espero que continue com sua atitude galante, no cobrando um preo indigno de uma mulher com quem no  casado.
    -  Eu nunca sou galante, Aislinn, muito menos com as mulheres. Pode ficar certa de que vai pagar, e muito bem.
    Os lbios dela curvaram-se num sorriso tentador, e o brilho dos seus olhos teria atordoado qualquer homem menos determinado.
    -  Acho, senhor, que seu rosnado  pior do que sua mordida. Wulfgar ergueu as sobrancelhas.
    -  Acha mesmo, damoiselle Pois ento algum dia vai desejar no ter acreditado nisso.
    Wulfgar apagou as velas, despiu-se  luz da lareira e deitou na cama. No escuro do quarto, sua voz soou severa e spera.
    -  Amanh voc vai usar uma adaga para se proteger. Talvez isso desencoraje outros ataques  sua pessoa.
    Aislinn deu de ombros e sorriu. Depois, ajeitou-se no seu leito de peles e adormeceu, pensando em como a luz das chamas brincava na pele bronzeada do normando 
e no movimento harmonioso dos msculos de suas costas.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Seis
    
    
    NA MANH SEGUINTE Aislinn ouviu comentrios sobre a partida de Ragnor. Diziam que ele safra apressado, furioso e soturnamente silencioso. Aislinn sorriu satisfeita, 
regozijando-se por ter assistido  suai humilhao, e dedicou-se aos seus afazeres dirios com o esprito e passo leves. O peso familiar e bem-vindo do cinturo 
com a adaga contribua para a sensao de segurana. O prprio Wulfgar entregara a arma naquela manh, quando ela se vestia, como de hbito, dispensando seus agradecimentos 
com uma frase irritante.
    No fim da tarde, Aislinn, sentada com a me ao lado do tmulo de Erland, ergueu os olhos e viu um homem andando com dificuldade  na direo do castelo. S depois 
de algum tempo percebeu o que havia de estranho na sua aparncia. O cabelo dele era longo e emaranhado, e a barba, crescida. Maida ergueu os olhos ao ouvir a exclamao 
abafada da filha, mas, vendo o sorriso tranqilizador de Aislinn, voltou a olhar tristemente para o monte de terra, balanando o corpo dolorosamente para frente 
e para trs e murmurando seu lamento.
    Aislinn olhou apreensiva  sua volta para ver se algum normando  notara a presena do homem, mas no viu ningum. Levantou-se  procurando parecer calma e caminhou 
lentamente para a parte de trs da casa. Quando teve certeza de que no estava sendo observada,  atravessou a clareira correndo at as moitas espessas da margem 
do pntano e voltou para a parte mais alta do terreno, de onde avistara o homem, sem se importar com os pequenos galhos dos arbustos que se enroscavam em seu manto, 
rasgando-o aqui e ali. Viu o homem andando por entre as rvores e reconheceu Thomas, cavaleiro e vassalo de seu pai. Aislinn o saudou, feliz e aliviada, pois o julgava 
morto. Thomas correu para ela, e os dois se encontraram no meio do caminho.
    -  Minha senhora, pensei que jamais veria Darkenwald novamente - disse ele, com os olhos rasos de lgrimas. - Como est seu pai? Bem, espero. Fui ferido em Stamford 
Bridge, por isso no acompanhei o exrcito quando partiu para enfrentar Guilherme - continuou, com tristeza. - So tempos infelizes para a Inglaterra. Nosso pas 
est perdido.
    -  Eles esto aqui, Thomas - murmurou ela. - Erland est morto.
    O rosto dele crispou-se de dor.
    -  Oh, minha senhora, tristes novas estou ouvindo.
    -  Voc precisa se esconder.
    Ele olhou alarmado para o castelo, com a mo na espada, s naquele momento compreendendo o sentido das palavras dela. Viu o inimigo no ptio e alguns perto do 
lugar onde Maida estava sentada.
    Aislinn apertou a mo no brao dele.
    -  V para a casa de Hilda e esconda-se l. O marido dela morreu com Erland, e sua filha foi assassinada por ladres. Ela vai gostar de sua companhia. V agora. 
Quando eu tiver certeza de no estar sendo seguida, levarei algum alimento para vocs.
    Thomas partiu, esgueirando-se entre as rvores e, quando ele desapareceu, Aislinn voltou calmamente para casa, Ajudada por Hlynn, apanhou po, queijo e carne, 
que escondeu sob seu manto. Na pressa, passou por Kerwick sem parar, mas ele segurou a saia dela, quase fazendo-a derrubar o que escondia.
    -  Aonde vai com tanta pressa?-perguntou ele.-Seu amante a espera?
    -  Oh, Kerwick - exclamou ela, impaciente. - Agora no! Thomas voltou. Vou ao encontro dele.
    -  Diga-me quando seu amante vai me soltar. - Ergueu as correntes. - Estas correntes so incomodas, e minha mente est cansada e confusa. Preciso me ocupar com 
alguma coisa que no seja evitar o ataque dos ces. Eles os soltaram e me deixaram aqui - indicou os ces que andavam pelo salo. - O que preciso fazer para  ser
libertado?
    -  Falarei com Wulfgar esta noite - disse ela.
    -  O que mais pode prometer, alm do que j deu a ele? -: perguntou ele, com amargura.
    Aislinn disse, comum suspiro:
    -  O cime o consome, Kerwick.
    Furioso, ele a puxou para baixo, derrubando a comida que ela; escondia, e a fez sentar no seu colo. Beijou-a ferozmente na boca, procurando abrir seus lbios,
ao mesmo tempo rasgando o corpete do  vestido.
    -  Oh, Kerwick, no! - disse Aislinn ofegante, afastando os lbios dos dele e empurrando-o para trs. - No voc tambm!
    -  Por que o bastardo e no eu?-perguntou ele, passando a mo  nos seios nus. Com o rosto contrado pelo desejo, Kerwick a acariciava  brutalmente. - Eu tenho 
direito, ele no tem!
    -  No! No! - disse ela, com a voz embargada pela raiva, empurrando as mos dele. - O padre no abenoou nossa unio! No: perteno a ningum. Nem a voc. Nem 
a Ragnor! Nem mesmo a  Wulfgar! S a mim mesma!
    -  Ento por que vai para a cama com o normando, como uma  cadela mansa? - silvou ele. - Senta ao lado dele  mesa e s tem olhos para ele. Basta um olhar do 
bastardo para voc ficar toda | confusa.
    -  No  verdade! - exclamou ela.
    -  Pensa que no vejo, quando no tenho nada mais para atrair minha ateno? Meu Deus, voc o deseja como um homem faminto deseja comida! Por qu? Por qu? Ele 
 o inimigo, e eu, seu noivo! Por que no me trata com a mesma ateno? Tambm preciso do seu corpo. Durante meses permaneci casto em sua honra. Minha pacincia 
est no fim!
    -  Ento, quer me possuir aqui, com os ces? - perguntou ela, furiosa. - Importa-se to pouco comigo que quer se satisfazer como esses seus companheiros de cama... 
esses ces? Sem nenhum respeito por suas cadelas? Pelo menos Wulfgar no me trata desse modo!
    Ele a sacudiu com fora.
    -  Ento confessa que prefere os braos dele aos meus?
    -  Sim!-exclamou ela, com lgrimas de dor e de raiva. - Suas carcias so delicadas! Agora, solte-me, antes que ele chegue.
    Kerwick empurrou-a de repente com uma praga. Ali, acorrentado com os ces, ele observara Aislinn com Wulfgar, sentindo que a afeio dela no era mais s sua. 
Sempre altiva e distante com outros homens. Aislinn se transformava quando ao lado daquele demnio normando. Era como uma vela apagada, esbelta, remota, at Wulfgar 
chegar para acend-la. Ento, transformava-se numa chama tentadora e cheia de encanto. Era duplamente difcil para ele, seu noivo, observar essa mudana, sabendo 
que jamais seria capaz de realizar o que parecia to fcil para o normando. E aquele cavaleiro no dava valor ao tesouro que possua, declarando sempre seu desprezo 
pelas mulheres, numa lngua que ele pensava que ningum podia entender. Aquele homem roubara o amor de Kerwick sem o menor esforo. Porm, se houvesse a menor chance 
de reconquist-la, Kerwick prometeu a si mesmo, ele a tiraria das mos daquele lobo.
    Arrependido, procurou segurar a mo dela, mas Aislinn recuou, desconfiada.
    -  Tem razo, Aislinn. Este cime me consome. Perdoe-me, meu amor querido.
    -  Verei se consigo convencer Wulfgar a libert-lo - disse ela, em voz baixa e, cobrindo com o manto o vestido rasgado e o pequeno volume com a comida, Aislinn 
se afastou. No tinha tempo para recompor sua roupa, e provavelmente Wulfgar logo estaria de volta.
    Hilda a esperava na porta, e as duas entraram na pequena casa.
    -  Ele est bem? - perguntou Aislinn em voz baixa, olhando para Thomas, que estava sentado na frente da lareira com a cabea baixa.
    -  Est, s o corao precisa de cura, senhora,assim como o meu. Eu tomarei conta dele.
    Aislinn entregou a comida a ela, tendo cuidado para no descobrir o corpete do vestido.
    -  Se algum vir essa carne, diga que fui eu quem roubou. No quero que seja castigada por uma coisa que eu fiz.
    -  No faz mal se me matarem-disse a velha mulher. - Minha vida est quase no fim, e a sua apenas comeou.
    -  Wulfgar no vai me matar - disse Aislinn, com alguma confiana. - Tem algum lugar para esconder Thomas, se vierem procur-lo? No o devem encontrar aqui.
    -  No tema, senhora. Encontraremos um bom esconderijo.
    -  Agora, preciso ir - Aislinn se encaminhou para a porta. - Trarei mais comida sempre que puder.
    Abriu a porta e ia sair quando ouviu a exclamao de Hilda:
    -  Os normandos!
    Aislinn ergueu os olhos, transida de medo. Wulfgar estava parado na frente da porta, flanqueado por dois de seus homens. Aislinn ficou imvel. Wulfgar deu um 
passo para entrar na casa, mas ela se ps na frente dele. Com um rosnado de desprezo, ele estendeu o brao e empurrou-a para o lado, sem nenhum esforo.
    -  No! Ele no fez nada! - exclamou ela, segurando, desesperada, o brao de Wulfgar. - Deixe-o em paz!
    Wulfgar olhou para as mos dela e quando falou havia ameaa em sua voz.
    -  Est se excedendo, Aislinn de Darkenwald. Este assunto no  da sua conta.
    Aislinn olhou apreensiva para Thomas, que estava de p, pronto para lutar. Outro saxo ia cair sob a espada do normando? Com um calafrio de terror, Aislinn compreendeu 
que precisava fazer o possvel para evitar mais violncia.
    Ergueu os olhos suplicantes para Wulfgar.
    -  Meu senhor, Thomas  um guerreiro valente. Seu sangue precisa ser derramado agora, depois da batalha, porque ele lutou bravamente pelo rei ao qual ele e meu 
pai juraram lealdade? Oh, seigneur, seja sensato e misericordioso. Eu calarei as luvas de camponesa e serei sua escrava.
    O rosto de Wulfgar estava impassvel.
    -  Est negociando com algo que j me pertence. Ou tenta me influenciar outra vez? Deixe-me em paz e ocupe-se com outras coisas.
    -  Por favor, meu senhor - murmurou ela, com os olhos rasos; de lgrimas.
    Sem uma palavra, Wulfgar soltou os dedos dela e se aproximou de Thomas, acompanhado por seus dois homens.
    -  Seu nome  Thomas? -perguntou o normando. Thomas olhou confuso para Aislinn.
    -  Meu senhor, ele no fala a sua lngua - explicou ela.
    -  Diga a ele para largar a espada e vir conosco - ordenou Wulfgar.
    Aislinn traduziu, e o homem olhou desconfiado para os trs normandos.
    -  Minha senhora, eles vo me matar?
    Aislinn olhou hesitante para as costas de Wulfgar, para os ombros largos com a cota de malha, a mo descansando no punho da espada. Se ele podia matar quatro 
assaltantes armados, poderia facilmente matar um saxo faminto e exausto. Aislinn s podia confiar na misericrdia de Wulfgar.
    -  No - respondeu, com mais segurana. - Acho que no. O novo senhor de Darkenwald  um homem justo.
    Depois de alguma hesitao, Thomas apoiou a lmina da espada na palma da mo e apresentou-a a Wulfgar. Aceitando-a, o normando voltou-se e caminhou para a porta, 
conduzindo Aislinn pelo brao, na sua frente, e seguido por Thomas e pelos dois guardas. L fora, Aislinn olhou confusa para Wulfgar, que continuava a lev-la pelo 
brao. O rosto dele estava impassvel. Aislinn no ousou perguntar o que ele ia fazer. O normando caminhava com passos largos e decididos. Aislinn tinha de se apressar, 
e vrias vezes tropeou em razes e valas. Ele a impedia de cair, segurando com fora seu brao. Em dado momento, Wulfgar percebeu o corpete rasgado. Olhou surpreso 
para os seios descobertos, depois para a adaga na bainha e finalmente para os olhos dela. Os olhos penetrantes pareciam ir at sua alma, e Aislinn teve certeza de 
que ele sabia o que tinha acontecido. Ficou parada, sem respirar, at ele ajeitar o manto de modo que ela pudesse mant-lo fechado na frente do corpo, e segurou-lhe 
o brao outra vez.
    Caminharam em silncio at o castelo, e, quando Wulfgar a soltou e voltou sua ateno para Thomas, Aislinn comeou a subir a escada. Com uma voz que ecoou no 
salo, ele a deteve.
    -  No! - exclamou ele, apontando para Aislinn.
    Com o corao apertado, Aislinn parou e olhou rapidamente para Kerwick. A expresso dele refletia os temores da jovem. Ao seu lado, Maida choramingava baixinho. 
Lenta e altivamente, Aislinn voltou-se e desceu os poucos degraus que tinha subido.
    -  Meu senhor? - perguntou, com voz suave. - O que deseja? Em tom spero e frio, Wulfgar disse:
    -  Desejo que me d a honra de sua presena at eu dar ordem para se afastar. Agora, procure um lugar para sentar.
    Aislinn sentou no banco ao lado da mesa. Wulfgar apontou para Kerwick.
    -  Soltem esse homem e tragam-no aqui!
    Muito plido, Kerwick recuou, tentando evitar as mos dos dois normandos. Mas estava em minoria e quando ele pareceu se encolher ante o olhar de Wulfgar, Sweyn 
riu.
    -  O pequeno saxo est tremendo de medo. O que foi que ele fez para tremer desse jeito?
    -  Nada! - exclamou Kerwick. - Soltem-me! Sweyn riu outra vez e Kerwick mordeu o lbio.
    -  Ah, ento fala a nossa lngua. Wulfgar estava certo.
    -  O que vocs querem de mim?-perguntou Kerwick, olhando para Aislinn.
    Wulfgar sorriu.
    -  Thomas no fala a nossa lngua. Voc vai me ajudar. Aislinn quase respirou aliviada, mas Wulfgar no fazia nada sem segunda inteno. Por que no pedira a 
ela para ser intrprete, uma vez que todos sabiam que falava a lngua deles? Preocupada, olhou atentamente para Wulfgar. Ele comeou a falar olhando para Kerwick 
praticamente ignorando o vassalo.
    -  Fale com este homem e diga a ele o seguinte: ele pode ser meu escravo, acorrentado com os ladres, ou voltar  sua posio antiga; sob trs condies. Deve 
deixar suas armas e s empunh-las novamente sob minhas ordens. Deve cortar o cabelo, raspar a barba e jurar lealdade ao Duque Guilherme neste momento.
    Enquanto Kerwick traduzia para Thomas, Wulfgar aproximou-: de Aislinn e se sentou na beirada da mesa. Toda a ateno dela estava voltada para a conversa entre 
Kerwick e Thomas. A maior preocupao do vassalo parecia ser a perda de grande parte da cabeleira gloriosa, loura e brilhante, mas concordou quando Kerwick mostrou 
as marcas do chicote em suas costas.
    De repente, Aislinn percebeu que seu manto estava aberto e os seios expostos ao olhar vido de Wulfgar. Corando intensamente, ela fechou o manto quando a mo 
dele pousou de leve em seu ombro nu. Um calor intenso invadiu seu corpo quando os dedos longos desceram pelo rosto e pelo pescoo, at a curva suave de um seio. 
trmula confusa, Aislinn percebeu o silncio que os envolvia e viu que Kerwick os observava com o rosto muito vermelho e os punhos fechados, evidentemente procurando 
se valer do controle que ainda lhe restava, Compreendendo a inteno de Wulfgar, ela abriu a boca para falar, mas os dedos dele se apertaram em seu ombro, e, erguendo 
os olhos, ela viu nos olhos cinzentos e no leve sorriso uma advertncia para no interferir.
    -  Acho que est demorando muito, Kerwick - disse o normando. sem tirar os olhos de Aislinn. - Vamos terminar com isto.
    Com voz incerta e baixa, Kerwick continuou a falar.
    -  Fale alto, saxo. Est arrastando as palavras. Quero ouvir o som de minhas palavras na sua lngua inglesa.
    -No posso - exclamou Kerwick, balanando a cabea.
    -  E por que no?-perguntou Wulfgar, quase com amabilidade.
    - Eu sou o seu senhor. No acha que deve me obedecer?
    Com um gesto brusco, Kerwick apontou para Aislinn.
    -  Ento, deixe-a em paz! No tem direito de acarici-la desse modo. Ela  minha!
    Bruscamente, Wulfgar mudou de atitude. A espada saiu da bainha, e, com um passo largo, ele chegou na frente da lareira. Segurando a espada com as duas mos, 
ps a lmina entre duas achas de lenha em brasa. Ento, rapidamente, enfiou a ponta na madeira do banco mais prximo. Caminhou para Kerwick que, embora muito plido, 
procurava manter uma atitude de desafio. Wulfgar parou na frente do jovem, com as pernas separadas e as mos na cintura. Quando falou, sua voz fez estremecer as 
vigas do teto.
    -  Pela palavra de Deus, saxo - trovejou ele. - Voc tenta a minha pacincia! Voc no  mais senhor, nem proprietrio de terras, mas um mero servo! Agora, 
ofende com sua paixo o que me pertence!
    - Abaixou a voz e rosnou, apontando para Aislinn. - Vocs dois falam bem a lngua francesa, mas ela me d prazer tambm, ao passo que voc s me aborrece. Embora 
eu no pretenda passar o resto da vida com uma mulher dependurada em mim, sua vida vale muito menos do que a dela. No questione isso outra vez, se quiser viver 
mais um dia. - Quase em voz baixa, acrescentou: - Compreendeu a verdade das minhas palavras?
    Kerwick abaixou os olhos e balanou a cabea afirmativamente.
    -  Sim, senhor. - Ento, empertigou o corpo e olhou de frente para o normando, embora com uma lgrima descendo pelo rosto. - Mas vai ser difcil, pois, o senhor 
compreende, eu a amava.
    Pela primeira vez Wulfgar sentiu uma ponta de respeito por aquele saxo e um pouco de pena. Podia sentir compaixo por qualquer homem atormentado por uma mulher, 
embora no pudesse compreender como era possvel chegar a tanto por uma coisa to simples.
    -  Ento, o assunto est encerrado - disse Wulfgar secamente.
    - No ser mais acorrentado, a no ser que nos obrigue a isso. Agora,
    
    

leve este homem para cortar o cabelo e a barba, e depois o traga para jurar perante uma cruz.
    Thomas e Kerwick saram, acompanhados pelos dois normandos e Wulfgar dirigiu-se para a escada. No primeiro degrau, voltou-se para Aislinn, que permanecia sentada, 
atordoada e confusa, e parou esperar por ela. Aislinn ergueu os olhos para ele.
    -  Parece confusa, damoiselle-zombou ele, e continuou, srio - Os homens desta cidade podem voltar para suas casas. O inverno se aproxima, e s o trabalho de 
todos pode afastar a fome da nossa porta. Portanto, se encontrar mais algum, no o esconda, mas traga-o para mim, sem temer por sua vida. Agora, peo que venha comigo 
e troque de roupa para podermos jantar tranqilamente. Espero tenha ainda outro vestido para substituir esse.  evidente que, se tiver de enfrentar outra vez algum 
homem sedento, terei de abrir a bolsa para vesti-la. Dentro de pouco tempo, damoiselle, vai me custar muito mais do que vale. Espero no ter de gastar meu dinheiro 
com alguma modista de segunda classe, porque  ganho duramente e tenho melhor uso para ele.
    Aislinn levantou-se, com porte altivo. Com a maior dignidade possvel, subiu a escada, passou por ele e dirigiu-se ao quarto. Wulfgar entrou, fechou a porta 
e comeou a tirar sua cota de malha. Aislinn ficou parada, observando-o, consciente de sua falta de privacidade e do pouco caso com que era tratada. Quando ele virou 
de frente pa lareira, ela aproveitou a ocasio. De costas para o quarto, jogou  manto no cho e despiu rapidamente o vestido rasgado. Com, impresso de ter ouvido 
o som de um movimento, ela segurou angua contra o peito. Olhou para trs e l estava ele, com o desejo ardendo nos olhos. Wulfgar observou lentamente a linha das 
costas dela e; pernas longas com um olhar que parecia queimar-lhe a pele. Aislinn no ficou embaraada. Na verdade, um calor agradvel percorreu se corpo. Com esforo, 
ergueu o queixo e perguntou:
    -  O meu senhor se satisfaz sozinho ou deseja que eu o satisfaa? Por favor, responda antes que eu vista esta pea simples para que no tenha de se separar do 
seu dinheiro para me vestir.
    Wulfgar olhou para o rosto dela e Aislinn viu morrer toda a paixo que havia neles. Franzindo a testa e sem uma palavra, Wulfgar saiu do quarto.
    Nuvens escuras de inverno recobriram a madrugada, e a chuva leve transformou-se num aguaceiro intenso que encharcou a terra  formou cascatas que desciam do telhado. 
Aislinn espreguiou-se no seu leito de peles e se agasalhou mais, abrindo apenas um olho para descobrir a origem da luz que a tinha acordado, imaginando se Wulfgar 
se levantara antes do nascer do dia para abrir as janelas. Por um momento olhou para a chuva, ouvindo o som embalador, e ento uma sombra passou na frente da janela. 
Aislinn levantou-se de um salto e viu Wulfgar j vestido. Ele estava com uma tnica e braccos de couro, indiferente ao frio que a fez se enrolar numa das peles de 
sua cama.
    -  Meu senhor, perdoe-me. Eu no sabia que ia se levantar cedo. Vou apanhar a comida.
    -  No - ele balanou a cabea. - No estou com pressa. A chuva me acordou.
    Aislinn foi at a janela e ficou ao lado dele, afastando do rosto o cabelo que lhe cobria os ombros, farto e sedoso. Wulfgar segurou uma mecha de cabelo pousada 
sobre um dos seios, e Aislinn ergueu os olhos para ele.
    -  Deitou-se muito tarde, meu senhor. Algum problema?
    -  No andei me arrastando entre pernas de mulher, se  o que quer saber.
    Corando, Aislinn inclinou-se para fora, apanhou gua da chuva nas mos em concha e levou-a  boca, rindo alegremente quando algumas gotas desceram pelo queixo, 
molhando a tnica fina. Ela afastou o tecido molhado do corpo, estremecendo de frio. Quando estendeu de novo a mo para a chuva, percebeu que Wulfgar observava atentamente 
sua brincadeira.
    Por um momento ela olhou para o campo, muito consciente da presena masculina ao seu lado. Aquela proximidade acendia uma chama agradvel e estranha em suas 
veias.
    -  Meu senhor - disse Aislinn, sem olhar para ele -, j disse que no quer a minha gratido, mas sinto-me sinceramente agradecida por sua bondade com Kerwick. 
Ele no  to superficial como pode parecer. No sei por que ele agiu desse modo. Na verdade, meu senhor, ele  muito inteligente.
    -  At sua mente ser embotada pela traio de uma mulher - murmurou ele, pensativo.
    Aislinn voltou-se rapidamente, ofendida com aquela insinuao. Corada de raiva, olhou nos olhos dele.
    -  Sempre fui fiel a Kerwick. At a escolha ser tirada de minhas mos por um dos seus homens.
    
    -  Imagino se sua fidelidade teria durado muito tempo se Ragnor no tivesse feito o que fez.
    Aislinn empertigou o corpo com altivez.
    -  Kerwick foi escolhido por meu pai, e eu honraria essa escolha at meu ltimo dia. No sou uma mulher volvel que vai para a cama com qualquer garanho que 
passa.
    Wulfgar ficou em silncio, e ela perguntou:
    -  Mas diga-me, senhor, por que teme tanto as mulheres e sua infidelidade? - Viu a expresso de desagrado no rosto dele. - O que o faz odiar as mulheres e odiar 
aquela que o gerou? O que foi que ela fez?
    A cicatriz no rosto de Wulfgar ficou lvida, e ele se conteve para no bater em Aislinn, mas no viu nenhum temor nos olhos dela, apenas uma interrogao calma 
e deliberada. Ele deu meia-volta e com passos largos foi at acama, apertando o punho fechado contra a palma da outra mo. Ficou em silncio por longo tempo, vibrando 
de raiva. Finalmente falou, virando apenas a cabea, e com voz seca e spera.
    -  Sim, ela me deu  luz, mas fez pouco mais do que isso. Primeiro, ela me odiava, no eu a ela. Para uma criana sedenta de amor, ela no tinha nenhum, e quando 
o menino se voltou para o pai disposto a trat-lo como filho, ela destruiu isso tambm. Eles me jogaram fora, como uma coisa nascida no esgoto.
    O corao de Aislinn se comoveu com a idia de um menino que precisava implorar por afeio. Sem saber por qu, teve vontade de encostar a cabea dele em seu 
peito e alisar as linhas amargas de sua testa. Nunca em toda a vida sentira tanta ternura por um homem, e agora no sabia o que fazer com as prprias emoes. Aquele 
homem era o inimigo.e ela queria aliviar seu sofrimento. Que loucura era essa?
    Aproximou-se de Wulfgar e pousou a mo de leve em seu brao.
    -  Minha lngua  afiada e sabe ferir.  um defeito do qual sempre sou lembrada. Peo perdo. Lembranas to tristes devem ficar enterradas.
    Wulfgar acariciou o rosto dela.
    -  No confio nas mulheres, isso  verdade - sorriu tristemente. - E um defeito do qual sempre sou lembrado.
    Aislinn olhou para ele ternamente.
    -  Sempre pode haver uma primeira vez, meu senhor. Veremos.
    
    
    
   Captulo Sete
    
    
    A LUZ DO FOGO DANOU na lmina da espada quando Wulfgar a levantou, testou o gume com a ponta do dedo e depois continuou a limar as pequenas chanfraduras, resultado 
dos combates. Estava sem a tnica, e os msculos das costas e dos braos moviam-se em ritmo perfeito. Aislinn, no cho, perto dos ps da cama, costurava sua camisola. 
Vestia apenas uma tnica leve. Sentada com as pernas cruzadas sobre as peles de lobo, os cabelos cor de cobre soltos, parecia uma noiva viking dos tempos passados. 
Talvez o sangue daqueles aventureiros dos mares corresse em suas veias, pois o calor do fogo e a presena daquele homem semidespido aceleravam seu pulso. Cortou 
a linha com os dentes e pensou que, se fosse aquela selvagem noiva viking, iria at ele e acariciaria as costas musculosas, depois os braos fortes.,.
    Deixou escapar um riso abafado, imaginando a reao de Wulfgar. Ele ergueu os olhos, curioso, e Aislinn imediatamente se ocupou em dobrar a camisola e guardar 
a agulha, a linha e a tesoura. Wulfgar praguejou em voz baixa e ergueu o polegar, mostrando um pequeno corte com uma gota de sangue.
    -  Seu humor me feriu - disse ele. - Acha-me to divertido assim?
    -  No, senhor. - Ela corou intensamente, pois a pressa com que negou a acusao traa seu interesse. Incrdula, Aislinn percebeu que quase gostava da companhia 
dele, e era capaz de inventar qualquer pretexto para estar ao lado dele. Quanto havia de verdade nas palavra de Kerwick? Seria ela mais uma jovem apaixonada do que 
a megera vingativa?
    Wulfgar voltou ao seu trabalho, e Aislinn apanhou outra pea de roupa para consertar. Uma leve batida na porta interrompeu a tranqilidade domstica dos dois; 
quando Wulfgar respondeu, Maida entrou e, com uma mesura para o senhor, sentou ao lado de Aislinn.
    -  Como foi o seu dia, minha filha? - perguntou a me, em tom de conversa. - Eu no a vi porque estive na cidade atendendo doentes e os aflitos.
    Com um rosnado de desprezo, Wulfgar inclinou-se e comeou a amolar cuidadosamente a lmina da espada. Mas Aislinn ergueu sobrancelhas interrogativamente, pois 
sabia que agora sua me pouco cuidava do povo da cidade e muito menos dos doentes e passava  dias inteiros isolada, arquitetando um plano para se vingar dos normandos.
    Vendo que Wulfgar no estava dando ateno, Maida falou era voz baixa, na lngua dos saxes.
    -  Ele no a deixa sem um guarda nem por um momento? Desc esta manh estou tentando falar com voc, mas h sempre um normando ao seu lado.
    Aislinn fez sinal para Maida se calar e olhou apreensiva pa Wulfgar, porm a me balanou a cabea e disse, com voz agressiva
    -  Esse asno idiota no entende a nossa lngua, e provavelmente no saberia acompanhar nosso pensamento, se entendesse.
    Aislinn concordou, erguendo os ombros e Maida continuou, ansiosamente.
    -  Aislinn, no d ateno ao normando, mas escute com ateno
    o que vou dizer. Kerwick e eu fizemos um plano de fuga, e quero que se junte a ns na hora em que a lua desaparecer no cu. - Ignorando o olhar espantado da 
filha, Maida segurou a mo dela. - Vamos deixa esses chiqueiros do sul e fugir para as terras do norte, onde temos parentes e onde todos ainda so livres. Podemos 
esperar l at organizao de novas foras e voltar e libertar nosso lar desses vndalos.
    -  Minha me, no faa isso, eu peo - Aislinn tentou manter  voz baixa e calma. - Os normandos so muitos e patrulham todos os campos. Eles nos caaro como 
se fssemos ladres. E Kerwick, o que faro com ele se o apanharem? Certamente escolhero um castigo muito mais severo.
    -  Eu preciso - sibilou Maida, e continuou com mais calma: - No suporto mais ver essas terras que foram minhas sob os ps dos normandos e nem ter de dar a ele 
- com a cabea indicou Wulfgar - o prazer de me ouvir dizer "meu senhor", "meu senhor".
    -- No, minha me. Isso  loucura. Se est mesmo resolvida, v, mas eu no posso acompanh-la, pois o nosso povo est ainda sob o jugo do Duque normando, e pelo 
menos este senhor - olhou rapidamente para Wulfgar - nos trata com compaixo e faz algumas concesses, por mais caras que sejam.
    Maida percebeu que o olhar da filha se suavizava e disse com desprezo:
    -  Ai! Minha prpria filha, carne da minha carne, entregou o corao a um normando bastardo e nos abandona, trocando-nos por sua companhia.
    -  Sim, minha me, bastardo talvez e normando certamente, mas um homem bom como jamais vi igual.
    Maida disse com ironia:
    -  Pelo que vejo, ele  um bom amante. Aislinn balanou a cabea e ergueu o queixo.
    -  No, minha me, nada disso. Aqui onde estou sentada  a minha cama, e no passei disso, embora s vezes minha mente traidora pergunte como seria se isso acontecesse.
    Com um sinal para a me, comeou a falar de coisas triviais, em francs. Wulfgar levantou-se, embainhou a espada e saiu do quarto sem sequer olhar para elas. 
Quando ouviram seus passos na escada, Aislinn pediu ansiosamente  me que desistisse de seus planos e cuidasse mais de seu povo, para aliviar suas dores e no o 
conduzir pelas trilhas da vingana, que s a levariam ao castigo com o chicote ou ao carrasco.
    Depois de alguns momentos, Wulfgar voltou, puxando o cs da cala, como se acabasse de atender s suas necessidades fsicas. Com um resmungo na direo delas, 
voltou para a cadeira e comeou a passar um pano com leo em seu escudo.
    Maida levantou-se, acariciou levemente o rosto da filha e, despedindo-se rapidamente dos dois, saiu do quarto. Aislinn ficou pensativa, preocupada e, quando 
ergueu os olhos, viu que Wulfgar a observava com um sorriso quase terno. Ficou mais intrigada vendo-o apenas balanar a cabea e voltar ao trabalho. De certo modo, 
era como se ele estivesse esperando por alguma coisa.
    Longos momentos passaram. Wulfgar continuava com seu trabalho, e os nervos de Aislinn estavam tensos. A interrupo aconteceu bruscamente. Ouviram o grito estridente 
de Maida, no corredor, o rudo de alguma coisa se chocando, uma luta e depois silncio. Aterrorizada, Aislinn atirou para longe agulha, linha e a roupa que costurava, 
saiu do quarto, correu para o topo da escada e olhou para o salo. Ento parou, perplexa. A primeira coisa que viu foi Kerwick amordaado e acorrentado com os ces. 
Os olhos dele chispavam de fria, mas j tinha desistido de lutar. Maida, erguida do cho pelos braos fortes de Sweyn, praguejava em voz alta. Estava outra vez 
em andrajos, e Aislinn viu um grande volume cado no cho.  medida que a fria crescia lentamente em Aislinn, seus olhos ficavam mais escuros. Girou o corpo rapidamente 
quando ouviu a voz de Wulfgar  atrs dela.
    -  O que os levou a querer abandonar a casa e a comida que ofereo? Odeiam tanto assim seu prprio lar? No encontram aqui recompensa suficiente pelo trabalho 
bem-feito, ou talvez achem os campos do norte mais atraentes?
    Trs pares de olhos voltaram-se espantados para ele. Wulfgar falara em ingls. Aislinn sentiu o sangue subir ao rosto, lembrando o quanto ele devia ter descoberto 
por culpa dela. Procurou recordar todas as vezes em que falara ingls na frente dele certa de que no estava sendo compreendida, e sua vergonha aumentou.
    Wulfgar passou por ela, desceu a escada e aproximou-se de Maida. Apontou para os andrajos que ela vestia.:
    -  Bruxa velha. Eu j a vi assim aqui antes e disse que se a visse outra vez seria tratada como merece. Sweyn, amarre esta megera com os ces e solte os braos 
do homem antes que os animais o devorem.
    - No! - gritou Aislinn. Desceu correndo a escada e parou ao lado de Wulfgar. - No vai fazer isso com ela!                              
    Ignorando-a, Wulfgar fez um gesto para Sweyn, e o normando obedeceu a suas ordens. Ento, parou na frente dos dois prisioneiro acorrentados e falou como um pai 
fala com um filho incorrigvel.
    -  Esta noite, sem dvida, acharo bastante calor um no outro. Recomendo que conversem bastante sobre o jogo desta noite. Procurem aprender alguma coisas e lembrem-se 
disto. Onde eu costumo fazer esse jogo vocs no passam de dois inocentes do mundo, pois eu conheo as cortes, os reis e os homens da poltica e joguei seus jogos 
nos campos de batalha. Tenham uma boa noite... se for possvel.
    Abaixou-se para coar atrs da orelha de um co de caa e dar palmadinhas carinhosas no animal. Depois, sem uma palavra, segurou o brao de Aislinn e levou-a 
para a escada, onde parou por um momento, pensativo.
    -  Oh, Sweyn - disse ele, voltando-se. - Solte os ces por alguns momentos, de manh, e veja se esses dois so capazes de agir como escravos leais. Podem at 
reconquistar a liberdade, se prometerem desistir dessa tolice.
    A resposta foi um olhar furioso de Kerwick e vociferaes de Maida. Dando de ombros, ele sorriu quase gentilmente.
    -  Vo sentir de outra forma amanh.
    Segurando com firmeza o brao de Aislinn. ele levou-a de volta ao quarto. Um co ganiu quando Maida o acertou com um pontap.
    Wulfgar acabava de fechar a porta e estava se voltando quando a mo aberta de Aislinn o atingiu em cheio no rosto.
    -  Voc acorrenta minha me com os ces! - exclamou ela. - Pois ento pode me acorrentar ao lado dela!
    Aislinn ergueu o outro brao para outro golpe, mas Wulfgar segurou-lhe o pulso com fora. Sem se deixar abater, ela acertou a canela dele com um pontap, o que 
lhe valeu a liberdade.
    -  Pare, sua megera! - urrou ele. - Tome cuidado!
    -  Voc nos fez de tolos - gritou Aislinn, recuando um pouco,  procura de um objeto pesado para atac-lo. Wulfgar desviou a tempo e o copo de chifre bateu violentamente 
na porta, atrs dele.
    -  Aislinn - avisou ele, mas ela j estava apanhando outracoisa.
    -  Ahhh, eu o odeio! - gritou ela, atirando o outro objeto. No esperou para ver se ele conseguiu desviar desse tambm e jprocurava outro. Com dois passos longos, 
Wulfgar se aproximou e envolveu-a nos braos, segurando os dela aos lados do corpo. Aislinn quase ficou sem ar quando ele a apertou, e ela sentiu o peito musculoso 
contra suas costas.
    -  No est zangada por  causa de sua me! - trovejou Wulfgar, junto ao ouvido dela. - Conhece os efeitos do chicote. Deve concordar que este castigo  muito 
mais leve.
    Aislinn lutou para se libertar dele.
    -  No tem o direito de degrad-la.
    
    
    -   o seu orgulho que est ferido e por isso quer se vingar.
    -  Voc me enganou! - tentou pisar no p dele.
    As mos de Wulfgar desceram para controlar o movimento das pernas dela e ele a ergueu do cho.
    -  Se eu quisesse engan-la, mulher, voc j teria partilhado o meu leito.
    Para isso Aislinn no tinha resposta, e apenas continuou a lutar. Wulfgar a fez sentar na cadeira.
    -  Fique a sentada at se acalmar, minha bela megera. No pretendo deixar que aqueles ces de caa estraguem sua pele.
    -  No vou ficar neste quarto com voc! - exclamou ela, levantando-se rapidamente, quando ele se afastou.
    -  No precisa se preocupar - sorriu ele, examinando-a dos ps  cabea. - No pretendo tirar vantagem de sua boa vontade.
    Aislinn correu para ele com o brao erguido, mas Wulfgar o segurou a tempo, prendendo-o atrs das costas dela e apertando-a contra seu corpo. Com sua fria abafada 
contra o peito musculoso, ela ergueu a perna para pisar no p dele, mas foi solta imediatamente, porque seu joelho o atingiu na virilha. Com um gemido, Wulfgar cambaleou 
at a cama, e Aislinn olhou surpresa para ele, imaginando o que fizera para provocar tanta dor, mas logo saltou sobre ele para renovar o ataque. Wulfgar estendeu 
o brao para afast-la, mas ela conseguiu arranhar profundamente o peito dele.
    -  Sua megera sedenta de sangue - disse ele. - Desta vez vou lhe dar uma lio.
    Segurou-a pelos pulsos, puxando o rosto dela para o meio de seus joelhos, mas, antes que pudesse segur-la, Aislinn se desvencilhou e escorregou para o cho. 
Resolvido a aplicar o castigo que ela merecia, Wulfgar estendeu o brao para pux-la para cima, e Aislinn estremeceu violentamente quando a mo dele tocou seu quadril 
nu. A tnica folgada estava enrolada em sua cintura, deixando nua a parte inferior do corpo. Aislinn arregalou os olhos e mudou de ttica. Agora, comeou a lutar 
para se afastar dele, toda a fria se dissolvendo e transformando-se em pavor.
    Ela tentou fugir, mas a mo forte segurou seu pulso, e Aislinn foi puxada para o colo dele. O cabelo solto envolvia os dois, dificultando os movimentos, mas 
os dentes afiados de Aislinn encontraram a mo dele. Com um gemido de dor, Wulfgar largou o pulso dela, mas, quando Aislinn procurou se afastar, ele a segurou pelo 
decote da tnica. Quando ela recuou, a tnica fina rasgou de alto a baixo.
    Aislinn olhou com horror para a prpria nudez, enquanto Wulfgar deliciava os olhos com tanta beleza. Sua pele brilhava como ouro branco  luz do fogo, e os seios, 
fartos e bem-feitos, erguiam-se tentadores. O desejo de Wulfgar h tanto tempo controlado dominou-o completamente.
    Os braos do normando aenlaaram, e num instante Aislinn estava deitada de costas na cama, envolta no cabelo solto e desgrenhado e nos pedaos da tnica. Seus
olhos se encontraram, e Aislinn compreendeu que a longa espera tinha terminado.
    - No! - exclamou ela, estendendo o brao para afast-lo, mas Wulfgar prendeu suas mos sob o corpo enquanto, com o joelho, abria as pernas dela. Com os braos
sob o peso do prprio corpo, Aislinn gemeu de dor. Comeou a praguejar contra ele, mas a boca de Wulfgar abafou as palavras em seus lbios. Com a cabea forada
para trs, o corpo em arco, seus seios comprimiam-se contra o peito dele. Os lbios de Wulfgar pareciam de fogo, eobeijoviolentoquaseasufocou. Ele beijou-lhe apaixonadamente
as plpebras, o rosto, a orelha, murmurando suavemente palavras ininteligveis, e Aislinn, em seu atordoamento, compreendeu a paixo que despertava nele. Com pnico
crescente, tentou forar o corpo dele para cima, e, nesse movimento, sentiu a ereo dele entre suas pernas. Wulfgar pressionou o corpo para a frente quando ela
recuou e soltou seus pulsos. Mas Aislinn no podia se mover, emaranhada no prprio cabelo, na combinao rasgada e na roupa de cama. Wulfgar se despiu, e ela deixou
escapar uma exclamao abafada quando sentiu o contato do corpo nu sobre o seu. Wuffgar libertou os braos dela do peso do prprio corpo, mas manteve-os presos,
estendidos. Cada milmetro de seus corpos pareciam se tocar agora. Aislinn tentou ainda lutar, mas seus movimentos acendiam mais o desejo do normando. Os lbios
dele acariciaram seus seios, e era como se todo o seu corpo estivesse em chamas. Um calor estranho a invadiu, e seu corao disparou. Wulfgar beijou-a na boca novamente,
e dessa vez Aislinn correspondeu, puxando-o para ela, deixando-se dominar pelo desejo apaixonado. A sensao dolorosa e ardente provocou uma exclamao, um misto
de dor e surpresa. Porm, ignorando seus protestos, Wulfgar beijava-lhe agora o pescoo. Quando ela ergueu as mos para arranhar seu rosto, Wulfgar segurou seus
pulsos, deixando-a indefesa, completamente entregue
aos seus desejos. Soluando angustiadamente, Aislinn viu-se livre afinal, quando, satisfeito, Wulfgar a libertou. Furiosa, ela rolou para a ponta da cama, tirou
a combinao rasgada e cobriu-se com os mantos de pele. Entre soluos, ela lanava sobre ele todas as pragas que conhecia.
    Wulfgar riu daquela fria.
    -  Eu no imaginava que voc pudesse ser a coisinha mais deliciosa que j tive em muito tempo.
    A resposta foi uma torrente de eptetos injuriosos.
    Ele riu outra vez e passou os dedos nas marcas de unhas no peito.
    -  Quatro tiras de pele para possuir uma mulher! Ah, mas valeu a pena, e eu pagarei o preo alegremente outra vez.
    -  Seu verme repugnante! - disse Aislinn. - Se tentar, eu o abro do umbigo ao queixo com sua prpria espada!
    A gargalhada de Wulfgar ecoou no quarto. Aislinn entrecerrou os olhos e ficou em silncio. Ele entrou debaixo das peles que a cobriam e sorriu.
    -  Esta cama  mais confortvel do que o cho, Aislinn. Isso pode lhe servir de consolo.
    Rindo, ele voltou-se para o outro lado e adormeceu. Aislinn ficou acordada, e a respirao profunda dele parecia vibrar dentro de sua cabea, enquanto suas palavras
martelavam-lhe a mente.
    J esquecida? Sim, ele dissera que podia esquecer facilmente, mas ela seria capaz de fazer o mesmo? Poderia esquecer o nico homem que, mesmo agora, com toda
a sua fria, dominava seus pensamentos? Poderia odi-lo, desprez-lo, mas seria capaz de esquecer? Wulfgar estava em seu sangue, e ela no descansaria enquanto no 
conseguisse gravar sua lembrana na mente dele, como um tormento constante. Agindo como uma bruxa ou como um anjo, ia conseguir! Afinal, no era a filha orgulhosa 
de Erland?
    Aislinn adormeceu e acordou no meio da noite sentindo o calor do corpo de Wulfgar em suas costas, e a mo dele acariciando-a suavemente. Fingindo que dormia, 
submeteu-se, mas onde os dedos. dele tocavam sua came parecia arder, e ondas de prazer percorriam-lhe i todo o corpo. Ele passou os lbios de leve na nuca dela, 
e Aishno  fechou os olhos, com uma sensao quase de xtase. A mo dele, desceu e, com uma exclamao abafada, ela tentou virar de bruos,  mas seu cabelo estava 
preso sob o corpo dele. Apoiando-se num cotovelo, Aislinn olhou para ele. Os olhos de Wulfgar cintilavam  luz do fogo.
    - Estou entre voc e a espada, chrie. Ter de passar por mim para apanh-la.
    Estendendo o brao, Wulfgar puxou-a para si e seus lbios se encontraram. Aislinn estremeceu e tentou afastar o rosto do dele, mas Wulfgar rolou para cima dela, 
comprimindo-a contra os travesseiros.
    Aislinn abriu os olhos lentamente para a rstia de sol que passava entre as frestas da janela, desenhando uma estrada de luz no cho de pedra. Minsculas partculas 
de poeira danavam no raio de sol, e ela lembrou de quando era criana e tentava apanhar aqueles pontinhos brilhantes, enquanto seus pais, na cama, a observavam 
sorrindo. De repente, despertou para a realidade, lembrando os acontecimentos daquela noite e de quem partilhava com ela aquele leito agora. Sentia o calor do corpo 
dele e ouvia sua respirao profunda. Aislinn sentou na cama. Viu ento que uma parte de seu cabelo estava presa sob a mo de Wulfgar. Quando comeou a puxar a mecha 
de cabelos cor de cobre, ele fez um movimento brusco, sobressaltando-a, mas no acordou.
    Aislinn olhou para ele demoradamente, comovendo-se com o encanto quase infantil do rosto adormecido. Pensou que a me que o rejeitara sem nenhum remorso s podia
ser uma mulher sem corao. Ela sorriu tristemente. Com quanta bravura ela pensara em usar o normando para criar desavenas entre o inimigo. Agora, tinha desistido.
Era ela quem estava encurralada entre ele e seu povo. Wulfgar a vencera no jogo. No a usara para provocar Kerwick, acariciando-a na frente do jovem saxo?
    Oh, Deus, estava completamente dominada por um homem capaz de super-la em qualquer coisa. Ela, Aislinn, capaz de cavalgar como qualquer homem e de pensar melhor 
do que qualquer rapaz de sua idade, como dizia seu pai. Segundo Erland, Aislinn era brilhante, obstinada e mais esperta do que qualquer rapaz que sonhava ser sagrado 
cavaleiro pelo rei. Ele dizia, rindo, que Aislinn era metade homem metade mulher. Tinha o rosto e o corpo de uma bela sedutora, e a mente prtica e lgica.
    Aslinn quase riu alto, pois no se sentia especialmente inteligente naquele momento. Queria odiar Wulfgar e mostrar que ele no passava de outro vil normando, 
digno de desprezo. Mas os dias passados na companhia dele tornaram-se mais tolerveis, e sua disposio melhorou. Agora, para cmulo da degradao, era sua amante.
    A palavra soou como uma ironia. Aislinn, orgulhosa, distante, completamente dominada por um normando.
    S com esforo no cedeu ao desejo de fugir dele para sempre. Saiu da cama, tremendo de frio. O que restava da combinao estava no cho, e ela no ousava abrir 
a arca para apanhar outra. A tnica de l estava na cadeira, ao lado da lareira apagada, e ela a vestiu, estremecendo ao contato do tecido spero na pele.
    Calou os sapatos de couro macio e, com um manto de pele nos ombros, saiu silenciosamente do quarto. Quando atravessou o salo, viu os ces j acordados, mas 
Maida e Kerwick estavam imveis, enrodilhados num canto, sobre a palha.
    As dobradias da porta rangeram quando ela a abriu. O ar estava frio, mas o sol, baixo ainda, comeava a aquecer a terra. Era uma manh muito clara, e o ar parecia 
quebradio, como se pudesse ser estilhaado pelo menor som. Aislinn viu Sweyn, com alguns homens, numa colina distante, exercitando e aquecendo seus cavalos. Queria 
ficar sozinha, e caminhou na direo do pntano, para um lugar isolado que conhecia.
    Wulfgar virou na cama quente, semi-adormecido, sentindo ainda o corpo de Aislinn lutando sob o seu. Estendeu o brao  procura do calor e da maciez lembrados 
e s encontrou o travesseiro vazio. Praguejando, saltou da cama e procurou-a no quarto.
    - Maldio, ela se foi! Aquela megera fugiu!-Seus pensamentos voaram.-Kerwick! Maida! Parao inferno comeleseseus planos! Vou torcer seus pescoos!
    Despido como estava, correu para a escada e olhou para o canto do salo. Os dois estavam ainda acorrentados. Mas onde podia estar aquela mulher?
    Maida fez um movimento, e ele voltou apressadamente para o quarto. Depois de atiar o fogo com alguns gravetos sobre as brasas, ps sobre eles uma pequena tora 
e comeou a procurar suas roupas. Entre elas estava a combinao rasgada de Aislinn, queele atirou sobre acama.
    Uma ideia passou por sua mente. Ela foi embora sozinha. Meu Deus, aquela mulher foi embora sozinha!
    Vestiu apressadamente os cales de l, a tnica, um colete de couro macio, e calou as botas. Preocupado, pensava na fragilidade
    de Aislinn e a imaginava caindo nas mos de um bando de malfeitores. A imagem da filha de Hilda morta, com as vestes rasgadas, surgiu em sua mente. Apanhou a 
espada e o manto e correu para os estbulos. Ps o brido na boca do enorme garanho que o conduzira em tantas batalhas, passou as rdeas pela cabeado animal e, 
segurando na crina, de um salto montou em plo. Qando saiu do estbulo encontrou Sweyn e alguns homens que voltavam da colina. Nenhum deles vira Aislinn naquela 
manh. Wulfgar deu uma volta no castelo, tentando adivinhar a direo que ela havia tomado.
    - Ah, l est - suspirou, satisfeito. Marcas leves onde os ps dela haviam tirado o orvalho da relva. - Mas onde vai dar isto? - Ergueu os olhos. - Mon Dieu! 
Vai direto para o pntano! - O nico caminho que ele no podia trilhar rapidamente a cavalo.
    O animal escolhia o caminho cautelosamente, conduzido pelo cavaleiro. Preocupado, Wulfgar imaginava que ela podia ter escorregado e cado no pntano. Ou talvez, 
desesperada, tivesse se atirado em algum lodaal profundo. Dominado por uma sensao de urgncia, ele esporeou o cavalo, apressando o passo.
    Aislinn seguiu pela trilha conhecida pelo povo da cidade e por ela, porque muitas vezes a havia percorrido a procura de ervas e razes para os remdios que sua 
me preparava. Logo chegou ao regato de guas limpas e margens ngremes. Sombras leves de nvoa pairavam ainda nos lugares que a luz do sol no alcanava. Aislinn 
sentiu uma necessidade premente de se lavar. O suor do corpo de Wulfgar em sua pele trazia lembranas da noite anterior.
    Deixou a roupa num arbusto, mergulhou na gua gelada e se movimentou e nadou at se aquecer um pouco. Sentia-se limpa agora, e o sangue corria veloz em suas 
veias. O cu cintilava com o brilho do nascer do dia, e os ltimos farrapos de nvoa erguiam-se da floresta. O som da gua batendo nas pedras das margens acalmava 
seu esprito perturbado, e ela se entregou toda  calma daqueles momentos. O pesadelo da morte do pai, o sofrimento da me, a conquista de Darkenwald pelos normandos, 
tudo parecia distante, em outro tempo, em outro lugar. Ali, a natureza intocada no mostrava os efeitos das guerras dos homens. Aislinn podia quase se sentir inocente 
outra vez, no fosse por Wulfgar. Wulfgar! Lembrava perfeitamente o belo perfil, os dedos longos, finos e fortes, que podiam matar, mas sabiam tambm acariciar suavemente. 
Aislinn estremeceu lembrando o abrao dele, e sua paz desapareceu. Com um suspiro, comeou a sair do regato. Antes de chegar na margem, com a gua rodopiando ainc 
abaixo da cintura, ergueu os olhos e viu Wulfgar que a observava calmamente, montado em seu garanho. Havia algo nos olhos dele. Alvio? Ou desejo? Uma brisa leve 
a envolveu e, estremecendo Aislinn cruzou os braos sobre o peito.
    -  Mon seigneur - pediu ela. - O ar est frio e deixei mint roupa na margem. Ser que podia...
    Ele no se moveu, como se no tivesse ouvido, e Aislinn sentia fisicamente a carcia de seu olhar. Levou o cavalo para dentro regato e parou ao lado dela. Ento, 
estendendo o brao, ergueu-a  a sela, sentando-a  sua frente. Tirou o manto e envolveu-a nele cuidadosamente, prendendo as pontas sob seus joelhos. Tremendo de 
frio, Aislinn aconchegou-se no calor do peito dele. Com mais o cale do animal sob seu corpo, logo comeou a se aquecer.
    -  Pensou que eu o tivesse abandonado? - perguntou ela. Wulfgar respondeu com um resmungou e tocou os flancos do
    animal com os calcanhares.
    -  Mas veio me procurar. - Inclinou a cabea para trs e olhe para ele.-Talvez deva me sentir honrada por ter se lembrado de mit depois de tantas outras.
    S depois de um momento ele percebeu a ironia e olhou zanga para ela.
    -  As outras foram apenas aventuras passageiras, mas voc minha escrava - rosnou ele. - E certamente j percebeu que tor conta do que me pertence.
    Suas palavras surtiram efeito. O corpo de Aislinn ficou rgido, ela perguntou, com frieza:
    -  E qual  o meu preo? No posso arar a terra, nem cuidar de porcos. No posso cortar lenha nem para aquecer a menor choupana e at a noite passada o nico 
servio que prestei foi costurar roupa ou tratar de algum ferimento leve.
    Wulfgar riu e depois respirou fundo.
    -  Ah, mas a noite passada! Sua suavidade  muito maior do qi eu esperava, e seu calor guarda promessas de muitas noites de prazer. Fique certa, chrie, de que 
tenho para voc um trabalho de acordo cor seu corpo frgil e com seus talentos.
    -  Como sua amante? - perguntou ela, olhando para ele. -. concubina de um bastardo?  assim que vo me chamar agora-deu
    um riso breve e amargo e continuou: -  melhor ento que eu represente o papel.
    Aislinn conteve um soluo, e Wulfgar no encontrou resposta para as palavras dela. Assim os dois seguiram em silncio. Pararam na frente de Darkenwald. Aislinn 
tentou desmontar apressadamente, mas o manto que a envolvia estava preso sob os joelhos de Wulfgar. Rindo da fria dela, ele soltou um dos joelhos de repente e Aislinn 
caiu, despida, entre as patas do cavalo. O animal, bem treinado, ficou imvel. Qualquer movimento das patas enormes a teria desfigurado para sempre. Aislinn afastou-se 
e ficou de p, furiosa, com os punhos cerrados. Wulfgar deu uma sonora gargalhada. Finalmente, atirou o manto para ela.
    -  Tome, vista-se, chrie, do contrrio pode apanhar um resfriado. Aislinn envolveu-se no manto, olhando rapidamente para os lados, para ver se algum mais testemunhara 
sua nudez.
    Vestida agora, no esperou por Wulfgar, mas, com porte altivo e arrogante, caminhou para a entrada, aconchegando o manto para se proteger do ar frio da manh. 
Abriu a porta, entrou e parou. Os homens de Wulfgar estavam reunidos no salo com um grupo de mercenrios de Ragnor. Aislinn ouviu a voz dele, falando sobre o Duque 
Guilherme.
    -  Logo ele vai poder montar outra vez, e no deixar passar este insulto. Eles escolheram outro, acima dele, mas esses ingleses logo vo aprender que no podem 
vencer Guilherme. Ele os esmagar sem piedade, e ele ser rei.
    Animados, os homens comearam a falar todos ao mesmo tempo, em voz alta. Aislinn no ouvia mais o que Ragnor dizia, e os capacetes e os ombros dos homens a impediam 
de v-lo.
    A porta se abriu e Wulfgar entrou, surpreso por ver seus homens reunidos no salo. Os que estavam mais prximos afastaram-se, abrindo caminho para a escada. 
Wulfgar, com a mo nas costas de Aislinn, fez com que ela se adiantasse. Notando seu cabelo molhado e os ps descalos, sem dvida todos pensaram que ela e Wulfgar 
voltavam de um passeio romntico na floresta.
    Ragnor estava de p no primeiro degrau da escada, e Maida, encolhida aos seus ps, segurava contra o peito o vestido rasgado. Ragnor observou Aislinn, dos cabelos 
molhados aos ps descalos. Quando seus olhos se encontraram, ele fez meno de dizer alguma coisa, mas, como se tivesse pensado melhor, virou a cabea bruscamente, 
ignorando-a, pois qualquer ateno que desse a ela poderia trair sua frustrao. Continuou afalarpara seus homens, mas agora olhando para Wulfgar.
    -  E estou certo de que o homem com mo forte governa melhor e o pago conquistado trabalha melhor quando lembrado constante-mente de sua condio de escravo. 
- Parou, esperando a reao dei Wulfgar. Mas o grande normando esperava, com um sorriso tolerante, que ele acabasse o discurso. - Esses camponeses simplrios devem 
aprender que temos mais experincia da vida do que seus governantes pagos. A mo fraca deixa cair as rdeas, mas a mo forte as seguravam com fora, levando o animal 
para onde queremos que ele v.
    Ragnor cruzou os braos no peito, quase como que desafianc Wulfgar a contradiz-lo. Os homens esperavam uma disputa, mas voz de Wulfgar soou calma no silncio.
    -  Senhor de Marte, preciso avis-lo outra vez de que meus homens so soldados. Acha que devo desperdi-los no trabalho doj campo, enquanto os camponeses pendem 
das forcas?
    Um murmrio correu pelo salo, e um frade de rosto corado adiantou-se, parando na frente dos dois homens.
    -  Isso  bom - disse ele, com voz ofegante. - Trate seus vizinhos da Britnia com misericrdia. Muito sangue j foi derramado para encher o inferno. Bom Deus! 
- exclamou ele, juntando as mos, como em prece. - Poupe a vida a todos eles. Sim, isso  bom, meu filho, para desfazer o trabalho do demnio.
    Ragnor voltou-se furioso para o homem da Igreja.
    -  Monge saxo, se continuar falando, logo estar morto.
    O pobre homem empalideceu e recuou. Ragnor voltou-se outra vez para Wulfgar.
    -  Ento, o bravo bastardo  agora o paladino dos ingleses disse com desprezo. - Voc protege esses porcos saxes e trata esta cadela inglesa como se ela fosse 
a irm do duque.
    Wulfgar deu de ombros, calmamente.
    -  So todos meus servos e, servindo-me, esto servindo o Duquel Guilherme. Estaria disposto a mat-los e servir em seu lugar, alimen-tando os ces e soltando 
os gansos  noite? - Ergueu uma sobrance-lha. - Ou talvez prefira substituir aqueles que j matou? Eu no trataria assim um normando, mas estou disposto a conseguir 
um dzimo desta terra cansada para Guilherme.
    Ragnor olhou para Aislinn por um momento, com desejo malcon-
    tido. Depois, voltou-se para Wulfgar e, com um sorriso quase agradvel e em voz baixa, disse.
    -  Minha famlia me serve bem, Wulfgar. O que voc diz da sua? O sorriso desapareceu quando ouviu a resposta.
    -  Minha espada, minha cota de malha, meu cavalo e este vtking so a minha famlia e tm me servido com mais lealdade do que voc pode imaginar.
    Ragnor ficou calado por um momento, depois olhou novamente para Aislinn.
    -  E ela, Wulfgar? O bastardo que ela vai parir ser seu ou meu? Como vai saber?
    A expresso de Wulfgar indicou que o dardo acertara o alvo, e Ragnor sorriu, satisfeito.
    -  Qual vai ser ento a sua famlia... sua espada, sua cota de malha e o bastardo dessa mulher? - Rindo, segurou o queixo de Aislinn. - Teremos um filho maravilhoso, 
doura, cheio de vida e de coragem.  uma pena que o bastardo no se case com voc. Ele detesta mulheres, voc sabe.
    Furiosa, Aislinn afastou a mo dele e voltou-se para Wulfgar.
    -  No  melhor do que ele - disse, em voz baixa. - Se eu tivesse foras naquele momento, teria lutado at o fim, feito sua carne em pedaos, sem ceder jamais! 
Voc se diverte  minha custa.
    Wulfgar passou a mo no peito e disse, com bom humor:
    -  Acho, Aislinn, que sua inteno de lutar at o fim e de fazer minha carne em pedaos foi muito bem realizada. Sou o primeiro a admitir, chrie, que s fazendo 
uso de uma grande fora consegui que cedesse aos meus desejos.
    Wulfgar segurou o pulso dela antes que a mo de Aislinn alcanasse seu rosto e puxou-a para si, aproximando os lbios dos dela.
    -  Devo dizer em altos brados que est cedendo agora, mas espera ainda vencer a ltima batalha?
    -  Meu senhor! Meu senhor! - Aislinn procurou desviar a ateno dele. - O padre!
    Entre gritos de encorajamento de seus homens, ouviu-se uma voz hesitante.
    -  H, h. Meu senhor... Sir Wulfgar. No nos conhecemos ainda. Sou o Frade Dunley. Fui chamado pelo senhor. - Wulfgar voltou-se para ele, e o frade continuou 
apressadamente: - Vim para abenoar as sepulturas, mas percebo que deveria fazer muitas outras coisas. O trabalho de Deus no est sendo feito a contento. Parece-me 
que muitas mulheres foram usadas, e algumas delas so casadas. A Igreja no pode ignorar esses fatos, nem concordar com eles. Acho que os maridos e noivos dessas 
mulheres devem ser recompensados com uma pequena soma em dinheiro.
    Wulfgar ergueu uma sobrancelha e sorriu para o padre, que continuou:
    -  E ento, meu senhor, aquelas que no so casadas, nem prometidas, devem casar...
    -  Espere, padre-disse Wulfgar, erguendo a mo.-Acho que oferecer dinheiro aos maridos e noivos das mulheres que foram usadas as reduziria  condio de prostitutas, 
e que homem estaria disposto a vender a virtude de sua esposa ou prometida? No seria uma soma pequena, quando toda a Inglaterra sente os efeitos dos desejos dos 
meus homens. S um governante muito rico poderia pagar a todos. Sou um cavaleiro pobre, e no teria o suficiente para fazer isso, mesmo que quisesse. Quanto  ideia 
de casamento para as outras, meus homens so todos soldados. So bons para uma guerra, mas no do tipo que uma jovem escolheria para marido. Todos partiro quando 
forem chamados s armas, deixando as mulheres com os filhos para sustentar, em situao pior do que agora. Se houve algum bem, certamente logo saberemos. Se houve 
algum mal, j est feito, e eu no posso desfazer.
    -  Mas senhor - o religioso no estava disposto a desistir. - O que me diz do senhor? Agora  dono de terras e amigo do duque. Certamente no vai deixar esta 
pobre moa pagar por pecados que no cometeu. Seu juramento de cavaleiro o obriga a defender o sexo fraco. Pode me garantir que pelo menos a far sua esposa?
    Wulfgar franziu a testa, e Ragnor deu uma gargalhada.
    -  No, padre, no posso. Meu juramento de cavaleiro no me obriga a isso. Depois, eu sou bastardo, e no posso pedir que ouvidos inocentes se sujeitem ao tipo 
de gracejos e ofensas dos mais ignorantes, aos quais estou acostumado. - Olhou para Ragnor. - Aprendi que os golpes mais cruis e os ferimentos mais profundos so 
infligidos pelas pessoas desse sexo que se diz frgil, caridoso e cheio de amor materno. No me comove o choro das mulheres, nem procuro obrig-las a fazer mais 
do que merecem. No, no me censure, pois no posso ceder nesse ponto.
    Wulfgar deu as costas ao homem de Deus, mas o frade no se deu por vencido.
    -  Lorde Wulfgar, se no quer se casar com ela, pelo menos conceda-lhe a liberdade. Seu prometido a aceitar assim mesmo.
    Ele apontou para Kerwick, que, imvel, olhava tristemente para Aislinn.
    -  No! No vou fazer nada disso! - rugiu Wulfgar, voltando-se furioso para o frade. Com esforo controlou-se e falou em voz baixa, mas severa e decidida. - 
Sou senhor e dono de tudo aqui. Tudo que v me pertence. No abuse da minha boa vontade. V abenoar as sepulturas e deixe o resto por minha conta.
    O bom frade sabia quando parar. Com um suspiro, murmurou uma prece, fez o sinal-da-cruz e saiu, acompanhado pelos homens. Aislinn no ousou dizer nada, e at 
Ragnor parecia estranhamente calado. Sweyn, como sempre, continuou em silncio
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Capitulo Oito
    
    
    
     SEPULTURAS foram abenoadas e Aislinn voltou para o quartoprocurando um pouco de privacidade. Mas encontrou Wulfgar, ao lado 1 da janela, olhando pensativamente
parao horizonte distante. Tinha nas mos a mensagem entregue a ele por Ragnor, enquanto o padre orava ao lado das sepulturas. Sweyn estava ao lado da lareira e com 
a pontal do p empurrava as brasas para o fogo. Os dois se voltaram quando! ela entrou; murmurando uma desculpa, Aislinn ia sair, mas Wulfgar a deteve.
    -  No, no precisa. Entre. J terminamos.
    Hesitante, ela entrou e fechou a porta. Corando sob a insistncia! dos olhares dos dois homens, deu as costas a eles. Wulfgar disse para Sweyn:
    -  Deixo tudo em suas mos.
    -  Sim, senhor. Ficarei de guarda.
    -  Ento, posso ficar descansado.
    -  Vai ser estranho, Wulfgar, depois de tantos anos. Sempre  lutamos to bem juntos.
    -  Sim, mas  meu dever, e preciso ter certeza de que est em  boas mos. Espero que no seja por muito tempo.
    -  Esses ingleses so obstinados. Wulfgar suspirou.
    -  Sim, mas o duque  muito mais.
    Sweyn balanou a cabea, concordando, e saiu do quarto. Aislinn estava apanhando os pedaos do copo de chifre que ela atirara contra a porta na noite anterior, 
evitando o olhar de Wulfgar. Procurou a combinao rasgada, pensando em consert-la, pois jno tinha muita roupa para vestir, mas no a encontrou.
    -  Meu senhor - disse ela, com a bela testa franzida. - Por acaso viu a minha combinao esta manh? Sei que estava aqui.
    -  Eu a deixei na cama - respondeu ele.
    Aislinn voltou-se, sabendo que era intil procurar outra vez. Deu de ombros e levantou o travesseiro.
    -  No est em lugar nenhum, seigneur.
    -  Talvez Hlynn a tenha levado - disse ele, sem muito interesse.
    -  No, ela no entraria aqui sem sua permisso. Tem medo do senhor.
    -  A combinao vai aparecer - disse ele, irritado. - Esquea isso agora.
    -   que no tenho muitas - queixou-se Aislinn. - E nem dinheiro para comprar mais fazenda. A l  muito spera para serusada sem nada por baixo. E o senhor 
j disse que no pretende gastar dinheiro para me comprar roupas.
    -  Pare de tagarelar, mulher. Est parecendo essas que pedem dinheiro a toda hora.
    Por um momento, o queixo de Aislinn tremeu, e ela deu as costas a ele para esconder uma fraqueza at ento desconhecida. Chorar por uma combinao rasgada, quando 
toda a Inglaterra estava na misria. Mas estava chorando pela pea de roupa ou por si mesma? Ela, forte, voluntariosa e determinada, enfraquecida e diminuda por 
um homem que odiava as mulheres e acabava de compar-la s prostitutas que frequentavam os acampamentos dos exrcitos.
    Contendo as lgrimas, Aislinn ergueu o queixo.
    -  Meu senhor, no estou lhe pedindo nada. S procuro conservar o que  meu, como o senhor faz.
    Comeou a arrumar o quarto, procurando se livrar do mau humor. Quando finalmente olhou para Wulfgar, ficou surpresa com a expresso sombria no rosto dele.
    -  Manseigneur - murmurou ela. - Terei inadvertidamente praticado alguma ao monstruosa? Estou dizendo a verdade, no pedi para me comprar roupas. Contudo, 
porm, olha para mim como se quisesse me espancar. Odeia-me tanto assim, meu senhor?
    -  Odiar? - disse Wulfgar com sarcasmo. - E por que eu ia odi-la, quando voc  tudo que um homem pode desejar?
    Aislinn tentou lembrar cada palavra que haviam trocado h pouco e no encontrou nenhum motivo para aquele olhar to severo. Ento, com um choque, lembrou-se 
das palavras de Ragnor.
    -  Teme que eu esteja com o filho de outro homem, meu senhor? - perguntou, ousadamente, e viu a tempestade nos olhos dele. - Deve ser difcil para o senhor pensar 
que talvez eu esteja grvida e no ter certeza de que  seu.
    -  Fique quieta - disse ele, aborrecido.
    -  No, senhor - Aislinn balanou a cabea teimosamente, e o cabelo sedoso danou em seus ombros. - Quero saber a verdade agora. E se eu estiver grvida? Casar 
comigo para salvar um inocente de tudo que o senhor tem sofrido at agora?
    -  No, ouviu o que eu disse ao padre - respondeu Wulfgar. Aislinn respirou fundo.
    -  Gostaria de saber mais uma coisa, se for bastante generoso para me dizer. Como pode ter certeza de que no gerou ainda nenhum bastardo? Todas as suas mulheres 
eram estreis, como esperava que eu fosse? - Wulfgar franziu mais a testa, e ela teve certeza de ter acertado o alvo. - Teria mais prazer comigo se eu fosse como 
as outras mulheres, no  mesmo? - Parou na frente dele e ergueu os olhos para o rosto impassvel. Procurando parecer calma, ela continuou: - Desejo desesperadamente 
ser estril, pois acho que no gostaria de ter um filho seu.
    Depois de um silncio, como que movido por um pensamento repentino, ele segurou o brao dela e, olhando-a nos olhos, disse:
    -  Goste ou no, Aislinn, no pense que pode reparar sua honra sacrificando sua vida. Ouvi falar de mulheres que tiram a prpria vida por no suportar a vergonha. 
Mas isso  loucura.
    -  Loucura? - Aislinn sorriu docemente, atormentando-o. - Acho que  uma ideia muito digna.
    Wulfgar sacudiu-a com violncia, at os dentes dela se chocarem, e sua cabea parecer que ia soltar do pescoo.
    -  Dou minha palavra, mulher. Eu a manterei acorrentada ao meu lado para ter certeza de que no vai fazer isso.
    Aislinn livrou-se das mos dele e com olhar furioso, embora enevoado pelas lgrimas, respondeu:
    -  No tenha medo, nobre senhor. Dou muito valor  vida. Se eu estiver grvida, ento certamente terei a criana dentro de nove meses, quer a reconhea como 
sua ou no.
    Wulfgar disse, aliviado:
    -  Muito bem. No quero ter sua morte na conscincia.
    -  Diga-me. Quem seria ento sua prostituta? - perguntou ela, com amargura.
    -  Aislinn - sua voz era quase ameaadora. - Controle suas palavras. Estou farto desse tipo de provocao.
    -   mesmo, meu senhor? Eu jamais imaginaria que um cavaleiro to destemido pudesse ter medo das palavras de uma simples mulher.
    -  Suas palavras tiram sangue.
    -  Peo que me perdoe, senhor - disse ela, com fingida humildade. - Meu senhor sofre muito com isso?
    -  Meu senhor, meu senhor! - imitou ele, ignorando a pergunta. - J disse qual  o meu nome. Tem alguma coisa contra ele?
    Aislinn ergueu o queixo altivamente.
    -  Sou sua escrava. Quer que uma escrava o trate com tanta familiaridade?
    -   uma ordem, Aislinn. - Ele se curvou, como se estivesse falando com uma rainha.
    Aislinn balanou a cabea, concordando.
    -  Se  uma ordem... Wulfgar.
    O normando segurou-a pelos ombros e olhou nos olhos dela.
    -  Voc prefere ser escrava por sua convenincia, mas no  o que eu quero. Uma vez que minha semente entrou em voc, pretendo fazer o melhor possvel da situao.
    Wulfgar beijou-a violentamente, abafando as palavras de protesto, abrindo-lhe  fora os lbios, sedento e feroz. Confusa, Aislinn tentou empurr-lo, mas ele 
a abraou com fora, impedindo seus movimentos. Beijou ento avidamente o seu pescoo. Aislinn sentia a presso do corpo dele e sentiu que comeava a ceder ao abrao 
quase brutal. Desesperadamente, procurou se controlar.
    -  Meu se... Wulfgar! Est me machucando! - murmurou, quase sem ar. O normando cobria de beijos seu pescoo e seu rosto. Quando seus lbios se encontraram outra 
vez, com um gemido, ela desviou o rosto. - Solte-me - pediu, mais furiosa agora com os prprios sentimentos do que com ele. - Solte-me agora, estou dizendo.
    -  No - murmurou Wulfgar, inclinando-a para trs sobre seu brao.
    Aislinn prendeu a respirao quando os lbios dele tocaram seu seio, parecendo queimar-lhe a pele. Passando a mo sob os joelhos de Aislinn, ele a ergueu no 
colo e, ignorando os protestos, levou-a para a cama e comeou a despi-la. Arrumou o manto sedoso cor de cobre do cabelo dela sobre o manto de pele e, recuando um 
pouco, comeou a tirar a prpria roupa, sem tirar os olhos devoradores do corpo esplndido.
    -  No  decente! - reclamou Aislinn, sentido-se ofendida em sua modstia. Ento corou intensamente porque,  luz do dia, seus corpos nus pareciam se gravar 
para sempre em sua mente. Ela o viu como nunca vira antes, um guerreiro de pele bronzeada, personagem talvez de uma lenda pag, um ser belo, maravilhoso, para ser 
domado e capturado e, se fosse possvel, mant-lo ao seu lado. Aislinn exclamou: - O sol est alto no cu!
    Rindo, Wulfgar deitou ao lado dela.
    -  O sol no tem nada a ver com isto-sorriu, olhando nos olhos dela. - Assim, no haver mais segredos entre ns.
    Aislinn corou outra vez. Com admirao, Wulfgar acariciou-lhe o corpo, fazendo-a estremecer, maravilhado com a textura aveludada da pele macia.
    Aislinn compreendeu que nada poderia impedi-lo agora. Mas resolveu ficar completamente passiva. Wulfgar se satisfez e s quando se afastou demonstrou seu desagrado. 
Ficou algum tempo deitado, com a testa franzida. Aislinn no ousava sorrir em triunfo, mas seu olhar frio dizia tudo.
    -  Ocorreu-me, chrie - murmurou ele, suavemente, passando o dedo entre os seios dela -, que voc resiste no a mim, mas a voc mesma, e aposto que vai chegar 
o tempo em que bastar um leve toque dos meus dedos para que implore meus favores.
    Como se no tivesse ouvido, Aislinn continuou a olhar para ele. Wulfgar suspirou pensativamente e apanhou suas roupas. Quando se voltou, olhando com admirao 
para as pernas bem-feitas, Aislinn sentou-se na cama e se cobriu com uma manta de pele. O normando riu, deu de ombros e comeou a se vestir. Assim que terminou, 
apanhou do cho a roupa dela. Quando a tomou das mos dele, Aislinn
    olhou para a porta, como convidando-o a sair, mas com um sorriso Wulfgar balanou negativamente a cabea.
    -  No, no vou ainda. Tem de se acostumar  minha presena, adorvel Aislinn, pois no deixarei que sua modstia me negue nenhum prazer.
    Aislinn olhou para ele furiosa e, com um gesto de desafio, deixou cair o manto de pele que a cobria. Com graa natural, caminhou at a lareira, seguida pelo 
olhar vido de desejo de Wulfgar. Voltou-se ento para ele e por um momento surpreendeu nos olhos do normando a surpresa com a intensidade dos prprios sentimentos.
    L fora, algum gritou avisando a aproximao de estranhos, e Wulfgar desviou os olhos, como que aliviado com a interrupo. Prendendo a espada ao cinto, saiu 
do quarto. Aislinn vestiu apressadamente a combinao e a tnica de l, pensando que deviam ser guerreiros de Erland voltando da batalha. Com o cabelo descuidada-mente 
solto sobre os ombros, desceu a escada e, quando chegou ao hull, Ragnor tentou impedir sua passagem.
    -  Vai me deixar passar ou preciso pedir ajuda?-perguntou ela, secamente. Wulfgar estava na porta, esperando os estranhos. - Wulfgar no o avisou para me deixar 
em paz e j no o castigou por me importunar?
    -  Algum dia eu o matarei por isso-murmurou ele, mas depois deu de ombros, sorriu e estendeu a mo para o cabelo dela. - Como v, pequena sax, desafio a morte 
e a humilhao para estar perto de voc.
    Aislinn tentou tirar o cabelo da mo dele, mas Ragnor no soltou.
    -  E se conseguisse o que deseja, certamente mandaria me enforcar quando se cansasse de mim.
    Ragnor riu da fria dela.
    -  Voc nunca, minha avezinha. Jamais a trataria desse modo.
    -  Sou sax - disse ela. - Por que no?
    -  Porque voc  bonita demais. - Largou a ponta do cabelo sobre um dos seios, os dedos tocando de leve o corpo dela. - Vejo que ele est se divertindo bastante. 
Seu rosto ainda est corado.
    Corando mais ainda, Aislinn tentou passar por ele.
    -  No tenha pressa - murmurou Ragnor.
    -  Deixe-me passar! - ordenou Aislinn, em voz baixa.
    -  No vai se despedir com uma palavra amvel? Aislinn ergueu as sobrancelhas interrogativamente.
    -  Vai partir outra vez? Quando?
    -  No fique to ansiosa, minha avezinha. Isso me ofende profundamente.
    -  Durante sua ausncia, diminui sensivelmente para mim o perigo de um ataque fsico. Mas, diga-me, por que insiste tanto? No h mulheres no lugar para onde 
vai?
    Inclinando-se para ela, Ragnor murmurou, como quem conta um segredo.
    -  Todas so espinhos. Eu quero a rosa.
    Ele a beijou rapidamente na boca, antes que Aislinn tivesse tempo de se afastar, e, saindo da frente dela, levou a mo ao peito.
    -  Guardarei este beijo para sempre no meu corao, doura. Aislinn passou por ele e foi para a porta. Uma calea fechada,
    acompanhada de um cavaleiro, aproximava-se de Darkenwald. O carro parou ao lado de um dos homens de Wulfgar e, a uma pergunta do passageiro, o soldado apontou 
paraWulfgar. Aislinn viu ento uma mulher jovem, magra e loura, dirigindo o carro. O cavalo velho mancava e, embora no tivesse cicatrizes de batalha, devia ter 
sido um belo animal. A cota de malha do cavaleiro era antiga e muito usada. O homem era forte e grande, quase da altura de Wulfgar. Seu cavalo tambm j vira melhores 
dias, e estava coberto de poeira. A mulher parou o carro na frente de Wulfgar e olhou para o castelo.
    -  Voc se saiu muito bem, Wulfgar. - Desceu sem esperar ajuda e com um gesto indicou o cavaleiro e o carro. - Pelo menos, muito melhor do que ns.
    Aislinn sentiu imediatamente hostilidade e medo, notando a familiaridade com que a mulher tratava Wulfgar. A mulher ergueu o rosto e ela viu os traos finos 
e aristocrticos, a pele lisa cor de marfim. A visitante era mais velha do que ela, devia ter quase trinta anos, e tinha o porte altivo, O corao de Aislinn estremeceu, 
pois no podia imaginar o relacionamento daquela mulher com Wulfgar.
    O velho cavaleiro aproximou-se e saudou Wulfgar como um nobre chefe saudando outro. Wulfgar retribuiu a saudao, e por um momento os dois homens se entreolharam. 
O recm-chegado apoiou sua lana no cho e tirou o elmo. Aislinn notou o cabelo branco longo,  moda sax, e a linha mais clara no rosto, de onde a barba fora h 
pouco tempo raspada.
    Aislinn ficou surpresa com a presena de um velho cavaleiro saxo armado, em Darkenwald. Havia alguma coisa familiar no ho-
    mem, embora seu rosto fosse estranho e no tivesse nenhum braso no escudo.
    Quando Wulfgar falou, Aislinn teve a impresso dequeele travava uma batalha ntima.
    -  As acomodaes so pobres, meu senhor, mas  bem-vindo. O homem continuou montado, como que rejeitando as boas-vindas.
    -  No, Wulfgar, no estamos procurando pousada por algumas noites. - Ele olhava para a frente e, com a voz rouca, como se as palavras sassem com dificuldade, 
continuou: - Fui expulso das minhas terras por seus normandos. Os saxes me consideram um traidor, pois no tive condies de lutar ao lado de Harold. O nmero dos 
meus servidores diminuiu, mas mesmo assim no posso mante-los. Por isso, venho a voc para pedir asilo.
    Wulfgar olhou para o sol poente, depois outra vez para o homem, sentado rgido e altivo na sela. Disse ento, com voz segura e forte:
    -  Eu repito, meu senhor,  bem-vindo aqui.
    O homem relaxou e fechou os olhos por um instante, como que reunindo foras para uma nova experincia penosa. Apoiou a lana na parte traseira da sela e no cho, 
 sua esquerda, e dependurou o escudo na ponta superior. Ps a mo debaixo do joelho esquerdo e, com expresso de dor, tentou erguer a perna e pass-la para o outro 
lado da sela. Wulfgar adiantou-se para ajudar, mas ele o impediu com um gesto. Com grande esforo, o velho homem conseguiu fazer o movimento, mas deixou escapar 
um gemido surdo quando a perna encostou no flanco do cavalo. Sweyn aproximou-se dele e, ignorando o gesto negativodo velho saxo, tirou-o da sela e o ps de p no 
cho, escorando o corpo dele no seu. O velho sorriu para o viking e ps a mo aberta no peito dele. Sweyn segurou-a e apertou-a amistosamente.
    -  Sweyn, bom Sweyn - disse o homem. - No mudou nada.
    -  Um pouco mais velho, senhor - disse o viking.
    -  Sim - respondeu o saxo, pensativamente. - Eu tambm. A mulher voltou-se para Wulfgar.
    -  Estamos com muita sede. A poeira da estrada secou nossas gargantas. Podemos tomar alguma coisa?
    Wulfgar fez um gesto afirmativo.
    -  L dentro.
    Pela segunda vez naquele dia, Aislinn sentiu o quanto estava malvestida e penteada quando o homem e a mulher olharam para ela. O cabelo despenteado e os ps 
descalos que apareciam sob a barra da tnica vestida s pressas no escaparam a observao dos estranhos. Corando, Aislinn automaticamente alisou a tnica, sob 
o olhar interessado da mulher loura. Sweyn olhou para Wulfgar com expresso indulgente, notando a mudana na atitude de Aislinn. A mulher, no primeiro degrau da 
escada, ergueu os olhos e examinou Aislinn com curiosidade. Quando Ragnor apareceu  porta e com um leve sorriso possessivo parou ao lado da jovem, a mulher ergueu 
as sobrancelhas, intrigada. Voltou-se para Wulfgar, como para pedir uma explicao, mas ele estava subindo os degraus. Parou ao lado de Aislinn e segurou a mo dela, 
puxando-a para ele. Disse ento, com uma leve insinuao de ironia no olhar.
    -  Esta  damoiselle Aislinn, filha do antigo senhor deste solar. Aislinn, minha meio-irm, Gwyneth. - Ele mais sentiu do que viu a surpresa de Aislinn, e voltou-se 
para o homem: - Lorde Bolsgar de Callenham, seu pai.
    -  Lorde? - repetiu Bolsgar - No, Wulfgar. Os tempos mudaram, Agora voc  o senhor, e eu apenas um cavaleiro sem armas.
    -  Durante todos esses anos, pensei no senhor como Lorde de Callenham, e  difcil mudar agora - respondeu Wulfgar. - Temo que tenha de atender ao meu capricho.
    Aislinn sorriu, e o velho olhou de Wulfgar para ela com expresso preocupada.
    -  O velho Darkenwald sempre se sentia honrado com a presena de hspedes-disse ela. - O senhor seria bem-vindo naquele tempo, exatamente como est sendo agora 
por Lorde Wulfgar.
    Ragnor adiantou-se para ser apresentado e inclinou-se sobre a mo de Gwyneth. Ao contato dos lbios dele, a frieza com que ela reagira  presena do normando
transformou-se em intenso prazer. Ela sorriu, e Ragnor compreendeu que acabavade fazer uma conquista. Voltou-se para Wulfgar com um largo sorriso.
    -  No nos disse que tinha parentes aqui, meu senhor. Guilherme gostar de saber disso.
    -  No precisa se apressar para contar a ele, Sir de Marte. No  novidade para Guilherme -garantiu Wulfgar.
    Encerrando o assunto, Wulfgar abriu mais a porta de entrada e desceu outra vez, passou um dos braos de Bolsgar sobre seu ombro e ajudou Sweyn a lev-!o para
dentro. Aislinn puxou uma poltrona confortvel e uma banqueta para perto da lareira e mandou servir comida e vinho aos hspedes. O saxo gemeu de dor quando Wulfgar
    ps sua perna na banqueta, mas logo recostou-se na poltrona com um suspiro de alvio. Kerwick aproximou-se, e Aislinn, ajoelhada ao lado do velho saxo, preparou-se 
para retirar a perneira de couro da perna ferida. No era fcil porque a perna estava inchada. Tentou cortar com sua pequena adaga, mas s conseguiu provocar mais 
dor. Wulfgar ajoelhou-se ao lado dela e com seu punhal afiado cortou a perneira com um s gesto. Aislinn comeou a retir-la, mas Bolsgar afastou-a com um gesto.
    -  Tire essa menina daqui, Wulfgar. No  um espetculo bonito para olhos jovens.
    Aislinn balanou a cabea.
    -  No. No vou permitir que me mande embora, Sir Bolsgar. Tenho estmago forte e-olhou para Wulfgar -j me chamaram de teimosa. Deve permitir que eu faa isso.
    Com um sorriso nos olhos cinzentos, ele disse:
    -  Sun, ela  teimosa.
    Aislinn franziu a testa. Gwyneth aproximou-se, observando os dois com curiosidade, e Maida comeou a servir comida e bebida para os viajantes.
    -  O que acha de estar entre os conquistadores, Wulfgar? - perguntou Gwyneth.
    Bolsgar olhou severamente para ela.
    -  Controle sua lngua, minha Filha.
    Wulfgar, inclinado ao lado de Aislinn sobre apemado velho lorde, disse:
    -  Melhor do que estar entre os vencidos.
    Todos ficaram em silncio quando a perneira foi retirada, revelando o ferimento vermelho e inflamado. Com uma exclamao abafada, Gwyneth virou o rosto, e Ragnor 
ajudou-a a levar seu prato e copo para a mesa, com a graa de um nobre corteso normaido.
    O cheiro do ferimento era quase insuportvel, e Aislinn engoliu em seco. Wulfgar ps a mo no ombro dela, e a jovem continuou a retirar a perneira.
    -  Diga-me o que deve ser feito - disse Wulfgar, notando a palidez dela.
    -  No, eu mesma fao.
    Apanhou um balde de madeira e voltou-se para Kerwick.
    -  O pntano... sabe onde Fica? - Kerwick fez um gesto afirmativo, e, entregando a ele o balde, ela continuou. - Encha este balde com a lama mais negra que encontrar.
    Kerwick saiu rapidamente, e pela primeira vez ningum tente impedi-lo.
    Wulfgar olhou para o padrasto.
    -  Como aconteceu isso, senhor? - perguntou. - Ferimento infligido por um normando?
    -  No - suspirou Bolsgar. - Seria motivo de orgulho mim se fosse, mas isto no  obra do inimigo. Meu cavalo tropece numa vala e camos os dois, o animal sobre 
a minha perna, antes que eu tivesse tempo de rolar para o lado. Uma pedra aguada cortou, perneira e feriu minha perna, que est piorando rapidamente.
    -  No procurou algum para trat-la? - perguntou Aislinn. Devia ter sido tratada imediatamente.
    -  No havia ningum a quem eu pudesse pedir.
    Aislinn olhou para Gwyneth, pensando nas vezes em que trat os ferimentos do pai e imaginando como seria essa meia-irm Wulfgar.
    -  Wulfgar-disse ela-, traga o caldeiro de gua que est no fogo. Me, apanhe lenis limpos na arca, e Sweyn prepare uma ca com esteiras na frente do fogo.
    Bolsgar sorriu e ergueu as sobrancelhas vendo que at o bravo guerreiro apressava-se em obedecer s ordens dela. Aislinn saiu procura de teias de aranha nos 
cantos. Wulfgar e Sweyn tiraram a cot de malha do velho saxo e deitaram-no sobre as esteiras forradas con mantos de pele. Aislinn ergueu a perna ferida, retirando 
os restos. perneira que estavam por baixo, e apoiou-a numa macia pele de cabr Virou-a de modo que o ferimento ficasse para cima, e o cheiro qua a fez vomitar. Rasgou 
um lenol pelo meio e olhou preocupada pa o homem ferido.
    -  Vai doer, meu senhor - avisou. - Mas tem de ser feito. Com um sorriso corajoso, ele fez um gesto para que ela continuasse
    -  J senti a suavidade de suas mos, Lady Aislinn, e duvido que seja capaz de me infligir uma dor insuportvel.
    Aislinn derramou um pouco de gua fervendo numa pequer bacia de madeira e molhando nela o pano de linho comeou a lavar perna inflamada. Ergueu os olhos quando 
o p dele estremeceu. Bolsgar sorriu para ela, mas o suor brotava-lhe na testa, e suas me agarravam com fora as peles da cama improvisada.
    Aislinn continuou a fazer a limpeza at Kerwick entrar ofegante com o balde cheio de lama negra e pegajosa. Ela ps uma poro da lama malcheirosa em outra vasilha 
menor e, juntando as teias de aranha, misturou at formar uma pasta, que aplicou sobre o ferimento e  sua volta. Molhou mais tiras de pano na gua quente e dobrando-as 
apiicou-as nos lados da perna, envolvendo-a ento com a pele de cabra e prendendo-a com firmeza. Sentou sobre os calcanhares, limpando as mos, e olhou para Bolsgar.
    - No deve mover a perna, meu senhor-disse, com autoridade.-Nem um pouco.-Sorriu e levantou-se.-A no ser que queira usar uma perna de pau para deixar marcas 
estranhas no cho. - Ergueu os olhos para Wulfgar. - Talvez Sir Bolsgar aceitasse um copo de cerveja fria.
    O velho saxo sorriu, agradecido depois de esvaziar o copo de chifre, fechou os olhos e em poucos instantes adormeceu.
    Ragnor saiu do salo com Wulfgar e Sweyn, e Aislinn, depois de conduzir Gwyneth a um dos quartos, foi para o seu, esperando um pouco de privacidade. Parou ao 
lado da cama com as mantas de pele desarrumadas, quase sentindo o corpo de Wulfgar contra o seu. Com uma exclamao abafada, correu para a janela, lembrando a expresso 
de Gwyneth quando olhou para ela, sabendo muito bem o que a mulher devia estar pensando. Gwyneth observara Aislinn e Wulfgar o tempo todo, exceto quando lanava 
um olhar apreciativo para Ragnor. O que ela ia pensar quando a visse sentada ao lado do normando, ao jantar, e depois subir com ele para o quarto? Certamente Wulfgar 
no ia exibir a amante na frente deles, porm, na porta, ele segurara sua mo, aparentemente sem se importar com o olhar curioso de Gwyneth. Outros homens ficariam 
constrangidos para apresentar a amante a pessoas de sua famlia, especialmente estando ela to malvestida. O sangue subiu-lhe ao rosto, imaginando o que eles deviam 
ter pensado. Balanou a cabea e tampou os ouvidos com as duas mos para no ouvir a palavra acusadora:
    Prostituta! Prostituta!
    Finalmente se acalmou e, olhando para fora, viu os normandos numa colina distante fazendo exerccios de batalha, mas desviou logo os olhos. No a agradava assistir 
aquela atividade que custara a morte de tantos saxes.
    Comeou a tratar de arrumar o quarto e melhorar a prpria aparncia. Tranou o cabelo com fitas amarelas e vestiu uma combinao amarelo-clara e uma tnica dourada 
com bordados nas manga longas. Ps na cintura o cinto de delicados elos de metal com a adaga incrustada de pedras na bainha, o smbolo de que ela era um pouc mais 
do que uma escrava. Prendeu o cabelo com uma fina rede de seda. Desde a chegada de Wulfgar ela no caprichava tanto na toalet e imaginou qual seria a reao dele 
se por acaso notasse a diferena Kerwick certamente ia notar, e Maida tambm, pois era sua melhor roupa, a que estava guardando para seu casamento. De que ia adiant 
todo esse cuidado se no conseguisse conquistar o teimoso cavaleir normando?
    Era noite quando eladesceu parao salo. As mesas sobre cavalete estavam armadas para os homens, que no tinham voltado ainc Aislinn notou que Gwyneth arrumara 
o cabelo, mas estava com mesmo vestido empoeirado e manchado da viagem. Compreendeu que fora um erro vestir seu melhor traje e atribuiu-o ao fato de s pensa em 
Wulfgar, nada mais. Porm, era tarde para se arrepender.
    Gwyneth voltou-se quando Aislinn descia a escada, e seus olhos a examinaram dos ps  cabea.
    -  Muito bem, vejo que os normandos pelo menos lhe deixara alguma roupa para trocar - disse, com despeito venenoso. - Mas afinal, eu no concedi nenhum dos meus 
favores a eles.
    Aislinn ficou imvel, rubra de clera. Controlou-se para n perguntar como Gwyneth estava entre as poucas mulheres inglesa no usadas pelos normandos. Sem dvida 
por ser irm de Wulfga mas com que direito ela ridicularizava as que foram desonradas eles? Controlando-se, Aislinn foi at a lareira e olhou demoradament Bolsgar, 
ainda adormecido, deixando que a compaixo amenizasse o veneno das palavras de Gwynedi. Ham entrou na sala e perguntou:
    -  Senhora,acomidaest pronta paraser servida. Oquedevemc fazer?
    Aislinn sorriu.
    -  Pobre Ham, no est acostumado ao horrio dos normandos. A pontualidade de meu pai o acostumou mal.
    Gwyneth disse, com voz firme.
    -  Esses normandos precisam aprender um pouco de pontualidaj de. Deixe que se contentem com comida fria, mas prefiro a minha ber quente. Sirva-me agora.
    Aislinn olhou para ela e disse, com uma calma que no sentia:
    -  Lady Gwyneth,  costume desta casa esperar o senhor quanc
    ele no d nenhuma ordem em contrrio. No pretendo desacredit-lo com a minha pressa.
    Gwyneth ia responder, mas Ham saiu da sala, sem questionar a autoridade de Aislinn. Erguendo uma sobrancelha, ela disse:
    -  Esses servos precisam aprender um pouco de respeito.
    -  Sempre serviram muito bem - disse Aislinn.
    O tropel de cavalos quebrou a quietude da noite, e Aislinn apressou-se a abrir a porta. Wulfgar desmontou e subiu os degraus, enquanto seus homens levavam os 
cavalos para o estbulo. Parou ao lado dela, examinou-a dos ps  cabea e, com um brilho nos olhos, murmurou:
    -  Voc me honra, chrie, no pensei que sua beleza pudesse ser mais realada.
    Aislinn corou, sentindo o olhar atento de Gwyneth. Wulfgar inclinou-se avidamente para beij-la na boca, mas Aislinn, confusa, recuou e estendeu a mo para a 
outra mulher.
    -  Sua irm est faminta, meu senhor - disse, rapidamente. - Seus homens vo demorar?
    Ele ergueu uma sobrancelha interrogativamente.
    -  Meu senhor? Ser que esqueceu to depressa, Aislinn? Com um olhar de splica e corando mais intensamente, ela disse:
    -  Demorou tanto. Estvamos pensando que amos jantar sozinhas. Com um resmungo e a testa franzida, Wulfgar aproximou-se da
    lareira, andando com cuidado quando viu que Bolsgar ainda dormia. Parou de frente para a sala, as pernas afastadas, as mos cruzadas nas costas, e seu olhar 
acompanhou Aislinn quando ela foi at a pequena cozinha e deu ordens para servirem o jantar. Quando voltou, viu a desaprovao nos olhos dele.
    Bolsgar fez um movimento. Aislinn ajoelhou ao lado da cama improvisada e ps a mo na testa dele, que estava quente, mas no demais. Depois de tomar alguns goles 
d'gua, o velho saxo voltou a deitar, com um suspiro de alvio. Olhou ento para a filha e depois para Wulfgar, que, de costas agora, empurrou com o p uma tora 
em brasa para dentro da lareira. Erguendo a cabea e com o olhar distante, o normando disse:
    -  No me falou da minha me, senhor. Ela est bem? Bolsgar demorou alguns instantes para responder.
    -  Em dezembro vai fazer um ano que ela morreu.
    -  Eu no sabia - murmurou Wulfgar. Lembrou da me como a vira na ltima vez, muito parecida com Gwyneth. Viu-a claramente, como se fosse na vspera, parada,
em si lncio, enquanto ele se afastava a cavalo, com Sweyn.
    -  Comunicamos a morte dela a Robert, na Normandia - disse Bolsgar.
    -  H dez anos no vejo o irmo dela - disse Wulfgar em voz baixa, afastando da mente a lembrana da me. - ParaRobert, sempre fui uma carga indesejvel.
    -  Ele foi pago para cuidar de voc. Devia ter se sentido orgu lhoso.
    Com um sorriso irnico, Wulfgar disse.
    -  Sim, recebeu o bastante para comprar muita cervejae espalhar aos quatro ventos que a irm trara um saxo e que seu sobrinho no passava de um bastardo. Aparentemente
achou muito divertido o fato de nenhum homem me reclamar como filho.
    -  Voc foi criado como um homem bem nascido. Conseguiu ser sagrado cavaleiro - disse Bolsgar.
    -  Sim - respondeu ele com um suspiro. - Sim, Robert fez de mim seu pajem e me ensinou a arte da cavalaria, mas s depois de Sweyn o fazer lembrar de sua obrigao 
com uma ameaa muito clara.
    O velho saxo fez um gesto afirmativo.
    -  Robert era um homem frvolo. Eu no esperaria mais dele. Ainda bem que mandei Sweyn com voc.
    Com o rosto contrado, Wulfgar perguntou:
    -  O senhor me odiava tanto que no podia suportar a minha presena?
    Aislinn ergueu os olhos, e seu corao voltou-se todo para Wulf-gar. Nunca o vira to transtornado. Com os olhos marejados de lgrimas, mas o rosto impassvel, 
o velho saxo disse:
    -  Quando fiquei sabendo da verdade, durante um tempo eu o odiei. Voc era meu primeiro filho e meu orgulho. Por voc, negligen ciei meu outro filho. Voc era 
mais veloz a cavalo e mais perfeito do que qualquer outro, e parecia ter o segredo da vida nas veias. Eu no podia me consolar com o menino fraco e frgil que nasceu 
depois. Voc era a minha prpria vida, e eu o amava mais do que a mim mesmo.
    -  At minha me contar que eu era filho de um normando cujo nome ela jamais quis revelar - murmurou Wulfgar, amargamente.
    -  Ela pensou que estava corrigindo um erro. Eu me interessava
    mais por um bastardo do que por meus prprios filhos, e ela no podia suportar isso. Estava disposta a arcar com a vergonha para o bem deles. No a condeno por 
isso. No, foi a ira que me dominou e que afastou voc de mim. Voc era o vento ao meu lado, minha sombra, minha alegria, mas no era meu filho. Voltei-me para meu 
filho verdadeiro, e ele cresceu forte e belo, e ento, no vigor da idade, morreu. Eu preferia ter morrido em seu lugar. Mas meu destino foi criar uma mulher que 
tem a lngua to ferina quanto a da me. - O velho saxo cafou-se e olhou para as chamas pensativamente.
    Pensando na injustia de tudo aquilo, Aislinn sentiu pena do menino rejeitado primeiro pela me e depois pelo pai, que ele conhecia to bem. Ela queria estender 
o brao e toc-lo, aliviar seu sofrimento. Ele parecia mais vulnervel agora, e ela s o conhecia de outro modo, sempre forte, como uma fortaleza inexpugnvel. Aislinn 
perguntou a si mesma se algum dia seria possvel alcanar seu corao.
    Ela se levantou e foi sentar na poltrona ao lado do fogo.
    -  Ns o mandamos para o pas de sua me, sem imaginar que voltaria deste modo. - A voz de Bolsgar estava rouca, e ele lutava para se controlar. - Sabia que 
seu irmo morreu na colina de Senlac?
    Wulfgar ergueu bruscamente a cabea. Gwyneth aproximou-se dos dois, furiosa.
    -  Sim, os ladres normandos o mataram. Mataram o meu irmo! Wulfgar ergueu uma sobrancelha e perguntou:
    -  Ladres normandos? Naturalmente quer dizer eu e meus homens.
    Ela ergueu o queixo.
    -  No parece combinar com voc, Wulfgar. Ele sorriu, quase gentilmente.
    -  Tenha cuidado, irm. As maneiras do vencido devem sempre agradar o vencedor. Faria muito bem se procurasse aprender com a minha Aislinn. - Aproximou-se de 
onde ela estava sentada e continuou: - Ela representa to bem o papel da vencida - seus dedos brincaram com um anel do cabelo cor de cobre-que s vezes tenho dvida 
de ter sido o vencedor.
    Aislinn sorriu levemente, mas s Wulfgar notou. Acariciou o rosto dela com um dedo.
    -  Sim, minha irm, faria muito bem em aprender alguma coisa com ela.
    Tremendo de raiva, Gwyneth deu um passo para ele, com os lbi cerrados e fria nos olhos.
    -  Queria dizer mais alguma coisa, Gwyneth? - perguntou ele.| Com o peito arfando de raiva, ela disse:
    -  Sim. Eu preferia que voc tivesse morrido em lugar de Fals-worth. - Ignorando o pedido do pai para se calar, continuou: - B o odeio e odeio ter de depender 
de sua caridade para sobreviver a es tempos difceis. - Voltou-se para Aislinn, que a observava, atnita com o dio que via em seus olhos: - Voc nos mostra esta 
mulher como exemplo. Mas veja o luxo com que ela se veste. No exatamente como as outras trgicas mulheres da Inglaterra, no  mesmo?
    -  Agradea por eu ainda estar vivo, minha irm - disse Wulf-gar, secamente. - Pois sem dvida, se eu no estivesse aqui para lhe dar este conforto, voc estaria 
dormindo l fora, sobre a terra fria.
    -  O que  isto? - Ragnor apareceu na porta, seguido por seus homens, que se sentaram s mesas.-Uma briga de famlia, to cedo - Olhou com admirao para Aislinn, 
em seu vestido dourado, e depois segurou a mo de Gwyneth e levou-a ao peito. - Ah, doce Gwyneth, ser que o feroz Wulfgar mostrou suas presas? Por favor, perdoe 
os modos dele, minha senhora. Ou d-me sua permisso que eu adefendo, pois no posso suportarum insulto a tanta graa e beleza.
    Gwyneth sorriu friamente.
    -   natural que um irmo encontre defeitos na irm, invisveis para quem mal a conhece.
    -  Mesmo que eu fosse um amante muito conhecido - murmurou Ragnor calorosamente, inclinando-se sobre a mo dela-Jamais encontraria defeitos na senhora.
    Gwyneth retirou a mo, corando intensamente.
    -   muita presuno sua, cavaleiro, imaginar que possamos algum dia ser amantes.
    Ragnor sorriu.
    -  Posso ter esperana, damoiselle?
    Gwyneth olhou nervosamente para Wulfgar, que os observava em silncio. Tomando a mo de Aislinn e fazendo-a levantar da cadeira, ele indicou  irm a mesa principal.
    -  Vamos jantar amistosamente, Gwyneth. Acho melhor assim, uma vez que daqui por diante vamos nos ver com muita frequncia.
    Gwyneth voltou-se bruscamente para Ragnor e permitiu que ele
    tomasse sua mo, conduzindo-a para a mesa Quando sentaram, os olhos dele a acariciaram temamente.
    -  Voc desperta meu corao e aquece meu sangue. O que devo fazer para merecer seus favores? Serei seu escravo para sempre.
    -  Sir de Marte, fala com muita ousadia - gaguejou Gwyneth, corando intensamente. - Esquece que meu verdadeiro irmo foi morto pelos normandos e que eu no gosto 
nem um pouco deles.
    -  Mas, damoiselle, certamente no culpa todos os normandos pela morte de seu irmo. Juramos obedecer s ordens de Guilherme. Se quer odiar algum, odeie o duque, 
no a mim, damoiselle.
    -  Minha me era normanda-murmurou Gwyneth suavemente. - Eu no a odiava.
    -  E no deve me odiar - pediu Ragnor.
    -  Eu no o odeio - disse ela.
    Com um largo sorriso que descobria os dentes brancos e fortes, Ragnor segurou a mo dela.
    -  Minha senhora, estou muito feliz.
    Confusa, Gwyneth virou o rosto e observou Wulfgar ajudando Aislinn a sentaro seu lado. Olhou friamente paraajovem, sentindo-se outra vez dominada pelo dio. 
Seus lbios curvaram-se num sorriso.
    -  No disse que tinha casado, meu irmo. Wulfgar balanou a cabea.
    -  Casado? No. Por qu? Gwyneth olhou para Aislinn.
    -  Ento esta Aislinn no  na verdade nossa parente. Pensei que fosse uma esposa muito preciosa, pelas atenes que lhe dispensa.
    Ragnor riu, divertindo-se com a situao. Quando Aislinn olhou para ele, ergueu o copo numa saudao silenciosa e inclinou-se para Gwyneth, murmurando algumas 
palavras. Ela riu alegremente.
    Aislinn cruzou as mos no colo, irritada. Perdeu o apetite e desejou estar em outro lugar. A carne que Wulfgar ps em seu prato no foi tocada, nem o vinho de 
seu copo.
    Depois de olhar para ela demoradamente, Wulfgar disse:
    -  O assado de javali est muito bom, Aislinn. No vai nem experimentar?
    -  No estou com vontade de comer - murmurou ela.
    -  Vai emagrecer se no comer-disse ele, levando um pedao de carne  boca. - E eu acho que as mulheres magras no so to confortveis quanto as mais cheias. 
Voc  agradavelmente macia, embora no to forte quanto devia ser. Coma, vai lhe fazer bem.
    -  Sou bastante forte-respondeu Aislinn, sem nenhum sinal de obedecer.
    -   mesmo? Eu nunca teria imaginado, considerando seu desempenho fraco algumas horas atrs. - Passou a mo no peito e sorriu: - Juro que prefiro a megera  
coisinha inerte que tive debaixo de mim h pouco. Diga-me, chrie, por acaso no existe outra mulher em voc, uma que esteja entre as duas, no to megera e mais 
cheia de vida do que a outra?
    O rosto de Aislinn estava em fogo.
    -  Meu senhor, sua irm! Ela pode ouvir, e j est intrigada com a situao. No seria melhor me tratar com menos intimidade?
    -  O que, e faz-Ia entrar no meu quarto nas trevas da noite, quando ningum pode ver? - Riu, olhando avidamente para ela. - No teria pacincia para esperar.
    -  Est brincando quando eu falo srio-disse ela, zangada. - Seus parentes suspeitam que somos amantes. Quer que saibam que sou sua amante?
    Wulfgar sorriu.
    -  Devo anunciar agora ou deixar para mais tarde?
    -  Oh! Voc  impossvel! - disse Aislinn, elevando um pouco a voz, o que chamou a ateno de Gwyneth e de Ragnor. Quando os dois voltaram a conversar, ela inclinou-se 
para Wulfgar.
    -  No se importa com o que eles pensam? Eles so sua famlia. Wulfgar rosnou.
    -  Famlia? Na verdade, no tenho famlia, Voc viu minha irm dizer que me odeia. Eu no esperava mais do que isso, e tambm no lhe devo explicao pelo modo 
que vivo. Nada nos une. Voc  minha, e no vou deix-la de lado s por causa da chegada de meus parentes.
    -  E tambm no pretende casar comigo - acrescentou Aislinn suavemente.
    Wulfgar deu de ombros.
    -   assim que eu sou. Voc me pertence. Isso basta.
    Ele desviou os olhos, mas ficou preparado para a reao. Depois de alguns minutos de silncio, olhou outra vez para os lagos cor de violeta que escondiam os 
pensamentos dela. Um sorriso apareceu lentamente nos lbios de Aislinn. A beleza daquele rosto prendeu sua ateno, at ela rir francamente, libertando-o.
    -  Sim, Wulfgar, sou sua escrava - murmurou ela. - E se isso  bastante para voc, tambm  para mim.
    Wulfgar recostou-se na cadeira, e a voz de Gwyneth interrompeu seus pensamentos.
    -  Wulfgar, certamente no est pensando em alimentar todos esses normandos durante todo o inverno. - Com um gesto largo, indicou o salo. - Se fizer isso, no 
fim da estao estaremos morrendo  mngua.
    Wulfgar olhou para os vinte e tantos homens que se fartavam  custa das despensas de Darkenwald, depois para a irm.
    -  O nmero  maior, mas alguns esto de guarda, protegendo o castelo de assaltantes e ladres. Protegem meu povo... e voc. No questione outra vez o que eles 
comem.
    Gwyneth olhou para ele com desprezo. Outro homem teimoso como seu pai. No existia nenhum suficientemente esperto para tomar conta da prpria famlia?
    Logo depois, Aislinn pediu licena a Wulfgar e, levantando da mesa, foi ver como estava Bolsgar. Tornou a molhar as compressas e mandou Kerwick tomar conta dele 
durante a noite, mantendo o fogo aceso para que o velho saxo no sentisse frio. Se ele piorasse, devia cham-la imediatamente.
    Kerwick olhou demoradamente para ela.
    -  Devo acordar Maida para chamar voc? Aislinn respondeu com um suspiro.
    -  Ao que parece, no tenho segredos para ningum. At a prostituta mais vulgar pode ter um pecado secreto. Mas eu? - riu baixinho.-Tudo que fao deve ser anunciado 
da mais alta montanha. Que importa se voc mesmo for me chamar?
    -  Esperava ter privacidade quando seu amante nos governa? - perguntou ele asperamente. Olhou para o cho cornos msculos tensos - Devo honrar essa coisa entre 
vocs dois como se fosse um casamento? O que esperam que eu faa?
    Aislinn balanou a cabea e estendeu as mos abertas.
    -  Kerwick, voc e eu jamais poderemos voltar a ser o que ramos antes da chegada dos normandos. Uma porta se fechou entre ns. Esquea que fui sua prometida.
    -  No h nenhuma porta entre ns, Aislinn - disse ele, com amargura. - Apenas um homem.
    Ela deu de ombros.
    -  Muito bem, um homem, e ele no pretende me libertar.
    -  Est preso ao seu encanto - acusou Kerwick. Ergueu a mo, apontando para o vestido dela. - E agora veste-se para agrad-lo. no lavar o rosto nem passar perfume 
no corpo, ele vai procurar outra. Mas voc  vaidosa demais para deixar que isso acontea.
    Por mais que se esforasse, Aislinn no conseguiu conter o riso. Kerwick corou, embaraado. Olhou nervosamente para Wulfgar e vutj o normando observando os dois, 
muito carrancudo.
    -  Aislinn - disse Kerwick, entre os dentes cerrados. - Pare com essa loucura! Quer que eu seja castigado outra vez?
    Ela tentou parar, mas apenas riu em tom mais baixo.
    -  Perdoe-me, Kerwick - disse ela -, no consigo parar.
    -  Est rindo de mim - resmungou ele, cruzando os braos peito. - Voc detesta e ridiculariza minhas roupas. Queria que eoj fosse como seu amante normando. To 
orgulhoso de seu porte q certamente desfila como um galo ao nascer do dia. Tiraram mi roupas. O que queria que eu vestisse?
    Aislinn ficou sria e ps a mo no brao dele.
    -  No  a roupa que o prejudica, Kerwick,  a falta de um banho. Kerwick afastou a mo dela.
    -  Seu amante est olhando, e no quero sentir os dentes afiados dos ces esta noite, nem o chicote.  melhor voltar para ele.
    Com um gesto de assentimento, Aislinn ajoelhou ao lado de Bolsgar, ajeitando o manto que o cobria. Quando ela se inclinou sobre ele, o velho saxo disse, com 
um sorriso cansado:
    -   mais do que bondosa comigo, na minha velhice, Lady Aislinn. Sua beleza e o toque suave de suas mos encheram de luz o meu dia.
    -  Acho que a febre perturba sua mente, senhor - disse ela, sorrindo.
    Ele roou com os lbios, de leve, as costas da mo de Aislinn. depois fechou os olhos. Ela se levantou e, sem um olhar para Kerwid voltou para o lado de Wulfgar. 
Os olhos do normando a seguiram at$ ela parar atrs de sua cadeira, de onde podia observ-lo sem ser vista. Ele estava calmo agora, e respondia cortesmente as perguntas 
da i sobre suas propriedades e sua situao com Guilherme. Gwyneth reclamou da tolerncia excessiva com que ele tratava os criados, eram pessoas rudes e precisavam 
ser conduzidas com mo firme. Quando ela deu este ltimo conselho, Wulfgar olhou paraRagnor, que,
    recostado na cadeira, parecia satisfeito consigo mesmo e com a conversa de Gwyneth.
    -  Folgo em ver que  capaz de fazer julgamentos to rapidamente, Gwyneth - disse Wulfgar, mas ela no percebeu a ironia.
    -  Logo vai descobrir que sou muito perceptiva, irmo - disse ela com um sorriso, erguendo os olhos para Aislinn.
    Wulfgar deu de ombros e ergueu o brao para segurar a mo de Aislinn.
    -  No tenho nada para esconder. Todos sabem como eu vivo e como dirijo minha propriedade.
    Para maior irritao de Gwyneth, ele comeou a brincar com os dedos de Aislinn e a acariciar seu brao. Aislinn corou, constrangida. O sorriso de contentamento 
desapareceu dos lbios de Ragnor e ele voltou a encher at a borda seu copo de chifre. As palavras morreram nos lbios de Gwyneth, e Aislinn imaginou se esse era 
um dos meios usados por ele para irritar a todos. Wulfgar levantou-se, ps a mo no ombro de Aislinn e com um sorriso dirigiu-se ao cavaleiro Gowain, que um pouco 
antes se vangloriava de sua habilidade com a espada naquela tarde.
    -  No  o seu talento que o mantm na sela, rapaz, mas seu belo rosto. Olhando para ele, todos pensam que esto na frente de uma doce mulher e no tm coragem 
de feri-la.
    O riso dos homens ecoou na sala, e Gowain corou intensamente, mas no perdeu o bom humor. Wulfgar continuou a brincar jovialmente com seus homens, sem deixar 
de acariciar o brao de Aislinn, que, confusa, no percebeu que Gwyneth os observava atentamente. Se o olhar dela fosse uma lmina, teria atravessado o corao de 
Aislinn.
    A fria de Gwyneth aumentou quando, mais tarde, Wulfgar subiu a escada para o quarto com a mo na cintura de Aislinn.
    -  O que ele v naquela rameira? - perguntou Gwyneth, recostando na cadeira como uma criana mimada e contrariada.
    Ragnor desviou os olhos da jovem que subia a escada e tomou um gole de cerveja. Depois, inclinou-se para Gwyneth com um sorriso encantador.
    -  Eu no saberia dizer, pois meus olhos so s para a senhora. Ah, se eu pudesse senti-la ao meu lado, seu corpo junto do meu, conheceria os prazeres do paraso.
    Gwyneth disse, com um riso rouco:
    -  Sir de Marte, est fazendo com que eu tema por minha virtude. Nunca fui cortejada com tanta ousadia.
    -  No tenho muito tempo - admitiu Ragnor. - Devo partir de manh para juntar-me a Guilherme. - Vendo o desapontamento nos olhos dela, continuou, sorrindo: -
Mas no tema, doce jovem, voltarei, nem que seja no meu leito de morte.
    -  Seu leito de morte! - exclamou Gwyneth, apreensiva.-Mas para onde vai? Devo temer por sua segurana?
    -  Na verdade, h perigo. Ns, os normandos, no somos muito populares entre os ingleses. Eles podem rejeitar Guilherme e escolher outro. Devemos convenc-los
de que ele  a melhor escolha.
    -  Voc luta corajosamente por seu duque, enquanto meu irmo diverte-se com aquela prostituta. Realmente, ele no tem nenhuma honra.
    Ragnor deu de ombros.
    -  Ela apenas faz com que ele possa partir feliz para a batalha.
    -  Wulfgar vai tambm? - perguntou ela, surpresa.
    -  No agora, mas muito em breve. Infelizmente meu destino pode chegar mais depressa que ningum se importa.
    -  Eu me importo - confessou Gwyneth. Ragnor segurou a mo dela e levou-a ao peito.
    -  Oh, meu amor, essas palavras so doces aos meus ouvidos. Sinta meu corao batendo dentro do meu peito e saiba que a desejo ardentemente. Venha para o campo 
comigo e deixe que eu estenda meu manto no cho para ns dois. Juro que no a tocarei, apenas quero abra-la por algum tempo, antes de partir.
    Gwyneth corou.
    -   muito convincente, senhor cavaleiro. Os dedos dele apertaram os dela.
    -  Damoiselle,  bela demais para que eu possa resistir. Diga que vir comigo. Deixe-me partir com uma pequena lembrana de sua bondade.
    -  No devo - disse Gwyneth, sem muita convico.
    -  Ningum vai saber. Seu pai est dormindo. Seu irmo, divertindo-se. Diga que vir, meu amor.
    Gwyneth balanou de leve a cabea, num gesto afirmativo.
    -  No vai se arrepender de sua generosidade - murmurou Ragnor, com voz rouca. - Vou na frente para preparar o lugar e volto para apanh-la. No se demore, eu 
peo.
    Beijou-lhe apaixonadamente a mo, envolvendo-a em ondas quentes de excitao, depois levantou-se e saiu da sala.
    Wulfgar fechou a porta e encostou-se nela, cansado, notando com gratido o banho quente que o esperava.
    -  Voc dirige esta casa como se tivesse nascido com o talento para proporcionar conforto a uma grande famlia, Aislinn-comentou ele, comeando a se despir.
    Ela sorriu e, com olhar malicioso, disse.
    -  Minha me me ensinou essa responsabilidade desde cedo. Wulfgar resmungou:
    -  Isso  bom. Voc  uma boa escrava. O riso de Aislinn soou claro e musical.
    -  Sou mesmo, meu senhor? Meu pai disse certa vez que tenho uma natureza indomvel.
    -  E acho que tinha razo - respondeu Wulfgar, entrando na banheira e recostando-se na borda com um suspiro de alvio. - Mesmo assim, gosto das coisas como esto.
    -  Ah - disse ela. - Ento contenta-se em produzir filhos bastardos?
    -  Voc ainda no provou que  capaz de gerar nenhum filho bastardo, chrie.
    -  O tempo de prova ainda no terminou, meu senhor - disse ela, rindo, enquanto tirava a tnica, de costas para ele. - No apoie suas esperanas em fantasias. 
Quase todas as mulheres so frteis. Apenas tem tido sorte nas suas aventuras.
    -  No se trata de sorte, mas de cuidado-corrigiu ele. - Tenho por hbito perguntar sobre o status da dama, antes de satisfazer meus desejos.
    -  No me perguntou nada. 
    Wulfgar deu de ombros.
    -  Achei que no devia saber, e realmente no sabe. Essa  a desvantagem das jovens virgens.
    Aislinn corou.
    -  Ento, jamais possuiu uma jovem virtuosa, monseigneurl
    -  A escolha foi minha.
    -  Quer dizer que, se desejar, pode ter qualquer jovem virgem? - perguntou ela, cautelosamente. 
    -  As mulheres no so muito discriminadoras. Eu podia ter possudo muitas.
    -  Oh - exclamou Aislinn. - Quanta confiana! E eu sou uma entre suas vrias prostitutas!
    Passando a esponja no peito, ele olhou de lado para ela.
    -  Digamos, chrie, que at agora  a mais interessante.
    -  Talvez porque sou mais nova do que todas as suas outras mulheres - disse ela, secamente. Com passos rpidos, aproximou-se da banheira e com gestos provocantes 
tocou os prprios seios, a cintura, os quadris, chamando a ateno para suas qualidades. - Talvez meus seios no sejam to cados e minhas pernas no sejam to curvas. 
Minha cintura ainda  fina, e meu queixo no desaparece entre dobras de gordura. Certamente alguma coisa o levou a me possuir sem tomar antes suas costumeiras precaues.
    Com um sorriso nos olhos cinzentos, Wulfgar estendeu o brao e com um movimento brusco puxou-a para dentro da banheira. Com um grito, Aislinn tentou se livrar.
    -  Minha roupa! - soluou ela, com as lgrimas descendo dos olhos, afastando do corpo a combinao molhada. -  a melhor que eu tenho, e agora est arruinada.
    Wulfgar riu, encostando o rosto no dela.
    -  Ia ficar muito vaidosa se eu dissesse que voc  a mais bela de todas ou que  capaz de enfeitiar um homem a ponto de faz-lo esquecer suas convices. Na 
verdade, ficaria insuportavelmente vaidosa se eu dissesse que  a mulher mais bela que j vi. - Apertou mais os braos em volta dela. - Ficaria muito segura de si, 
pensando que eu jamais olharia para outra mulher por achar que  a mais desejvel de todas. Portanto, no vou dizer nada disso e vou lhe fazer um favor. Seu corao 
pode prend-la a mim, e talvez voc chore e se desespere quando eu escolher outra para substitu-la. No quero nenhum compromisso do qual no possa me livrar. - 
Acrescentou, como uma advertncia: - No se apaixone por mim, Aislinn, para no ser magoada.
    Com os olhos rasos de lgrimas, ela disse:
    -  No se preocupe. Voc  a ltima pessoa em toda acristandade pela qual eu me apaixonaria.
    Wulfgar sorriu.
    -  Isso  bom.
    -  Se despreza as mulheres, como diz, por que est me prevenindo? Diz isso a todas as suas mulheres?
    Wulfgar soltou-a e recostou-se na banheira.
    -  No, voc  a primeira, mas  mais jovem do que todas elas, e mais inexperiente.
    Apoiando os braos no peito dele e o queixo nas mos, Aislinn sorriu, pensativamente.
    -  Mesmo assim, sou mulher, monseigneur. Por que  bom para mim quando nunca foi com as outras? Deve sentir algo diferente por mim. - Delineando o queixo dele
com a ponta do dedo, continuou:
    - Tenha cuidado, meu senhor, no se apaixone por mim.
    Wulfgar passou um brao sob os joelhos dela e o outro sob os ombros e a ps para fora da banheira.
    -  No amo mulher alguma, e jamais amarei - disse, secamente.
    - No momento, voc me convm. S isso.
    -  E depois de mim, senhor, quem ento? Wulfgar deu de ombros.
    -  A primeira que me agradar.
    Aislinn correu para um canto escuro do quarto, com as mos sobre os ouvidos. Tremendo de raiva e frustrao, sentiu que ele jamais permitiria que ganhasse alguma 
vantagem. Era um jogo que ele fazia com ela por causa do seu desprezo pelas mulheres, jamais lhe permitindo a mais leve confiana no seu relacionamento, jamais permitindo 
que se aproximasse do seu verdadeiro eu. Wulfgar ridicularizava e atormentava as mulheres para observar calmamente sua reao, insistindo pacientemente at a vtima 
ceder ou fugir. Mas ela no atingira ainda o mago de sua alma, pensou Aislinn, nem ele destrura sua coragem. Era uma verdadeira batalhaentre os dois. Enquanto 
Wulfgar a prevenia para no se apaixonar por ele, Aislinn procurava os pontos fracos na sua armadura de dio.
    Tremendo de frio, tirou a roupa molhada e deitou rapidamente na cama, cobrindo-se at o queixo com o manto de pele. Quando Wulfgar se deitou, ela fingiu que 
dormia, deitada de lado, de costas para ele. No podia v-lo, mas sentia sua ateno, e sorriu, imaginando o que ele ia fazer agora. No teve de imaginar por muito 
tempo. Wulfgar ps a mo em seu ombro e a fez deitar de costas.
    -  Damoiselle, sei que no est dormindo.
    -  E faria diferena, se eu estivesse? - perguntou ela, com sarcasmo.
    Ele balanou a cabea e aproximou os lbios dos dela,
    -  No.
    Gwyneth saiu para a clareira banhada de luar e sobressaltou-se quando sentiu a mo pesada no ombro. Virou para trs rapidamente, com uma ponta de medo, lembrando 
dos homens fortes e rudes no salo, durate o jantar. Mas, ao ver o rosto sorridente de Ragnor, riu aliviada.       
    -  Voc veio - disse ele.                                                      
    -   verdade, cavaleiro, estou aqui.                             
    Ragnor ergueu-a do cho e carregou-a para o bosque. O corao de Gwyneth disparou. Com um riso nervoso, passou os braos em volta do pescoo dele, sentindo-se 
pequena e indefesa.
    -  Voc me faz esquecer minha sanidade - murmurou ela; ouvido dele. -  difcil acreditar que nos conhecemos esta manh. 
    Ragnor parou e tirou a mo debaixo dos joelhos dela, fazendo ficar de p.
    -  S nos conhecemos hoje? - perguntou com voz rouca, aper tando-a contra seu peito. - Pensei que sculos tinham passado desde que a deixei no salo.
    Gwyneth estava completamente atordoada.
    -  Oh, foram apenas anos, meu querido.
    Tremendo de desejo, beijaram-se com ardor. Habilmente, Ragnor soltou a tnica e a combinao de Gwyneth e gentilmente a fez se deitar no seu manto estendido 
no cho. Por um momento seus olhos admiraram o corpo esguio iluminado pela luz prateada do luar.Aca riciou os seios pequenos pensando em outros, mais redondos e 
mais cheios, lembrando a pele macia e clara, o cabelo cor de cobre, o corpo perfeito. Imaginou as mos de Wulfgar tomando posse de toda esta beleza. Ragnor se moveu
bruscamente, irritado, assustando Gwyneth
    -  O que foi? Est vindo algum? - perguntou ela, nervos procurando se cobrir com as pontas do manto.
    As mos dele impediram o movimento.
    - No, no  nada. O luar me engana, isso  tudo. Pensei ter algo se movendo, mas foi impresso.
    Gwyneth relaxou o corpo e ps a mo no peito dele, sob a tnca acariciando os msculos fortes.
    -  Senhor cavaleiro, eu estou em desvantagem-murmurou ela - Sou muito curiosa.
    Com um sorriso, Ragnor comeou a se despir.
    -  Assim  melhor-aprovou Gwyneth. - Voc  muito belo, meu querido. Moreno como a terra, quente e forte como os carvalhos. Nunca pensei que os homens pudessem 
ser belos, mas estava enganada.
    As mos dela acariciaram ousadamente o corpo de Ragnor, acendendo as quentes chamas da paixo.
    -  Seja gentil comigo-murmurou ela, deitando sobre o manto. Seus olhos claros eram como estrelas, cintilando distantes at Ragnor se inclinar sobre ela, cobrindo 
o corpo esguio com o seu, e ento, lentamente, eles se uniram.
    Um lobo uivou ao longe quando Ragnor finalmente sentou, abraando os joelhos e olhando atravs da noite para a luz fraca da janela de Wulfgar. Um vulto de homem 
apareceu das sombras do quarto, afastou-se e voltou a aparecer. Ragnor o viu flexionar o brao e sorriu, esperando que o exerccio com armas daquele dia pudesse 
prejudicar o prazer de Wulfgar, embora no tivesse prejudicado o seu. O vulto escuro virou de perfil, olhando para onde Ragnor sabia que estava a cama. Ele quase 
podia ver o cabelo brilhante sobre o travesseiro e o rosto pequeno, oval, macio e perfeito adormecido, como se ele fosse o homem delineado na janela.
    Era intenso seu desejo de vingana. s vezes ele quase a sentia ao alcance da mo, mas era esquiva, tanto quanto a jovem que dormia na cama do senhor do solar, 
irresistvel e intocvel, sempre tentadora. Seu corpo ficou tenso  lembrana de Aislinn nos seus braos. No pensava em outra coisa, dia e noite, e sabia que s 
ficaria satisfeito quando ela fosse s sua. Ragnor sorriu, certo de que se vingaria de Wulfgar, roubando Aislinn dele. Mesmo que Wulfgar no tivesse nenhuma afeio 
por ela, seu orgulho seria duramente ferido.
    -  No que est pensando? - murmurou Gwyneth, suavemente, acariciando-lhe o peito.
    Ragnor voltou-se e tomou-lhe nos braos outra vez.
    -  Estava pensando na felicidade que voc me proporcionou. Agora posso ir para Guilherme com sua doce lembrana no corao. - Apertou o corpo frio dela contra 
o seu. - Est tremendo de frio, wo chrie, ou por causa da fora do nosso amor?
    Gwynedi passou os braos finos pelo pescoo dele.
    -  As duas coisas, meu querido. As duas coisas.

































   Captulo Nove



    OS PRIMEIROS raios de sol iluminaram a geada que cobriaas rvores fazendo-as cintilar como jias, e as aves comearam a acordar nos ninhos. Depois de uma batida
rpida, Ragnor abriu a porta do quarto onde Wulfgar e Aislinn dormiam ainda. Com o instinto do guerreirro, Wulfgar saltou da cama e apanhou a espada que estava no
cho de pedra. Antes que a porta estivesse completamente aberta, ele estava pronto para enfrentar o inimigo. Para um homem que h um momento dormia calmamente ao
lado de uma mulher, ele parecia completamer te alerta e capaz de revidar qualquer ataque.
    -  Oh,  voc - rosnou Wulfgar, sentando na cama.
    Aislinn acordou e ainda atordoada olhou para Wulfgar sem per-ceber Ragnor, perto da porta. A pequena manta de pele mais revelava do que cobria sua nudez, e Ragnor 
olhou avidamente para ela. Acom panhando o olhar dele, Wulfgar ergueu a espada na direo do intruso
    -  Temos um visitante matutino, chrie - disse ele, e Aislinn r cobriu rapidamente com o manto de pele.
    -  Por que veio ao meu quarto a esta hora da manh, Ragnor? -perguntou Wulfgar, levantando-se para embainhar a espada.
    Ragnor curvou-se, num cumprimento exagerado e zombeteiro na frente do homem despido.
    -  Perdoe-me, senhor. Eu no quis partir de Darkenwald ser
    perguntar se deseja mais alguma coisa de mim. Talvez uma mensagem para o duque.
    -  No, nenhuma mensagem - disse Wulfgar.
    Com um gesto de assentimento, Ragnor voltou-se para sair, mas parou e olhou para os dois com um sorriso.
    -  Deve ter cuidado nos bosques durante a noite. Os lobos vagueiam por toda a parte. Eu os ouvi nas primeiras horas da manh.
    Wulfgar ergueu uma sobrancelha interrogativamente, imaginando quem teria sido a companheira do cavaleiro dessa vez.
    -  Do modo que faz sua ronda, Ragnor, muito em breve vai aumentar a populao de Darkenwald.
    Ragnor riu divertido.
    -  E sem dvida a primeira a dar a luz ser minha bela senhora Aislinn.
    Antes que tivesse tempo de perceber o efeito de suas palavras, um pequeno objeto passou raspando por sua orelha e bateu na porta, atrs dele. Ragnor olhou para 
Aislinn, ajoelhada na cama, segurando a manta de pele contra o peito. Passando a mo na orelha, ele admirou a beleza da fria dela.
    -  Minha avezinha, sua natureza arrebatada me encanta. Est zangada por causa da minha conquista da noite passada? Garanto que no imaginei que ia sentir cimes.
    -  Aaah! - exclamou Aislinn, procurando outro objeto para atirar nele. No encontrando nada que servisse, saiu da cama, aproximou-se de Wulfgar, que a observava 
em silncio, e tentou desembainhar a espada dele, sem conseguir. Era pesada demais.
    -  Por que fica a parado, rindo do atrevimento dele? - perguntou para Wulfgar. Bateu o p no cho, zangada. - Faa com que ele respeite sua autoridade.
    Wulfgar deu de ombros e sorriu para ela.
    -  Ele est brincando como uma criana. Quando o jogo ficar srio, eu o mato.
    O sorriso desapareceu do rosto de Ragnor.
    -  Estou  sua disposio, Wulfgar. - Sorriu com frieza. - A qualquer hora.
    Saiu do quarto, e por um longo momento Aislinn olhou para a porta fechada.
    -  Monseigneur-disse ela, por fim -, acho que ele o considera uma ameaa.
    - No se deixe levar pela imaginao, chrie - respondeu ele secamente. - Ragnor pertence a uma das famlias mais ricas da Normandia. Sim, ele me odeia, mas 
porque acha que s os homens de sangue nobre devem ter ttulos. - Riu e acrescentou: - E, naturalmente, ele quer voc.
    Aislinn voltou-se rapidamente para ele.
    -  Ragnor me deseja s porque sou propriedadfi sua. Wulfgar a abraou e. erguendo o queixo dela, a fez olhar em seus 
    olhos.                                                                                           
    -  Tenho certeza de que Ragnor no ficaria furioso se eu lhe roubasse Hlynn.                                                                            
    E ergueu-a do cho, apertando-a contra o peito.
    -  Meu senhor - protestou Aislinn, procurando se libertar do abrao. - J  de manh. Precisa cuidar de seus deveres.
    -  Mais tarde - disse ele, com voz rouca, e encerrou o assunto com um beijo ardente que deixou Aislinn completamente indefesa, compreendendo que era intil resistir. 
Wulfgar era mais forte, e lutar contra ele s serviria para prolongar seu sofrimento.
    Gwyneth desceu rapidamente a escada, alegre e completamente apai-xonada, nas primeiras horas do dia. Vira Ragnor partir, e seu corao foi com ele. No salo,
os homens tomavam a primeira refeio de po e carnes. Conversando e rindo, no deram nenhuma ateno a ela. Ao lado da lareira, Bolsgar ainda dormia, e Gwyneth, 
procurando um rosto familiar, viu apenas Ham e o jovem com quem Aislinn conver-sara na noite anterior. Estavam servindo os homens de Wulfgar e aparentemente no 
notaram sua entrada, mas, quando ela sentou mesa de Wulfgar, Ham aproximou-se imediatamente para servi-la,
    -  Onde est meu irmo? - perguntou ela. - Esses homens parecem que no tm o que fazer. Ele no determinou suas tarefas?
    -  Sim, minha senhora. Esto  espera dele, que ainda no
    desceu.
    -  A preguia de meu irmo espalha-se como uma praga
    zombou ela.
    -  Ele sempre desce muito cedo. No sei por que est demorando 
    Gwyneth recostou-se na cadeira.                                              
    -  A mulher sax, sem dvida.
    Rubro de raiva, Ham abriu a boca para responder, mas fechou-a
    outra vez, e em silncio voltou para a cozinha.
    Gwyneth comeou a comer distrada, ouvindo a conversa dos homens e pensando na noite passada. Sir Gowain entrou com o cavaleiro Beaufonte. Os normandos os cumprimentaram,
chamando-os para junto deles.
    -- Voc no devia ir a Cregan esta manh? - perguntou Gowain a Milbourne, o cavaleiro mais velho.
    -  Sim, rapaz, mas parece que Wulfgar prefere ficar no quarto- respondeu Milboume, rindo. Olhou para o teto e estalou os dedos. Os homens riram s gargalhadas.
    Com um largo sorriso, Gowain disse:
    -  Talvez seja melhor verificar se ele no est na cama com o pescoo cortado. A julgar pela fria de Ragnor, antes de partir, acho que tiveram outra discusso.
    O cavaleiro mais velho deu de ombros.
    -  Por causa daquela jovem, sem dvida. Ragnor anda inquieto desde que dormiu com ela.
    Gwyneth sobressaltou-se, confusae espantada. Foi como se tivesse recebido um golpe no peito, e pensou que no ia suportar a dor.
    -  Sim - sorriu Gowain. - E no vai ser fcil tirar a mulher de Wulfgar se ele quiser ficar com ela. Mas acho que, se eu fosse Ragnor, tambm lutaria por esse 
prmio.
    -  Ah, meu jovem, ela tem sangue bem quente - riu Milboume. -  melhor deix-la para um homem mais experiente do que voc.
    A conversa cessou bruscamente quando ouviram uma porta bater no segundo andar. Wulfgar desceu os degraus, afivelando a espada. Saudou a irm, que olhou para 
ele com frieza.
    -  Espero que tenha descansado bem, Gwyneth. Sem esperar resposta, aproximou-se de seus homens.
    -  Ento, pensam que podem se atrasar s porque eu me atrasei. Muito bem, veremos se o descanso foi bom para sua eficincia.
    Apanhou po e carne e foi at a porta.
    -  O que esto esperando?-perguntou, com um sorriso. - Vou para Cregan. E vocs?
    Todos se levantaram e saram apressadamente atrs dele, sabendo que teriam um dia trabalhoso. Wulfgar j estava montado, comendo o po com carne. Finalmente, 
quando conseguiu alguma ordem no grupo, atirou o pedao de po para Sweyn e, esporeando Huno, seguiu na frente, na direo de Cregan.
    Gwyneth levantou-se lentamente do banco, sentindo-se infeliz, e caminhou para a escada. Parou nafrente da porta do quarto de Wulfga e estendeu a mo trmula
para a maaneta, mas a retirou, apertando-a contra o peito, como se tivesse tocado ferro em brasa. Estava muito plida, e os olhos claros pareciam atravessar a madeira 
que a separava da jovem que dormia no outro lado da porta. O dio que sentia agora era maior do que seu desprezo por Wulfgar, e Gwyneth jurou a mesma que a mulher 
sax sentiria o peso de sua ira.
    Cautelosamente, como temendo que o menor rudo pudesse acor dar a outra mulher, Gwyneth afastou-se da portae foi para o seu quarto
    Um pouco mais tarde, Aislinn desceu para o salo e ficou sabendo que Wulfgar partira para Cregan. Sweyn, no comando agora, tentava acalmar os nimos de duas 
mulheres que discutiam por causa de um pente de marfim dado a uma delas por um soldado normando. Aislir parou e observou a tentativa de Sweyn para resolver o caso. 
Um jurava que tinha encontrado o pente, a outra dizia que ela o rouba Hbil no tratar com homens, o viking estava agora completamente perdido, sem saber o que fazer.
    Aislinn sorriu e ergueu as sobrancelhas.
    -  Ora, Sweyn, por que no corta o cabelo das duas,  moda do normandos? Assim no vo precisar do pente.
    As mulheres olharam para ela sobressaltadas e boquiabertas. sorriso de Sweyn fez com que a mulher devolvesse o pente e afastasse com pressa, enquanto a outra 
saa na outra direo.
    Aislinn no pde conter o riso claro e jovial.
    -  Ora, Sweyn, voc  humano, afinal. Eu nunca poderia imagi nar. Permitir que duas simples mulheres o deixem to confuso.
    -  Malditas mulheres - resmungou ele, balanando a cabea. entrando no solar.
    Bolsgar estava melhor, e sua pele recuperara o brilho. Ao meio dia, almoou com apetite. Aislinn mudou o curativo da perna, retirou do com cuidado a lama seca 
e a matria purulenta. O ferimento comeava a cicatrizar, e a carne em volta tinha um aspecto ma saudvel.
    No fim da tarde, Gwyneth desceu do quarto e aproximou-se de Aislinn.
    -  Voc tem um cavalo para mim? Eu gostaria de ver a terra que Wulfgar conquistou.
    Aislinn fez um gesto afirmativo.
    -  Uma gua berbere, veloz e forte, mas extremamente caprichosa. Eu no aconselharia...
    -  Se voc pode mont-la, acho que no terei nenhuma dificuldade - disse Gwyneth, friamente.
    Aislinn escolheu as palavras com cuidado.
    -  Tenho certeza de que monta muito bem, Gwyneth, mas temo queCleome...
    O olhar furioso da mulher a interrompeu. Aislinn cruzou as mos e ficou calada, sentindo o dio intenso da outra. Gwyneth voltou-se e deu ordens para que arreassem 
a gua e providenciassem uma escolta. Quando o animal chegou na frente da casa, Aislinn pensou em recomendar que ela tivesse cuidado e segurasse as rdeas com firmeza, 
mas novamente o olhar de Gwyneth a fez calar. Aislinn estremeceu quando Gwyneth chicoteou com fora o flanco do animal, que partiu velozmente, deixando para trs 
seus acompanhantes. Preocupada, notou que Gwyneth partira na direo de Cregan. No era Cregan que a preocupava, mas o caminho para chegar l. As trilhas eram limpas 
e largas, mas fora delas havia muitas valas e despenhadeiros perigosos.
    Aislinn procurou esquecer sua apreenso, ocupando-se com seus afazeres dirios. Mas acabou passando grande parte da tarde ouvindo as queixas de Maida sobre a 
desateno e os modos rudes de Gwyneth. Depois disso, subiu para o quarto. No podia comentar com Wulfgar a atitude da meia-irm, pois seria o mesmo que alimentar 
seu desprezo pelas mulheres. Ele podia achar que Aislinn estava sendo muito severa com Gwyneth e no lhe dar ateno. Contudo, durante aquela manh, ela j provocara 
bastante perturbao. Passou o tempo todo procurando nas arcas de Maida alguma coisa para vestir e ficou furiosa e irritada porque as roupas eram pequenas demais 
para ela. Embora fosse magra, Gwyneth era quase da altura de Aislinn e no tinha a estrutura frgil de Maida. Depois disso, ordenou que levassem o almoo ao seu 
quarto. Gwyneth esbofeteou Hlynn e a fez chorar vrias vezes, por causa de ninharias. Alegou que a criada era lerda demais. E agora Gywneth vagava pelo campo na 
montaria preferida de Aislinn.
    Vagava era bem a palavra, pois Gwyneth no sabia para onde estava indo. Queria apenas correr. Estava furiosa e ao mesmo tempo abatida. A simples ideia daquela 
jovem sax desfrutando da hospitalidade de seu irmo deixava-lhe os nervos  flor da pele. Mas a dura revelao de que seu amante a possura antes de Wulfgar bastava 
para tornar impossvel qualquer sentimento de amizade entre elas. Alm disso, Wulfgar exibia abertamente a rameira como se ela fosse jovem virtuosa, quando na verdade 
no passava de uma prostituta uma escrava capturada. A cadela tivera a ousadia de dizer que aquele animal lhe pertencia. Nenhuma serva tinha o direito de possuir 
um cavalo, muito menos uma escrava. Gwyneth no tinha sequer um vestido decente para receber Ragnor, quando ele voltasse. Tudo que tinha fora tomado pelos normandos. 
Mas Wulfgar permitia que Aislinn usasse suas roupas finas. Aquela adaga com o cabo cravejado pedras valia um bom dinheiro.
    Gwyneth chicoteou outra vez Cleome, e o animal partiu num louco galope. Os dois acompanhantes a seguiam adistncia, poupando seus animais. Acostumada com a mo 
firme e experiente de Aislinn Cleome no percebia nenhuma autoridade nas rdeas frouxas. Esco-lhia o caminho no cho firme da trilha, dando pouca ateno comandos 
de Gwyneth. Furiosa, ela puxou as rdeas bruscamenente conduzindo o animal para fora da estrada e entrando no bosque fechado. Usou o chicote com violncia, e Cleome, 
erguendo a cabea comeou a correr velozmente no mato alto. Com uma ponta de med Gwyneth compreendeu sua tolice, pois os galhos baixos das rvore e as trepadeiras 
a aoitavam, enquanto o animal seguia a galope. galgando colinas e atravessando vales. Ouvia os homens atrs dele gritando para parar o animal, mas Cleome, com o 
freio nos dentes, no obedecia mais ao seu comando e corria em disparada, num galope ca vez mais rpido. Gwyneth entrou em pnico. Viu um desfiladeiro sua frente, 
mas o animal no diminuiu o passo, nem tentou se desviae na sua corrida louca, como se estivessem fugindo de um monstero Cleome saltou para o despenhadeiro. Com 
um grito, Gwyneth ati se para fora da sela, e o animal rolou entre os galhos e o mato alta caindo com um baque surdo no cho de pedra. Os dois homens chegaram a 
galope e pararam. Gwyneth ficou de p, tremendo de raiva Esquecendo o medo, exclamou, furiosa:
    -  Animal idiota! Cavalo ordinrio! No caminho aberto, and bem, mas no bosque corre como um gamo acossado!
    Passou a mo na tnica para tirar os gravetos e a terra e procuro ajeitar o cabelo. Olhou furiosa para a gua, que, respirando cc dificuldade, agonizava no fundo 
do despenhadeiro, e sequer tento acabar com seu sofrimento. Um dos homens desmontou, foi at borda do penhasco e depois votou-se com um sorriso desanimado.
    -  Minha senhora, acho que sua montaria se feriu gravemente.
    Mas Gwyneth balanou a cabea.
    -  Ah! Aquela gua ordinria, idiota, no viu um despenhadeiro deste tamanho! Ainda bem que est morrendo!
    Ouviram um tropel trovejante, e das sombras escuras do bosque surgiu Wulfgar, acompanhado por seus homens. Parou seu cavalo enorme e vermelho ao lado de Gwyneth 
e dos de seus dois acompanhantes.
    -  O que est acontecendo? - perguntou. - Por que esto aqui? Ouvimos um grito.
    O homem que estava montado apontou para o desfiladeiro, e Wulfgar se aproximou da borda. Franziu a testa quando reconheceu o animal de Aislinn. Muitas vezes 
ele parara para acariciar Cleome e lhe dar um punhado de aveia. Voltou-se para Gwyneth.
    -  Voc, querida irm, montando um animal que no lhe dei ordem para usar?
    Gwyneth tirou uma folha seca da saia e deu de ombros.
    -  O cavalo de uma escrava, que importncia tem? Aislinn no pode us-lo agora. Seus deveres limitam-se ao quarto.
    Contendo sua raiva, Wulfgar disse:
    -  Voc, com seu descuido, matou um bom animal! Seu desprezo pela propriedade alheia, Gwyneth, matou uma montaria valiosa.
    -  A gua era geniosa - respondeu Gwyneth, com calma. - Eu podia ter morrido.
    Wulfgar conteve-se para no responder como queria.
    -  Quem deu ordem para usar o cavalo?
    -  No preciso de permisso de uma escrava - disse ela, arro-ganlemente. - O cavalo pertencia a Aislinn, logo eu podia us-lo quando bem entendesse.
    Wulfgar cerrou os punhos.
    -  Se Aislinn  uma escrava, ento o que ela possui me pertence. Pois sou o senhor destas terras, e tudo que existe aqui  meu. Voc no pode maltratar meus 
cavalos e nem meus escravos.
    -  Eu fui maltratada! - respondeu Gwyneth, furiosa. - Olhe Para mim! Podia ter morrido montando aquele animal, e ningum me avisou que estava arriscando a minha 
vida. Aislinn podia ter me detido, mas acho que ela deseja me ver morta. No me avisou de nada.
    Wulfgar franziu a testa, ameaadoramente.
    -  Para dizer a verdade, Wulfgar, no sei o que voc v naquela mulher    idiota - disse Gwyneth. - Pensei que tivesse aprendido a no dar ateno a criaturas 
inferiores, depois de conviver com damas da corte de Guilherme. Ela  uma cadelinha astuciosa e mal- dosa, e no fim vai querer sua cabea e a minha.
    Wulfgar puxou a rdea bruscamente, virando sua montaria de frente para os homens e erguendo um brao deu sinal de partida
    -  Wulfgar! - exclamou Gwyneth, batendo com o p no cho. - O mnimo que pode fazer  mandar um de seus homens me ceder seu cavalo.
    Wulfgar olhou para ela friamente por um longo momento, depois disse para um dos homens que a acompanhavam.
    -  Leve-a na garupa, Gard. Deixe que ela volte assim parai Darkenwald. Talvez aprenda o valor de uma boa montaria. - Ento olhou para Gwyneth outra vez. - No, 
querida irm, o mnimo que posso fazer  terminar o que voc comeou to descuidadamente.
    Com essas palavras, ele desmontou, amarrou ardeade Huno num arbusto e desceu aencosta ngreme do desfiladeiro. Levantou a cabea deCleome, fazendo-a olhar para 
ele. O animal tentou se levantar, mas com dois golpes certeiros e rpidos Wulfgar cortou as veias laterais do oescoo, abaixando lentamente a cabea dela outra vez. 
Extrema mente aborrecido, voltou a montar. Em poucos instantes, tudo era silncio no desfiladeiro.
    Wulfgar partiu rapidamente at alcanar seus homens. Com voz spera, mandou que o outro acompanhante de Gwyneth voltasse para apanhar os arreios de Cleome. O 
grupo continuou em silncio. A noite se aproximava quando o sentinela gritou, avisando a chegada do senhor do solar.
    Wulfgar viu Aislinn esperando na porta e pensou nas palavras de Gwyneth. Em que rede aquele mulher o enleara, a ponto de lhe dar as costas sem nenhuma preocupao? 
Ser que em algum momento ia| sentir a pequena adaga em seu peito? Aislinn dissera que se sentia mais segura enquanto ele estivesse vivo, e era verdade, porm, e 
mais tardei As circunstncias exigiriam sua morte, e ela seria encarregada execuo? Senhor, no podia confiar em mulher alguma! Com os msculos do rosto tensos, 
pensou no quanto gostava da companhia dela. Seria difcil substitu-la, pois ela sabia lhe dar prazer. Seria um tolo se se desfizesse dela s por causa das acusaes 
da irm. Nenhur homem podia encontrar uma parceira de cama mais bela e satisfatria. Enquanto confiasse nela, podia satisfazer seus desejos sem sofrer; consequncias. 
Quase sorriu, mas ento lembrou de Cleome e que elo
    devia ser o primeiro a inform-la da perda do animal. Seus pensamentos voltaram-se para Gwyneth. Outra mulher cuja idiotice tinha de suportar, com a diferena 
de que ela no lhe proporcionava qualquer prazer.
    Aislinn os esperava em silncio, ao lado de Sweyn. Corou levemente quando seus olhos se encontraram, lembrando as carcias apaixonadas daquela manh, mas Wulfgar 
virou a cabea, gritando uma ordem para seus homens. Irritado, ele desmontou, atirando as rdeas para Gowain. Ignorando Aislinn, entrou no solar, escancarando a 
porta.
    Confusa, Aislinn olhou para os homens que se afastavam, mas todos evitavam seu olhar. Ento, ela viu Gwyneth na garupa de um de seus acompanhantes. Procurou 
sua pequena gua entre os enormes cavalos dos normandos, mas no a viu. Gwyneth desmontou e alisou a saia. Apreensiva, Aislinn notou a terra no vestido dela. Gwyneth 
olhou para ela friamente, com que desafiando-a a fazer alguma pergunta. Com uma exclamao abafada, Aislinn fez meia-volta e entrou,  procura de Wulfgar. Ele estava 
sentado  mesa, com um copo de cerveja na mo. Ergueu os olhos quando ela parou ao seu lado.
    -  Voc deixou Cleome em Cregan? - perguntou ela, quase certa de que no se tratava disso.
    Wulfgar respirou fundo.
    -  No. A gua quebrou as patas da frente, e tive de acabar com seu sofrimento. Ela est morta, Aislinn.
    -  Cleome? - perguntou ela, com um misto de riso e soluo. - Mas como? Ela conhecia bem todas as trilhas.
    Uma voz aguda e seca disse atrs dela:
    -  Ah! Aquela gua estpida no era capaz de encontrar o caminho mais simples, mas soube se atirar num buraco, jogando-me para fora da sela. Eu podia ter morrido! 
Voc no me avisou que ela era malvada, Aislinn.
    -  Malvada? - repetiu Aislinn, confusa. - Cleome no era malvada. Era um belo animal. No havia outro mais veloz.
    -  Ah! Pode perguntar aos meus acompanhantes o que ela fez. Eles viram tudo. O que voc ganharia com a minha morte?
    Aisinn balanou a cabea. Sentia o olhar de Wulfgar atento. Era como se, com seu silncio, a interrogasse tambm. Tentou sorrir.
    -   uma brincadeira cruel, Gwyneth. Voc matou o meu cavalo.
    -  Seu cavalo! - zombou Gwyneth. - Est dizendo que possui um cavalo? Voc, uma mera escrava? - Sorriu do espanto de Aislinn. - Quer dizer que o cavalo que pertencia 
ao meu irmo, no ?
    -  No! - exclamou Aislinn. - Cleome era minha! Ganhei de meu pai! - Olhou para os dois. - Ela era tudo que eu...
    Os soluos a impediram de continuar. Wulfgar levantou e ps a mo no brao dela, procurando consol-la, mas Aislinn se afastou dele, furiosa. S queriaum pouco 
de privacidade. Acabavade subir a escada quando ouviu a voz de Gwyneth.
    -  Espere! No pode ir a lugar nenhum sem minha ordem! Wulfgar, atnito, olhou interrogativamente para a irm.
    -  Eu sou sua irm, ao passo que aquela cadelinha ordinria no passa de uma escrava! - vociferou ela.-Eu ando descala e vestida com andrajos, e voc leva sua 
prostituta inglesa para a cama e a veste com todo luxo! Acha justo que eu sofra enquanto os escravos gozam o privilgio de sua hospitalidade? Voc a exibe para mim 
e para meu pai como se fosse um smbolo de coragem conquistado, e temos de comer as sobras de sua mesa, enquanto voc faz a rameira sentar ao seu lado, onde pode 
acarici-la  vontade!
    Gwynetii no notou a expresso ameaadora de Wulfgar. Aislinn, que ficara imvel  voz de comando, viu a fria nos olhos dele. Bolsgar ergueu o corpo, apoiado 
num cotovelo.
    -  Gwyneth! Gwyneth, oua o que vou dizer! - ordenou ele. - No quero que fale desse modo com Wulfgar. Ele  um cavaleiro de Guilherme e o conquistador destas 
terras. Embora eu no tenha sido vencido em nenhuma batalha, fui privado de minhas terras. Viemos aqui como pedintes, e estamos  sua merc. Em considerao a mim, 
seu pai, no abuse da bondade dele.
    -  Meu pai!-zombou ela, e apontou com o chicote de montaria para o escudo sem armas do velho saxo. - Foi meu pai quando mandou meu irmo para a morte? Foi meu 
pai quando minha me morreu? Foi meu pai quando me tirou de meu lar e me fez atravessar metade da Inglaterra para chegar a este barraco imundo s porque ouvimos 
os normandos falarem neste bastardo, Wulfgar? Eu fui ofendida hoje, quase perdi a vida. Vai tomar o lado da escrava, contra sua filha, ou vai ser meu pai pela primeira 
vez na vida?
    Ia continuar, mas a voz trovejante de Wulfgar a impediu.
    -  Pare de tagarelar, mulher!
    Gwyneth voltou-se rapidamente para ele e encontrou o olhar frio e penetrante do normando.
    -  Tenha cuidado com suas maneiras aqui - ordenou ele, em voz baixa, dando um passo para ela. - Cuide muito bem delas, minha Irm. Voc me chamou de bastardo. 
Eu sou. Mas a escolha no foi minha. E queixa-se da morte de sua bela me.  verdade, mas como ela morreu? Tenho certeza de que foi por sua prpria vontade. Meu 
irmo, cavaleiro galante de Harold, morreu no campo de batalha. Ningum o mandou. Foi seu juramento e sua honra que o levaram  luta. Morreu como um homem pela causa 
que escolheu. Mas, e a minha causa, irm? Quem fez a escolha? Voc! Seu irmo! Minha me! Seu pai! Vocs todos determinaram meu destino. Vocs me exilaram em terras 
distantes para no manchar seu nome, para no embara-los. Eu era jovem e no conhecia outro pai a no ser o seu.
    Voltou-se para Bolsgar.
    -  E o senhor diz que minha me tentou corrigir um erro?-Riu secamente.-Pois eu digo que ela procurou a vingana de uma esposa astuta, pois quem foi prejudicado 
com sua revelao? Ela? Muito pouco. Minha irm?-Curvou-se de leve na direo de Gwyneth. - No foi prejudicada em nada, pois era a preferida de minha me. Meu irmo? 
Nunca, pois tornou-se o filho favorito. O senhor? Foi profundamente ferido, estou certo, pois ns dois ramos realmente pai e filho. Mas seu dever de honra para 
com ela o fez me entregar quele idiota que me dava uma mnima parte do dinheiro que o senhor mandava.
    Os olhos frios como ao voltaram-se outra vez para Gwyneth.
    -  No me diga outra vez o que devo  minha famlia. Aceite sem reclamar o que  dado de boa vontade, pois no tenho nenhuma obrigao para com vocs. Critica 
meus prazeres - indicou Aislinn com um gesto largo.-Isso tambm  assunto meu e de mais ningum, pois ela continuar a ser minha, quer voc queira ou no. Tenha 
cuidado quando falar de prostituta e de bastardo, pois no sou contrrio  ideia de bater numa mulher. Muitas vezes fui tentado e me dominei. Portanto, est avisada.
    "Agora a gua que voc usou sem minha ordem est morta, e eu tomo afeio por bons animais, e ela era muito especial. Quanto  sua alegao de que ela tinha 
mau gnio, notei que estava um tanto esquiva ultimamente porque h algum tempo no  montada por Aislinn. Prefiro acreditar que por isso ns a perdemos e quase perdemos 
voc tambm. Vamos encerrar o assunto, e no quero mais ouvir acusaes sem provas. Eu a aconselho a se conformar com um guarda-roupa mais simples do que est acostumada. 
No tenho pacincia nem vontade de ouvir suas lamrias sobre roupas. Se se sente maltratada, fale com as mulheres da Inglaterra e pergunte de suas perdas e do quanto 
sofreram."
    Ignorando a fria de Gwyneth, ele foi at o centro do salo e voltou-se para ela outra vez.
    - Vou sair amanh para atender a um chamado do duque - Aislinn olhou surpresa para ele.-No sei quanto tempo vou demorar, mas quando voltar espero que esteja 
reconciliada com o fato de que eu sou o senhor aqui e que dirijo esta casa do modo que achar melhor. Sweyn ficar aqui, e espero que o tratem com o respeito que 
merece. Deixarei dinheiro para o que precisar, no porque voc exigiu, mas porque era o que eu pretendia fazer. A tagarelice das mulheres me cansa, portanto peo 
que no abuse mais da minha pacincia. Est dispensada, querida irm, e, se se perguntar o que deve fazer, sugiro que se retire para seu quarto.
    Ele esperou que Gwyneth subisse a escada, passando por Aislinn sem olhar para ela, e logo ouviram a porta do quarto bater com fora. Aislinn ergueu os olhos, 
e Wulfgar percebeu a angstia nos dois belos lagos cor de violeta. Entreolharam-se por um momento, e ento ele observou o movimento dos ombros e dos quadris de Aislinn 
quando ela se voltou e comeou a subir a escada com porte altivo.
    Sentindo o olhar intenso do padrasto, Wulfgar voltou-se para ele, esperando uma reprimenda. Mas viu apenas a leve sugesto de sorriso nos lbios do velho homem. 
Ele inclinou a cabea uma vez, e depois recostou-se nas mantas de pele e olhou para o fogo, Wulfgar voltou-se para Sweyn. O rosto do viking estava inexpressivo, 
mas os dois amigos se entendiam apenas com um olhar. Depois de um momento, Sweyn saiu da sala.
    Apanhando seu elmo e seu escudo, Wulfgar subiu a escada com passo pesado. Sabia que Aislinn estava sentindo profundamente a perda de Cleome. Ele se julgava capaz 
de manejar suas raivas, mas no seu sofrimento. Nenhuma fora podia aliviar a dor do sacrifcio intil de um belo animal. Wulfgar culpava a si mesmo por tudo que 
acontecera. Podia ter evitado com uma nica palavra, mas tinha outras preocupaes, seus deveres e suas terras que precisavam ser guardadas durante sua ausncia.
    Entrou no quarto e fechou a porta silenciosamente. Aislinn estava perto da janela, com a cabea encostada na veneziana interna. As lgrimas desciam por seu rosto 
e caam no corpete do vestido. Wulfgar
    a observou por alguns minutos e depois, com o cuidado de sempre, tirou a cota de malha, o elmo, a espada e o escudo, guardando cada coisa em seu lugar.
    Wulfgar considerava-se um homem sem nenhum vnculo, que no precisava de uma mulher para ocupar seus pensamentos. Levava uma vida dura e vigorosa. No havia 
nela lugar para uma esposa, e nenhuma mulher jamais o fez desejar uma companheira. Agora, sentia a falta de maneiras gentis em seu aprendizado da vida. No sabia 
o que fazer para consolar uma jovem. Nunca precisou fazer isso antes, ou desejou fazer. Seus casos com mulheres eram breves e superficiais, raramente passando de 
uma noite ou duas. Possua as mulheres para satisfazer um desejo bsico. Quando se cansava, abandonava-as sem maiores explicaes. As afeies ou sentimentos no 
significavam nada para ele. Contudo, simpatizava com o que Aislinn estava sentindo e tinha pena dela, pois sentira o mesmo quando perdeu um cavalo favorito.
    Como que guiado por um instinto, aproximou-se dela e tomou-a nos braos, abafando seu soluos contra o peito forte. Com ternura, afastou-lhe o cabelo do rosto 
e beijou cada lgrima, at Aislinn erguer os lbios para ele. Essa reao o surpreendeu agradavelmente, mas por um breve momento sentiu-se confuso. Desde a primeira
vez, ela tolerara suas carcias como uma escrava, parecendo ansiosa para terminar logo com tudo. Mas lutava contra seus beijos, virando o rosto sempre que podia,
como que temendo conceder alguma vitria ao seu captor. Agora, amargurada, ela respondeu quase avidamente ao beijo, abrindo os lbios quentes e tmidos para o ardor
dos dele. O sangue pulsou forte nas veias de Wulfgar, como uma tempestade no mar. Esqueceu a surpresa daquela reao e, erguendo-a nos braos, levou-a, doce e submissa,
para a cama.
    Um fino raio de luar entrava pela fresta da janela fechada, invadindo o quarto onde Aislinn dormia, segura e calma, aconchegada nos braos de seu cavaleiro. 
Wulfgar olhou para o raio de luz, pensando nos momentos que acabavam de passar, sem conseguir uma explicao lgica para a atitude dela.
    Aislinn acordou quando os primeiros tons cinzentos da madrugada iluminavam o quarto. Ficou deitada saboreando o calor do corpo de Wulfgar e o ombro forte e musculoso 
sob sua cabea.
    Ah, meu bom senhor, pensou ela, passando as pontas dos dedos no peito dele. Voc  meu, e acho que agora  s uma questo de tempo para que voc saiba disso 
tambm.
    Ela sorriu, lembrando aquela noite e deliciando-se com os suave momentos do presente. Apoiando-se num cotovelo, observou o nor-mando, admirando os traos belos 
e perfeitos, e de repente sentiu que Wulfgar a puxava para si. Surpresa, Aislinn tentou se libertar,con uma exclamao abafada. Wulfgar abriu os olhos e sorriu.
    -  Ma chefie, deseja-me tanto que me acorda de um sono pro-fundo?
    Muito corada, Aislinn tentou lutar, mas ele a segurou com fora
    -   muita vaidade sua - acusou ela.
    -   mesmo, Aislinn? - perguntou Wulfgar com um sorriso zombeteiro. - Ou  verdade que no pode resistir ao desejo? Acha que h algum sentimento forte por mim 
no seu corao.
    Aislinn ficou indignada com o tom de zombaria.
    -   mentira - respondeu, secamente. - Acha que uma mulher sax pode desejar um normando?
    -  Ahh - suspirou ele, ignorando seus protestos. - Vai se difcil encontrar uma mulher to interessante na minha viagem, e um que sinta alguma afeio por mim, 
impossvel.
    -  Ora, seu bufo vaidoso - exclamou ela, chegando para mais perto dele. Wulfgar a abraou, apertando os seios dela contra o peito e sorriu de prazer.
    -  Gostaria de lev-la comigo, Aislinn. No teria nem um mento de tdio. Mas temo que uma jovem to delicada no posa suportar a marcha da batalha, e eu no 
arriscariaum tesouro to valioso num jogo tolo.
    Com a mo atrs da cabea de Aislinn, aproximou os lbios dele dos dele. Beijou-a longa e apaixonadamente, e mais uma vez Aislinn no encontrou foras para resistir. 
Wulfgar rolou na cama, para cima dela, e agora no precisava usar a fora. A mo dela na nuca normando era uma prova de sua submisso. A chama que corria em suas 
veias como lava derretida fazia com que procurasse avidamente a satisfao de seus desejos. Sentiu a mesma excitao da noite anterior, quando seu corpo  ovem respondera 
com ardor ao dele, cor se levado por vontade prpria. Mas lembrou tambm o sentimento do frustrao quando tudo terminou, como se estivesse faltando algum coisa.
    A vergonha do modo como se comportara esfriou seu ardor. Ele a usava e depoi s zombava dela, sugerindo que sentia alguma coisa  ele. No havia nenhuma ternura 
naquele homem? Como podia
    sentir fria e distante quando um simples beijo quase a enlouquecia? Ser que estava mesmo se apaixonando por ele?
    A ideia foi como um balde de gua fria. Aislinn ergueu-se de um salto e libertou-se dos braos dele, quase o arrastando com ela para a beirada da cama.
    -  Quediabo est acontecendo?-exclamou Wulfgar, estendendo a mo para ela. Mais um pouco e no precisariam mais lutar. Agora, cie estava excitado e perturbado 
com a atitude dela. - Venha c, mulher.
    -  No! - exclamou Aislinn, com voz estridente, saltando da cama. Ficou de p, pronta para a luta, o peito arfando, o cabelo cor de cobre envolvendo o corpo 
nu. - Voc zomba de mim e depois quer satisfazer seu desejo! Muito bem, v procurar isso com alguma prostituta de soldado.
    -  Aislinn! - rugiu ele, lanando-se para ela.
    Com um grito, ela desviou-se das mos dele, pondo a cama entre os dois.
    -  Vai lutar contra meu povo e quer que eu me despea com votos de sucesso! Que Deus me ajude!
    Aislinn era um belo espetculo, iluminada pela luz fraca do sol da manh, que dourava seu corpo. Wulfgar parou, apoiado num dos postes da cama, para observar 
sua beleza. A jovem o enfrentou, consciente da nudez dele, de sua paixo, de sua fora, mas disposta a salvar o pouco de orgulho que lhe restava.
    Com um sorriso e um suspiro, Wulfgar disse:
    -  Ah, chrie, est fazendo com que eu ache muito difcil partir, mas preciso. Sou cavaleiro de Guilherme.-Aproximou-se compasso lento, e Aislinn o observou 
desconfiada, pronta para fugir outra vez. - Gostaria que eu negligenciasse o meu dever?
    -  Seu dever tirou muitas vidas dos ingleses. Quando vai terminar? Ele deu de ombros.
    -  Quando a Inglaterra se curvar para Guilherme.
    Com um movimento rpido, segurou o brao dela, apanhando-a de surpresa. Aislinn lutou bravamente. Wulfgar ria, divertindo-se com os seus esforos inteis. De 
repente, Aislinn ficou imvel, sabendo que, quanto mais lutasse, mais o deixava excitado.
    -  Voc sabe, Aislinn,  o que o dono da casa ordena, no o que o escravo deseja.
    Com os lbios dele nos seus, Aislinn dessa vez no se deixou dominar pelo desejo. Depois de um longo momento, ele se afastou sob o olhar zombeteiro da jovem.
    -  Pelo menos desta vez, Wulfgar, meu cavaleiro normando -. murmurou ela, os olhos cor de violeta brilhando com o calor que ele, no havia encontrado nos seus 
lbios -,  a vontade da escrava.
    Afastou-se da mo que tentava segur-la e com um gesto gracioso; fez uma cortesia. Olhou para Wulfgar e viu que seus desejos no. tinham ainda se abrandado. 
    -  Acho melhor se vestir, senhor. O frio que est fazendo podei gelar o mais forte dos homens.                                                      
    Ps uma manta de pele sobre os ombros e sorriu zombeteira Depois, riu alto e foi at a lareira, onde ps algumas achas de lenha sobre as brasas. Assoprou o fogo, 
mas recuou quando a cinza voou para seu lado, e sentou sobre os calcanhares esfregando os olhos! vermelhos. Wulfgar riu alto. Com uma careta para ele, Aislinn balan-ou 
o caldeiro cheio de gua sobre o fogo. Wulfgar foi para perto da lareira e comeou a se vestir.                                                         
    Quando a gua ferveu, Aislinn foi at onde estavam o cinturo e a espada dele, apanhou o punhal da bainha e comeou a aquec-lo nas chamas. Wulfgar ergueu as 
sobrancelhas, intrigado.                         
    -  Minha pele  muito mais delicada do que a sua, Wulfgar - explicou ela -, e, se voc no quer usar barba, deve se barbear melhor. Os plos speros do seu queixo 
me arranham e, como vi os normandos raspando com tanta habilidade os rostos dos homens do meu povo, peo que me permita retribuir o favor.                       
    Wulfgar olhou para a pequena adaga sobre a tnica dela, na cadeira, lembrando de seus pensamentos da vspera. Sua morte foral decretada agora, quando se preparava 
para lutar contra o povo dela? Devia dizer que no era do seu feitio matar inutilmente? Por Deus, ia saber a verdade! Fez um gesto afirmativo.                   
    -  Talvez suas mos sejam mais delicadas do que as deles, Aislinn.-Mergulhou uma toalhanaguaquentedocaldeiro, torceu, sacudiu para esfriar um pouco e cobriu 
o rosto com ela.                    
    -  Ah, Wulfgar, que pose tentadora-zombou Aislinn. - Se h uma lua eu tivesse tido a garganta de um normando assim  minha disposio...
    Levantou-se e parou ao lado dele, experimentando o corte da. lmina com a ponta do dedo. Wulfgar retirou a toalha, e seus olhos se encontraram. Aislinn sorriu 
e afastou o cabelo do rosto com um movimento da cabea. Disse, ento, casualmente:
    -  Ah, se eu no tivesse tanto medo do meu novo senhor, a    tentao seria bem maior.                                                                       
    O resultado de sua tentativa de humor foi uma sonora palmada no    traseiro. Aislinn barbeou habilmente o rosto dele com a lmina do  punhal, at a pele ficar 
lisa e brilhante. Wulfgar passou a mo no rosto,
    admirado por ela no o ter cortado nem uma vez.
    -  O melhor servidor que um cavaleiro pode ter.-Enfiouamo              debaixo do manto que a cobria e puxou-a para seu colo. Com voz rouca              e os 
olhos brilhando de desejo, disse: - No esquea que voc              ! minha, Aislinn, e que jamais a dividirei com algum.
    -  Ento, tenho algum valor aos seus olhos, afinal, meu senhor?  -murmurou ela, passando a ponta do dedo pelacicatriz no rosto dele.  
    Wulfgar repetiu apenas.
    -  No esquea.  Beijou-a avidamente, dessa vez sentindoosabordapaixoardente que, ele sabia, Aislinn podia sentir.
    
    
    
    
    
   Captulo Dez



    A MANH ESTAVA fria e mida e, levada pelo vento gelado, a chuva varria as montanhas e penetrava por todas as frestas do solar. Pequenas; correntes de vento 
passavam sob as portas, trazendo gotas d'gua e agitando o ar frio da manso. Aislinn, envolta num xale de l, apanhou com dedos quase insensveis um pedao de po 
e atravessando a sala, foi para perto da lareira, onde estavam sentados Sweyn e Bolsgar. O fogo recm-aceso apenas comeava a aquecer o grande salo, e ela sentou 
numa banqueta, ao lado de Bolsgar. Nos dias que se seguiram  partida de Wulfgar, sua afeio pelo velho lorde crescera, pois ele fazia lembrar de seu pai. Ele era 
como um escudo que aparava e amaciava o gnio irritadio de Gwyneth e tornava a vida suportvel quando ela estava por perto. Era um homem bondoso e compreensivo, 
o oposto da filha.
    Aislinn frequentemente se aconselhava com ele para resolve assuntos da casa ou dos empregados, sabendo que Bolsgar tinha a sabedoria da longa experincia de 
vida. Sweyn fazia o mesmo e muitas vezes sentava para tomar com o velho lorde um copo de cerveja e relembrar os dias em que Wulfgar era tratado ainda como um verda-deiro 
filho. Nessas ocasies, Aislinn ouvia num silncio encantado, quando os dois falavam com carinho do jovem Wulfgar e elogiavam
    seus feitos. Os dois orgulhavam-se tanto dele que era como se fossem ambos seus pais verdadeiros.
    s vezes, Sweyn contava suas aventuras com Wulfgar e fatos da vida dos dois como mercenrios. Bolsgar ouvia com avidez. Muito jovem ainda, Wulfgar deixou a casa 
de de Sward, e ele e Sweyn comearam a ganhar a vida como mercenrios. Sua fama cresceu, seus servios alcanaram um alto preo e estavam constantemente em demanda. 
Foi ento que o Duque ouviu falar da destreza de Wulfgar com a espada e a lana e chamou os dois para se juntarem a ele. A amizade entre o cavaleiro e o nobre comeou 
no momento em que se conheceram, quando Wulfgar disse claramente que era bastardo e que s se aliava ao Duque por dinheiro. Impressionado com sua franqueza, o Duque 
insistiu para que entrassem para seu exrcito e prestassem juramento de lealdade a ele. Tudo foi feito rapidamente, pois o Duque era persuasivo, e Wulfgar via nele 
um companheiro digno de seu respeito. Wulfgar, agora com trinta e trs anos, estava h vrios anos com o Duque e fiel ao seu juramento de lealdade.
    Nessa manh fria, Aislinn olhou para o homem do norte e para o velho cavaleiro, sentados junto ao fogo, e pensou que se Gwyneth os visse certamente os censuraria 
por estarem perdendo tempo. Comendo devagar o pedao de po, Aislinn pensou na mea-irm de Wulfgar. Ela era completamenate diferente do irmo e do pai. Wulfgar 
mal desaparecera no topo da colina e Gwyneth j estava comeando seu reinado como senhora do solar. Tratava os empregados como seres inferiores e desprezveis, que 
estavam ali s para servi-la. Constantemente interrompia o trabalho deles para algum servio pessoal e sem importncia. Ficava furiosa quando eles procuravam a aprovao 
de Sweyn ou de Aislinn antes de obedecerem suas ordens. Gwyneth tomou conta da despensa tambm, e distribua a comida como se ela tivesse comprado cada gro de trigo 
armazenado. Media cuidadosamente as pores de carne e repreendia duramente quem deixava um pouco no osso. No dava ateno aos pobres servos que esperavam avidamente 
as migalhas que sobravam das refeies. Bolsgare Sweyn divertiam-se, burlando a vigilncia dela e dando grandes peas de carne para os criados. Quando Gwyneth descobriu, 
ficou furiosa e fez um longo discurso sobre desperdcio de comida.
    A serenidade da manh foi quebrada por um grito estridente na quietude da sala. Aislinn levantou-se de um salto quando viu a me descer correndo a escada, agitando 
os braos furiosa, chamando todos os demnios do inferno para atormentar aquela filha de Sat- Aislinn olhou atnita para Maida, certa de que a me perdera completamente 
a razo. Gwyneth apareceu no topo da escada e olhou para baixo com um sorriso satisfeito, quando Maida se agarrou na saia da filha. Aislinn esperou que Gwyneth descesse 
calmamente a escada e se aproximasse deles.
    -  Apanhei sua me roubando - acusou Gwyneth. - Alm de termos de viver sob o mesmo teto com servos, agora vivemos corn ladres tambm. Wulfgar vai saber disso. 
Marque bem minhas palavras.
    -  Mentira! Tudo mentira! - gritou Maida. Ergueu as mos em splica para Aislinn. - Meus ovos de aranha! Minhas sanguessugas! Eram meus! Eu os comprei dos judeus. 
Agora, desapareceram. - Olhou com raiva para Gwyneth. - Eu s entrei no quarto para procurar o que  meu.
    -  Mentira? - disse Gwyneth, indignada. - Eu a encontro revistando meu quarto e sou eu a mentirosa? Ela est louca!
    -  Minha me sofreu muito nas mos de Ragnor e de seus homens - explicou Aislinn. - Essas coisas eram usadas para fazer remdios. Minha me dava grande valor 
a elas.
    -  Eu joguei tudo fora - Gwyneth empertigou o corpo, com orgulho. - Isso mesmo, joguei fora. Deixe que ela guarde seus. brinquedos fora desta casa. No quero 
nenhuma dessas coisas se arrastando no meu quarto.
    -  Gwyneth! - exclamou Bolsgar, extremamente zangado. - Voc no tem o direito de agir desse modo.  uma hspede aqui, e deve se acostumar com o modo de vida 
determinado por Wulfgar.
    -  No tenho o direitol - respondeu Gwyneth, tremendo de raiva. - Sou a nica parenta do senhor deste solar. Quem me nega o direito? - Os olhos azul-claros os 
desafiavam. - Tomarei conta do que pertence a Wulfgar enquanto ele estiver ausente.
    Bolsgarriu com ironia.
    -  Como toma conta do que me pertence? Voc distribui comida; como se fosse sua. Wulfgar deixou dinheiro para as nossas necessidades, e voc nos d algumas moedas 
e guarda o resto. Que eu saiba, voc jamais se preocupou com o bem-estar de pessoa alguma.
    -  Eu s procuro evitar que caia nas suas mos generosas demais - disse a filha, secamente. - O senhor o desperdiaria como jogou fora seu ouro. Armas! Homens! 
Cavalos! De que adiantou tudo isso?
    
    Se tivesse guardado algum dinheiro, no teramos de implorar por um pedao de po e um lugar para dormir.
    O velho lorde resmungou, olhando para o fogo:
    -  Se eu no fosse atormentado por duas mulheres implicantes, que exigiam sempre o melhor, teria tido meios de enviar mais homens com seu irmo, e no estaramos 
aqui agora.
    -  Sim, ponha a culpa na minha pobre me e em mim. Tnhamos de implorar algumas moedas para comprar nossas roupas. Olhe para a minha tnica e veja como cuidou 
bem de ns - disse Gwyneth. - Mas estou aqui agora e, como nica parenta de Wulfgar, exijo meus direitos de sangue, e providenciarei para que esses saxes no abusem 
de sua generosidade.
    -  No existe nenhum direito de sangue - disse Sweyn, entrando ousadamente na discusso. - Quando ele foi mandado embora, sua me no conferiu a ele os direitos 
de filho. Desse modo, ela negou tambm o seu parentesco.
    -  Trate de ficar calado, lacaio atrevido! - disse ela, indignada. - Voc limpa a armadura de Wulfgar e vigia sua porta quando ele dorme. No tem nada a ver 
com o assunto. Minha palavra  que vale. Esta mulher no vai mais guardar seus bichos nojentos nesta casa!
    -  Aiiii! - choramingou Maida. - No posso proteger meus aposentos dos ladres nem dentro da minha casa.
    -  Sua casa! - zombou Gwyneth. - Por ordem de Guilherme, deveria ser expulsa desta casa.
    Aislinn sentiu o sangue ferver.
    -  Por ordem de Wulfgar, ficamos aqui e temos direito aos nossos quartos.
    Mas Gwyneth no ia se dar por vencida.
    -  Voc  uma serva aqui! Da mais baixa classe. No tem direito de possuir coisa alguma! - Apontou para Maida: - Voc, sua velha ordinria, anda pelo solar como 
se ainda fosse sua dona, quando, na verdade, no passa de uma escrava. No vou suportar isso.
    -  No! Ela est aqui por vontade de Wulfgar - exclamou Aislinn, furiosa com aquele ataque  sua me. - Seu irmo impediu que o velhaco do Ragnor a expulsasse.
    Gwyneth sorriu com desprezo.
    -  No chame um cavaleiro normando de sangue nobre de velhaco! - Voltou-se outra vez para Maida: - Com que direito reivindica um lugar nesta casa? Porque sua 
filha dorme com o senhor do solar? - Riu com sarcasmo. - Pensa que isso lhe d os mesmos direitos dos normandos, bruxa velha? O que vai dizer quando o senhor voltar 
com uma esposa e atirar sua preciosa filha aos seus homens? Que direitos vai exigir ento? A me de uma prostituta? No poderia nem mesmo ficar nestas terras. Sim! 
Saia daqui! Desaparea da minha frente. Procure algum buraco para abrigar seu corpo magro. Para fora!
    -  No! - exclamou Aislinn. - No pode fazer isso. Foi Wulf-gar quem deu aquele quarto para ela. Ousa desafiar a ordem dele?
    -  No desafio coisa alguma - retrucou Gwyneth. - Vejo somente o bem dele.
    -  Aislinn? - murmurou Maida, segurando a tnica da filha. - Eu vou. Vou apanhar minhas coisas. So bem poucas agora.
    Maida falou com lgrimas nos olhos, e sua expresso era uma mistura desordenada de sentimentos. Aislinn ia comear a falar, mas a me balanou a cabea, caminhou 
para a escada e comeou a subir os degraus com o corpo curvado para a frente, a prpria imagem da derrota. Com os punhos cerrados, Aislinn olhou com fria silenciosa 
para Gwyneth, que sorria satisfeita.
    -  Em certos momentos, Gwyneth-disse Bolsgar -, voc me d nuseas.
    A filha olhou para ele com expresso de triunfo.
    -  No sei por que lamenta a partida dela, meu pai. H muito tempo a velha bruxa desmoraliza esta casa com seus andrajos e seu rosto deformado.
    Bolsgar deu as costas a ela e olhou para o fogo. Sweyn fez o mesmo e, depois de algum tempo, levantou-se e saiu da sala. Finalmente, sob o olhar furioso de Aislinn, 
Gwyneth sentou na cadeira de Wulfgar e comeou a comer um assado de carneiro servido por Hlynn.
    Maida desceu com um manto de pele nas costas e um pequeno embrulho nos braos. Parou na porta com um olhar suplicante para a filha. Aislinn aconchegou mais o 
xale de l e saiu da casa com a me. L fora, as duas tremiam de frio, mal agasalhadas, e uma nvoa gelada umedeceu seus cabelos.
    -  Para onde vou agora, Aislinn? - perguntou Maida chorando, quando atravessaram o ptio. - No seria melhor irmos para algum lugar bem distante, antes do retorno 
de Wulfgar?
    -  No.-Aislinn balanou acabea. Era difcil falar com calma quando queria puxar os cabelos de Gwyneth e descarregar sobre ela toda sua raiva e revolta. - No, 
minha me. Se formos embora, o
    povo vai sofrer e no ter ningum para amenizar suas dores. No posso trair nossa gente, deixando-a nas mos de Gwyneth. Alm disso, toda esta terra est em 
guerra. No  um bom momento para duas mulheres andarem sozinhas pelas estradas.
    -  Wulfgar nos expulsar se voltar com uma esposa - insistiu Maida. - E no vai ser pior do que se formos agora.
    Aislinn olhou para o horizonte distante, lembrando a ltima noite passada nos braos de Wulfgar. Quase podia sentir as mos dele, acariciando, tocando, excitando-a 
at o desejo invadir cada nervo de seu corpo. Seu olhar era agora suave e sonhador. S a lembrana daquela noite bastava para enrijecer seus seios e despertar o 
desejo em todo o seu corpo. Mas ser que acontecia o mesmo com ele? Teria realmente pertencido a ela naquele momento ou logo a trocaria por outra? Imaginou outra 
mulher nos braos de Wulfgar, e a deliciosa excitao se transformou em fria. Depois de ter recusado tantos pedidos de casamento de homens que faziam tudo para 
convencer seu pai de que a mereciam, era agora a amante de um homem que odiava as mulheres e no confiava nelas. Aislinn conteve uma risada amarga. Que ironia, ter 
tratado com tanto orgulho aqueles pretendentes para acabar como escrava de um normando que, segundo ele mesmo, devia esquec-la facilmente, como se esquece uma luva. 
Porm, ele j tivera provas da necessidade das luvas. Essa lembrana a acalmou. Sorriu agora, mais confiante. Mesmo que ele voltasse com uma mulher para partilhar 
sua cama, poderia se esquecer dela? Pensaria nela em todos os momentos, como Aislinn pensava nele? Mesmo na sua inexperincia, Aislinn sabia que naquela ltima noite 
o prazer de Wulfgar fora intenso, portanto, devia confiar que a lembrana daqueles momentos o traria de volta para ela.
    Aislinn entrou numa trilha que levava a uma pequena casa vazia, antes habitada por pai e filho que haviam perdido a vida no campo de batalha, lutando ao lado 
de Erland contra Ragnor. Maida recuou quando Aislinn segurou-lhe o brao.
    -  Fantasmas! Tenho medo de fantasmas! - exclamou ela. - O que faro comigo sozinha, sem ningum para me defender? Eles me levaro embora, eu sei!
    -  No - Aislinn acalmou os temores da me. - Os homens que moravam aqui eram nossos amigos. No voltaro para fazer mal  viva de Erland.
    -  Acha que no? - choramingou Maida e, com um movimento
 quase infantil, acompanhou a filha na estrada estreita. A pequena casa abandonada ficava longe da cidade, ao lado de um pequeno bosque, na margem do pntano. Quando 
Aislinn abriu a porta, a poeira e o mau cheiro quase a sufocaram.
    - Veja, minha me. - Estendeu o brao para o interior da casa -  uma construo slida e s precisa de mos hbeis para ser uma boa moradia.
    O ambiente era tenebroso, e Aislinn procurou afastar a preocupao, com uma atitude calma e jovial. As duas pequenas janelas eram protegidas por peles muito 
finas que deixavam entrar mais vento frio do que luz, e cada passo das duas levantava a poeira do cho coberto de palha muito velha e mida. A lareira rstica ocupava 
uma das paredes, e um estrado de carvalho, com um colcho meio apodrecido, estava encostado na outra. Maida sentou na nica cadeira, ao lado da mesa, na frente da 
lareira, e comeou a murmurar uma ladainha lamentosa, balanando o corpo para a frente e para trs.
    Aislinn podia sentir a ansiedade da me. Foi at a porta e encostou-se no batente, olhando para o dia cinzento. Pensou na batalha que teria de enfrentar para 
convencer Gwyneth a permitir que Maida voltasse ao quarto designado para ela por Wulfgar. Gwyneth parecia possuda por um demnio que lhe incitava a vaidade e a 
inveja e no permitia que ela encontrasse prazer em simples atos de bondade.
    Com um suspiro, Aislinn balanou a cabea, arregaou as mangas longas, compreendendo que competia a ela o trabalho de tornar aquela casa um lugar habitvel. 
Encontrou uma pederneira, e logo as chamas danantes expulsaram o escuro e o frio da pequena sala. Tirou as roupas sujas, provavelmente cheias de parasitas, dependuradas 
em ganchos de madeira, e jogou no fogo os pedaos de tecidos de l e de couro. Tirou do estrado o colcho podre e malcheiroso. No fundo das vasilhas, a comida deixada 
pelos homens quando soou na torre o alarme avisando a chegada dos normandos estava dura como pedra. Retirando os restos das vasilhas, Aislinn pensou em Gerford e 
em seu filho. Quando a maioria das pessoas usava cascas de po endurecidas como pratos, pai e filho comearam a fazer utenslios de madeira para mesa e cozinha, 
alm de ferramentas. Darkenwald ia sentir muita falta de seu artesanato. Agora, sua me podia dispor desse luxo, embora no tivesse os outros confortos aos quais 
estava acostumada.
    Enquanto Aislinn trabalhava, Maida continuou balanando na cadeira e murmurando seu lamento. Parecia ignorar tudo  sua volta.
    Nem pareceu notar quando a porta se abriu bruscamente, sobressaltando Aislinn. Kerwick e Ham entraram, com os braos cheios de cobertores e mantas de peles.
    -  Achamos que ela ia precisar-disse Kerwick. - Tiramos do quarto de Maida quando Gwyneth nos mandou fazer uma limpeza nele, porque pretende us-lo agora. Se 
chamam sua me de ladra, ns tambm somos ladres.
    Aislinn fechou a porta.
    -  Sim, ns todos seremos chamados de ladres, pois no permitirei que ela passe fome nem sofra com o frio.
    Kerwick examinou a casa humilde.
    -  Thomas agora faz tendas e camas de campanha para os normandos. Verei se tem alguma coisa sobrando.
    -  Quer pedir a ele para trocar as dobradias da porta tambm?
    - pediu Aislinn. - Do modo que est, no pode resistir ao menor dos animais.
    Kerwick olhou para ela.
    -  Vai dormir aqui com sua me?-franziu a testa, preocupado.
    - Acho que no ser prudente, Aislinn. Deve temer mais os homens como Ragnor e os outros normandos do que qualquer animal. Os homens no faro mal  sua me, 
pois pensam que ela est louca, mas a voc...
    Aislinn olhou para Ham, que colocava palha nova no cho.
    -  Naturalmente voc sabe que Sweyn dorme numa esteira do lado de fora da porta do meu quarto. Como seu amo, ele no confia nas mulheres. No me deixaria dormir 
aqui.
    Kerwick suspirou aliviado.
    -  Isso  bom. Eu no ficaria descansado se voc estivesse aqui, e Wulfgar ia me enforcar na rvore mais alta, como uma advertncia aos outros homens, se eu 
tentasse proteg-la, pois na certa ia pensar o pior.
    -  Sim-murmurou Aislinn.-Das mulheres ele sempre espera traio.
    Os olhos azuis de Kerwick encontraram-se com os dela por um momento; depois, com um suspiro tristonho, ele disse:
    -  Preciso ir antes que digam ao viking onde estou. No quero despertar a ira de Wulfgar por causa deste nosso simples encontro.
    Os dois saram e Aislinn continuou seu trabalho para melhorar a aparncia da pequena cabana e acalmar os temores da me. No meio da tarde, Thomas apareceu sorridente, 
com um colcho de linho pesado. Aislinn o levou para o estrado e ergueu as sobrancelhas, quando sentiu o perfume de trevo seco e relva.
    -  Sim, minha senhora-disse o antigo vassalo, comum sorriso. - Passei no estbulo procura de enchimento para o colcho, e algum cavalo normando vai passar fome 
esta noite.
    Rindo, os dois arrumaram o colcho no estrado, e Aislinn o cobriu com mantos de pele e cobertores. O resultado foi uma cama quente e acolhedora para sua me. 
Thomas consertou a porta, trocando os pedaos de couro que serviam de dobradia, alinhando-a e certificando-se de que podia ser trancada por dentro.
    Anoite descia rapidamente quando Aislinn olhou com aprovao para o interior da cabana. Sua me tinha jantado e dormia quando ela voltou ao solar para jantar 
tambm. Estava faminta, pois no comera nada alm de um pedao de po pela manh.
    Ham limpava perdizes caadas por Sweyn naquela tarde e, quando ela entrou, ele saltou imediatamente para servi-la. Gwyneth bordava calmamente perto da lareira, 
e Bolsgar aparava um pequeno graveto.
    -  Minha senhora - sorriu Ham. - Guardei seu jantar. Vou trazer j.
    Gwyneth ergueu os olhos da tapearia que bordava.
    -  Quem chega atrasado tem de esperar a prxima refeio. - Sua voz soou imperiosa, e ela deu outro ponto no bordado. - A pontualidade  uma virtude muito til, 
Aislinn. Voc deve aprender a fazer uso dela.
    Aislinn deu-lhe as costas e dirigiu-se diretamente a Ham.
    -  Estou com muita fome, Ham, e vou jantar agora. Traga a comida.
    Com um sorriso e uma inclinao da cabea, Ham saiu apressadamente para cumprir a ordem. Aislinn sentou calmamente  mesa principal, sem tirar os olhos de Gwyneth.
    Gwyneth sorriu com desprezo.
    -  Voc no  mulher de meu irmo. Embora seja tratada com alguma confiana, por ser sua prostituta, no passa de uma escrava, portanto no tome esses ares importantes.
    Antes que Aislinn pudesse responder, Ham tocou no cotovelo dela e ps na mesa comida suficiente para saciar o apetite de duas pessoas. Aislinn valorizou a lealdade 
do criado, sabendo que com aquilo podia
    provocar a ira e a maldade de Gwyneth contra ele. Com um sorriso de agradecimento, aceitou a comida.
    -   estranho que tantas mulheres saxs tenham sido usadas pelos normandos e voc no, Gwyneth - disse Aislinn, examinando a outra mulher dos ps  cabea. -
Ou, pensando bem, talvez no seja Io estranho.
    Aislinn voltou toda sua ateno para o jantar, ignorando comple-lamente a outra. Rubra e tremendo de clera, Gwyneth disse:
    -   claro que voc ficaria do lado dos porcos saxes contra sua prpria famlia. O Duque Guilherme devia jogar todos vocs no esgoto, que  o seu lugar.
    Frustrada, ela subiu correndo a escada e bateu com fora a porta de seus novos aposentos, o confortvel quarto do qual expulsara Maida naquela manh.
    As noites ficaram mais longas e os dias eram frios e castigados pelo vento. rvores nuas estendiam os galhos doloridos no ar gelado e gemiam em agonia quando 
o vento do norte varria o pntano. Quando parava de ventar, a neblina subia do pntano, envolvendo a cidade, e os lagos estavam cobertos de gelo fino. A garoa cada 
vez mais se adensava, transformando-se em flocos de neve que se depositavam no cho, cobrindo os caminhos de uma espessa camada de lama gelada. Mantas de pele de 
urso, de lobo e de raposa cobriam as tnicas de l do povo. O solar cheirava a animais recm-caados, e o curtume lanava seu cheiro desagradvel ao vento, numa 
grande atividade de preparao das peles. Aislinn providenciou para que Maida tivese o maior conforto possvel na pequena cabana. Mandou outros mantos de pele, e 
Kerwick diariamente levava para ela lenha da lareira do solar. As visitas dirias  me tornaram-se um ritual para Aislinn, e na volta passava pela cidade para tratar 
dos doentes. Apesar de toda essa ateno, Maida estava cada vez mais distante e alheia a tudo, e sua aparncia degenerava rapidamente. Aislinn comeou a ouvir histrias 
do povo. Diziam que ouviam a voz de Maida  noite, cantando monotonamente para os espritos, s vezes conversando com companheiros da juventude h muito tempo mortos, 
ou com o marido. Gwyneth endossava todas essas histrias e, quando tinha oportunidade de falar com Maida, certa de que Aislinn no podia ouvir, insinuava habilmente 
que a cabana era mal-assombrada. Ela repetia todas as histrias, procurando dar a impresso de que considerava tudo aquilo apenas maldade do povo, que odiava a pobre 
mulher. A depresso de Maida aumentava a cada dia, e Aislinn tinha dificuldade para conseguir que a me vivesse no mundo real. Maida comeou a fazer poes que, 
segundo ela, iam expulsar os normandos do solo ingls. Aislinn sabia que era intil tentar dissuadi-la.
    O dia estava muito frio, o vento soprava com fora, e das nuvens cinzentas e revoltas caam ora uma chuva fina de granizo, ora flocos de neve que batiam com 
fora nas janelas fechadas ou no rosto de quem estava fora de casa. Cobrindo o rosto corado, Ham deu as costas para as rajadas de vento e neve, agradecendo o bom 
resultado da temporada de caa e as peles quentes que o agasalhavam. Pele macia de gamo protegia seus braos e suas pernas, e um manto de pele de lobo cobria a tnica 
de l crua que vestia. Sob o manto, Ham segurava a erva medicinal que Aislinn o mandara apanhar na cabana de Maida. Parou por um momento para tomar flego, ao lado 
de uma pequena casa de camponeses.
    -  Ei, voc a! Ham!
    Ham voltou-se e viu Gwyneth, envolta num longo manto de pele, de p na porta do solar.
    -  Venha c! Depressa!
    Ham obedeceu imediatamente ao chamado imperioso.
    -  V apanhar mais lenha para o meu quarto - ordenou ela, quando Ham se aproximou. - O fogo est quase apagado, e este maldito monte de pedra  frio demais.
    -  Peo desculpas, minha senhora - Ham inclinou a cabea educadamente -, mas minha ama me encarregou de uma coisa urgente. Quando terminar esse trabalho, levarei 
a lenha para a senhora.
    Irritada com o que considerava insolncia do criado, Gwyneth disse, com um olhar gelado:
    -  Seu idiota grosseiro. Fala de uma bobagem qualquer, quando eu estou congelando de frio! Vai fazer agora mesmo o que mandei.
    -  Mas a minha senhora Aislinn me pediu...
    -  Mas a sua senhora Aislinn no passa da prostituta de Lorde Wulfgar. Como irm dele, eu sou a dona deste solar e estou mandando voc apanhar lenha agora!
    Ham franziu a testa, preocupado, mas sem nenhuma dvida quanto a quem devia obedincia.
    -  Minha senhora Aislinn me espera - disse, teimosamente. - Num momento vou apanhar sua lenha.
    -  Voc  um idiota infeliz - o dio soava em cada palavra. - Vou mandar arrancar sua pele, pedao por pedao.
    Dois homens de Wulfgar se aproximaram, e Gwyneth voltou-se para eles.
    -  Peguem este cretino e amarrem-no no poste. Quero que seja aoitado at aparecerem os ossos das costas.
    Ham empalideceu, e os homens pareciam hesitantes. Sabiam que ela era irm de Wulfgar, mas duvidavam que ele aprovasse uma punio to selvagem por uma ofensa 
to pequena Eram leais servidores de Wulfgar e jamais duvidavam de sua autoridade. Sabiam que ele era um homem justo e humano. Deviam obedecer agora s ordens da 
irm sem nenhum questionamento, como obedeciam s ordens dele?
    A hesitao dos homens aumentou a fUria de Gwyneth. Estendeu o brao magro e apontou para Ham.
    -  Em nome de Wulfgar, e como sou sua nica parenta, vocs vo me obedecer. Segurem este servo e tragam o aoite mais pesado.
    Os homens sabiam que Wulfgar geralmente se reservava o direito de julgar os saxes. No era ainda oficialmente o dono daquelas terras, mas, na verdade, um zelador, 
um comandante de guerreiros. Portanto, a ordem militar de sucesso se aplicava, e Sweyn era a autoridade, na sua ausncia, mas o viking no estava presente e eles 
no tinham coragem de contrariar Gwyneth ou desobedecer a sua ordem. Assim, com grande relutncia, os dois homens se adiantaram e seguraram o rapaz.
    Aislinn ps a menina no colo e segurou-a de p, aconchegando-a ao calor de seu corpo. Acriana respirava com dificuldade, entre acessos de tosse. A fumaa pungente 
das folhas de cnfora que Ham fora apanhar na casa de Maida, postas em gua fervente ao lado da cama, aliviaria o sofrimento da menina. Mas onde estava Ham? O tempo 
custava a passar, e Aislinn no podia explicar tanta demora. Ele j devia ter chegado. Aislinn comeou a se preocupar, sem saber o que podia ter acontecido ao rapaz 
que sempre a servira com tanta fidelidade. Se ele estivesse perdendo tempo em algum lugar, enquanto aquela criana mal podia respirar, certamente Aslinn ia lhe 
dar uns bons puxes de orelha.
    A respirao da menina ficou mais calma, e Aislinn deixou-a com a me, preparando-se para enfrentar o frio e ver o que tinha acontecidocom Ham. Quando fechou 
a porta, ergueu os olhos e viu os dois normandos arrastando Ham para o poste. Num instante Aislinn estava parada na frente dos normandos com os braos na cintura, 
os ps afastados e firmes no cho. O vento agitava-lhe o longo cabelo cor de cobre em volta da cabea. Os olhos cor de violeta despediam chamas quando ela disse 
em francs:
    -  O que significa isto? Qual a loucura que vocs normando inventaram para prender este rapaz que saiu para me prestarum pequeno servio e lev-lo para o poste 
de castigo no meio desta tempestade de neve?
    O que ia na frente respondeu, com voz hesitante.
    -  So ordens de Lady Gwyneth, porque ele recusou obedecer o uma ordem sua.
    Aislinn bateu com o p no cho.
    -  Soltem o rapaz, seus idiotas! - exclamou ela. - Soltem rapaz agora mesmo ou peia espada de Lorde Wulfgar prometo que o dois estaro mortos antes do fim desta 
lua!
    -  Parem! - berrou Gwyneth. - Voc no tem autoridade i Aislinn.
    Aislinn esperou que ela se aproximasse.
    -  Muito bem, Gwyneth - sua voz soou clara entre o uivo de vento. - Tomou para si a autoridade de Wulfgar. E quer priv-lo de mais um servo til?
    -  til?-esbravejou Gwyneth.-Este preguioso me desobe deceu deliberadamente.
    -  Estranho - perguntou Aislinn. - No tenho problemas com ele. Talvez sejam seus modos que o deixam confuso. Ele no est acostumado  tagarelice das gralhas.
    Gwyneth quase sufocou de fria.
    -  Gralha! Sua prostituta de um bastardo! Sua sax ordinria e atrevida. Como ousa questionar meus modos! Na ausncia de Wulfgar eu sou a dona desta casa, e 
ningum pode questionar minha autorida
    -  Ningum duvida do que voc pode ser, cara Gwyneth. Se voc  ou no, s Wulfgar pode dizer.
    -  No  preciso perguntar - respondeu ela, imediatamente. Eu sou irm dele, e voc no  nada.
    Aislinn ergueu o queixo com altivez.
    -  Tem razo, no sou parenta dele. Mas sei o que ele pens melhor do que seus parentes. Ele faz uso de justia rpida e firme, no
    dessa loucura que voc vive alardeando, pois conhece a vantagem de tratar os servos com bondade e humanidade. Gwyneth riu com ironia.
    -  Na verdade, no consigo compreender como, na sua pressa de ir para a cama com ele, tem tempo para saber seus pensamentos. - Entrecerrou os olhos claros at 
se transformarem em duas linhas muito finas entre as pestanas escuras. - Ou, na verdade, acha que pode influenciar a mente dele para fazer sua vontade?
    -  Se eu pudesse - respondeu Aislinn - seria porque ele merece ser dominado. Mas duvido que seja to fcil influenciar Wulfgar.
    -  Ora! Uma prostituta procura castrar o homem para todas as mulheres, exceto para ela, e o prende com o meneio de suas cadeiras de modo que ele nem percebe 
que est sendo dominado. - Gwyneth tremia de firia, e examinou Aislinn da cabea aos ps. No podia se livrar da lembrana de Wulfgar acariciando aquela mulher 
sax do lado de fora do quarto, naquela manh, antes de partir, nem do pensamento torturante de que Ragnor devia ter feito o mesmo. - Homens! Vo sempre atrs da 
ordinria bem-provida de carnes que requebra com cada movimento, ignorando a mulher digna e de porte discreto que abomina qualquer exibio de sexo.
    -  Diga-me. De qual mulher digna e de porte discreto est falando?-disse Aislinn, com uma risada, erguendo uma sobrancelha. - Ora, uma haste de salgueiro tem 
mais dignidade do que voc.
    -  Prostituta! - grasnou Gwyneth. - Dizem que o corpo da mulher fica mais cheio e bem-formado sob as mos de um homem, e pelo que vejo j deve ter conhecido 
muitos.
    Aislinn deu de ombros.
    -  Se i sso fosse verdade, ento voc, cara Gwyneth, s foi tocada por sua me at hoje.
    Corando intensamente, Gwyneth exclamou:
    -  Chega! Estou farta de suas provocaes e no quero mais ficar discutindo neste frio. - Voltou-se para os normandos, que no ousavam sequer sorrir. - Levem 
o servo e apliquem algumas chicotadas. Veremos se assim ele aprende a obedecer.
    -  No! - exclamou Aislinn. Em tom de splica, disse para os normandos: - Uma criana est naquela casa, sem poder respirar, e preciso de certas ervas para aliviar 
seu sofrimento. - Estendeu a mo para Ham.-Ele no tem nenhuma marca de pecado, pois traz consigo as ervas de que preciso. Deixem que me ajude a tratar da criana 
primeiro, e quando Wulfgar voltar faremos o que ele determinar.
    Gwyneth viu a incerteza nos rostos dos homens e sentiu que ia ser vencida.
    -  No! Isso no vai adiantar! Que ele sejapunido agora, enquan-to pode se lembrar do que fez, para aprender a obedecer melhor.
    Frustrada, Aislinn voltou-se para ela com as mos estendidas.
    -  Se ele for punido, a criana vai morrer.
    -  Nome importo nem umpoucocomumacrianasax-disse Gwyneth. - Que a insolncia do servo receba o castigo merecido, e no tente mais me contrariar, prostituta. 
Sim, ordeno que fiquee assista ao castigo para nunca mais contestar minhas ordens.
    -  No tem direito de dar ordens aqui! - exclamou Aislinn. Gwyneth empalideceu de raiva.
    -  Voc nega meus direitos, prostituta, mas, como nica parenta de Wulfgar, sou eu quem deve falar na sua ausncia. E voc no passa de uma serva, sua escrava, 
obrigada a suportar o peso dele na cama e afazer suas vontades. Diz que no posso dar ordens? Muito bem, quem no tem nenhum direito  voc, e deve experimentar 
o castigo dos que no obedecem seus superiores. - Seus olhos brilharam  ideia de ver a carne de Aislinn rasgada pelo aoite. - Sim, voc tambm precisa' aprender 
obedincia. - Estendeu o brao para ela. - Prendam esta mulher! Que seja castigada ao lado do menino teimoso!
    Ela falou em francs, mas Ham j tinha aprendido um pouco com a convivncia com os normandos. Ele tentou se libertar das mos que o prendiam.
    -  No! Deixem minha senhora em paz!
    Os homens olharam atnitos para a mulher que tremia de raiva. Aoitar uma mulher sax no era nada para eles, mas, quando a mulher pertencia a Wulfgar, a coisa 
era diferente. As consequncias seriam desastrosas para os dois. Talvez a irm de Wulfgar no se importasse, mas eles tinham outras ideias.
    -  Segurem esta mulher! - gritou Gwyneth, impaciente com a indeciso dos homens.
    Quando um dos homens deu um passo  frente, com inteno de proteger Aislinn e no de obedecer as ordens de Gwyneth, Ham conseguiu se libertar dos dois e fugiu. 
O normando ps a mo em seu ombro, e Aislinn, interpretando mal o movimento, girou o corpo furiosa, deixando o manto na mo do soldado.
    -  Cuidado com esse manto, seu idiota! - exclamou Gwyneth. - E tire a tnica dela que estou precisando de algo para vestir.
    -  Ento, precisa da minha tnica - disse Aislinn. Com dedos trmulos, ela a despiu e jogou na lama, amassando-a sob os ps. Enfrentou a mulher vestida apenas 
com a combinao leve, sem sentir o vento gelado. - Ento, Gwyneth, pode ficar com ela agora.
    A voz estridente da mulher cortou o ar frio como uma lmina.
    -  Comecem a aoitar, e no parem enquanto no tiverem aplicado cinquenta aoites nas costas dela. - Olhou para Aislinn com desprezo. - Meu irmo no vai encontrar 
muita coisa que o atraia quando a vir outra vez.
    Mas os homens no tinham inteno de obedecer s ordens de Gwyneth. Um deles deixou cair o aoite e recuou, acompanhado pelo outro.
    -  No, no vamos fazer isso. Lady Aislinn tratou de nossos ferimentos e de nossas doenas, e no vamos pagar sua bondade desse modo.
    -  Seus ces covardes! - esbravejou Gwyneth. Apanhou o aoite do cho. - Vou mostrar como se aplica um castigo merecido.
    Com toda a fria que a consumia, Gwyneth ergueu o brao, e o chicote zuniu no ar como a lngua de uma serpente, atingindo o lado do corpo de Aislinn protegido 
apenas pela fina tnica de linho. Ela se encolheu em silncio, e recuou, com os olhos cheios de lgrimas.
    -  Pare!
    Todos se voltaram rapidamente. Sweyn, com Ham ao seu lado, era a prpria imagem da fria. Porm Gwyneth, cega com a sensao de poder, virou outra vez para Aislinn, 
erguendo o brao para novo golpe, mas, antes que terminasse o movimento, o aoite foi arrancado de sua mo. Frustrada em sua fria, ela se voltou para o viking, 
que estava com um dos ps sobre a ponta do chicote e as mos na cintura.
    -  Eu disse pare!-gritou ele.
    -  No! - Gwyneth respondeu com um misto de soluo e grito estridente. - A cadela deve ser castigada aqui e agora.
    O viking aproximou-se e inclinou a cabea para olhar nos olhos dela.
    -  Escute bem, Lady Gwyneth, pois sua vida pode depender da ateno que der s minhas palavras. Lorde Wulfgar deixou-me encarregado de proteger esta jovem durante 
sua ausncia, e isso significa proteg-la contra homens ou mulheres. Ela  sua propriedade, e ele no vai permitir que a senhora a aoite. Enquanto ele no der ordens 
em contrrio, esta jovem tem a minha proteo. Wulfgar no hesitaria em castig-la severamente se fizesse algum mal a ela. Sendo assim, vou lev-la agora daqui, 
para seu bem e para o bem dela. Que a paz esteja com a senhora, Lady Gwyneth, mas devo obedecer s ordens do meu senhor acima de qualquer outra.
    Sem esperar resposta, ele aproximou-se de Aislinn. Tirando o manto das mos do normando, agasalhou com ele a jovem transida de frio. Aislinn ergueu para ele 
os olhos rasos de lgrimas, em silencioso agradecimento. Apoiou a mo no brao dele, e o viking resmungou em voz baixa, embaraado. Sem uma palavra, Aislinn passou 
por ele, e segurando o brao de Ham, voltou para a casa onde a criana ainda lutava com a falta de ar.
    Aislinn chegou bem perto do fogo, no grande salo frio e escuro. Em sua lembrana, aquele dia era como um pesadelo infernal do qual s agora comeava a acordar. 
A menina estava bem melhor. A febre baixara, e dentro de alguns dias ela estaria boa. Mas naqueles momentos terrveis, logo depois do primeiro golpe do aoite, Aislinn 
s pensava no castigo que Wulfgar aplicara a Kerwick. Ento, ela se via atada ao poste, e Wulfgar pronto para fazer o mesmo com ela, o brao forte erguido com a 
fria do dio. Aislinn estremeceu e, para afastar aquela viso, procurou se concentrar em Kerwick e Ham, que faziam um brido para um dos normandos, tranando tiras 
finas de couro macio. Mas no podia esquecer a necessidade premente de ser consolada e de se sentir segura nos braos de Wulfgar. Nunca antes, na ausncia dele, 
sentira tanta falta da carcia de suas mos, de seus beijos, da quase certeza de no ser apenas outra aventura passageira em sua vida. Fechando os olhos, quase podia 
v-lo na sua frente, com aquele sorriso calmo, os olhos cheios de calor, como o via depois que faziam amor.
    Oh, Deus, estava deixando que os sentimentos dominassem a razo. No tinha nenhuma garantia de que ele ia voltar com a mesma disposio. Como Gwyneth dissera, 
ele podia voltar para Darkenwald com uma esposa, e o que aconteceria ento com ela? Seria dada aos seus homens?
    Aislinn estremeceu, o medo apertando seu corao. Wulfgar no fazia segredo de seu desprezo pelas mulheres. Procuraria se vingar
    nela? E se estivesse grvida? Ele a odiaria mais ainda, porque jamais ia saber se o filho era seu ou de Ragnor.
    Pensamentos sombrios invadiam sua mente, roubando a lembrana daqueles momentos deliciosos quando Wulfgar, antes de partir, a beijou carinhosamente. Aislinn 
teve a impresso de que ele se impor-lava com ela. Mas estaria se enganando outra vez? Seria tudo mentira? Os beijos? Os abraos cheios de calor? Mentiras para abalar 
sua sanidade?
    Levantou-se com um suspiro pesado, largando a costura, torcendo as mos numa frustrao silenciosa. O que devia fazer? Devia ir embora para salvar o pouco orgulho 
que ainda lhe restava?
    Kerwick ergueu os olhos do trabalho. Viu Aislinn dedilhar distrada as cordas da harpa celta, que no era tocada desde a chegada dos normandos. Os estranhos 
acordes do instrumento ecoaram na sala.
    Aislinn lembrou daquele dia muitos meses atrs, quando Erland anunciou seu noivado. Kerwick estava mais feliz do que ela, e sabia disso, pois Erland disse a 
ele que, quando Aislinn estava preocupada ou ansiosa, dedilhava as cordas da pequena harpa, exatamente como naquele momento, fazendo soar no grande salo as notas 
estranhamente melodiosas. Aislinn no sabia tocar. Preferia que um cavaleiro ou um trovador tocasse e cantasse para ela. Com sua voz clara e maviosa, ela os acompanhava 
ento, encantando todos que os ouviam. Porm, para Kerwick, o som que ouvia agora era quase sinistro, como se fosse um brado da alma de Aislinn, implorando para 
ser libertada.
    Kerwick aproximou-se e segurou-lhe a mo, num gesto amigo de compreenso, e Aislinn, com os olhos rasos de lgrimas, suspirou triste e tremulamente, demonstrando 
sua incerteza.
    -  Oh, Kerwick, estou to cansada de lutar contra Gwyneth. O que devo fazer? Desistir da minha posio de amante de Wulfgar e fazer a vontade dela? Se eu partir, 
talvez ela se acalme e trate melhor os criados.
    -  Ela vai fazer muito pior se tiver liberdade, sem ningum para conter seus excessos - disse ele. - Na ausncia de Wulfgar, voc  a nica capaz de amenizar 
o dio que emana dela. O pai no tem noo da extrema crueldade de Gwyneth. S weyn est muito ocupado com os homens de Wulfgar para notar quem ela  realmente. E 
eu - ele riu - no passo de um criado, agora.
    -  Mas o que posso fazer? - insistiu Aislinn. - No tenho siatus. Sou apenas o brinquedo de um normando.
    
    Kerwick inclinou-se para ela.
    -  Tem a proteo de Wulfgar. Ela no pode lhe fazer mal. Osj homens dele sabem disso, depois do que aconteceu hoje. E Gwynei tambm sabe. Voc est a salvo 
do dio dela. Sweyn  a prova disso, Deixaria que os criados sofressem nas mos dela, quando  a nica que pode ajud-los?
    -  Voc nunca me deixaria fugir das minhas obrigaes, no  mesmo, Kerwick? - perguntou, com voz cansada.
    -  No, assim como voc no permitiria que eu fugisse das minhas.
    Aislinn riu, mais aliviada.
    -  Oh, Kerwick, voc  muito vingativo. Sorrindo, ele disse com sinceridade:
    -  Sim, um homem cuja noiva foi roubada no tem motivos para ser muito generoso.
    Aislinn olhou atentamente para ele.
    -  Seus ferimentos cicatrizaram rapidamente, no , Kerwick? No vejo nenhuma cicatriz.
    -  De quais ferimentos est falando, minha senhora? Os do meu corao? No, eu os escondo bem, s isso, pois ainda me provocam muita dor. - Olhou nos olhos cor 
de violeta: - Voc continua bela, Aislinn, embora pertena a outro homem.
    Apreensiva com o rumo da conversa, Aislinn tentou se afastar, mas Kerwick segurou-lhe a mo com fora.
    -  No, no tenha medo, Aislinn. No pretendo prejudic-la. Quero apenas reparar meus erros.
    -  Reparar seus erros?
    -  Sim. Todos sabem que eu me preocupava apenas com meus desejos egostas, pois a desejava ardentemente e no queria desistir de voc. Por minhas exigncias 
absurdas, s posso pedir humildemente que me perdoe.
    Aislinn levantou-se e o beijou no rosto.
    -  Seremos amigos para sempre, meu caro Kerwick.
    Uma risada curta e zombeteira os sobressaltou, e viram Gwyneth descendo a escada, com um sorriso maldoso nos lbios. Maida, que estava agachada perto do fogo, 
levantou de um salto e saiu para a neve e o vento, procurando a segurana de sua cabana, bem longe daquela bruxa normanda.
    Gwyneth parou no ltimo degrau com as mos na cintura e olhou para os dois, com uma risada rouca e venenosa.
    -  Meu irmo gostar de saber que sua amante se diverte com outros na sua ausncia. - Os olhos plidos brilharam. - E podem estar certos de que ele vai ser informado.
    Kerwick pela primeira vez na vida teve vontade de bater numa mulher. Aislinn sorriu, com uma serenidade que no sentia.
    -  No tenho dvida de que voc vai contar, Gwyneth, com sua habitual ateno para os detalhes.
    Aislinn passou pela frente de Gwyneth e subiu a escada, procurando o conforto de seu quarto, sabendo que no estava livre da maldade daquela mulher.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Onze
   
    WULFGAR ERGUEU o corpo na sela, examinando a regio com seus olhos penetrantes. O vento gelado e cortante aoitava seu manto de l e seu rosto. O cu escuro 
combinava com o marrom e o cinza de inverno das florestas e dos campos. Atrs dele, os cavaleiros Gowain, Milbourne e Beaufonte esperavam com os outros sob seu comando, 
dezesseis homens armados com arcos, lanas e espadas curtas. Protegida pelas rvores, a pequena calea fechada, na qual Gwyneth e o pai tinham chegado a Darkenwald, 
subia a colina, carregada com alimento para os homens e gros para complementar o capim que conseguiam nos campos para os cavalos. Um saxo velho e forte, que ao 
voltar da luta ao lado de Harold encontrou sua casa incendiada e seus campos destrudos, aceitara a oferta de uma nova casa para se unir aos normandos, e agora praguejava 
com os cavalos numa lngua estranha, mas no totalmente desconhecida para a maioria dos normandos.
    A inteligncia prtica de Wulfgar permitia a seu grupo uma grande mobilidade. Depois de estudar por longo tempo a formao de um exrcito, resolveu que todos 
os seus homens deviam marchar montados, ao contrrio do que faziam os cavaleiros e nobres, que eram os nicos montados, enquanto os soldados, com seus arcos, espadas 
leves e lanas, os seguiam a p. Wulfgar achava que no havia vantagem alguma em fazer os homens gastarem suas botas no solo pedregoso
    da Inglaterra. Todos de seu grupo seguiam montados. No momento da batalha, desmontavam e funcionavam como soldados da infantaria.
    Durante o tempo em que Wulfgar esteve em Darkenwald, Guilherme ficou acampado, esperando a volta do grosso de seu exrcito. No puderam marchar durante quase 
um ms devido a uma doena at ento desconhecida pelos exrcitos e que no poupou nem o prprio Guilherme. Foram obrigados a ficar no acampamento, perto de uma 
vala grande e funda. Uma vez que os homens de Wulfgar no apanharam a doena, foram designados para uma patrulha avanada com o objetivo de impedir que os exrcitos 
dos saxes se reunissem no sul ou no oeste. Geralmente seu grupo agia afastado do grosso do exrcito, ocupando pequenos povoados e cidades, para evitar que os saxes 
se organizassem contra os normandos. Separados do resto dos soldados, seus homens e seus cavalos podiam se alimentar melhor.
    Sua posio agora era a oeste de Londres, nas densas florestas das montanhas, quase no fim de sua ronda. Durante quase todo o tempo haviam marchado sem serem 
vistos e fazendo sentiro mnimo possvel sua presena. Tudo parecia quieto, mas de repente avistaram trs cavaleiros na encosta da montanha. Wulfgar ergueu a mo 
para Gowain e Milbourne e deu ordem aos seus homens paraesperar,_alerta com as armas prontas para serem usadas, para o caso de haver mais homens escondidos na floresta. 
Acompanhado por Gowain e Milbourne, ele cavalgou para o vale, ao encontro dos trs cavaleiros. Ouvindo o grito de alerta, os trs homens empunharam as lanas e mostraram 
os escudos, cujos brases os identificavam como ingleses e portanto inimigos de Guilherme. Quando chegou a uma certa distncia, Wulfgar parou, dando tempo a eles 
de verem seu escudo.
    -  Eu sou Wulfgar dos homens de Guilherme - disse, com voz forte e autoritria. - Vejo, por suas cores, que so homens de Rockwell. Peo que se rendam, pois 
lutamos contra ele, uma vez que recusou seu voto de lealdade a Guilherme.
    O cavaleiro mais velho enfrentou o desafio respondendo com dignidade.
    -  Eu sou Forsgell, e no obedeo a esse Duque normando. Minha lana e minha espada esto a servio de um leal lorde saxo, e com a ajuda de Deus expulsaremos 
os invasores de nossas terras. No teremos outro rei que no seja aquele ao qual juramos lealdade.
    -  Ento isso significa uma luta entre ns - respondeu Wulfgar. Com um gesto indicou seus homens. - Eles no tomaro parte, pois vocs so cavaleiros que juraram 
pela cruz que usam.
Com essas palavras, virou a rdea de Huno e afastou-se alguns passos. Ento, de lana em riste, todos avanaram, trs contra trs. Huno atacou, com os cascos enormes 
ressoando na terra dura, os msculos retesando-se com o esforo. Conhecia aestratgiadabatalha to bem quanto seu dono. Wulfgar firmou os joelhos nos flancos do 
animal e inclinou-se para o lado da lana. O cavaleiro mais velho avanou para ele, e os dois se chocaram com um estridor de metal. Com a vantagem do peso maior, 
Wulfgar atingiu o escudo do saxo antes que o adversrio pudesse atingir o seu. A lana do saxo foi desviada, e o escudo caiu de sua mo, mas ele continuou firme 
na sela. Seu brao esquerdo estava imobilizado, mas o cavalo ainda obedecia  presso de seus joelhos. Wulfgar recuou, dando tempo ao adversrio para se refazer.
O saxo desembainhou a espada com a mo direita e voltou ao ataque. Atirando para longe a lana e o escudo, Wulfgar desembainhou a lmina longa e brilhante que tantas
vezes defendera sua honra, e Huno, por conta prpria, investiu contra o adversrio. As lminas se chocaram, e dessa vez a destreza do cavalo foi importante, pois
Huno movia-se de modo a manter seu dono sempre de frente para o saxo, sempre no ataque, empurrando com o peito o cavalo menor e mais fraco, at faz-lo cambalear 
e perder o passo. A espada de Wulfgar tocava a armadura e a espada do saxo com clangor de metal. Atingiu finalmente a cabeado adversrio. Um filete de sangue desceu 
lentamente de debaixo do elmo, e o brao do saxo parecia pesado de cansao. Balanando a cabea, ele tentou erguer o outro brao, mas no conseguiu. Agora, tudo 
que podia fazer era defender-se com a espada, enquanto Huno continuava em sua investida e o normando brandia a lmina com mais violncia. Wulfgar segurou a espada 
com as duas mos e, com seu grito de guerra, desfechou o golpe de cima para baixo com toda fora, partindo em duas a lmina do saxo e atingindo seu ombro. Com os 
dois braos inutilizados, o homem esperou, imvel. Wulfgar fez Huno recuar, e o saxo, sem uma palavra, inclinou a cabea. Wulfgar era o vencedor. Voltou-se para 
os companheiros e viu que eram tambm vencedores. Os trs cavaleiros foram feitos prisioneiros, e agora, sem suas armas e seus escudos, no eram mais cavaleiros 
presos a um juramento, mas prisioneiros que seriam levados a Guilherme para que ele decidisse seus destinos.
Assim foi que Guilherme pde marchar livremente, sem que
ningum avisasse os saxes de sua chegada. Muitos castelos e fortalezas acordavam no comeo do dia e viam-se cercados pelo inimigo. Com aquele exrcito imenso formado 
nas colinas  sua volta, pronto para o ataque, os saxes no tinham outro remdio seno enviar mensageiros para negociaes.
Wulfgar continuou sua marcha. O cu escureceu, e as nuvens foram encobertas por uma garoa fina que corria em filetes gelados no seu pescoo e nas suas pernas. As 
selas ficaram molhadas, e era importante ficar sempre bem sentado. Contudo, ao lado do desconforto, a chuva tinha tambm suas vantagens. Deprimia os homens, que 
no tinham mais vontade de cantar, gritar ou mesmo falar. Caminhavam em silncio, duplamente alerta, pois sabiam que a nvoa que os rodeava podia trazer surpresas 
desagradveis.
Wulfgar parou e ergueu a mo. Algum, na frente deles, praguejava furioso, em voz alta. A um sinal de Wulfgar, os soldados desmontaram, entregaram as rdeas aos 
pajens e armaram seus arcos com flechas de hastes de salgueiro endurecidas. As cordas, os arcos e as flechas, cobertos de leo, eram protegidos por capas de couro, 
pois Wulfgar conhecia o efeito da umidade daquelas ilhas durante o inverno.
Seus cavaleiros enristaram as lanas e adiantaram-se, em silncio, na frente dos soldados de infantaria. Um pequeno regato, que em outra estao do ano poderia ser 
atravessado molhando apenas os cascos dos cavalos, era agora um lodaal com vrios metros de largura, e bem no centro viram uma carroa com quatro crianas e duas 
mulheres. Dois homens e um menino tentavam livrar as rodas da lama enquanto uma mulher idosa, segurando as rdeas, incitava os cavalos ao esforo de puxar a carroa 
atolada. Um homem sem o brao esquerdo deu dois passos para trs, praguejando, at ver os quatro cavaleiros com as lanas apontadas para ele. Seu silncio chamou 
a ateno dos outros, e Wulfgar ouviu as exclamaes de surpresa. Avanou com Huno e, depois de estudar a situao, fez sinal aos seus homens para guardarem suas 
armas. Aqueles servos encharcados no eram ameaa para eles.
Wulfgar aproximou-se mais at sua lana quase tocar o peito do homem mais velho.
- Ordeno que se entregue, pois est um dia miservel para morrer.
Falou com calma, mas o tom de sua voz era mais ameaador do que as palavras. O homem com um brao s abriu a boca e fez um gesto afirmativo, sem tirar os olhos da 
ponta da lana. Um som de ps correndo partiu da carroa, e Huno virou a cabea, pronto para enfrentar a nova ameaa. Um menino arrastava com esforo uma espada 
maior do que ele.
    -  Eu lutarei com voc, normando - disse o menino, entre soluos, com os olhos cheios de lgrimas. - Eu o desafio.
    -  Miles! - exclamou a mulher mais jovem, saltando da carroa. Segurou o menino, tentando acalm-lo, mas ele se livrou das mos dela e enfrentou Wulfgar sob 
a chuva.
    -  Vocs mataram meu pai-disse o menino. - Mas no tenho medo de lutar contra voc.
    Wulfgar viu nos olhos do menino a mesma coragem feroz que havia nos seus quando tinha aquela idade. Ps a lana em posio vertical, mostrando a flmula com 
seu braso, e sorriu, tolerante.
    -  No tenho dvida disso, meu rapaz. A Inglaterra e Guilherme vo precisar de homens com a sua coragem, mas no momento estou muito ocupado com negcios do Duque 
e no tenho tempo para um duelo.
    A mulher respirou aliviada e ergueu para o cavaleiro normando os olhos repletos de gratido.
    Wulfgar voltou-se para os homens e perguntou:
    -  Quem so vocs e para onde vo? O mais velho adiantou-se.
    -  Eu sou Gavin, o ferreiro. Fui arqueiro no exrcito de Harold, no norte, contra os noruegueses, e foi l que perdi meu brao. - Apontou para a mulher na carroa.-Aquela 
 minha mulher, Miderd, e esta outra  minha irm viva, Haylan. - Ps a mo no ombro do menino.-Este  Miles, filho de Haylan. As outras crianas so meus filhos, 
e o homem  meu irmo, Sanhurst. Vamos procurar um novo lar porque os normandos tomaram o nosso.
    Enquanto o homem falava, Wulfgar notou a palidez do rosto dele e uma mancha avermelhada na manga vazia. Olhou para o outro homem, mais baixo, porm forte e musculoso.
    -  A cidade de Darkenwald - disse Wulfgar, olhando para os dois homens. - J ouviram falar nela?
    -  O nome no  estranho, senhor - disse o mais novo, cautelosamente.
    -  Sim,  conhecido - interrompeu Gavin. - O velho lorde que mora l passou certa vez por nosso povoado. Muito exigente. Queria que eu ferrasse um cavalo que 
tinha comprado para dar  filha naquele
    mesmo dia, nas comemoraes de So Miguel. Disse com orgulho que ela sabia montar como um homem, e eu acreditei, meu senhor, pois a gua berbere que ele comprou 
era muito fogosa.
    Wulfgar franziu a testa, lembrando as acusaes de Gwyneth.
    -  Sim, agua era to fogosa quanto a dona, mas isso no importa agora. Se quiserem, podem se instalar em Darkenwald. A cidade precisa de um ferreiro.
    Gavin entrecerrou os olhos, protegendo-os da chuva.
    -  Est nos mandando para uma cidade sax, senhor?
    -  O velho senhor est morto - respondeu Wulfgar. - Guardo a cidade para Guilherme at ele conquistar a Inglaterra. Ento, Darkenwald ser minha. - Apontou para 
Sanhurst. - Ele vai comigo, encarregado de proteger a minha retaguarda. Se fizer um bom trabalho, voltarei para providenciar acomodaes para sua famlia.
    Os saxes se entreolharam, e Gavin deu um passo  frente.
    -  Peo desculpas, senhor, mas no pretendemos servir os normandos. Encontraremos um lugar que seja nosso.
    Wulfgar virou um pouco na sela e olhou atentamente para eles.
    -  Pensam que podem ir muito longe, com os normandos patrulhando suas terras?-Viu a incerteza nos olhos deles.-Eu lhes darei minha flmula para sua proteo. 
Nenhum homem de Guilherme os atacar quando vir meu braso. - Apontou para o brao de Gavin: - Em Darkenwald tem uma pessoa que pode tratar do seu ferimento.  a 
Filha do velho lorde, e conhece muitos modos de cura. A escolha  sua. Podem ir para Darkenwald ou procurar uma cidade que esteja ainda nas mos dos ingleses. Porm, 
quero avisar. Todas as cidades sero tomadas, pois Guilherme  o legtimo herdeiro do trono e est resolvido a ocupar o lugar que lhe pertence.
    Gavin e Sanhurst conferenciaram por algum tempo, e ento o mais moo se aproximou de Wulfgar. Parou ao lado de Huno e ergueu os olhos para o cavaleiro.
    -  Eles vo para Darkenwald, e eu vou com o senhor.
    -  Muito bem - disse Wulfgar.
    Levou Huno at a calea, onde Bowein esperava, logo atrs dos arqueiros, e falou rapidamente com ele. O velho saxo retirou uma corda de baixo do assento e entregou-a 
ao normando. Wulfgar amarrou uma ponta na argola, na frente da carroa, e a outra na parte posterior de sua sela. Avanou com Huno at esticar a corda e fez um sinal 
para a mulher que segurava as rdeas. Incentivando os pequenos cavalos com um grito alto, ela bateu com as mos no dorso deles. Huno sabia o que tinha de fazer e, 
com um rpido olhar para trs, comeou a puxar, sob o peso considervel do cavaleiro e mais alguns quilos de armadura. Suas patas enormes enterravam-se na lama e 
logo apareciam, dando um passo para a frente. A carroa estalou, e com um rudo de suco todas comearam a rodar, lentamente a princpio, mas aumentando a velocidade, 
at o veculo subir a margem do regato. Chapinhando na lama, os dois homens se aproximaram de Wulfgar, agradecendo a ajuda. Bowein esperou que tudo estivesse terminado 
e, com um enorme cavalo puxando a calea, atravessou o lodaal rapidamente.
    Toda essa manobra os atrasou, e a noite os surpreendeu em marcha. Bowein indicou um bosque cerrado na margem do rio. Wulfgar conduziu seus homens e a famlia 
sax para o lugar indicado, e armaram o acampamento. A chuva continuava. O vento frio gemia entre as rvores, tirando as ltimas folhas dos galhos nus. Wulfgar viu 
o desconforto das crianas que tremiam perto do fogo e a fome em seus rostos encovados, enquanto mastigavam as fatias de po molhado distribudas com parcimnia 
pela mulher mais velha. Lembrou do prprio sofrimento quando era pequeno e fora expulso de casa, sua confuso, sentado ao lado do fogo no acampamento, com Sweyn, 
sabendo que jamais poderia voltar  casa onde conhecera o amor de um pai que, de repente, no era mais seu pai.
    Mandou Bowein cortar em fatias uma perna de javali e distribuir entre os saxes, com po melhor do que o que estavam comendo. Seu corao se aqueceu vendo a 
alegria das crianas com a primeira refeio decente em muitas semanas. Afastou-se pensativo e sentou debaixo de uma rvore. Ignorou a terra molhada e, encostando 
a cabea no tronco, fechou os olhos.
    Um rosto apareceu em sua mente, emoldurado por cabelos longos cor de cobre, com olhos cor de violeta e lbios ardentes procurando os seus. Wulfgar abriu os olhos 
e fitou durante muito tempo as chamas, relutando em fech-los outra vez.
    Ergueu os olhos e viu Haylan caminhando em sua direo. Com um sorriso hesitante, a mulher aconchegou mais o manto, procurando se proteger do frio da noite. 
Wulfgar imaginou como seria levar aquela mulherparao interior da florestaeestender seu man to paraela. Haylan tinha boa aparncia, cabelos escuros e crespos e olhos 
negros. Talvez assim pudesse afastar Aislinn da mente. Porm, surpreso, percebeu que a ideia no o entusiasmava. Perturbado, compreendeu que aquela
    mulher de cabelos vermelhos o excitava mais com sua ausncia do que a que estava ali perto e, para ser franco, mais do que qualquer outra que encontrara em suas 
viagens. Teve vontade de fazer Aislinn chorar e sofrer pelo tormento que o fazia passar.
    Aah, mulheres! Sabiam como torturar um homem, e ela no era diferente, apenas sabia, melhor do que qualquer outra, fazer com que um homem a desejasse. Aquela 
ltima noite estava gravada em sua lembrana com tanta clareza que Wulfgar podia sentir o corpo dela junto ao seu e o perfume suave de seu cabelo. Agora, longe dela, 
Wulfgar compreendeu por que Aislinn cedera naquela noite. Teve vontade de ofend-la, cham-la de megera, e ao mesmo tempo queria que estivesse ao seu lado, ao alcance 
de suas carcias. Oh, Deus, ele odiava as mulheres, e Aislinn mais do que as outras, porque ela o enfeitiara e vivia agora em todos os seus pensamentos.
    -  O senhor fala bem o ingls - disse Haylan suavemente. - Se eu no visse suas armas, pensaria que era um dos nossos.
    Wulfgar no disse nada e olhou para o fogo. O acampamento estava silencioso. Os homens descansavam nas esteiras molhadas, sobre a relva mida, e vez ou outra 
algum praguejava, irritado. As crianas, dentro da carroa, cobertas com os mantos de pele e cober-lores muito usados, dormiam.
    Haylan procurou outra vez interromper o silncio pensativo do normando.
    -  Quero agradecer sua bondade para com meu filho. Miles  voluntarioso como o pai.
    -  Um bravo menino-disse Wulfgar.-Como seu marido deve ter sido tambm.
    -  A guerra era um jogo para meu marido - murmurou Haylan. Wulfgar olhou para ela, imaginando ter percebido uma ponta de
    amargura em sua voz.
    -  Posso sentar, meu senhor?
    Ele fez um gesto afirmativo, e Haylan sentou perto do fogo.
    -  Eu tinha certeza de que ia perd-lo. Eu o amava, embora ele tivesse sido escolhido por meu pai. Mas ele vivia perigosamente e no dava nenhum valor  prpria 
vida. Se no fossem os normandos, outros teriam desfechado o golpe fatal. Agora preciso sustentar minha famlia. No me sinto amargurada, meu senhor, apenas resignada 
com a sua morte.
    Wulfgar continuou em silncio, e ela o observou com ateno.
    -   estranho, mas o senhor no age como um normando. Wulfgar ergueu uma sobrancelha.
    -  E como agem os normandos, senhora?
    -  Certamente jamais esperei nenhuma bondade da parte deles Com uma risada breve e sem alegria, ele respondeu:
    -  Garanto, senhora, que no tenho rabo bifurcado e nem chifres Na verdade, se examinar melhor, ver que somos homens normais, despeito das histrias que nos 
descrevem como demnios.
    Haylan corou e murmurou, embaraada:
    -  No tive inteno de ofender, senhor. Na verdade, somos muito gratos  sua bondade e generosidade. H muitos meses ai comamos carne e nem sacivamos nossa 
fome. Nem mesmo acenda mos o fogo, para no chamar a ateno dos normandos.
    Ela estendeu as mos para o fogo. Wulfgar pensou na excitao que provocava nele o contato dos dedos de Aislinn em seu peito. Ficou furioso por permitir que 
seus pensamentos voltassem a ela, quando aquela mulher ao seu lado certamente no faria nenhuma objeo em dormir com ele. Quando resolvia ser encantador e persuasivo, 
as altivas e relutantes mulheres caam em seus braos suspirando, missas, e Haylan no parecia ser das mais arrogantes. Na verdade,a julgar pelo modo com que olhava 
para ele, provavelmente ia receer de bom grado suas atenes, uma vez que era viva e, como dissera j resignada com a morte do marido. Suas palavras eram quase 
um convite. Porm, olhando para os seios grandes e os quadris largos Wulfgar sentiu que desejava um corpo mais esbelto e firme. Era estranho, pois at alguns meses 
atrs ele teria achado Haylan extre-mamente desejvel. Por acaso, a beleza rara de Aislinn o impedia de sentir desejo por qualquer outra mulher? Wulfgar quase praguejou 
em voz alta. No ia fazer o papel de um recm-casado que s pensa na mulher. Pretendia dormir com quem bem entendesse.
    Wulfgar levantou-se bruscamente, sobressaltando Haylan e, segu-rando a mo dela, a fez ficar de p. Os olhos negros o interrogaram com; espanto, e Wulfgar, com 
um gesto, indicou a floresta. Haylan hesitou, sabendo e ao mesmo tempo no sabendo o que ele queria, mas, quando entraram na floresta, ela o seguiu sem qualquer 
relutncia. Encontraram um carvalho coberto de trepadeiras cujas pontas formavam uma cober- tura sobre o cho cheio de folhas secas. Wulfgar estendeu seu manto no 
cho e, puxando-a para si beijou-a uma, duas, trs vezes. Ele a abraou com fora, e o ardor de seu desejo logo a envolveu. Haylan passou o
    brao pelo pescoo do normando e ficou na ponta dos ps, encostando todo o corpo no dele. Assim abraados, deitaram sobre o manto. Haylan era uma mulher experiente, 
e sabia exatamente o que devia fazer. Desfez-se do manto que a agasalhava e, com a mo dentro da camisa dele, acariciou seu peito. Wulfgar soltou as tiras que prendiam 
o corpete dela, desnudando os seios redondos e encostando o rosto entre eles. Excitada, Haylan o apertou mais contra ela. No auge da excitao, Wulfgar murmurou 
com voz rouca:
    -  Aislinn, Aislinn.
    Haylan ficou imvel e se afastou um pouco.
    -  O que disse?
    Wulfgar olhou para ela, e Haylan sentiu desaparecer o desejo dele. O normando rolou para o lado com um gemido rouco, apertando as mos sobre os olhos.
    -  Oh, sua ordinria-gemeu ele. - Voc me persegue mesmo no corpo de outra mulher.
    -  O que disse? - repetiu Haylan, sentando rapidamente. - Ordinria? Ordinria, eu? Muito bem, pois que sua preciosa Aislinn satisfaa seu desejo. Ordinria! 
Oh!
    Levantou furiosa e, arrumando a roupa, deixou-o com seus pensamentos loucos. Wulfgar ouviu os passos dela afastando-se e no escuro corou, pensando em seu fracasso. 
Sentia-se como um rapazinho, depois de ter fracassado com sua primeira mulher. Apoiando o brao no joelho dobrado, olhou para a noite. Ficou ali sentado durante 
muito tempo, pensando nas loucuras dos homens apaixonados. Contudo, no queria admitir nem para si mesmo, e atribuiu tudo  vida tranquila e fcil em Darkenwaid.
    -  A vida calma enfraqueceu minha vontade - resmungou ele, limpando as folhas que tinham grudado em seu manto.
    Voltando para perto do fogo, porm, cabelos cor de cobre dourado pareciam acarici-lo, e seu perfume leve e suave envolvia toda a floresta. Deitou de lado debaixo 
da pequena carroa das provises, com um brao dobrado sob a cabea, e sentiu um corpo macio e quente encostado ao seu. Fechou os olhos, e seu ltimo pensamento 
antes de adormecer foi para dois olhos cor de violeta.
    Deitada debaixo da carroa, ao lado de Miderd, Haylan remexia-se inquieta, olhando para Wulfgar a pouca distncia, sob a pequena carroa.
    -  O que voc tem, Haylan? - perguntou Miderd. - H alguma coisa debaixo da esteira que a incomoda? Fique quieta ou vai acordar os homens.
    -  Aah, homens! - gemeu Haylan. - Todos eles dormem profundamente, todos.
    -  Do que est falando?  claro que dormem. Gavin e Sanhurst esto dormindo h horas. A noite j deve estar bem adiantada. O que
    - a atormenta?
    -  Miderd?-Haylan comeou a falar, mas parou, frustrada, sem encontrar as palavras certas. Depois de um longo momento, disse, afinal: - Por que os homens so 
assim? Por que nunca se contentam com uma nica mulher?
    Miderd virou de costas e olhou para o fogo.
    -  Alguns homens ficam satisfeitos quando encontram a mulher certa. Outros continuam procurando aventuras.
    -  Que tipo de homem voc acha que  Wulfgar? - perguntou Haylan, em voz baixa.
    Miderd deu de ombros.
    -  Um normando como os outros, mas ao qual devemos servir para no cairmos nas mos de algum aventureiro.
    -  Voc o acha bonito?
    -  Haylan, est doida? Somos apenas camponeses,e ele onosso amo.
    -  O que ele : um bom cavaleiro ou um aventureiro sem escr-pulos?
    Miderd suspirou.
    -  Como vou saber o que ele pensa?
    -  Voc  experiente, Miderd. Acha que ele seria capaz de espancar um campons que o desagradasse?
    -  Por qu? Voc fez alguma coisa errada? Haylan engoliu em seco.
    -  Espero que no.
    Virou para o outro lado, ignorando o olhar curioso de Miderd, e depois de algum tempo adormeceu.
    Aprimeira luz do dia tocou as gotas de chuva pendentes das folhas, fazendo-as brilhar como pedras preciosas na nvoa da manh, refle-tindo a umidade das rochas 
cobertas de musgo. Wulfgar acordou com o aroma apetitoso de came de javali e sopa de po. As mulheres preparavam a primeira refeio. Ele se levantou e se espreguiou,
    saboreando a quietude do nascer do dia. Antes de ele acordar, Haylan o observava preocupada, sem saber como Wulfgar ia trat-la. Mas o normando, tirando a camisa, 
comeou a se lavar, sem dar nenhum sinal de ter notado a presena dela. Inclinada sobre o fogo, preparando a comida, Haylan o observava de soslaio, admirando o corpo 
musculoso e perfeito e lembrando as fora de seus braos.
    Wulfgar, com a cota de malha e o capuz, acompanhado por Gowain e Milbourne, aproximou-se do fogo para a primeira refeio do dia. Haylan os serviu com as mos 
trmulas e sentiu que corava com a lembrana da noite passada, mas Wulfgar conversou com Milboume e riu de uma brincadeira de Sir Gowain, evidentemente esquecido 
daquele breve encontro no bosque.
    Um pouco depois, quando o cavaleiro mais velho chegou perto dela para se servir de mais carne, Haylan perguntou:
    -  Senhor normando, quem  Aislinn?
    Surpreso, Milbourne olhou rapidamente para Wulfgar e depois gaguejou.
    -  Bem ela... hummm...ela a Senhora de Darkenwald.
    O cavaleiro se afastou rapidamente, e Haylan ficou pensativa. Sir Gowain interrompeu seus pensamentos e disse, com um sorriso amvel:
    -  Senhora, os soldados geralmente sentem falta dos confortos proporcionados por uma mulher.  um prazer provar essa comida deliciosa e poder olhar para a senhora 
ao lado do fogo.
    Haylan franziu a testa.
    -  Senhor cavaleiro, quem  Wulfgar? O que ele  em Darkenwald? O entusiasmo de Gowain arrefeceu imediatamente.
    -  Wulfgar, senhora,  o Senhor de Darkenwald.
    -  Era o que eu temia - murmurou ela com voz tensa. Gowain olhou para ela confuso e se afastou, sentindo-se rejeitado
    pelo interesse da mulher em outro homem.
    O terceiro cavaleiro, Beaufonte, que acabara de se levantar, aproximou-se e esperou pacientemente que ela notasse sua presena e o servisse de uma poro de 
sopa de po. Haylan olhou para ele e perguntou:
    -  Senhor cavaleiro, estamos indo para Darkenwald, no estamos?
    -  Sim, senhora, para Darkenwald.
    Haylan, nervosa, imaginou como ia enfrentar a dama de Wulfgar e que castigo Lady Aislinn escolheria para ela se viesse a saber da escapada no bosque.
    Enquanto levantavam acampamento, Haylan procurou ficar o mais longe possvel de Wulfgar, sem saber se tinha mais medo dele ou de sua dama. Se ele fosse seu marido, 
ficaria furiosa se soubesse que se deitara na floresta com outra mulher, fosse qual fosse o resultado.
    Antes de partir, Wulfgar entregou a Miderd um volume envolto em pele curada.
    -  Entregue isso minha dama...-pigarreou.-Entregue isto a Aislinn de Darkenwald quando puder ficar sozinha com ela. Diga... diga que foi comprado honestamente.
    -  Sim, meu senhor - respondeu Miderd. - Tomarei cuidado para que chegue em bom estado.
    Wulfgar fez um gesto afirmativo mas no se moveu. Parecia no saber o que dizer.
    -  Deseja mais alguma coisa, meu senhor?-perguntou Miderd, intrigada com a hesitao do normando.
    -  Sim-ele suspirou. - Diga tambm... - Parou, procurando as palavras certas. - Diga tambm que espero que ela esteja bem e confiando em Sweyn para tudo que 
precisa.
    -  No esquecerei suas palavras, meu senhor.
    Com um rpido comando para seus homens, Wulfgar montou e saiu da clareira na frente deles.
    Sentada na boleia, Haylan viu Miderd guardar o volume na parte de trs da carroa.
    -  O que voc tem a? - perguntou ela. - Ele deu algum presente?
    -  No, s tenho de levar isto a Darkenwald.
    -  Ele... disse alguma coisa a meu respeito?
    Miderd balanou a cabea e olhou intrigada para Haylan.
    -  No. Por que ia dizer?
    -  Eu... pensei que talvez dissesse. Parecia aborrecido quando o deixei.
    -  Pois agora no estava. - Miderd olhou para a cunhada com a testa franzida. - Por que est to preocupada com ele?
    -  Preocupada?-Haylan sorriu.-No tenho motivo para estar preocupada.
    -  O que aconteceu ontem  noite quando todos dormiam menos voc? Vocs fizeram amor?
    Haylan sobressaltou-se e disse indignada:
    -   claro que no.  verdade. No aconteceu nada.
    Miderd observou desconfiada o rosto corado de Haylan e depois deu de ombros.
    -   a sua vida. Voc deve fazer o que acha certo. Nunca ouviu meus conselhos, e nem eu esperava que ouvisse. Porm, parece-me que o interesse do cavaleiro normando 
est em outro lugar.
    -  Como voc disse, Miderd,  a minha vida - respondeu Haylan secamente, voltando-se para ajudar as crianas a subir na carroa.
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Doze
   
   
    A APROXIMAO de normandos a cavalo foi anunciada do lugar mais alto da torre de Darkenwald, logo depois do nascer do dia. Aislinn se vestiu apressadamente, 
esperando que Wulfgar tivesse enviado alguma mensagem. Suas esperanas se desvaneceram quando ela desceu a escada e viu Ragnor de Marte aquecendo-se perto do fogo. 
Vachel e mais dois normandos estavam com ele, mas, a uma palavra de Ragnor, retiraram-se imediatamente. Ragnor tirara o pesado manto de l vermelha e a cota de malha 
e estava s com uma tnica leve de couro e os cales justos de l, mas com a espada no cinto.
    Ele olhou para Aislinn com um sorriso de admirao, fazendo-a lembrar que estava com os cabelos soltos e os ps nus. Ela se aproximou da lareira. Os ces comearam 
a ganir, esticando as cor reias que os prendiam. Antes de olhar para Ragnor, Aislinn os soltou, um por um. Depois, sentou na frente do fogo e ergueu os olhos para 
o normando, mais do que consciente de que estavam sozinhos na sala. Sweyn e Bolsgar estavam fora, caando, e Gwyneth ainda dormia. Os criados procuravam se ocupar 
longe do salo, lembrando a morte de parentes e amigos pelas mos daquele normando.
    Aislinn disse, em voz baixa:
    - No h mais guerras, Sir Ragnor, ou foi por causa da guerra que voltou? Suponho que Darkenwald seja mais seguro do que o acampamento de Guilherme. E, ao que 
sei, o duque j se refez da doena.
    Os olhos escuros de Ragnor a observaram de alto a baixo e pararam nos ps descalos mal escondidos pela longa tnica. Com um sorriso, ele se ajoelhou e, tomando 
um p gelado entre as mos, esfregou-o com fora, para aquecer. Inutilmente Aislinn tentou se livrar das mos dele. Ragnor estava concentrado no que fazia.
    -  Sua lngua est ficando ferina, minha avezinha. Ser que Wulfgar a fez odiar todos os homens?
    -  Ah, o que um reles aventureiro sabe sobre os homens? Ragnor apertou os dedos em volta do tornozelo dela, e Aislinn
    lembrou o quanto sofrera nas mos dele.
    -  Est claro, minha senhora, que no sabe nada sobre eles. Preferir o bastardo a mim foi uma grande tolice.
    Com um movimento brusco do p, ela afastou a mo dele e se levantou, sentindo que no podia suportar nem mais um momento aquele contato.
    -  Ainda no vejo tolice alguma na minha escolha, Sir Ragnor. E tenho certeza de que nunca verei. Wulfgar  o senhor deste solar, e eu perteno a ele. Parece-me 
que fiz a escolha certa, pois o que o senhor tem alm do cavalo com que se afasta rapidamente da batalha?
    Ragnor levantou-se e estendeu o brao para acariciar o cabelo dela.
    -  Eu gostaria de poder ficar e provar que est errada, Aislinn. - Deu de ombros e se afastou. - Mas parei apenas para descansar por algumas horas. Estou a caminho 
do porto onde est o navio de Guilherme com cartas para o nosso pas.
    -  No deve ser muito urgente, se pode parar para descansar.
    -   bastante urgente e na verdade eu no devia fazer nenhuma parada, mas queria ver mais uma vez este belo solar. - Sorriu. - E voc, minha avezinha.
    -  Agora j viu. Eu o estou atrasando? Talvez precise de alguma comida para a viagem. O que posso fazer para apressar sua partida?
    -  Nada, minha avezinha - levou a mo ao corao. - Pois eu enfrentaria a morte para estar ao seu lado.
    Uma porta bateu e Ragnor se afastou um pouco de Aislinn, ouvindo os passos de Gwyneth no segundo andar. Era como se estivesse fazendo um jogo e desafiando Aislinn 
a tra-lo, mas, para se livrar da ateno dele, Aislinn concordaria de bom grado com qualquer encenao.
    Gwyneth apareceu no alto da escada e Aislinn mordeu o lbio. O vestido que ela usava era o dourado escuro, o favorito de Aislinn e o ltimo ainda em bom estado 
na sua arca. Gwyneth usava as roupas dela e s devolvia quando estavam chamuscadas, rasgadas ou man-chadas. Ento, Aislinn as encontrava sobre sua cama. Mas, quando 
Gwyneth comeou a descer os degraus, Aislinn a custo conteve um sorriso. O busto magro de Gwyneth parecia quase infantil no seu vestido, e os ossos dos quadris sobressaam 
deselegantemente sob a fazenda macia. Ela olhou desconfiada para os doise disse para Ragnor:
    -  Eu estava quase perdendo a esperana de v-lo outra vez, cavaleiro.
    -  Ah, damoiselte, sua belezaesbelta no sai do meu pensamento - garantiu ele. - Quero que saiba que no passa um dia sem que eu a tenha na lembrana.
    -  Suas palavras derretem no meu corao como flocos de neve na terra, mas temo que tenha me enganado-respondeu Gwyneth. - No  o que fazem todos os homens?
    -  No, no, doce Gwyneth. Eu no faria isso, embora seja verdade que  prprio do soldado esquecer a beleza que tem em casa por aquela que tem nos braos.
    -  Como os homens so volveis! - Com um sorriso forado, ela olhou para Aislinn. - Eles esquecem suas amantes com tanta facilidade, e, na verdade,  intil 
esper-los.  muito melhor fugir e se poupar da dor de ser trocada por outra.
    Aislinn disse, com altivez:
    -  Voc mede os homens com uma medida muito curta, Gwy-neth. Prefiro uma mais longa para avaliar realmente o quanto valem. Assim, no ouo as palavras do fanfarro 
e prefiro medir os feitos do verdadeiro cavaleiro.
    Sem dizer mais nada e sem olhar para trs, Aislinn saiu da sala e subiu a escada. Gywneth disse, com desprezo:
    -  Se ela pensa que meu irmo vai mudar e voltar correndo para os seus braos,  uma grande tola. Por que ele vai se contentar com a primeira fruta cada quando 
tem toda a rvore da Inglaterra aos seus ps?
    Ragnor sorriu e deu de ombros:
    -  No  do meu feitio entender as mulheres. Eu apenas as amo.
    - Segurou o brao dela e abraou-a com fora. - Venha, mulher, deixe que eu sinta sua maciez junto ao meu corpo.
    Furiosa, ela bateu no peito dele com os punhos fechados.
    -  Solte-me!
    Ragnor obedeceu com tanta presteza que ela cambaleou e quase caiu.
    -  Voc no me disse que tinha dormido com aquela sax ordi-nria - exclamou ela, quase sufocando com o soluo que subia em sua garganta. - Dormiu com aquela 
prostituta e me enganou!
    Com um sorriso confiante, Ragnor sentou e olhou para ela.
    -  No achei que fosse da sua conta.
    Gwyneth ajoelhou-se na frente da cadeira e segurou as mos dele nas suas. Com um olhar desesperado, disse:
    -  No  da minha conta? Deve estar brincando. Somos amantes, portanto devemos partilhar os nossos corpos e tudo o que fazemos. - Suas unhas cravaram-se no brao 
dele. - No vou ser a segunda escolha com aquela rameira em primeiro lugar.
    Ragnor afastou a mo dela com impacincia.
    -  Infelizmente, j , minha querida.
    O medo era como uma espada em seu corao e, tomada de pnico, Gwyneth agarrou os joelhos dele.
    -  Oh, meu amor, est me ferindo profundamente.
    -  Ningum vai dizer o que eu devo fazer-disse ele, com frieza.
    - No pretendo ser como um boi na canga. Se me ama, no tente me prender. No posso respirar se voc fica me abafando.
    Gwyneth comeou a chorar.
    -  Eu a odeio-gemeu, balanando o corpo para a frente e para trs. - Eu a odeio quase tanto quanto o amo.
    Com um sorriso, Ragnor levantou o queixo dela e inclinou-se para beij-la.
    -  Foi apenas uma coisa nascida do ardor da batalha-murmu-rou com voz rouca, junto aos lbios dela. - No foi um ato de amor como o nosso.
    Beijou-a de leve, mas depois, sentindo a resposta, puxou-a para si fazendo-a sentar no seu colo. Com a mo livre, segurou o seio dela e, quando tocou a fazenda 
suave da tnica, lembrou onde a vira antes. Aislinn a vestia na noite anterior  sua partida, quando ela e Wulfgar pareciam completamente absortos um no outro.
    -  Venha ao meu quarto-pediu Gwyneth.-Estarei esperando.
    Ela foi at a escada e antes de subir olhou para trs com um sorriso convidativo. Ragnor levantou da cadeira e serviu-se de um copo de cerveja. Olhando pensativamente 
para a porta do quarto de Wulfgar, ele comeou a subir a escada. Parou por um longo momento na frente daquela porta, a nica barreira entre ele e a mulher que desejav: 
realmente. No precisava verificar. Sabia que estava trancada por sua causa. Aisiinn tinha muito cuidado para no perder sua posio van-tajosa de favorita de Wulfgar, 
que, afinal, era bastante precria, pois ningum sabia o que o bastardo pensava ou sentia. Aisiinn era encan-tadora e cheia de vida, mas ao mesmo tempo distante 
como a lua. Ragnor lembrou de quando a vira na cama de Wulfgar, macia, quente, completamente  vontade com o bastardo. Mas Wulfgar tinha Darken wald, ou o teria 
muito em breve, e Aisiinn acabava de dizer que era tudo que desejava. O homem que possusse aquela cidade e aquele solar a possuiria tambm.
    Ragnor inclinou o corpo na frente da porta.
    -  Logo, minha avezinha. Tenha pacincia.
    Com passos silenciosos, caminhou para o quarto de Gwyneth. Quando abriu a porta, ele a viu na cama, o corpo muito branco esbelto e gracioso, sem a desvantagem 
da roupa. Abraando o prprio corpo com fora, ela fazia com que os seios pequenos parecessem maiores e mais cheios. Com um sorriso, Ragnor fechou a porta cuidadosamente. 
Tirou a roupa e deitou ao lado dela, envolvendo-a nos braos. As mos de Gwyneth moviam-se vidas no corpo dele, e ela gemia baixinho, excitada com as carcias. 
Com a boca na dele, Gwyneth o abraou, puxando-o para si.
    O vento assobiando entre as rvores nuas e sacudindo as janelas os impedia de dormir. Agasalhada sob as mantas de pele, Gwyneth, em silncio, via Ragnor se vestir. 
Quando ele chegou na porta, ela ergueu-se na cama, apoiada num brao.
    -  Meu amor?
    Ragnor parou e olhou para ela.
    -   muito cedo ainda-murmurou Gwyneth.-Fique mais um pouco e descanse ao meu lado.
    -  Descansar?-disseele.comumarisada.-Em outra ocasio, Gwyneth. Agora, preciso tratar dos negcios do duque.
    No corredor ele olhou para o quarto de Wulfgar. A porta estava aberta e o quarto vazio, bem como o salo l embaixo. Desapontado, pensou que no ia ver Aisiinn 
antes de partir. Desceu a escada e abriu
    a porta da frente. O dia estava claro e ensolarado, com uma brisa leve e fresca. Ragnor saiu e abriu os braos para o calor do sol. Um movimento chamou sua ateno, 
e ele viu o brilho fugaz de cabelos avermelhados quando um raio de sol penetrou a floresta. Vachel e o outro homem dormiam ao lado dos cavalos, portanto ele podia 
atrasar mais um pouco sua partida. Sorriu lembrando outro dia, na frente daquela porta, e a noite que o seguiu. Ele bebera demaise naturalmente no estava em estado 
de fazer nada que impressionasse Aisiinn favoravelmente. Fora rude demais com ela. Se, porm, agisse com mais ternura, ela se entregaria docilmente.
    Dirigiu-se para a floresta, perguntando a si mesmo por que estava se dando ao trabalho. Embora suplantado por Wulfgar em Darken-wald, jamais tivera dificuldade 
para conquistar uma mulher. Era difcil compreender a lealdade de Aisiinn a Wulfgar. Sem dvida devia saber que logo seria abandonada por ele, como muitas damas 
da corte normanda. Tudo que tinha a fazer era esperar, e Aisiinn seria sua. Ento, por que ia atrs dela, quando tinha coisas mais importantes para fazer? Mas o 
rosto dela vivia na sua imaginao e, compreendendo o motivo, ele apressou o passo. Entrou na floresta e viu as marcas dos passos dela numa trilha estreita.
    Aisiinn fugira do solar para no se encontrar mais com Ragnor. As palavras ferinas de Gwyneth a magoavam profundamente, e ele reforava o veneno que elas continham. 
Em sua mente, Ragnor estava associado a perdae agonia. Aisiinn lembrava acorrenteno seu pescoo e as carcias do normando completamente bbado. Pior ainda, sempre 
que olhava para Ragnor, via o pai vencido e morto na frente do solar.
    Encostada no tronco do grande carvalho, Aisiinn olhou pensativamente para as guas escuras e murmurantes do regato. Apanhou uma pequena pedra e girou-a distraidamente 
entre os dedos. Depois atirou-a na gua e observou os crculos concntricos que vinham at a margem.
    -  Vai assustar os peixes, afastando-os de sua escassa refeio de inverno, minha avezinha.
    Aisiinn voltou-se com uma exclamao de espanto. Sorrindo, Ragnor aproximou-se dela. Com as pernas fracas, ela encostou na rvore, observando-o cautelosamente.
    -  Eu estava passeando na floresta, desfrutando o prazer da quietude, quando vi voc vir para c. No  prudente ficar sozinha num lugar que no pode ser avistado 
da casa. Muita gente... - parou de falar e, vendo a incerteza dela, encostou na rvore, com um largo sorriso.-Ah, mas  claro, minha avezinha. Eu a assustei. Perdoe-me, 
doura. S estava preocupado com a sua segurana, no vou lhe fazer nenhum mal.
    Aislinn ergueu o queixo com altivez, dominando o tremor de todo o seu corpo.
    -  No temo homem nenhum, senhor cavaleiro - imaginou se no estaria mentindo.
    Ragnor riu.
    -  Ah, minha avezinha. Wulfgar ainda no a domou. Eu temia que ele tivesse esfriado esse seu sangue quente.
    Ele caminhou at a margem do regato, agachou-se, como quem est pensando num srio problema, e depois virou a cabea para ela.
    -  Sei que agi como um miservel com voc, e causei muita dor e muitas complicaes. Mas Aislinn, sou um soldado, uso minha espada onde o dever me chama, e alm 
disso... - atirou uma pedra na gua - ...pode dizer que estou enfeitiado. Pode dizer que estou preso ou encantado por sua beleza, cuja melhor parte ainda no conheo. 
- Levantou e ficou de frente para ela. - Preciso desnudar minha alma, Aislinn, para ser o cavaleiro merecedor de seus favores? No tenho a menor chance?
    Confusa, Aislinn balanou a cabea.
    -  Ragnor, voc me surpreende. Alguma vez dei motivo para que deseje minha mo? E por que a deseja? Tenho muito pouco para oferecer a no ser o fato de que perteno 
a Wulfgar. Ele  o meu senhor e meu dono, e eu sou sua amante. Jurei lealdade a ele.  isso que est querendo? Que eu traia Wulfgar?
    Ele estendeu a mo e segurou uma mecha de cabelos sobre o seio dela.
    -  No posso desej-la por voc mesma, Aislinn?  to desconfiada que no pode reconhecer a verdade? Voc  mais bela do que as palavras podem descrever, e eu 
a desejo. Eu a desejei quando voc era minha e agora eu a quero de volta.
    -  Perteno a Wulfgar-disse ela, em voz baixa.
    -  No diz nada sobre o seu corao, Aislinn? Ahonra  uma boa coisa, e eu a louvo por isso, mas o que procuro  sua afeio. - Os olhos escuros no deixavam 
os dela. - Aislinn, eu gostaria de poder afastar a espada que matou seu pai e deixar que ele vivesse outra vez. Daria toda a fortuna da minha famlia para lhe presentear 
com isto. -
    Ergueu os ombros largos. - Mas, infelizmente, minha bela Aislinn, o mal est feito, e nada pode traz-lo de volta. Mas apelo para sua bondade e espero que me 
perdoe. D-me o seu amor para aliviar o sofrimento do meu corao.
    -  No posso - disse ela, com voz trmula. Olhou para a mo morena perto do seu seio e fechou os olhos. - Sempre que o vejo lembro o sofrimento que trouxe, no 
s para mim, mas para muitos. Nada poder lavar o sangue que vejo em suas mos.
    -  Isso  prprio dos soldados, e Wulfgar no  menos culpado. J esqueceu os saxes que ele matou? Odestino foi cruel, fazendo com que a minha espada sacrificasse 
seu pai.
    Ragnor admirou os traos delicados, as plpebras frgeis com as pestanas escuras. Apele brilhava, vibrante de juventude, ligeiramente corada, os lbios vermelhos 
e bem-feitos. O desejo era um turbilho quase doloroso em seu peito. Se ela soubesse como o torturava, sem dvida permitiria que ele aliviasse seu sofrimento.
    Aislinn ergueu os olhos e murmurou:
    -  S Deus conhece meu corao, Sir Ragnor, mas posso dizer que nada pode suaviz-lo agora, a no ser um milagre. Wulfgar me escolheu e perteno a ele.  mais 
provvel que ele venha a ganhar minha afeio...
    O sorriso desapareceu do rosto de Ragnor, e ele rilhou os dentes.
    -  Voc diz o nome daquele bastardo. O que ele  que eu no sou? Um bastardo sem nome, vagando pelos campos de batalha, lutando por qualquer causa por um punhado 
de ouro. Eu sou tudo que ele no . Um cavaleiro de boa famlia, ntimo do Duque. Posso lev-la pela mo e apresent-la  corte.
    Ragnor ergueu a mo, oferecendo-a, mas Aislinn balanou a cabea e, recuando, deu as costas para ele.
    -  No posso. Mesmo que Wulfgar se importe muito pouco comigo, perteno a ele e devo obedecer sua vontade. Ele jamais me deixaria fugir. - Recostou outra vez 
na rvore e, com um sorriso, tocou com aponta do dedo namo dele.-Mas no desanime, Ragnor, Lady Gwyneth o acha muito belo e sem dvida faria qualquer coisa que 
lhe pedisse.
    -  Est zombando de mim - resmungou Ragnor. - Uma galinha magricela ao lado da mais branca das aves! Sem dvida est zombando! - Segurou a mo dela, e o mero 
contato fez o sangue pulsar em sua cabea. - Aislinn, tenha piedade. No deixe que o desejo por voc me enfraquea. No me atormente desse modo. - Lembrou os seios 
macios e desejou v-los outra vez. - Diga apenas uma palavra de encorajamento, Aislinn. Deixe-me saber que posso ter esperana.
    -  No. No posso - disse ela, tentando inutilmente libertar a mo. Percebendo a direo do olhar dele, Aislinn entrou em pnico. Ragnor comeou a pux-la para 
si. - No, por favor. No faa isso!
    Com a mo no cotovelo dela e o outro brao em volta da cintura, ele tentou beij-la no pescoo.
    -  Minha avezinha, no lute comigo. Estou louco por voc - murmurou ele, no ouvido dela.
    -  No! - Aislinn virou o corpo, afastando-se um pouco dele, e, tirando a adaga da bainha, ameaou-o com ela. - No, no outra vez, Ragnor! Nunca!
    Ragnor riu.
    -  Ah! A mulher ainda tem fogo!
    Seus dedos longos seguraram a mo dela, apertando at Aislinn gritar de dor e deixar cair a adaga. Ento, agarrando-a pelos cabelos, torceu-lhe o brao atrs 
das costas e puxou-a para si, at sentir os seios macios e os quadris contra seu corpo.
    -  Vou experimentar esta avezinha outra vez - riu ele, beijan-do-a nos lbios com violncia.
    Com a fora do desespero, Aislinn livrou-se dos braos dele e recuou, at encostar no tronco do carvalho, o peito arfando de medo e de raiva. Ragnor adiantou-se 
para ela, com uma risada. Com um zumbido ameaador e uma batida surda, o grande machado de guerra cravou-se no tronco do carvalho, passando a um palmo do rosto de 
Ragnor. Ele se voltou rapidamente e ficou paralisado de medo quando viu Sweyn a uns dez passos dos dois. O viking estava com o arco passado no ombro e uma fieira 
de pombos selvagens e lebres aos seus ps. Aislinn correu para ele, mas Ragnor notou ento que Sweyn agora estava desarmado, com o arco nas costas e a lmina do 
machado presa na rvore. Rapidamente, ele desembainhou a espada para impedir a fuga de Aislinn. Com um grito de pavor, ela desviou do brao esten-dido do normando. 
Ficou atrs de Sweyn e num instante o viking tirou o machado da rvore, puxando-o pela tira de couro do cabo, e se preparou para a luta. O grande machado de guerra 
estava pronto e em posio no seu ombro, a lmina afiada brilhando  luz do sol. Parecia um arauto mudo da morte.
    Ragnor interrompeu sua investida a alguns passos de Sweyn, com o rosto crispado de raiva por ter levado a pior no jogo que conhecia to bem. Na fria de sua 
frustrao, queria partir o viking ao meio ali mesmo com sua espada, mas alguma coisa na atitude de Sweyn o fez lembrar o dia em que, no calor da batalha, o inimigo 
ameaou atacar Wulfgar pelas costas. A imagem da lamba daquele machado desaparecendo na cabea do atacante estava gravada em sua mente como uma advertncia. Sua 
raiva desapareceu, e Ragnor sentiu o hlito frio da morte. Acalmou-se e, embainhando a espada, afastou cautelosamente as mos do corpo para que o viking no interpretasse 
mal seus movimentos. Ficaram um na frente do outro por um longo momento. Um som surdo subiu do peito do homem do Norte, e um sorriso apareceu em seus lbios, iluminando 
os olhos azuis.
    -  Escute bem, normando - disse ele, em voz baixa. - Meu senhor, Wulfgar, encarregou-me de guardar esta mulher, e eu a guardo bem. No vou me importar se tiver 
de abrir uma ou duas cabeas francesas para proteg-la.
    Ragnor escolheu as palavras, mas havia veneno em cada slaba.
    -  Escute voc, pago de cabelo branco. Este assunto ser resolvido algum dia e, se a sorte me ajudar, minha espada vai se encher de sangue no meio desse seu 
cabelo de mulher.
    -  Sim, Ragnor - disse o viking com um sorriso mais largo ainda. - Minhas costas correm o perigo do seu ataque, mas esta minha amiga - ergueu o machado - se 
encarrega de defender todos os outros lados e gosta muito de beijar aqueles que pretendem experimentar seu ao na minha cabea. Gostaria de conhec-la?-perguntou, 
apresentando o corte da enorme lmina. - Mademoiselle Morte.
    Aislinn saiu de trs de Sweyn, ps a mo no brao do viking e olhou friamente para Ragnor.
    -  Procure seu prazer em outro lugar, Ragnor. V embora e est tudo acabado.
    -  Eu vou, mas voltarei - avisou Ragnor.
    Quando Aislinn entrou no solar, encontrou Gwyneth andando nervosamente de um lado para o outro. Era evidente que alguma coisa a aborrecia. Voltou-se para Aislinn 
com um brilho feroz nos olhos claros.
    -  O que aconteceu com voc e Ragnor?-perguntou. - Quero saber agora, prostituta sax!
    Comum brilho de raiva nos olhos, Aislinn respondeu calmamente:
    
    -  Nada que possa interess-la, Gwyneth.
    -  Ele veio do bosque onde voc estava. Voc se atirou para cima dele outra vez?
    -  Outra vez? - perguntou Aislinn, erguendo uma sobrancelha - Voc deve estar louca se pensa que eu posso me interessar aquele reles aventureiro.
    -  Ele fez amor com voc antes! - acusou Gwyneth, com a voc embargada pela raiva e pela frustrao.-No se contenta em ter meu irmo agarrado  sua saia, precisa 
ter todos os homens com a lngua de fora atrs de voc.
    Contendo a custo sua fria, Aislinn disse:
    -  Ragnor nunca fez amor comigo do modo que voc pensa. Ele me violentou brutalmente, o que  muito diferente. Ele assassinou mei pai e reduziu minha me ao 
que ela  hoje. Com toda a sua imaginao Gwyneth, como pode pensar que eu o desejo?
    -  Ele tem mais a oferecer do que meu irmo.  bem-nascido e sua famlia  importante.
    Aislinn riu com desdm.
    -  No quero nada disso. Seu irmo  mais homem do que Ragnor jamais ser. Contudo, se seu corao o deseja, tem a minha bno. Vocs se merecem um ao outro.
    Com essas palavras, Aislinn subiu a escada, deixando Gwyneth lvida de raiva.
    Com exceo do primo, Vachel, Ragnor acordou os arqueiros com pontaps, e agora o grupo seguia pelas colinas na direo da estrada da costa que levava a Hastings. 
Ragnor ia na frente, e os outros, inclusive Vachel, diminuram o passo de suas montarias para ficar o mais longe possvel do mau humor do chefe. Eles trocavam olhares 
interrogativos, respondidos com erguer de ombros, pois ningum sabia a causa de tanta irritao.  medida que o tempo passava, mais crescia a fria de Ragnor, e 
vez ou outra ele praguejava em voz alta. O fato de no ter dormido naquela noite agravava a frustrao de seu fracasso com Aislinn. Wulfgar devia ter oferecido uma 
rica recompen-sa pelos favores dela, pois aquele bastardo eracompletamente despro-vido de traquejo social. Nunca tomara parte na conversa leve e descontrada da 
corte. Vachel dizia, e com razo, que para Wulfgar as mais nobres damas da corte foram apenas aventuras passageiras.
    Porm, ele devia saber escolher, pensou Ragnor, pois nenhuma jamais procurou se vingar dele quando era rejeitada.
    Ora! Aquele bastardo tinha uma atrao especial para as mulheres. Se Wulfgar falhasse numa de suas patrulhas e Aislinn reconhecesse sua tolice, ele podia ainda 
ganhar algumas terras nessa guerra. Vrios planos se formavam em sua mente e eram descartados.
    Vachel ouviu exclamaes de alvio quando avistaram as fortificaes de Hastings e os mastros dos navios no porto. Todos esperavam uma boa noite de sono e, depois 
que as cartas fossem entregues, uma boa refeio de carne e cerveja.
    Ragnor reconheceu o homem que atravessava a praia acenando para ele. Era seu tio, Cedric de Marte.
    -  Como vai, Ragnor? Finalmente o encontro. O que h com voc, est dormindo acordado? No me ouviu chamar, antes?
    Cedric estava ofegante e com o rosto vermelho por causa da caminhada na areia.
    -  Tenho muito em que pensar - respondeu Ragnor.
    -  Foi o que Vachel disse. Mas no soube me informar do que se trata.
    -  So assuntos pessoais - disse Ragnor.
    -  Pessoais? - Cedric olhou atentamente para o sobrinho. - O que  to pessoal que o impede de ganhar terras de Guilherme?
    Ragnor disse com desdm:
    -  Ento Vachel contou isso tambm.
    -  Ele no queria contar, mas finalmente disse a verdade. Vachel  muito leal a voc, Ragnor. Voc o leva para o mau caminho.
    -  Ele pode se defender muito bem sozinho - riu Ragnor -, e pode me deixar quando bem entender.
    -  Mas prefere ficar ao seu lado, o que no faz com que sejam louvveis os caminhos pelos quais voc o leva. Eu sou responsvel pelo bem-estar de Vachel, desde 
a morte do pai dele.
    -  O que o incomoda, meu tio? As mulheres que ele leva para a cama ou sua coleo de bastardos?
    Cedric ergueu as sobrancelhas grisalhas.
    -  Seu pai tambm no est satisfeito com o modo que voc anda espalhando sua semente.
    Ragnor resmungou:
    -  A imaginao dele exagera.
    -  Vocs, jovens, tm muito que aprender sobre honra - disse Cedric. - Na minha juventude, se eu ousasse tocar a mo de uma donzela era severamente castigado. 
Agora, vocs s pensam em se deitar entre as pernas delas.  uma mulher que o prepocupa?
    Ragnor virou o rosto bruscamente.
    -  Quando foi que me preocupei com uma mulher?
    -  Esse momento chega na vida de todos os homens.
    -  Ainda no chegou na minha - disse Ragnor, com os dentes cerrados.
    -  E o que me diz dessa jovem de que Vachel me falou, essa Aislinn?
    Ragnor olhou furioso para o tio.
    -  Ela no  nada. Uma mulher sax, nada mais.
    Irritado, Cedric encostou a ponta do dedo no peito do sobrinho.
    -  Pois deixe que eu o avise, conquistador descuidado, voc no est aqui para aumentar o nmero de suas conquistas amorosas, mas para ganhar terras e recompensas 
que aumentem o patrimnio de sua famlia. Esquea a mulher e concentre-se naquilo que preparamos para voc.
    Ragnor afastou a mo do tio.
    -  Cada dia que passa, fica mais parecido com meu pai, Cedric. Mas no tenha medo. Terei tudo a que tenho direito.
    O sol aparecia no horizonte da Frana quando os quatro deixaram Hastings. Ragnor ia outra vez na frente, to mal-humorado quanto na vspera. Irritado, esporeou 
o cavalo, que, descansado e bem alimentado, devoravaa distncia velozmente. Cavalga vamagorapelaestrada interna, afim de evitar possveis ataques de assaltantes 
que estivessem esperando sua volta na estrada da costa.
    Viajaram em silncio o dia todo e armaram um acampamento precrio para a noite. O tempo estava bom, todos descansaram bem e seguiram viagem ao nascer do dia. 
O sol estava alto, penetrando aqui e ali a espessa camada de nuvens, quando, chegando ao topo de uma colina, viram, ao longe, um grupo de homens acavalo. Esconderam-se 
nas sombras, esperando identificar as armas dos cavaleiros. Eles os viram conferenciar por um momento e depois dividirem-se em trs grupos. Um raio de sol iluminou 
os homens, e Ragnor reconheceu as cores de Wulfgar. Seus trs companheiros fizeram meno de se aproximar do grupo de Wulfgar, mas Ragnor os deteve. Um plano se 
formou em sua mente. Mandou que os dois arqueiros seguissem
    caminho para o acampamento de Guilherme, para avisar de sua chegada e entregar as cartas recebidas no navio, dizendo tambm que ele e Vachel tinham parado para 
falar com Wulfgar. Os homens partiram, e Ragnor, sorrindo, disse para Vachel:
    -  Vamos ver se podemos dar algum trabalho quele soldado. Vachel olhou para ele intrigado, mas se acalmou quando Ragnor
    continuou:
    -  Logo adiante h um povoado saxo ainda no-conquistado e ainda leal ao rei ingls - ele riu. - Sei que no gostam de cavaleiros normandos, pois da ltima 
vez que passei por l me perseguiram durante muito tempo. - Apontou para os homens de Wulfgar. Duas divises tomaram posio, uma de cada lado, e a terceira, tendo 
Wulfgar  frente, ficou um pouco para trs. - Veja aquilo. Wulfgar, como de hbito, vai mandar seus homens bloquearem as estradas em volta do povoado, e depois ele 
se aproxima e exige a rendio. Se os ingleses fugirem, sero apanhados em campo aberto. Se atacarem Wulfgar, sero atacados pela retaguarda.
    Com um largo sorriso, como uma raposa ensinando o filhote a caar, ele disse para Vachel:
    -  Mas vamos mudar esse plano. Se nos aproximarmos e deixarmos que os ingleses nos vejam,  possvel que algum valente resolva ganhar uma recompensa, vencendo 
dois cavaleiros normandos. Ento ns os levaremos at o grupo de Wulfgar antes que ele saia da clareira.
    Ragnor riu satisfeito, mas Vachel hesitou.
    -  Meu dio pelos ingleses  maior do que o desprezo que sinto pelo bastardo - disse ele. - No gostaria de ver um dos nossos maltratado pelos saxes.
    -  No vai fazer nenhum mal. Certamente Wulfgar vai vencer esses tolos.  s para ensinar a ele o que significa ser atacado pelos porcos saxes e como  fcil 
venc-los. Deixe que ele experimente a foice e o forcado e abra suas cabeas obstinadas com sua espada. Assim vai compreender que apenas nos defendemos em Darkenwald, 
que agimos do melhor modo possvel.
    Vachel concordou com a brincadeira, e os dois deram uma volta para evitar o encontro com Wulfgar. Como Ragnor planejara, quando se aproximaram, aparentemente 
descuidados, uns vinte homens saram com lanas, cajados e arcos e flechas e, quando viram que os normandos iam fugir, perseguiram-nos at o campo aberto. Ragnor 
e Vachel, dando a impresso de que no sabiam que caminho tomar, conduziram os homens da cidade at a estrada no interior da floresta, do outro lado do campo. Cavalgaram 
ento rapidamente, deixando deliberadamenate sinais de sua passagem. Depois de uma curva, saram da estrada e subiram ao topo de uma colina prxima para assistir 
ao espetculo. Tiram os saxes sarem da curva e pararem, atentos. Quando ouviram a aproximao de Wulfgar e de seus homens, esconderam-se no mato alto, perto da 
estrada.
    Ragnor olhou pensativamente para a estrada e disse, como se duvidasse da sensatez de sua brincadeira:
    -  Parece que no deu certo. Eles fizeram uma emboscada para Wulfgar, mas estou preocupado com a segurana dos nossos dois homens. Vachel, quero que v atras 
deles para proteg-los, enquanto vou avisar Wulfgar da tocaia.
    Vachel deu de ombros, vencendo a relutncia de ver alguns normandos serem mortos pelos saxes, e inclinou-se para a frente na sela, para ver melhor a curva da 
estrada.
    -  Voc vai mesmo, primo? Parece-me tolice. - Olhou para Ragnor, e os dois riram, satisfeitos. - Deixe-me ficar aqui at eles tirarem Wulfgar da sela. Ento 
vou fazer o que pediu.
    Ragnor fez um gesto afirmativo, e os dois procuraram a melhor posio para assistir ao espetculo.
    O pequeno grupo de Wulfgar seguiu por entre as rvores, pela trilha que levava a Kevonshire. Gowain e Beaufonte foram na frente para tomar suas posies em volta 
da cidade e Sir Milbourne marchava no flanco de Wulfgar, seguido por trs arqueiros. Como sempre, Sanhurst seguia na retaguarda, mantendo distncia de Wulfgar. Aparentemente 
um temor respeitoso o impedia de chegar muito perto do normando, embora estivesse armado com uma espada curta e uma lana para proteger a retaguarda do grupo.
    Atravessaram uma pequena clareira e entraram outra vez na floresta, alerta, mas tranquilos. Uma gazela cruzou a trilha na frente deles, e perdizes saltavam nas 
moitas, com um tatalar de asas. Huno parecia nervoso, mordendo o brido e s vezes empinando, mas Wulfgar pensou que era apenas por causa da expectativa da luta. 
Ento, quando se aproximaram de uma curva, o animal bufou e parou de repente. Wulfgar firmou-se na sela, desembainhou a espada e com um grito avisou os companheiros. 
Num instante a estrada se encheu de saxes com suas armas improvisadas. Huno escoiceou, defendendo-se, e Wulfgar brandiu a espada, mas foi atingido por um golpe 
nas costas e caiu para a frente, atravessado no pescoo do animal. Sabia que estava caindo. A espada escapou de sua mo, O mundo ficou cinzento, e ele bateu no cho, 
aparentemente com uma pancada suave. O mundo cinzento escureceu at sobrar apenas um pequeno ponto de luz que logo se apagou.
    Algum tempo depois, Wulfgar abriu os olhos e compreendeu que a luz ofuscante que parecia penetrar no seu crebro era apenas um pedao de cu azul com galhos 
negros de pinheiro tranados no meio dele. Apoiado num cotovelo, ergueu um pouco o corpo e olhou em volta. Sua cabea latejava, e ele viu o elmo ao seu lado amassado 
na parte de trs. Levou a mo cautelosamente  mossa na sua cabea e viu um cajado de carvalho ingls com a extremidade mais pesada partida; compreendeu a causa 
de seu desconforto. A estrada estava cheia de corpos de saxes, e ele reconheceu os coletes de couro de trs de seus homens, mas no viu nem sinal de Milbourne.
    -  No tenha medo, Wulfgar. Acho que vai sobreviver. Wulfgar reconheceu a voz e virou o corpo, apoiando-se nos
    cotovelos para firmar a cabea, que parecia estar girando. Ragnor estava semi-reclinado sobre um tronco cado, com uma espada cheia de sangue enfiada na terra 
 sua frente. Riu vendo o esforo de Wulfgar para se mover e imaginou o que Aislinn ia pensar se visse o bravo bastardo naquele momento.
    -  Um pssimo lugar para descansar, Wulfgar - com um largo sorriso, indicou os corpos na trilha. - Aqui, no meio da estrada onde qualquer um pode atac-lo. Na 
verdade, nesta ltima hora estive ocupado com um grupo de saxes decididos a levar uma orelha sua como prova de terem encontrado um normando dormindo no meio da 
estrada.
    Wulfgar sacudiu a cabea e gemeu.
    -  Duvido que seu nome estivesse na lista dos homens que eu esperava que pudessem salvar a minha vida, Ragnor.
    Ragnor deu de ombros.
    -  Eu s ajudei um pouco. Milbourne estava bastante ocupado, mas, quando cheguei, os saxes fugiram, sem dvida pensando que outros viriam atrs de mim.
    -  E Milbourne? - perguntou Wulfgar.
    -  Ele foi ao encontro de seus homens, com aquele saxo designado para proteger sua retaguarda. Segundo ele, no conseguiu chegar em tempo.
    Wulfgar ergueu-se sobre um joelho, e sentindo ainda muita dor, parou um pouco, esperando que o mundo parasse de rodar. Olhou para Ragnor, considerando aquela 
ao inesperada.
    -  Eu o humilhei e voc salvou a minha vida. No fez um bom negcio, eu acho.
    -  Ora, Wulfgar - Ragnor descartou com um gesto da mo o pedido de desculpas. - Na verdade, Milbourne e eu pensamos que voc estivesse morto, e s depois de 
expulsarmos os ingleses notei que voc respirava ainda, - Sorriu. - Pode se levantar?
    -  Sim - murmurou Wulfgar levantando-se lentamente e limpando a terra e o suor do rosto.
    Ragnor riu outra vez.
    -  O carvalho ingls fez em voc o que a espada afiada jamais conseguiu fazer. Oh, ver voc cair sob o golpe do cajado de um campons! Valeu a luta!
    O cavaleiro moreno levantou-se tambm, limpou a lmina da espada no manto de um saxo morto e apontou com ela para o lado da estrada.
    -  Seu cavalo est ao lado do regato.
    Wulfgar caminhou na direo indicada, e Ragnor olhou sombriamente para sua espada. Fora muito precipitado quando matou o porco saxo.
    -  Ah - murmurou -, hesitar quando surge a oportunidade 6 perder para o destino.
    Embainhou a espada e girou o corpo para montar. Wulfgar voltou para a estrada, puxando Huno, e inclinou-se para verificar se o anima! no estava ferido.
    -  Estou levando cartas de Hastings para Guilherme e preciso partir - disse Ragnor, com voz inexpressiva. - Perdoe-me por no esperar que voc se recupere completamente.
    Wulfgar apanhou o elmo e saltou para a sela. Olhou para o normando moreno, imaginando se ele estaria pensando em outra? mos muito mais suaves.
    -  Eu tambm devo continuar minha misso, pois aquele povoado conquistou o direito de ser destrudo pelo fogo. Logo que o ar da noite ficar mais quente, levarei 
meus homens para a encruzilhada mais prxima e acamparemos. Eu agradeo, Ragnor. - Desembainhou a
    espada e saudou o outro normando; depois, inclinando-se, prendeu a lana no lugar onde podia empunh-la facilmente. Sacudiu a flmula para tirar a poeira. - 
Meus homens esto l adiante, e vou juntar-me a eles.
    Saudou Ragnor outra vez, agora com a lana e, batendo levemente nos flancos de Huno, partiu a galope. Ragnor ficou parado at ele desaparecer; depois, aborrecido, 
virou seu cavalo na outra direo e partiu.
    Wulfgar foi ao encontro de seus homens e viu que apenas uma parte do grupo estava com Milbourne. O cavaleiro ergueu a mo e se aproximou.
    -  O senhor est bem, Sir Wulfgar? - vendo o gesto afirmativo do normando, continuou: - Quando os saxes abandonaram a luta, voltaram ao povoado com a notcia 
de que uma grande fora de normandos se aproximava, e todos fugiram. Pegaram tudo que podiam carregar e foram embora. Mas Sir Gowain e seus homens estavam guardando 
a estrada mais adiante e os obrigaram a voltar. Se nos apressarmos podemos alcan-los no campo aberto.
    Wulfgar inclinou a cabea, concordando, e voltou-se para Sa-nhurst, que seguia atrs, devagar, envergonhado.
    -  Uma vez que no  capaz de proteger a minha retaguarda, fique e enterre os mortos. Quando terminar, encontre-se conosco; vai servir como meu lacaio. - Ergueu 
as sobrancelhas. - Espero que tenha mais sucesso neste trabalho.
    Wulfgar levantou o brao e todos comearam a trabalhar. Ele e Milbourne partiram, cavalgando lado a lado. O elmo amassado no se ajustava bem na sua cabea, 
e Wulfgar prendeu-o na frente da sela, ignorando a advertncia de Milbourne sobre o perigo de no se proteger devidamente. Atravessaram a praa e, quando passaram 
pela ltima casa do povoado, viram uns quarenta saxes, velhos, moos, crianas, homens e mulheres. Os fugitivos viram a fora  sua frente, e sabiam que havia mais 
normandos atrs deles. Mesmo assim, reunindo toda a coragem, formaram um grupo compacto no meio da estrada. As mes, no centro, seguravam os filhos, procurando proteg-los, 
e os homens apanharam tudo que podia servir como arma e dispuseram-se em crculo, prontos para a ltima batalha.
    Wulfgar enristou a lana, mas parou a uma certa distncia do grupo, enquanto seus homens formavam um anel, todos prontos para o ataque. Depois de um momento 
de silncio, Wulfgar ergueu o elmo e disse, com voz trovejante, notando o espanto de todos quando o ouviram falar ingls:
    -  Quem me golpeou com tanta fora com seu cajado? O prefeito da cidade adiantou-se.
    -  Ele caiu ao seu lado no bosque-di sse o homem. - Ao que
    sei, ele continua l.
    -   uma pena - lamentou Wulfgar. - Era um soldado forte e
    valia muito para morrer desse modo.
    O prefeito mexeu os ps nervosamente e no disse nada. Wulfgar ps outra vez o elmo no suporte da sela, na sua frente, mas seus homens continuaram com as lanas 
em riste.
    Huno empinou, tenso e nervoso, e Wulfgar o acalmou com algu-mas palavras, seus olhos frios como ao examinando o grupo atemo rizado no meio da estrada. Falou 
ento, com autoridade:
    -  Vocs so sditos de Guilherme, por direito das armas rei da Inglaterra, quer admitam ou no. Podem escolher entre derramar seus sangue neste solo ou usar 
suas foras na reconstruo de sua cidade
    O prefeito ergueu as sobrancelhas e olhou para os prdios intatos de seu povoado.
    -  A escolha  simples, e cumprirei a minha parte - continuou Wulfgar. - Eu lhes dou minha palavra. Mas aconselho que se apres-sem, pois meus homens esto ansiosos 
para terminar seu trabalho.
    Ele recuou um pouco e aproximou mais a lana, de modo que prefeito quase podia ver a ponta atravessando seu peito. Lentamente, o homem deixou cair a espada e 
o cinturo com o punhal curvo e ergueu as mos com as palmas para cima, indicando sua rendio. Os outros homens deixaram cair os forcados, machados e foices.
    Wulfgar fez um gesto para seus homens e as lanas se ergueram num s movimento.
    -  Vocs j escolheram o que queriam levar-disse Wulfgar. - Espero que tenham escolhido bem, pois  tudo que tero. Sir Gowain - voltou-se para o jovem cavaleiro 
-, rena seus homens e leve essa gente para o campo, para longe daqui. - Ergueu o brao.- sigam-me.
    Virou a rdea e Huno partiu no galope em direo  cidade.
    Chegando na praa, Wulfgar deu novas ordens para Milbourne.
    -  Reviste todas as casas, tire o ouro, a prata e outros objetos valiosos que encontrar e ponha tudo na carroa. Tire tambm toda comida preparada e ponha nos 
degraus daquela igreja. Quando acabar
    de revistar uma casa, feche a porta e faa uma marca. Depois ponha fogo em todas as casas, menos na igreja e nos graneiros.
    Wulfgar cavalgou at o topo de uma pequenacolina de onde podia ver os camponeses e o povoado. Quando o sol estava quase na altura do horizonte alongando as sombras, 
parecia que a cidade com suas janelas escuras observava com desprezo os soldados que corriam como formigas, despojando-a de suas riquezas, levando todo seu alimento. 
Um momento de quietude e os olhos escuros se avermelharam quando as primeiras chamas comearam a crescer. Ento, lnguas vidas e vermelhas comearam a destruir 
cada casa. Wulfgar ergueu a cabea e sentiu o frio dos primeiros flocos de neve no rosto.
    Quandoo povo compreendeu o que os normandos estavam fazendo, ouviu-se um longo coro de lamento e de protesto. Os normandos saram da cidade, e Wulfgar desceu 
a colina, com o rosto sombrio. Huno parou na frente dos saxes, e eles se encolheram assustados.
    -  Vejam! - trovejou Wulfgar. - E aprendam que a justia  rpida nas terras de Guilherme. Mas prestem ateno. Voltarei para ver o que esto fazendo. Eu ordeno 
a reconstruo da cidade, e quero que saibam que dessa vez estaro trabalhando para Guilherme.

    A neve estava agora mais densa, e Wulfgar sabia que precisavam se apressar e armar o acampamento para se proteger da tempestade. Apontou para a estrada com a 
lana, e os homens entraram na linha de marcha, atrs da carroa carregada. Com um ltimo olhar para as chamas que devoravam os muros do povoado e para a fumaa 
que subia numa grande espiral, levada pelo vento, e erguendo a voz acima do rudo das chamas, ele gritou para o prefeito:
    -  Vocs tm onde se abrigar e algum alimento, e o inverno se aproxima.-Ele riu. - Estou certo de que no tero tempo para lutar contra outros normandos.
    Ergueu a lana, numa saudao, e esporeou Huno. O povo voltou-se ento para a cidade, com o fracasso escrito nos rostos tristonhos, mas sabendo no fundo do corao 
que podiam refazer o que fora destrudo. Estavam vivos, e vivos podiam reconstruir sua cidade.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Treze
   

   
    AISLINN SAIU da cabana da me e foi para o solar com a neve estalando sob os ps. J era noite, o ar estava frio, e flocos de neve danavam e rodopiavam nos 
fracos raios de luz do caminho. Ela olhou para o cu escuro que parecia pairar logo acima dos telhados, reduzindo o mundo a uma pequena faixa entre ele e a terra 
gelada. Aislinn parou por um momento, para que a quietude da noite acalmasse sua alma. Depois de passar algum tempo com a me, sentia-se esgotadae de certo modo 
menos capaz de enfrentar as dvidas que a torturavam, e com a impresso de que logo estaria completamente vencida e implorando compaixo. A cada dia que passava, 
Maida mergulhava mais profundamente nos planos de vingana contra os normandos. Se ela conseguisse se vingar, a justia de Guilherme a castigaria impie-dosamente. 
Aislinn no conhecia nenhuma poo capaz de eliminaro dio implacvel que perturbava a mente da me. Sentia-se frustrada. Curava as doenas e tratava os ferimentos 
das outras pessoas, porm no sabia o que fazer para curar Maida.
    O frio dos flocos de neve em seu rosto era repousante e, com passo mais animado, ela voltou para o solar. Uma carroa estava parada na porta. Aislinn imaginou 
que devia ser uma pobre alma procurando abrigo em Darkenwald naquela noite fria e perguntou a si mesma se despertaria algum sentimento de compaixo em Gwyneth, quando
    tantos outros no haviam conseguido. Gwyneth no se limitava a lorturar os criados e os soldados com seu gnio demonaco, mas estendia sua crueldade aos visitantes 
ocasionais. Ridicularizava o pai e Sweyn porque, vez ou outra, eles se entregavam aos prazeres da comida e da bebida. Na verdade, eram eles que forneciam a carne 
que livrava Darkenwald do fantasma da fome. Nem o bondoso Frei Dunley escapava da lngua ferina de Gwyneth.
    Assim, preparada para o pior, Aislinn entroue fechou aporta antes de olhar para o grupo na frente da lareira. Com lentido deliberada, tirou o manto e se aproximou 
do fogo, olhando primeiro para Bolsgar, a fim de determinar pela sua expresso o estado de esprito da filha. Quando Gwyneth tinha seus acessos de fria, Bolsgar 
franzia a testa e cerrava os lbios com fora. Porm ele parecia tranquilo e at mesmo aliviado. Aislinn voltou a ateno para os trs adultos e as crianas, todos 
pobremente vestidos, agrupados na frente do fogo.
    O menino mais novo olhou boquiaberto e encantado para o cabelo cor de cobre que cobria os ombros de Aislinn. Ela sorriu, e os olhos dele cintilaram com uma expresso 
amistosaeespontnea. Aislinn no viu a mesma expresso no rosto da mulher mais nova que, um pouco afastada do grupo, a observava com ateno e desconfiana. O menino 
era muito parecido com ela, e Aislinn imaginou que devia ser seu filho ou parente muito prximo.
    O homem parecia exausto, com o rosto muito plido e tenso. A mulher, ao lado dele, atenta a tudo o que se passava, parecia sensata, forte e calma, e Aislinn 
retribuiu delicadamente o sorriso dela.
    As outras crianas eram mais velhas que o menino de olhos escuros. Um rapaz alto, talvez da idade de Ham, uma menina mais nova, e dois meninos que Aislinn achou 
perfeitamente iguais.
    -  Pensamos que a tnhamos perdido, Aislinn.
    Aislinn voltou-se, alerta, pois a sugesto de amabilidade na voz de Gwyneth era suficiente para despertar todo seu instinto de defesa. No sabia qual era o jogo, 
mas esperou, aparentando uma calma que no sentia.
    -  Temos hspedes enviados por Wulfgar - continuou Gwyneth, vendo uma chama de interesse nos olhos cor de violeta. Erguendo a mo, apresentou cada pessoa do 
grupo pelo nome e depois disse: - A ordem dele  para que fiquem morando aqui.
    -  Isso mesmo, minha senhora - disse Gavin. - Meu irmo Sanhurst est com ele agora.
    -  E o meu senhor? Ele est bem? - perguntou Aislinn, em tom cordial e delicado.
    -  Sim, o normando est bem - respondeu Gavin. - Ele nos tirou do lodaal, e acampamos com ele aquela noite. Ele nos deu comida e nos mandou vir para c.
    -  Ele disse o quanto ainda vai demorar? - perguntou Aislinn. - Pretende voltar logo para Darkenwald?
    Gwyneth zombou:
    -  Aislinn, est revelando seu desejo por ele. Aislinn corou, mas Gavin respondeu com calma:
    -  No, minha senhora, ele no disse.
    Gwyneth olhou para a jovem viva, que observava avidamente cada movimento de Aislinn, seu corpo, o cabelo que ia at abaixo da cintura. Com um brilho maldoso 
nos olhos, ela escolheu cuidadosamente as palavras para a pequena mentira.
    -  Wulfgar recomendou especialmente que Haylan e o filho fiquem morando aqui em Darkenwald.
    Aislinn percebeu o veneno e voltou-se para a viva, que abriu a boca, espantada, e sorriu timidamente para ela. Mas Aislinn no retribuiu o sorriso.
    -  Compreendo - disse ela. - E voc os recebeu bem, Gwyneth. Wulfgar vai ficar satisfeito com sua bondade.
    Com um olhar gelado, Gwyneth disse,
    -  Uma vez que sou sua irm, no acha que sei disso melhor do que voc? - No era difcil perceber o tom de censura em suas palavras. - Wulfgar  um senhor muito 
generoso. Trata at os escravos com bondade e os veste ricamente.
    Aislinn Fingiu no ter entendido a insinuao.
    -   verdade? Imagine! No notei pessoa alguma, a no ser voc, minha cara Gwyneth, mais bem vestida do que antes.
    Bolsgar riu discretamente, e Gwyneth fuzilou-o com o olhar. Todos sabiam que ela se apossara dos poucos vestidos que Aislinn ainda possua. Nesse momento, estava 
com a bela tnica cor de malva, e Aislinn com o vestido simples que, antes, s usava para fazer algum servio de limpeza na casa. Agora era o nico que possua.
    Gwyneth disse, com voz ferina:
    -  Sempre me intrigou o fato de os homens serem capazes de jurar fidelidade a uma mulher e quando esto longe dela procuram o
    calor da mulher mais prxima. No me admiraria se Wulfgar encontrasse uma mulher encantadorae a mandasse vir esper-lo em suacasa.
    Haylan engasgou e tossiu, chamando a ateno de Aislinn. Ela franziu a testa levemente, imaginando o que podia ter havido entre Wulfgar e a viva.
    Falou ento, com calma dignidade:
    -  Wulfgar  na verdade um estranho para todos. Ningum pode saber o que ele pensa nem adivinhar o que pode fazer, Quanto a mim, s quero que ele seja honrado 
e no faa o papel de um reles aventureiro. S o tempo nos trar a resposta, e confio meu destino confiana que deposito nele.
    Voltou-se rapidamente, sem dar oportunidade a Gwyneth de dizer qualquer coisa, e pediu a Ham sua caixa de medicamentos.
    -  Vejo que este bom homem precisa dos meus cuidados, a no ser,  claro, que uma de vocs j se tenha oferecido para tratar dele.
    Olhou primeiro para Haylan, que balanou a cabea, e depois para Gwyneth, que olhou para ela furiosa, deu de ombros e voltou ao seu bordado.
    Aislinn sorriu:
    -  Muito bem, ento eu farei isso.
    Com a ajuda de Miderd, limpou o coto de brao de Gavin. Gwyneth disse, com a voz carregada de malcia:
    -   claro que todos sabem como se comportam os soldados no campo. A simples meno de uma batalha no traz boas lembranas ao seu corao, Aislinn? Os normandos, 
to orgulhosos e arrogantes, experimentando cada mulher que despertao seu desejo. Imagino o que a mulher vencida sente com essas carcias,
    As palavras feriram profundamente Aislinn; angustiada, ela mal podia respirar. Era incrvel a crueldade de Gwyneth. Respirou fundo, e seus olhos encontraram 
os de Miderd, compassivos, cheios de compreenso.
    -  Peo a Deus para que nem mesmo voc, boa Gwyneth-disse com um suspiro -, tenha de passar por isso.
    Gwyneth recostou na cadeira, sem a sensao de vitria que esperava, e Haylan deu as costas a todos, voltando-se para aquecer as mos no calor do fogo, pensando 
nas palavras que acabava de ouvir.
    Aislinn esperou passar sua angstia e, terminando seu trabalho, levantou-se e foi ficar ao lado de Bolsgar.
    -  Meu senhor, acaba de ouvir dizer que os homens so volveis. O que pensa disso? O senhor  assim? Acha que Wulfgar  assim?
    Bolsgar resmungou.
    -   evidente que minha filha no sabe quase nada sobre os homens, pois nunca teve um. - Segurou a mo de Aislinn entre as suas. - Mesmo quando era jovem, Wulfgar 
era fiel a tudo que conhecia, seu cavalo, seu falco... a mim. - Seus olhos se encheram de lgrimas, e ele virou o rosto. - Sim, ele era fiel e constante.
    -  Mas o senhor no sabe coisa alguma de suas mulheres - apressou-se a dizer Gwyneth.
    Bolsgar deu de ombros.
    -   verdade que no passado ele sempre afirmou que as odeia, mas Wuifgar  como o lobo de ferro que habita os campos de luta, sem precisar das amenidades da 
vida, mas o desejo de amar que arde em seu corao  to intenso que ele faz de tudo para neg-lo.

    -  Bestas das trevas! - exclamou Gwyneth.-Meu prprio pai, que ontem mesmo perdeu sua casa e suas terras, agora aprova esta unio de meu irmo bastardo com esta 
mulher sax...
    -  Gwyneth! - rugiu Bolsgar. - Feche essa boca ou mando algum fech-la.
    -  Ora,  verdade - exclamou Gwyneth, zangada. - O senhor seria capaz de unir esta prostituta a ele com um voto solene de casamento.
    Haylan olhou boquiaberta para Aislinn.
    -  A senhora no  esposa dele? - perguntou, antes de morder a lngua, quando viu a expresso de censura de Miderd.
    -   claro que no ! -disse Gwyneth, indignada.-Ela dormiu com um normando e agora quer prender meu irmo.
    Bolsgar levantou de um salto, e pela primeira vez na sua vida Gwyneth se encolheu, com medo dele. Aislinn ficou imvel, com os punhosfechados, controlando-se 
para no descarregar sua fria, Bolsgar quase encostou o rosto no da filha, e disse com desdm:
    -  Voc  uma mulher inconveniente e insensata. Quantas vezes precisa ferir com a lmina de sua inveja?
    Haylan pigarreou e tentou desviar a ateno de Bolsgar.
    -  Lorde Wulfgar est sempre lutando. Ele j foi ferido muitas vezes? Acicatriz...
    Aislinn arregalou os olhos para ela, pensando no ferimento mais
    recente de Wulfgar que s ela e Sweyn conheciam e agora, talvez, essa jovem viva.
    -  Foi s curiosidade minha... -disse Haylan com voz sumida, sentindo os olhares indignados. At Gwyneth abriu a boca, e Bolsgar fechou mais a carranca.
    -  Curiosidade?-Gwyneth no entendeu a surpresa de Aislinn. - O que preocupa tanto seu pensamento, senhora Haylan?
    -  Acicatriz no rosto do seu irmo, s isso-respondeu Haylan, dando de ombros. - Eu s queria saber como ele se feriu.
    Gwyneth olhou rapidamente para o pai, que voltara a sentar-se com expresso tempestuosa, apertando com fora os braos da poltrona.
    -  E ficou chocada com aquela feia cicatriz? - perguntou Gwyneth.
    -  Chocada? Oh, no. O rosto dele  muito bonito.
    Olhou para Aislinn agora de igual para igual, pensando que se no tivesse se precipitado naquela noite poderia t-lo nas mos agora. Pelo menos tinha tanto direito 
quanto aquela mulher.
    -  Foi um acidente, quando ramos pequenos-comeou Gwyneth, cautelosamente.
    -  Acidente? - rugiu Bolsgar outra vez. - Est mentindo, minha filha? No, no foi acidente. Foi de propsito.
    -  Meu pai - Gwyneth falou em tom de splica, procurando abrandar a fria dele. - Isso  passado, e  melhor esquecer.
    -  Esquecer? No, nunca! Eu lembro muito bem. Gwyneth cerrou os lbios, indignada.
    -  Pois ento conte logo, se precisa contar. Conte como, furioso quando soube que ele era bastardo, o senhor o golpeou com uma luva de falcoaria, cortando-lhe 
profundamente o rosto.
    Bolsgar levantou com dificuldade, tremendo de raiva. Olhou rapidamente para Haylan e depois para Gwyneth. Passada a primeira surpresa, Aislinn estava certa de 
que a ira de Bolsgar se devia ao sofrimento de ouvir falar de uma falta da qual se envergonhava.

    -  No preciso falar, Gwyneth - disse ele, secamente. - Voc j contou tudo.
    -  Sente e procure ser um anfitrio bem-educado, meu pai - disse Gwyneth.
    -  Anfitrio! - exclamou Bolsgar com ironia. - No sou anfitrio aqui. - Ergueu o copo de cerveja. - Ns moramos na manso de Wulfgar. No quero o que pertence 
a ele, e voc faz muitas suposies erradas. - Olhou em volta, com ar abatido. - Onde est Sweyn? Tenho sede de mais cerveja e preciso de sua companhia para me acalmar.
    -  Est tratando dos cavalos, meu pai-disse Gwyneth, tentando disfarar sua impacincia.
    -  Ento Kerwick - rugiu ele. - Onde ele est? Aquele rapaz  uma boa companhia para se tomar uns copos de cerveja.
    -  Agora no, meu pai - sibilou Gwyneth, furiosa com a idia de o pai beber com um simples criado. - Eu o mandei preparar casas para estas famlias.
    -  Aesta hora da noite?-perguntou Bolsgar indignado.-Ser que ele no pode ter um momento de descanso?
    Gwyneth cerrou os dentes, procurando se conter. No queria agravar o mau humor do pai.
    -  Eu s pensei nestas pobres pessoas cansadas e no desconforto de sua viagem. Este cho de pedra no oferece nenhum calor  viajantes exaustos, e tero mais 
privacidade nas cabanas.
    Bolsgar levantou-se.
    -  Ento, se no tenho com quem conversar educadamente, vou me retirar para o meu quarto. Boa noite, minha filha.
    Gwyneth respondeu com uma inclinao da cabea, e Bolsgar, voltando-se para Aislinn, estendeu-lhe a mo.
    -  Sou um homem velho, minha filha, mas gosto ainda de acom-panhar uma bela jovem ao seu quarto. Quer me conceder a honra?
    -  Certamente, senhor - murmurou Aislinn, com um sorriso. Bolsgar no era frio como a filha e quase sempre aliviava a dori
    da ofensa com uma palavra ou um ato de bondade. Aislinn, mo apoiada na dele, deixou que Bolsgar a conduzisse para longe do grupo na frente da lareira, subindo 
at o quarto que era dela e de Wulfgar.
    Bolsgar parou na porta, aparentemente absorto em pensamentos. Finalmente, disse com um suspiro:
    -  Eu devia falar com Wulfgar. Dizer que ele deve trat-la melhor. Mas no tenho direito de intervir em sua vida. Perdi esse direito quando o mandei embora de 
minha casa. Ele  um homem sozinho agora.
    Aislinn balanou a cabea e sorriu suavemente.
    -  No quero que ele se sinta obrigado a me tratar de outro modo. Tem de ser um ato voluntrio, do contrrio no ter valor algum.
    Bolsgar apertou de leve a mo dela.
    -  Voc  muito sensata para sua idade, minha filha. Mesmo assim, vou lhe dar um conselho. Deixe o lobo uivar para a lua. Ela no vai descer do cu para ele. 
Deixe que ele vagueie pelas florestas  noite. No vai encontrar nelas o que procura. S quando admitir que precisa de amor ele encontrar a verdadeira felicidade. 
At ento, seja fiel e boa para ele. Se guarda algum calor por ele em seu corao, Aislinn, d a ele o que a me negou. Procure acalent-lo com seu amor quando ele 
depuser seu corao torturado aos seus ps. Envolva o pescoo dele com uma coleira de fidelidade que ele vir docilmente para voc.
    Aislinn sentiu a dor do velho homem, pois ele perdera a mulher e os filhos, e suas palavras eram fruto da experincia.
    -  Sou apenas uma de suas muitas mulheres, gentil Bolsgar. Viu como a jovem viuva  bonita. Sem dvida  o mesmo com as outras. Como posso ter certeza de um 
lugar em seu corao quando tantas outras o disputam?
    Bolsgar no respondeu. Podia dizer que ela era bonita, graciosa e encantadora, mas ningum sabia o que Wulfgar pensava. Era melhor no alimentar esperanas, 
baseadas em suas suposies, pois no sabia se eram certas.
    Gavin indicou a escada com um movimento da cabea e quando ouviram os passos dele afastando-se do quarto de Aislinn e o estalido da tranca, perguntou:
    -  Ela  filha do velho lorde?
    -  Sim,  - Gwyneth suspirou. - E uma chaga purulenta no corao desta cidade.
    Miderd e Gavin trocaram um olhar. Haylan era toda ouvidos.
    -  Sim,  verdade - continuou Gwyneth. - Ela se insinuou na cama de meu irmo e pretende ser a dama deste solar. - Percebendo a ateno de Haylan, Gwyneth voltou-se 
para ela. - Meu irmo apenas se diverte por algum tempo, mas temo que Aislinn o tenha enfeitiado.
    Gwyneth apertou os braos da poltrona, pensando em Aislinn nos braos de Ragnor. Suas plpebras baixaram para esconder a maldade que os olhos revelavam.
    -  Esse tal de Kerwick  amante dela, na ausncia de Wulfgar- falou lentamente. - Ela  uma prostituta, mas at meu pai acredita que seja boa e honesta. Est 
encantado com sua beleza, como qualquer outro homem.
    -  Lorde Wulfgar a acha bonita?-perguntou Haylan, dominada por um cime feroz, lembrando do nome de Aislinn murmurado por Wulfgar.
    Miderd franziu a testa e aconselhou:
    -  Haylan, no  prudente interferir na vida de Lorde Wulfgar.
    -  Na verdade, no sei o que meu irmo pensa-disse Gwyneth erguendo as mos magras com as palmas para cima. - Aislinn tem a marca do mal naquele cabelo vermelho. 
Ningum pode duvidar disso. Quem sabe quantas almas ela pode roubar com suas poes e encantamentos? Tenham cuidado. No se deixem enganar por suas palavras doces. 
Ela sabe como conquistar as pessoas.
    -  Sim - murmurou Haylan, sem ver o olhar de censura da cunhada. - Eu terei cuidado.
    Gwyneth levantou-se, deixando o bordado.
    -  Agora preciso descansar meus olhos irritados pela fumaa da sala. Boa noite para todos.
    Assim que ela se afastou, Miderd voltou-se furiosa para Haylan.
    -  Acho bom voc respeitar seus superiores para o bem de todos ns, do contrrio podemos ser expulsos daqui.
    Dando de ombros, Haylan disse, com ironia:
    -  Superiores? Tenho grande respeito por Lady Gwyneth. De quem est falando? Lorde Bolsgar ficou irritado, mas eu o tratei com delicadeza.
    -  Sei que quando voc quer uma coisa no descansa enquanto no consegue - disse Miderd. - E vejo que est interessada no normando. Deixe-o em paz, Haylan. Ele 
pertence a Lady Aislinn.
    -  Ha! - zombou Haylan. - Ele pode ser meu a qualquer momento.
    -  Voc  muito pretensiosa, Haylan. Fomos trazidos para capara trabalhar, nada mais.
    -  Nada mais? - Haylan riu. - Voc no sabe de nada. Miderd olhou para o marido, como pedindo ajuda, mas ele deu de
ombros.
    -  No vou discutir com voc, Haylan - disse Miderd. - Mas se Lady Aislinn vier a ser a senhora deste solar, pode nos expulsar se voc continuar com essas ideias
sobre o normando. E para onde iremos? Pense em seu filho.
    -  Eu penso nele - disse Haylan, zangada. Acariciou a cabea do menino. - Miles seria um orgulho para qualquer lorde.
    Miderd ergueu as mos e, balanando a cabea, deu as costas  obstinada viva.
    Quando Kerwick voltou, acordaram Miles e o agasalharam. Saram todos e Kerwick, depois de deixar Gavin e sua famlia numa cabana, acompanhou Haylan e o filho 
a outra menor. O fogo estava aceso, Haylan observou atentamente Kerwick quando ele ps mais lenha no fogo, e depois disse:
    -  Lady Gwyneth  uma tima moa. Voc deve estar satisfeito por poder servi-la.
    Kerwick olhou para ela com o rosto inexpressivo. Os olhos escuros de Haylan chamejaram de fria com o silncio dele.
    -  O que voc sabe de seus superiores? No passa de um servo. Qualquer um pode ver que tem um caso com aquela mulherzinha de cabelos vermelhos.
    Kerwick falou com calma e desprezo.
    -  Aquela mulherzinha de cabelos vermelhos era minha noiva antes de o guerreiro normando a tomar de mim. Eu era o senhor do meu solar que ele tomou tambm, mas 
o que mais sinto  ter perdido Lady Aislinn. Quando falar comigo, no diga o nome dela com desprezo nunca mais. Se voc tem algum juzo, trate de no dar ouvidos 
a Gwyneth e a suas mentiras.
    -  Pode estar certo de que tenho juzo suficiente para ver o que est diante dos meus olhos - disse Haylan. - E que voc ainda est apaixonado por Aislinn!
    -  Sim-admitiu Kerwick. - Mais do que voc pode alcanar.
    -  Oh, eu compreendo muito bem-disse Haylan, ofendida. - No esquea que perdi meu marido h pouco tempo e sei muito bem o que pode interessar um homem.
    Kerwick ergueu as sobrancelhas.
    -  O que  isso? J est espalhando mentiras a nosso respeito? Voc  uma mulher muito arrogante para uma serva.
    -  Serva?-Haylan riu com desdm. - Pode ser que sim e pode ser que no. Ningum pode saber antes da volta de Lorde Wulfgar. - Ergueu o queixo - Ele pode ser 
meu se eu quiser.
    Kerwick riu, incrdulo.
    -  Voc? Com que direito? Est dizendo que  tambm sua amante?
    Sem conter a raiva, Haylan respondeu:
    -  No sou esse tipo de mulher! Mas, se fosse, podia l-lo quando quisesse. Ele me desejou, e quem sabe o que vai acontecer quando voltar?
    Kerwick disse com desprezo:
    -  Oua meu conselho, bela viva - aproximou-se, quase encostando o nariz no dela. - Wulfgar mandou que me aoitassem quando tentei defender Aislinn do desejo 
dele e ficou possesso de raiva quando toquei nela acidentalmente. Mesmo assim, ele afirma que odeia as mulheres. No se engane pensando que ele  um homem fcil 
de ser levado, sem vontade prpria, pois Wulfgar  forte, e vai perceber suas manobras para tentar conquist-lo. Ele pode tom-Ia como tomou a minha Aislinn, mas 
pode estar certa, vai oferecer muito menos do que ofereceu a ela.
    -  Est dizendo que no tenho nenhuma chance de ser a dona deste solar? - perguntou Haylan. - Ora, menino inexperiente, voc est com a mente embotada pelo seu 
desejo por elae no percebeu por que ele me mandou para c.
    -  Para trabalhar, como todos ns. Ele precisa de mais criados- respondeu Kerwick.
    Haylan exclamou furiosa:
    -  Olhe para mim! Acha to difcil acreditar que um homem pode se apaixonar por mim?
    -  Est exagerando sua importmcia, madame, e no passa de uma mulher vulgar, vaidosa e arrogante. Sim,  bonita, mas como tantas outras. Aislinn no tem igual.
    Haylan engasgou de raiva.
    -  Eu serei a dona de Darkenwald! Voc vai ver!
    -  Ser mesmo? - Kerwick ergueu uma sobrancelha. - O mais certo  que ser outra serva, nada mais.
    -  Lady Gwyneth diz que Wulfgar s est passando tempo com Aislinn. Talvez eu possa apressar sua queda.
    -  Ora! Lady Gwyneth! - disse Kerwick com desprezo. - No oua o que ela diz. Preste ateno s minhas palavras. Wulfgar nunca deixar Lady Aislinn, como nenhum 
homem sensato faria.
    -  Sua opinio no  a dele, portanto no tem valor - disse Haylan, com arrogncia.
    -  Voc vai sofrer -- avisou Kerwick. - Pois esqueci de men-
    cionar outra qualidade de Aislinn - sorriu ligeiramente. - Ela  mais inteligente do que a maioria das mulheres.
    -  Ohhh, eu o odeio de todo corao! - gritou Haylan. Kerwick deu de ombros.
    -  Madame, na verdade no me importo nem um pouco com seu
    dio.
    Kerwick saiu da cabana, deixando Haylan trmula de fria.
    Na solido do quarto, Aislinn sentiu voltar todo seu temor. Dvidas abalavam sua confiana, e ela imaginava Wulfgar e Haylan abraados. Comeou a se despir, 
lembrando dolorosamente as carcias de Wulfgar e a gentileza com que a tratara na ltima noite que passaram juntos. Teria encontrado mais prazer com outra mulher? 
Seria ela, na verdade, um capricho passageiro? Estaria ele, naquele momento, na cama com outra mulher?
    O desespero a dominou e, soluando, ela se atirou na cama, abafando seus gritos de angstia. Finalmente, parou de chorar e se cobriu com o manto de pele, tentando 
aquecer o gelo de seu corao. Bateram na porta. Enrolando-se num manto, ela mandou entrar o visitante tardio. Para sua surpresa, Miderd apareceu na porta- Tinha 
enfrentado o frio da noite para falar com ela e trazia um embrulho nas mos.
    -  Minha senhora, trago notcias de Lorde Wulfgar, e ele me pediu para lhe entregar isto quanto estivesse sozinha.
    Vendo os olhos vermelhos e a ansiedade no rosto de Aislinn, ela disse:
    -  Minha senhora, Haylan  uma mulher sofrida que sonha alto demais e exagera o prprio valor. Na minha opinio, Lorde Wulfgar no aesqueceu, pois quando me 
entregou esta encomenda demonstrou estar preocupado com seu bem-estar, e recomendou que a senhora procure Sweyn para qualquer coisa que precisar. Acho que no deve 
temer os sonhos e as iluses de uma jovem viva.
    Ps o pacote nas mos de Aislinn e sorriu, vendo-a abrir apressadamente.
    -  Ele mandou dizer tambm, senhora, que foi comprado honestamente.
    As lgrimas voltaram, mas agora de emoo, e Aislinn encostou no rosto o tecido amarelo, sabendo que Wulfgar o tinha tocado. Feliz, abraou Miderd, que corou 
e murmurou palavras de agradecimento.
    -  Oh, Miderd, no est vendo?-exclamou Aislinn.-Wulfgar disse que no costuma dar presentes a mulheres, pois seu dinheiro  ganho arduamente e ele pode gastar 
era coisas melhores.
    Miderd sorriu docemente. Sentiu que encontrara uma amiga. Apertou a mo da jovem com carinho.
    -  Parece que a senhora ganhou uma batalha. E esperemos que, amanh, ganhe a guerra.
    Os olhos cor de violeta cintilaram de felicidade.
    -  Oh, tem razo, devemos garantir o amanh.
    Feliz por Aislinn, Miderd saiu e fechou a porta, sentindo uma afinidade por aquela jovem que ela mal conhecia e uma confiana no futuro que no sentia h muito 
tempo. Sua intuio dizia que encontraria a paz em Darkenwald. Seu marido teria uma profisso e seus filhos trabalhariam com ele. Ela e a filha talvez pudessem trabalhar
no solar. Finalmente, sentia que estavam em segurana.
    Aislinn levantou cedo, quando todos dormiam ainda. Com o tecido amarelo nas mos, foi at a arca de Wulfgar e retirou, pea por pea, a roupa dele, acariciando-as 
distraidamente. Quando a arca ficou vazia, guardou a pea de tecido amarelo no fundo e arrumou a roupa de Wulfgar por cima. Ali Gwyneth nem sonharia em procurar. 
Quando recebesse noticiada volta de Wulfgar, faria um vestido para receb-lo. Sentia o corao leve e feliz pensando nele, agora com renovada confiana.
    Quando desceu para o salo, encontrou Gwyneth e Haylan na frente da lareira. Por ordem de Gwyneth, a viva estava isenta de qualquer trabalho na casa e agora 
aprendia a costurar com grande dificuldade, pondo  prova a pouca pacincia de Gwyneth. Aislinn sorriu ouvindo Haylan humildemente pedir desculpas por sua inpcia.
    Gwyneth suspirou, exasperada.
    -  Deve fazer pontos menores, como mostrei.
    -  Por favor, me perdoe, minha senhora, mas nunca tive muito jeito para costura -justificou-se Haylan. Ento, acrescentou com entusiasmo: - Mas posso assar um 
javali e o po que eu fao  elogiado por todos.
    -  Isso  trabalho para os servos - respondeu Gwyneth secamente. - Uma dama  avaliada por sua costura e bordado. Se quer ser uma, deve descobrir o valor da 
agulha. Wulfgar vai querer que voc faa e conserte suas roupas.
    S quando Aislinn se adiantou para aquecer as mos no calor do fogo foi que elas deram por sua presena.
    -  Sei que procura ajudar, cara Gwyneth, mas no preciso de ajuda para consertar a roupa de meu senhor. - Sorriu para elas e levantou um pouco a saia para aquecer 
as pernas. -Wulfgar parece satisfeito com os meus talentos.
    Gwyneth sorriu com zombaria.
    -  No sei como acha tempo para costura, considerando as horas que passa com ele na cama.
    -  Ora, Gwyneth, como pode saber quando estamos e quando no estamos na cama? - disse Aislinn, com um largo sorriso. - A no ser,  claro, que tenha por hbito 
escutar atrs das portas, como costuma remexer na minha arca.-Olhou para os vestidos que as duas mulheres estavam usando. O de Haylan era de terceira mo, sem dvida 
dado a ela por Gwyneth.
    -  Sua arca? - disse Gwyneth com desprezo. - Escravos no possuem coisa alguma.
    Com um leve sorriso, Aislinn respondeu:
    -  Mas Gwyneth, se sou escrava, tudo que tenho pertence a Wulfgar. -- Ergueu as sobrancelhas, com fingida curiosidade. - Voc rouba de seu irmo?
    Furiosa, Gwyneth disse:
    -  Meu irmo deixou bem claro que tudo que existe aqui  nosso e que podemos usar  vontade.
    -  Oh? - Aislinn riu. - Ele disse isso para Bolsgar, no para voc, e seu pai tem muito cuidado de no ir alm de sua parte. Na verdade, ele paga sua estada 
com a caa que traz para casa. Voc sabe que Wulfgar precisa de muitos servos para que Darkenwald prospere. Qual a sua contribuio para isso, boa Gwyneth?
    Gwyneth levantou-se e disse, fervendo de raiva:
    -  Eu tomo conta da casa na ausncia dele e evito que a dispensa seja saqueada por aqueles bbados que...
    Gwyneth parou de repente e, seguindo seu olhar, Aislinn viu Sweyn caminhando para a lareira. Ele sorriu para Gwyneth e com lentido deliberada cortou uma grande 
fatia da carne que assava no fogo; acompanhou-a com um bom gole de cerveja. Estalou os lbios, lambeu a gordura das pontas dos dedos e depois os enxugou na tnica 
Voltou-se para Aisinn e disse com sua voz trovejante:
    -  Quem distribui com parcimnia a comida que eu e Bolsgar trazemos?
    -  Ningum, Sweyn - riu Aislinn. - Ningum. Ns todos comemos muito bem, graas a voc.
    O viking olhou para Gwyneth por um longo tempo, depois res mungou.
    -  Isso  bom. Isso  bom.
    Com um arroto sonoro, ele saiu da sala.
    Aislinn recuou um passo e segurou a saia dos dois lados, com uma leve curvatura.
    -  Com sua licena, senhoras. Preciso trabalhar. - J na porta, virou a cabea e disse: - Haylan, cuide da carne para no queimar.
    Saiu quase saltando de alegria e abriu a porta para o mundo, que lhe pareceu maravilhoso.
    Wulfgar e seus homens acamparam durante vrios dias na encruzilhada perto de Kevonshire. A neve parou de cair e o sol a derreteu no solo. Eles faziam parar viajantes
e mensageiros ingleses, avisando-os da marcha de Guilherme. Estes ltimos, eles simplesmente faziam parar e libertavam, pois a passagem do tempo tornava intil a
informao que levavam.
    O exrcito de Guilherme agora movia-se na frente deles, e no temiam nenhuma ameaa  sua marcha. Levantaram acampamento e seguiram, parando apenas para anunciar
a aproximao de Guilherme. Dirigiram-se para o norte, e o exrcito do Duque atravessou o Tmisa a oeste de Londres, vindo do interior da ilha. A cidade estava vazia 
e isolada, sem que seus provveis aliados tivessem acesso a ela. Hamp-shire, Berkshire, Wallingford, depois em Berkhamstead, o Arcebispo Aldred com seu squito, 
que inclua o Prncipe Edgar, pretendente ao trono, encontrou o exrcito de Guilherme e entregou a ele a cidade de Londres. Deixaram refns com Guilherme e prestaram 
juramento de fidelidade a ele. Guilherme seria coroado Rei da Inglaterra no dia de Natal.
    Wulfgar e seus homens foram at o acampamento com a carroa carregada de ouro, prata e objetos preciosos tomados como tributo ou saque. Os tesoureiros de Guilherme 
avaliaram tudo, retiraram seu dzimo e devolveram o resto a Wulfgar.
    Entraram ento na fase da montona rotina do acampamento. Wulfgar pagou seus cavaleiros e, depois de acertar todas as suas contas, manteve seus homens perto 
do acampamento, no permitindo que sassem  procura de mulheres e de vinho, como era costume.
    Quando faltava quase uma semana para o Natal, chegou um mensageiro de Guilherme com a informao de que, quando o exrcito entrasse em Londres, ele e seus homens 
iriam esperar o dia da coroao instalados numa manso perto da abadia.
    Era cedo ainda, e Wulfgar encilhou Huno e foi a Londres procurar moradia para ele e seus homens. Uma grande tenso pairava sobre a cidade, e os ingleses olhavam 
para ele com dio no-disfarado. As casas e lojas tinham paredes de pedra e muita madeira pesada, eram construdas muito juntas umas das outras, algumas projetando-se 
sobre as ruas caladas de pedras, A gua sada do esgoto corria pelas sarjetas abertas, e o povo enchia as ruas, pois todos os homens livres estavam em Londres para 
ver a Inglaterra passar para as mos do Duque normando. Huno tinha muitas vezes de abrir caminho lentamente no meio da multido. Quando chegou na praa, Wulfgar
viu uma grande casa de pedra, um pouco afastada do centro, mas com uma ampla vista da cidade. Com dificuldade, conseguiu chegar at a casa e, como no tinha sido
requisitada por nenhum outro normando, tomou posse em nome de Guilherme. O gorducho comerciante dono da casa, revoltado com a arbitrariedade de Wulfgar, reclamou
em altos brados. Passou a gritar estridentemente quando soube que no receberia nenhuma compensao pelo uso da casa e tremeu de raiva quando Wulfgar disse:
    - Ora, meu bom comerciante, no faz mais do que seu dever para com Guilherme e sua coroa - continuou com ironia. - Devia estar satisfeito por sua casa ainda 
estar de p, e no reduzida a um monte de escombros, como muitas que deixei para trs.
    Os olhos do homem encheram-se de lgrimas quando Wulfgar ordenou que ele e a famlia desocupassem a casa e procurassem outro alojamento por quinze dias ou mais.
    Wulfgar examinou o terreno em volta da casa enquanto o homem ia avisar a famlia da mudana forada. O normando riu quando a mulher do comerciante o censurou 
por no ter resistido ao normando ou pelo menos exigido pagamento. O homem voltou para perto do guerreiro, como se se sentisse mais seguro ao lado dele. Havia estbulos 
e uma boa cozinha no andar trreo. Uma escada levava  adega muito bem provida de vinhos e doces. Wulfgar acalmou o comerciante, prometendo que tudo que fosse usado 
da adega seria pago.
    
    
    

    No segundo andar ficavam os quartos pequenos e um salo amplo, onde seus homens podiam descansar e jogar. Wulfgar subiu a escada estreita que levava ao sto 
e ao apartamento do comerciante, to ricamente decorado e confortvel quanto o melhor castelo normando. Uma pequena escada levava a uma cpula no telhado, de onde 
se descortinava uma vista magnfica. Wulfgar desceu e parou no amplo quarto de dormir, olhando para a cama larga coberta com uma colcha de veludo. Quando se inclinou 
para experimentar a maciez do colcho, em sua mente surgiu a imagem de um corpo de pele muito branca e curvas perfeitas, um rosto com risonhos olhos cor de violeta 
e lbios que se moviam nos dele numa doce carcia.
    Wulfgar recuou rapidamente. Deus, com que encantamento aquela mulher prendia sua mente! Quase podia v-la, de p, com os braos estendidos, envolta em vapores 
verdes e vermelhos, cantando antigas runas, com abrisa agitando os cabelos cor de cobre, fazendo-os danar sobre seus ombros e seios.
    Como que impelido por uma fora mais forte do que ele, Wulfgar olhou outra vez para a cama e viu os olhos cor de violeta, cintilando de riso. Furioso, saiu do 
quarto, mas, quando chegou na rua, sentiu uma dor violenta na parte baixa do ventre e na virilha. Por mais que fizesse, no podia deixar de ver Aislinn sobre aquela 
coberta de veludo.
    Voltou para o acampamento pensativo, sem prestar ateno  cidade que atravessava. Parou numa pequena elevao e olhou para o acampamento, sentindo a solido 
na alma. Embora ainda no posta em palavras, compreendeu que acabava de tomar uma deciso, e, aliviado, com o esprito leve e alegre, Wulfgar esporeou Huno, que 
bufou, surpreso, e disparou colina abaixo, na direo das barracas.
    Dois dias depois estavam em Londres. J era noite, e tinham preparado um banquete. Seus homens estavam no segundo andar, e Wulfgar os ouvia comentar sobre o 
conforto da casa, ao qual no estavam acostumados. Ao lado da balaustrada, ele olhou para a praa iluminada por tochas. Gowain partira, e no dia seguinte estaria 
em Darkenwald. Uma ansiedade enorme o envolveu, e Wulfgar estranhou as batidas fortes e aceleradas do prprio corao. O rosto de Aislinn era uma imagem vaga em 
sua lembrana, mas quase podia ver os olhos brilhantes que mudavam de cor de acordo com a luz. Conhecia de cor a testa, que tinha tantas vezes acariciado, e o nariz
fino e bem-feito.
    Conhecia a curva delicada dos lbios, desde a resistncia que encontrava neles at a avidez com que respondiam s suas carcias.
    Wulfgar deu as costas  noite. Aqueles sonhos de jovem no ajudavam em nada sua paz de esprito. Ao contrrio, o excitavam e o enchiam de desejo. No o agradava 
aquela sensao de estar preso a algum, e entrou no quarto irritado. Despiu-se e deitou na cama que o esperava, mas o sono no chegou, mandando em seu lugar murmrios 
e suaves movimentos, como se tivesse algum ao seu lado. Irritado, Wulfgar levantou e foi para a janela, sem se importar com o frio que entrou no quarto quando a 
abriu e olhou para a rua vazia l embaixo e para a lua imensa e plida no cu. Aos poucos foi se acalmando, e a nica coisa que no deixava sua mente era Aislinn 
de Darkenwald.
    Aquela mulher to frgil, pensou ele, to bela e altiva. Maltratada,  verdade, mas ousa me enfrentar como uma Clepatra sax. Ela defende to bem sua causa 
que enfraquece minha vontade. Como posso recusar quando ela desvenda a prpria alma to completamente e procura tocar as profundezas de minha honra? Enfrenta minha 
ira para o bem de seu povo e me curva  sua vontade, quando devia ser o contrrio. Wulfgar passou a mo na testa, incapaz de afastar Aislinn da lembrana. Contudo, 
de algum modo, eu desejo que ela...
    ... que ele me jurasse fidelidade, suspirou Aislinn, olhando para a tua enorme, sobre a charneca. Se ele jurasse e dissesse que me ama, eu ficaria contente. 
Mesmo na avidez do seu desejo, ele  bom e justo, e aqui estou eu, presa a este corpo de mulher que incendeia todos os sentidos dele. Eu no pedi para ser possuda 
por ele, mas no posso culp-lo por ser o que . O que preciso fazer para ganhar seu favor se quando estou em seus braos no consigo sequer lutar contra ele? Seus 
beijos vencem toda a minha resistncia, e sou como uma haste de salgueiro na tempestade, dobrando ao sabor do vento. Ele se contenta em ter-me sempre s suas ordens,
em usar meu corpo para seu prazer, sem oferecer ou prometer nada em troca. Porm, eu quero mais.  verdade que ele no foi o primeiro que me possuiu, mas suas atenes 
certamente me concedem alguns direitos. No sou uma mulher da rua, para ser usada e abandonada. Ele precisa compreender isso. Tenho honra e orgulho. No posso ser 
sua amante para sempre, tendo para mim uma parte to pequena de sua vida.
    Tirou a roupa, deitou sob as mantas de pele e puxou para perto do rosto o travesseiro que guardava ainda o cheiro de Wulfgar. Apertou-o contra o peito, e quase 
podia sentir os msculos fortes sob suas mos, o calor de seus lbios nos dela.
    Eu o quero todo para mim, concluiu. No sei se o amo ou no, mas eu o desejo mais do que j desejei alguma coisa na vida. Mas devo agir com sabedoria. Devo resistir
com o limite mximo das minhas foras, sem despertar sua ira. E, se ceder por pouco que seja, eu lhe darei todo o amor que tenho, ou que posso roubar ou pedir emprestado. 
Ele no vai se arrepender.
    O dia nasceu claro e brilhante, e o trabalho comeou em Darkenwald. Depois do caf, Aisiinn saiu para cuidar dos doentes. Procurava evitar Gwyneth e sua lngua 
ferina o maior tempo possvel. No fim da tarde, o vigia gritou na torre, e Kerwick imediatamente a informou de que os cavaleiros usavam as cores de Wulfgar.
    Aisiinn correu para o quarto e penteou o cabelo, tranando-o com fitas. Passou uma toalha molhada com gua fria no rosto, para diminuir o rubor. Desceu para 
o salo e desapontada viu Sir Gowain entrar sozinho. Ele caminhou para ela, sorrindo, mas Gwyneth, deixando a tapearia que bordava, chamou-o imediatamente. O cavaleiro 
hesitou, pois queria falar primeiro com Aisiinn, mas, atendendo s boas maneiras, voltou-se para Gwyneth.
    -  O que me diz de Guilherme?-perguntou Gwyneth, ansiosa. - A Inglaterra j lhe pertence?
    -  Sim - disse Gowain. - Se tudo correr bem, o Duque ser coroado no Natal.
    Gwyneth respirou aliviada.
    -  Ento Darkenwald nos pertence.
    -  O meu senhor est bem?-perguntou Aisiinn, aproximando-se dos dois. - Por que ele no veio? Est ferido ou doente? - A voz traa o medo que sentia, e ela olhou 
atentamente para Gowain, procurando adivinhar o porqu de sua visita.
    -  Oh, no - garantiu o cavaleiro. - Ele est muito bem.
    -  Ento por que voc veio at aqui? - perguntou Gwyneth. - Deve ser uma misso muito importante.
    Gowain sorriu.
    -  Tem razo, minha senhora. Para Wulfgar,  um assunto muito urgente.
    -  Ento, do que se trata? - insistiu Gwyneth. - No nos faa esperar tanto.
    -  Estou aqui para levar... algum - disse ele, um pouco hesitante, lembrando o relacionamento tenso entre a irm de Wulfgar e Aisiinn.
    -  Levar algum? Quem?-perguntou Gwyneth, olhando atenta e pensativamente para ele. - Do que se trata? Da coroao? Wulfgar quer apresentar a famlia ao rei? 
Eu gostaria de ir, mas ele tem de me dar um vestido novo - mostrou a tnica cor de malva que vestia. - Isto no serve nem para dar comida aos porcos.
    Embaraado, Gowain pigarreou e olhou para Aisiinn. Complicara tudo com sua hesitao. Notou que a tnica que Gwyneth vestia era a mesma que ele lembrava ter 
visto em Aisiinn algumas vezes. Lembrava muito bem porque uma das vezes fora surpreendido por Milbourne em franca admirao pelo corpo e a graa de Aisiinn realados 
pelo vestido de tecido macio e linhas discretas. Milbourne zombou dele ento, por ousar desejar a mulher de Wulfgar. Olhou ento para o vestido que Aisiinn vestia 
e ficou chocado com a diferena. Compreendendo que Gwyneth roubara as roupas de Aisiinn, o primeiro impulso de Gowain, como bom cavaleiro, foi defender a jovem. 
Mas ficou calado. Era melhor no interferir nos problemas de Wulfgar. Alm disso, no era sensato entrar em briga de mulher.
    O cavaleiro pigarreou e disse:
    -  Lady Gwyneth, temo t-la levado a uma falsa concluso.
    -  Como? - Gwynedi ergueu os olhos para ele e viu que Gowain olhava para Aisiinn.
    Corando intensamente, ele disse:
    -  Tenho ordens de Lorde Wulfgar para levar Lady Aisiinn. A jovem Hlynn deve ir tambm, para servi-la.
    -  O qu? - Gwyneth levantou de um salto, quase gritando. - No est dizendo que Wulfgar arrisca sua posio junto a Guilherme, dormindo com esta ordinria bem 
debaixo do nariz do rei!
    Comeou a andar de um lado para o outro, na frente da lareira, muito agitada. Nesse momento Haylan entrou na sala, e Gwyneth olhou com desprezo para o jovem 
cavaleiro.
    -  Sir Gowain, certamente deve ter entendido mal. Ele no o ter mandado levar outra pessoa?
    O normando balanou a cabea.
    -  No. Wulfgar quer que eu leve para ele Aisiinn de Darkenwald. E recomendou que me apressasse. Portanto, devemos partir amanh. - Ignorando a fria de Gwyneth 
e o espanto de Haylan, voltou-se para Aislinn, que sorria, satisfeita.
    -  Pode estar preparada para viajar amanh cedo, damoisette?
    -  Certamente, Sir Gowain - disse Aislinn, com os olhos brilhando de felicidade, fazendo-o quase perder o flego quando apertou calorosamente sua mo.-Na verdade, 
no tenho muito para preparar. No vai ser trabalho algum.
    -  Ento, damoiselle, estou s suas ordens.
    Com uma curvatura, Gowain saiu do solar, sentindo que precisava do ar frio para refrescar seu sangue. Teria de ficar longe daquela mulher na viagem para Londres. 
Do contrrio, podia perder o controle e ofender a ela e a Wulfgar.
   Captulo Quatorze
   
   
    
    O PEQUENO GRUPO saiu de Darkenwald  primeira luz do dia. Seguiram para o norte, depois para oeste e outra vez norte, a caminho de Londres, passando pelo local 
do ataque fracassado do Prncipe Edgar ao exrcito de Guilherme. Atravessaram em silncio a cidade arrasada de Southwark, onde algumas casas ardiam ainda e saxes 
desabrigados procuravam tesouros perdidos no meio dos destroos calcinados e da neve. Havia desespero em seus olhos e dio quando viam o cavaleiro normando. Porm, 
conheciam a extenso da ira de Guilherme, e ficaram imveis at o grupo desaparecer.
    Com Gowain na frente, cruzaram a Ponte de Southwark e entraram em Londres no dia de Natal, abrindo caminho com dificuldade entre a multido. O povo parecia enlouquecido, 
e os homens, confusos e frustrados, erguiam suas taas numa saudao zombeteira a Guilherme, o Bastardo.
    Aproximaram-se de Westminster, onde a aglomerao era maior, e os homens de Gowain tiveram de abrir caminho com as lanas em riste. Na praa, at os cavalos 
grandes e fortes eram empurrados de um lado para o outro pela massa de povo. Os homens a cavalo praguejavam ameaas inutilmente, e o grupo avanava passo a passo. 
Gowain olhou para trs, para Aislinn, que montava um cavalo menor
    
    
    
    
    do que os outros. Com a cabea coberta pelo capuz da capa, ela no demonstrava medo ou pnico e segurava as rdeas com mos firmes. Ento, de repente, labaredas 
se ergueram  frente, e enquanto o povo recuava assustado, um grupo de cavaleiros normandos foi atira-do sobre eles. Aislinn esforou-se para se manter na sela, 
mas sua montaria tropeou e cambaleou com o impacto de um cavalo enorme que a atirou contra a parede. Aislinn sentiu que seu animal, mais fraco, comeava a cair 
sob o peso do outro, e percebeu o perigo de ser lanada para fora da sela, sob as patas dos cavalos.
    Wulfgar levantou cedo e vestiu sua melhor roupa para a coroao Guilherme. Com alguma relutncia, trocou a espada por um pequeno punhal no cinto. Seu traje era 
todo negro e vermelho, com debruns
    dourados, e realava os ombros fortes e a pele bronzeada. Os olhos cinzentos e o cabelo queimado de sol pareciam muito claros, contras tando com a roupa.
    Ao sair da casa, deu ordens a Milbourne e a Beaufonte para mandar encilhar Huno e deix-lo preparado com sua espada no suporte dianteiro da sela. Se houvesse 
algum imprevisto, eles deviam levar Huno para a frente de Westminster.  medida que se aproximava o momento da coroao, Guilherme temia uma revolta do povo e queria 
que seus homens estivessem alerta.
    Wulfgar entrou e parou ao lado da porta principal da catedral. Viu Guilherme curvar a cabea na frente do Bispo normando. Seguiu-se a cerimnia inglesa, lenta 
e com muita pompa. Acoroa foi posta em sua cabea, e os brados dos ingleses de "Salve Guilherme" ecoavam por ioda a abadia. Wulfgar respirou aliviado. Para aquele 
momento eles tinham lutado. Guilherme, Duque da Normandia, acabava de ser proclamado Rei da Inglaterra.
    De repente ouviu gritos furiosos l fora, e Wulfgar chegou at porta para investigar. A fumaa subia do alto de um telhado, e grupos de saxes tentavam evitar 
a passagem dos soldados normandos que carregavam tochas acesas. Wulfgar saiu da igreja e perguntou ao normando mais prximo:
    -  O que est acontecendo?
    O homem olhou para ele, atnito.
    -  Ouvimos gritos dos ingleses na catedral. Eles atacaram Guilherme.
    Wulfgar explicou, aborrecido.
    -  No foi nada disso, seus idiotas! Eles apenas o saudaram. - Apontou para os soldados com as tochas. - Detenha aqueles homens, antes que incendeiem toda Londres.
    Milbourne chegou montado, puxando Huno. Wulfgar saltou para a sela e avanou abrindo caminho entre o povo para deter os normandos. Com a espada, tirou as tochas 
das mos deles e, gritando que no havia qualquer perigo, finalmente os deteve. Mas outros, mais adiante, continuavam. De repente as labaredas saltaram de uma loja 
em chamas, e o povo, recuando apavorado, empurrou Wulfgar e Huno de encontro  parede, sobre outro grupo de normandos. Huno chocou-se com um cavalo menor, e Wulfgar 
procurou cont-lo. O outro animal dobrou as pernas dianteiras, e um grito de mulher alertou Wulfgar. Inclinando-se para o lado, na sela, ele estendeu o brao e tirou 
a mulher envolta no manto e no capuz, no momento exato em que a montaria dela caa de lado. O capuz escorregou quando Wulfgar sentou a mulher na sua frente, e ele 
viu os cabelos cor de cobre e sentiu o perfume de lavanda.
    -  Aislinn - murmurou ele, certo de que estava sonhando outra vez.
    Ela virou para trs, e os olhos cor de violeta encontraram os dele.
    -  Wulfgar?
    No, dessa vez no era iluso. Contendo a vontade de beij-la, de abra-la com fora para matar as saudades, ele perguntou:
    -  Voc est bem?
    Aislinn balanou a cabea afirmativamente, e ele apertou-a contra o peito. Wulfgar olhou em volta e viu Gowain abrindo caminho para salvar a montaria de Aislinn 
antes que o animal fosse pisoteado pelos outros, maiores. Quando viu Wulfgar, um largo sorriso iluminou o rosto do jovem cavaleiro, no meio de todo aquele tumulto.
    -  Meu senhor, suas ordens eram para traz-la depressa, e foi o que eu fiz, diretamente para o seu colo.
    Wulfgar retribuiu o sorriso.
    -  Tem razo, Gowain. Agora, vamos levar a senhora para um lugar seguro.
    Antes que pudessem avanar com seus cavalos, um homem forte, com barba compridae trajes de capons, brandiu o punho fechado para eles.
    -  Porcos normandos! -e um repolho atingiu atesta de Wulfgar. O normando ergueu o brao para proteger Aislinn, e seus homens
 entraram em formao de combate em volta deles. Aislinn, agarrada  cintura de Wulfgar, inclinou-se para ver melhor o ingls zangado.
    -  No tenha medo, chrie - riu Wulfgar. - Tero de nos matar antes de lhe fazer mal.
    -  Eu no tenho medo-disse Aislinn. - Por que iam me fazer
    mal? Eu sou inglesa.
    Com uma risada, Wulfgar respondeu:
    -  Acha que vo se importar com isso, estando voc conosco? A segurana de Aislinn desapareceu quando o homem gritou:
    -  Prostituta normanda, que dorme com o porco! Que suas orelhas cresam como as de um asno e seu nariz fique cheio de verrugas como um sapo!
    O homem coroou a praga atirando um legume na direo da cabea dela, mas Wulfgar, com o brao, o desviou.
    -  Est satisfeita agora, mulher corajosa?-perguntou Wulfgar, erguendo uma sobrancelha.
    Aislinn engoliu em seco e fez um gesto afirmativo. Wulfgar esporeou Huno e partiu, acompanhado por Gowain, Hlynn e o pequeno grupo de homens. Seguiram atrs 
de um muro de cavalos enormes at chegarem  entrada de uma rua estreita que levava  casa do comerciante. Wulfgar desmontou na frente da casa e disse para Gowain:
    -  Leve a senhora aos nossos aposentos. Verifique se ela est em segurana e vigiem para que ningum tente incendiar a casa.
    Antes de entreg-la a Sir Gowain, Wulfgar levantou o rosto dela e a beijou, um beijo ardente e breve que a deixou atordoada. Erguendo-a da sela, entregou-a ao 
outro cavaleiro e, com um ltimo olhar para os cabelos longos e vermelhos e para os olhos cor de violeta, fez Huno dar meia-volta, retomando para o lugar de onde 
viera- Gowain levou Aislinn para dentro e, fechando a porta, deixou alguns homens de sentinela para deter os incendirios enquanto Wulfgar tentava acalmar os saxes 
e os normandos. Finalmente, os brados de revolta se transformaram num vozerio alegre, e a cidade entregou-se s comemoraes do Natal, se no  coroao do novo 
rei. Ansioso para voltar para Aislinn, Wulfgar via-se levado pelo dever cada vez para mais longe. Quando, tarde da noite, ele, Milbourne e Beaufonte tomaram afinal 
o caminho de casa, Wulfgar respirou aliviado, mas compreendeu que seu tempo no lhe pertencia inteiramente ainda, pois os trs foram levados, quase  fora, para 
uma festa de normandos nobres. Protestaram a princpio, mas cederam quando um dos homens que os convidavam observou:
    -  Na verdade, meu bom cavaleiro, devia sentir-se honrado, como soldado de Guilherme.
    Wulfgar olhou para Milboume, que deu de ombros.
    -  Parece que no tem sada, meu senhor - murmurou ele, aproximando-se de Wulfgar. - Podem se ofender se no comemorar a coroao do Duque.
    -  Voc tem razo,  claro, mas isso no alivia o sofrimento. Beaufonte sorriu.
    -  Meu senhor, por que no diz a eles que a jovem mais bela de toda a cristandade o espera? Talvez desistam.
    -  Sim - resmungou Wulfgar -, e talvez me sigam at a casa para ver se  verdade.
    Assim, os trs cavaleiros comeram, beberam e festejaram, e ouviram constrangidos as histrias exageradas e bastante enfeitadas dos feitos dos anfitries. A festa 
ficou mais animada quando apareceu um grupo de artistas contratados para a ocasio, e o desconforto de Wulfgar aumentou quando uma sax muito bem-dotada saltou para 
seu colo e puxou a cabea dele para seus seios, at quase sufoc-lo com seu perfume almiscarado. Os outros riam, vendo seus esforos para se libertar, e o incentivavam 
a aproveitar a oportunidade.
    -  No vai encontrar outra melhor esta noite-disse um conde. - E aposto que vai ser uma cavalgada macia.
    Milbourne e Beaufonte riam  socapa, enquanto Wulfgar declinava do oferecimento. Quando finalmente puderam sair, Wulfgar resmungou furioso ao ver a primeira
luz da madrugada acima dos telhados. Mas,  medida que se aproximavam da manso do comerciante, seu humor melhorou e seu esprito ficou mais leve. Deixaram os cavalos 
no estbulo e entraram. Milbourne e Beaufonte ficaram no primeiro andar, e Wulfgar subiu para o terceiro, de trs em trs degraus, com as botas novas de couro fino 
cantando sua pressa a cada passo.
    Seu corao batia forte no peito. Esperava encontrar Aislinn dormindo ainda ou comeando a acordar. Mas, quando abriu a porta, surpreso e desapontado, viu-a 
sentada, envolta num manto de seda, enquanto Hlynn prendia seu cabelo no alto da cabea, preparando-a para o banho na grande banheira de madeira, cheia de gua quente, 
junto ao fogo. Wulfgar encostou na porta fechada e Aislinn voltou-se para ele, enquanto Hlynn recuava, timidamente.
    -  Bom dia, monseigneur - sorriu Aislinn. Os olhos cor de violeta cintilaram. - Eu comeava a temer por seu bem-estar.
    Em sua lembrana, jamais ele a visualizara em toda a sua beleza. Ele tirou a capa dos ombros.
    -  Peo perdo, chrie - disse, com um largo sorriso. - Eu teria vindo mais cedo se no fosse detido por vrias circunstncias. Espero que no esteja aborrecida 
comigo.
    -  Nem um pouco - disse ela, inclinando a cabea para que Hlynn continuasse seu trabalho. - Sei que tem deveres para cumprir, e no pensaria em se afastar deles 
por causa da minha presena. - Olhou para ele atentamente. - Apenas envia vivas para morar comigo.
    Aislinn o observou com ateno quando Wulfgar se aproximou da banheira e molhou o rosto e o cabelo. Depois, puxou uma cadeira e sentou, muito perto dela, apoiando
o p no banco em que Aislinn estava sentada, devorando-a com o olhar. Aislinn sentia a proximidade dele em cada fibra de seu corpo, e sua imaginao disparou. A 
lembrana das carcias passadas fez o sangue subir-lhe ao rosto. Num esforo de vontade, procurou afastar esses pensamentos.
    -  Espero que o descontentamento demonstrado pelo povo com a coroao do seu Duque tenha se desfeito.
    -  No passou de um mal-entendido.
    -  Ento, ao que parece, o pas est em paz, pois no tivemos nenhum problema na nossa viagem. - Fez uma pausa e acrescentou com voz um tanto seca: - Os ingleses 
foram duramente dominados.
    Wulfgar resmungou alguma coisa ininteligvel e procurou descansar a mente olhando para os belos cabelos vermelhos, presos no alto da cabea. Inclinou-se para 
a frente para beijar aquela nuca tentadora e tom-la nos braos, mas Aislinn levantou do banco e caminhou para a banheira, dizendo:
    -  O tempo tambm estava muito bom. Viajamos rapidamente. Gowain parecia ansioso para chegar.
    Wulfgar sorriu e recostou na cadeira, antecipando a viso do belo corpo quando ela tirasse o manto de seda para entrar no banho, Franziu a testa quando Hlynn 
segurou o manto bem alto na frente dela, e s o abaixou quando Aislinn j estava sentada, s com a cabea visvel
    acima da borda da banheira. Era um belo rosto, mas Wulfgar queria mais.
    Hlynn ofereceu a bandeja com sabonetes e perfumes, e Aislinn escolheu seu favorito, lavanda, um perfume suave que lembrava a frescura da brisa matinal. Wulfgar 
levantou da cadeira, batendo com os ps no cho, irritado com a demora daqueles preparativos.
    As duas mulheres sobressaltaram-se, e Wulfgar, olhando fixamente para Hlynn, tirou o cinto com a espada, depois a tnica curta, arrumando tudo sobre a cadeira. 
Em seguida, tirou a camisa, que dobrou cuidadosamente, e Hlynn arregalou os olhos, apavorada, para o peito nu. Quando Wulfgar comeou a tirar as jarreteiras, Hlynn 
compreendeu o que ele ia fazer e saiu correndo do quarto. Aislinn no conseguiu conter o riso quando ele sentou na banqueta ao lado da banheira.
    -  Oh, que maldade, Wulfgar. Voc assustou a moa. Ele sorriu.
    -  Era essa a rainha inteno, chrie. Aislinn arregalou os olhos, com espanto fingido.
    -  Quando eu era pequena, minha me me ensinou que aventureiros rudes e odiosos poderiam querer tirar vantagem da minha pessoa, mas nunca pensei que eles existissem 
de verdade.
    -  E agora? - perguntou Wulfgar.
    -  Ora, meu senhor - disse ela, com um olhar malicioso -, agora, no tenho nenhuma dvida.
    Rindo, Wulfgar comeou a ensaboar os ombros e os braos de Aislinn com o fino sabonete que comprara especialmente para ela e pelo qual pagara um bom preo. Mas 
agora decidiu que fora um dinheiro muito bem gasto. Olhou para onde a gua rodopiava levemente, escondendo os seios rosados.
    Quando, com a ponta do dedo, ele delineou delicadamente a base de seu pescoo, Aislinn sentiu um formigamento por todo o corpo. Wulfgar se inclinou para beij-la, 
mas ela, assustada com a prpria reao ao seu contato, comeou a ensaboar o rosto.
    -  Ah, mulher, as chamas das lareiras neste inverno no aqueceram seu corao - murmurou ele.
    Aislinn sorriu, atrs do esfrego com que cobria o rosto, sentindo-se vitoriosa por um momento. Sabia agora que sua vontade era fraca demais para resistir s 
carcias dele. Tirou a toalha do rosto, arregalou os olhos, e com um grito comeou a se levantar para fugir quando Wulfgar, completamente despido, entrou na banheira. 
Rindo, Wulfgar mergulhou na gua morna e, abraando-a com fora, a fez deitar em cima dele.
    -  Passei o dia e a noite resolvendo problemas tolos e infindveis - sorriu ele. - Agora, quero tratar de assuntos mais importantes.
    Seus lbios famintos procuraram os dela, e Aislinn relaxou o corpo, pondo a mo na nuca dele e correspondendo ardentemente ao beijo. Ento, de repente, afastou-se 
com um grito indignado e os olhos chispando de raiva. Antes que Wulfgar tivesse tempo de fazer um movimento, a toalha com gua e sabo cobriu seu rosto, e Aislinn 
empurrou a cabea dele para o fundo. Apoiando um p no peito dele, saltou para fora da banheira. Wulfgar sentou, tirando a espuma dos olhos e da boca. Quando conseguiu 
enxergar de novo, Aislinn estava de p, envolta no roupo de seda, olhando para ele, furiosa.
    -  Deveres! Hah! - seus lbios tremiam de raiva. - Sinto ainda o fedor da prostituta no seu corpo. Na verdade, est cheirando mais a uma mulher da rua do que 
a um cavaleiro normando.
    Wulfgar olhou para ela, surpreso, mas ento lembrou dos seios pesados contra seu rosto e do perfume levemente almiscarado da mulher.
    Aislinn comeou a se enxugar, sem perceber que a toalha fina e molhada revelava mais do que cobria seu corpo. Wulfgar recostou na banheira, deliciando-se com 
o espetculo, e tratou de se ensaboar vigorosamente para retirar todo o perfume revelador. Enquanto enxa-guava a espuma do corpo, observava o esforo de Aislinn 
para segurar a toalha e ao mesmo tempo vestir a combinao. Quando ela estava quase conseguindo, Wulfgar disse, com voz suave, mas imperiosa:
    -  No, meu amor.
    Furiosa, Aislinn olhou para ele, e Wulfgar com um gesto indicou a cama. Ela bateu com o p no cho com um gemido de protesto.
    -  Mas  de manh e eu dormi muito bem esta noite. Ele riu.
    -  No estou pensando em dormir.
    Wulfgar saiu da banheira e apanhou uma toalha. Com um grito assustado, Aislinn tentou fugir, mas braos fortes a enlaaram e a ergueram do cho. Por um momento 
ficaram imveis, olhos nos olhos, completamente dominados pelo desejo intenso. Ento ele a levou para a cama e a atirou sobre as cobertas. O roupo se abriu. Aislinn 
procurou se cobrir com os cobertores, mas Wulfgar a impediu. Deitando-se ao
    lado dela, Wulfgar a acariciou e a beijou, longae ternamente. Libertou os cabelos cor de cobre das fitas que o prendiam e encostou o rosto neles, aspirando o 
perfume leve e fresco.
    Ouviram uma batida leve mas persistente na porta e a voz de Hlynn, ansiosa:
    -  Senhora? A senhora est bem? Eu trouxe seu caf da manh. Hlynn parou, petrificada, quando a porta se abriu com violncia e Wulfgar apareceu em todo o esplendor 
de sua nudez. A bandeja foi tirada de suas mos e a porta bateu antes que ela pudesse fazer um movimento. Wulfgar, com a bandeja nas mos, parou para ouvir os passos 
rpidos no corredor, o rudo distante de uma porta se fechando e depois da tranca sendo encaixada nos suportes. Com um suspiro de alvio, ele ps a bandeja na mesa 
ao lado da cama. Aislinn estava deitada com as cobertas puxadas at o queixo. Quando Wulfgar se inclinou para a cama, com um sorriso hesitante ela ps a mo no peito 
dele.
    -  Wulfgar, espere - pediu ela. - Vamos comer agora.
    Ele balanou a cabea e, deitando ao lado dela, tomou-a nos braos.
    -  Cada coisa a seu tempo, chrie - murmurou no ouvido dela. - Cada coisa a seu tempo.
    Wulfgar abafou seus protestos com tanta habilidade que em poucos instantes Aislinn esqueceu completamente a fome. As carcias ardentes enfraqueciam sua resistncia. 
Num ltimo esforo, tentou lutar contra ele, mas cedeu completamente quando Wufgar deitou sobre seu corpo, despertando desejos que ela nem sabia que existiam. As 
noites frias, a solido, os sonhos eram como lenha na fogueira de sua paixo. Os beijos escaldantes a incendiavam. Ouviu a voz dele junto ao seu ouvido, rouca e 
indistinta, mas com uma urgncia que traa a intensidade de seu desejo. Como uma fagulha acesa dentro dela, a paixo cresceu, at dominar todo seu corpo e seus sentidos. 
Milhares de sis explodiram, espalhando seu calor por suas veias e sua carne. Com uma exclamao abafada, Aislinn ergueu o corpo num arco contra o dele. Ento, lentamente 
relaxou, quando os lbios dele procuraram os seus, e ela se dissolveu numa corrente de prazer, conhecendo pela primeira vez a completa extenso do amor.
    Aislinn voltou lentamente do xtase, furiosa com a prpria fraqueza. Qual a diferena entre ela e as outras mulheres que ele possura antes? No passava de argila 
macia nas mos dele, incapaz de manter a dignidade e o orgulho, sem coragem para resistir  menor carcia. Wulfgar, abraado a ela, passava os dedos de leve entre 
seus cabelos. Aislinn afastou-se bruscamente, com um soluo.
    -  Aislinn? - indagou, atnito.
    Wulfgar sentou na cama e estendeu o brao para ela, mas Aislinn balanou a cabea vigorosamente. Intrigado, ele abaixou a mo. Deitada de lado, segurando as 
cobertas contra o peito, Aislinn tremia e chorava.
    -  Eu a machuquei? - perguntou ele, docemente.
    -  No  nada disso - murmurou ela.
    -  Voc no chorava assim, antes da minha partida. O que aconteceu? - Inclinou-se, afastando o cabelo do rosto dela. - Diga, o que foi?
    Ela balanou a cabea outra vez e, por mais que ele insistisse, s tinha como resposta novas crises de choro. Wulfgar deitou novamente, com um suspiro, compreendendo 
cada vez menos as mulheres. Sabia que Aislinn acabava de experimentar o prazer completo, mas agora chorava como se tivesse passado por um sofrimento horrvel. Depois 
de algum tempo ela se acalmou e o cansao finalmente o venceu, apagando os problemas de sua mente com a bno do sono.
    Aislinn sentou cautelosamente na cama e enxugou as lgrimas, ouvindo a respirao calma e regular do homem ao seu lado. Abraando os joelhos dobrados contra 
o peito, ela o observou como se quisesse gravar na memria o menor detalhe daquele rosto e daquele corpo. O fato de no conseguir dominar a prpria paixo, quando 
Wulfgar no dava a menor demonstrao de am-la, a preocupava e irritava. Seu corpo obedecia mais a ele do que a ela, e somente quando ele dormia, exausto, como 
agora, Aislinn tinha a sensao de ter alguma vantagem. Riu com amargura. Ora, se quisesse, podia at beijar aquela bela boca sem que os lbios se curvassem num 
sorriso zombeteiro.
    Continuou a observar, fascinada. O cabelo escuro precisava ser cortado, mas nem por isso deixava de ser magnfico. Certos homens, como Gowain, tinham traos 
to delicados e bem-feitos que quase podiam ser considerados bonitos. Mas no Wulfgar. O rosto de linhas fortes e rudes era mais atraente e mais perfeito do que 
qualquer outro.
    Aliviada, notou a ausncia de ferimentos e viu que o da perna, tratado por ela, era agora apenas uma cicatriz avermelhada. Aislinn o cobriu com o cobertor, protegendo-o 
contra o frio da noite, e saiu da cama. Vestiu-se, franzindo a testa para o estado lamentvel da tnica
    que estaria usando quando ele acordasse. Ela embrulhara as pressas o veludo amarelo mandado por ele, mas no tivera tempo ainda de fazer o vestido. No podia 
fazer nada agora e no adiantava maldizer Gwyneth por obrig-la a esconder suas coisas. Trataria de fazer o melhor possvel com o que tinha  mo. Comeou a pentear 
o cabelo, pensando que era a nica coisa que Gwyneth no podia roubar e lembrando as muitas vezes que Wulfgar ficava sentado, olhando para ela, enquanto se penteava.
    Pensando naquele olhar, Aislinn corou, e seu corpo estremeceu como se estivesse nos braos dele. Ficou de p ao lado da cama, observando-o outra vez. Parecia 
impossvel no corresponder quela paixo. Se ao menos pudesse controlar o prazer que a envolvera! Contudo agora, depois de saber do quanto seu corpo era capaz, 
era muito mais difcil resistir ou permanecer passiva. Sua mente turvava imaginando como seria se...
    Aborrecida com aquele devaneio infindvel, Aislinn comeou a andar pelo quarto, admirando a riqueza da decorao. Quando chegou perto da cadeira onde estava 
a roupa de Wulfgar, cuidadosamente dobrada, ela sorriu. O normando no tinha muitos trajes, mas os poucos que possua eram escolhidos por sua qualidade e durabilidade. 
A pea mais insignificante era tratada com toda a ateno. Nada era jogado descuidadamente ou amassado. Wulfgar no era indulgente nem extravagante. Talvez por se 
ter feito sozinho, partindo do nada, sabia o valor da frugalidade. No era excessivamente generoso, e o presente do veludo amarelo era sem dvida uma exceo em 
seu comportamento. Talvez ele sentisse alguma coisa por ela, afinal. Ah, ser que ela chegaria a conhecer seus sentimentos?
    Wulfgar dormiu pouco e a manh mal comeara quando se levantou, lavou o rosto, calou as meias e vestiu a camisa, observando Aislinn, que costurava uma de suas 
camisas. Ela corou, e seus dedos tremeram. Quando ele acabou de se vestir, ela ficou mais calma e o fez sentar numa banqueta. Com uma lmina afiada, gua morna e 
um dos seus preciosos sabonetes, ela o barbeou e aparou o cabelo queimado de sol. Com um suspiro, Wulfgar olhou para ela.
    -  Senti muita falta dos seus talentos, Aislinn - sorriu ele. - Sanhurst substitui a barba por cicatrizes.
    Aislinn riu, afastando a mo dele.
    -  Ora, meu senhor, se eu no servir para nada mais, posso ser seu lacaio.
    -  No quero nem pensar num lacaio com um corpo to tentador - suspirou e sorriu. - Mas, pensando bem, no  m ideia.
    -  Ah! - exclamou ela, encostando a ponta da lmina no rosto dele. - Tenho certeza de que Sanhurst ia protestar se fosse to usado quanto eu sou, e to mal pago. 
Sem dvida ia cortar sua garganta. - Cortou uma ponta do cabelo dele e jogou no fogo.
    -  Cuidado com essa lmina, mulher. No quero ficar como os brbaros do sul, com um tufo de cabelo no meio da cabea raspada.
    -  Seria bem-feito se eu resolvesse raspar essa crina - disse Aislinn. Cobriu o rosto dele com atoalha mida e segurou-a por algum tempo, ignorando o esforo 
dele para se livrar. - Talvez assim eu no tivesse vivas batendo na porta do meu quarto.
    A resposta de Wulfgar perdeu-se nas dobras da toalha. Quando finalmente ela a retirou, com o rosto muito vermelho, ele disse:
    -  Acho melhor eu me conformar com Sanhurst.
    A risada musical de Aislinn ecoou no quarto e, afastando-se, ela segurou a saia para uma profunda curvatura.
    -  Como quiser, senhor. Sou sua escrava e devo obedecer.
    -  Acho bom - disse ele, bem-humorado.
    Enquanto vestia a tnica, Wulfgar notou o estado precrio dos trajes de Aislinn.
    -  Eu gostaria de v-la com o vestido de veludo amarelo, Aislinn.  um tecido claro e alegre, e acho que combina bem com sua pele.
    Aislinn passou a mo na tnica muito usada.
    -  No tive tempo de fazer o vestido quando Gowain chegou, e antes disso eu escondi o tecido.
    -  Acho que est ficando igual a uma velha miservel, Aislinn. Mas no tem nada melhor para vestir?-Levantou a ponta do manto dependurado e fez uma careta. - 
Se no me engano, vi coisas muito melhores na sua arca. - Olhou para ela. - Est querendo me comover com sua pobreza?
    Muito corada e ofendida, Aislinn balanou a cabea.
    -  No. Acontece que havia outras pessoas em Darkenwald que precisavam mais do que eu. No estou me queixando, mas com meus parcos meios no posso comprar outras 
roupas.
    Wulfgar franziu a testa, mas Aislinn retirou de sua pequena bagagem o tecido de veludo amarelo.
    -  Veja, eu trouxe o tecido, e posso fazer um belo vestido em poucos dias, Wulfgar.
    Aborrecido com o estado do que ela vestia, ele a tomou pelo brao e desceram para a sala. Assim que ela sentou, Hlynn serviu a mesa, olhando hesitante para Wulfgar 
e corando intensamente. Sanhurst levantou ligeiramente quando eles entraram e depois voltou ao trabalho de polir a armadura, a espada e o elmo. Quando tentava fazer 
desaparecer do elmo a marca da pancada, ele olhou de soslaio para o normando. Aislinn percebeu que a barba do jovem fora raspada h pouco tempo e seu cabelo cortado.
    Wulfgar sorriu, acompanhando o olhar dela.
    -  Sanhurst - disse ele, respondendo  pergunta no-enunciada. Aislinn estranhou a expresso preocupada do homem.
    -  Parece que voc o treinou muito bem. Wulfgar resmungou:
    -  Eu lhe dei mais crdito do que ele merecia. A punio foi justa.
    -  Outro saxo sob seus ps, meu senhor?
    Uma centelha de fria brilhou nos olhos do cavaleiro normando.
    -  Aislinn, vai defender este idiota? Danao! Est sempre protegendo qualquer aventureiro e ignorante desajeitado, desde que seja saxo.
    Ela arregalou os olhos, com fingida inocncia.
    -  Ora, Wufgar, para que precisam de minha proteo quando os senhores so normandos to finos e compreensivos?
    Wulfgar rilhou os dentes, procurando se controlar.
    -  Voc tenta a pacincia at de um santo, mulher. Mas devo levar em considerao que, como sax, tem de ser parcial.
    Aislinn deu de ombros.
    -  Tudo que quero  justia, nada mais.
    -  Sempre partindo do princpio de que sou injusto - disse Wulfgar. - Pergunte a Sir Milbourne se fui injusto quando este cabea-oca fugiu da luta, em vez de 
proteger minha retaguarda. Eu apenas o reduzi de soldado a lacaio, e foi bem merecido.
    Aislinn franziu a testa, preocupada.
    -  Voc foi atacado, Wulfgar? No me contou. No vi nenhuma cicatriz...
    Parou de falar, muito corada quando percebeu que, alm de Wulfgar, todos que estavam na sala, incluindo vrios criados, olhavam para ela com interesse.
    -  Quero dizer-gaguejou, confusa. - Voc no mencionou... Wulfgar deu uma gargalhada e murmurou junto ao ouvido dela.
    -  No me aborrece sua preocupao comigo, chrie.  igual  que tenho por voc.
    Aislinn abaixou a cabea para no ver a zombaria nos olhos dele e esconder a vergonha que sentia. Wulfgar ps a mo sobre as dela, cruzadas no colo.
    -  No precisa ficar embaraada, Aislinn - sorriu ele. - Todos sabem de sua habilidade para curar ferimentos, e pensam que  isso que faz para mim.
    Ela ergueu os olhos e viu o sorriso carinhoso de Wulfgar.
    -  S eu sei a verdade.
    -  Oh? - Aislinn sorriu, erguendo uma sobrancelha. - Voc seria o ltimo a saber.
    Gowain entrou na sala e sentou ao lado de seu chefe. Wulfgar comeou a perguntar sobre Darkenwald e sobre Sweyn, e o jovem cavaleiro, tomando um copo de vinho, 
ouvia atentamente as respostas de Aislinn. De repente, ele levou o copo ao nariz, cheirou a bebida e franziu a testa, intrigado. Olhou para Wulfgar, para a sala, 
outra vez para Wulfgar, tantas e tantas vezes que o cavaleiro finalmente pergun-tou:
    -  O que est acontecendo, Gowain? Ser que de repente apare-ceram chifres na minha testa ou voc est perdendo o juzo?
    -  Peo que me perdoe, Wulfgar-disse Gowain, rapidamente. -No pude deixar de notar. - O jovem franziu os lbios pensativamente. -Porm... acho que o perfume 
de lavanda no combina muito com o senhor.
    Wulfgar ergueu as sobrancelhas, e Aislinn abafou o riso, cobrindo a boca com a mo. Logo Wulfgarpercebeu a brincadeira e riu tambm.
    -  Quando voc tiver idade para se barbear, rapaz, vou me lembrar de suas palavras.
    Depois de um momento, Sir Gowain inclinou-se e falou no ouvido de Wulfgar.
    -  Meu senhor - murmurou ele. - Aquilo que o senhor procurava est no estbulo. Quer v-la agora?
    Notando um leve movimento ao seu lado, Gowain voltou-se e viu que Aislinn os observava com a testa franzida. Wulfgar a tranquilizou.
    -  No  nada para se preocupar, Aislinn, apenas uma compra que fiz. Volto num instante.
    Antes de se levantar, apertou a mo dela, mas Aislinn continuou preocupada.
    No estbulo os esperava um comerciante com uma gua com a cor e porte que Wulfgar encomendara. Ele passou as mos nos flancos do animal, sentindo a fora dos 
msculos, examinou as pernas e os cascos. Seu plo era malhado, escuro, quase azul, e cinzento nas partes mais claras. A testa era cinzenta, e o focinho escuro, 
a cabea bem-feita. Embora de sangue oriental, tinha a pequena estatura caracterstica dos cavalos ingleses. Seria tima procriadora, mas ia servir tambm para outros 
fins.
    Wulfgar inclinou a cabea para Gowain e se afastou um pouco. O vendedor contou avidamente o dinheiro e depois entregou um papel onde estava anotado o pedigree 
do belo animal. O homem saiu, e os dois cavaleiros voltaram a admirar a gua.
    -   uma bela montaria. A senhora vai ficar satisfeita - disse Gowain.
    -  Sim-concordou Wulfgar.-Mas no diga nada aela ainda. Quando voltaram para a casa, mais tranquila com o sorriso de
    Wulfgar, Aislinn ps a mo no brao dele e disse:
    -  Nunca estive nesta bela Londres, Wulfgar, e estou ansiosa para conhecer a cidade. Posso sair um pouco esta tarde e - ela hesitou, muito corada, mas para fazer 
o vestido ia precisar de linha e acabamentos, e s podia comprar se Wulfgar lhe desse o dinheiro-talvez comprar uma ou outra coisa.
    Wulfgar franziu a testa, e Aislinn corou quando ele examinou a roupa que ela vestia com expresso de desagrado. Sentiu um aperto no corao e na garganta quando 
ele disse:
    -  No. No  um bom momento para andar na rua sozinha. No tenho tempo e no posso mandar nenhum dos meus homens acompanh-la porque esto todos muito ocupados. 
 melhor passar o dia dentro de casa e esperar que eu tenha tempo.
    Aislinn inclinou a cabea, desapontada, e desviou os olhos quando a oferta de Sir Gowain para acompanh-la foi recusada. Wulfgar ps a capa nos ombros e foi 
para o estbulo. Depois de mandar Hlynn e Sanhurst limpar e arrumar o salo, ela subiu para o quarto. Estava arrumando as poucas coisas que possua quando ouviu 
Wulfgar partir montado em Huno. Aislinn sentou no banco na frente da janela, pensando em como ele podia us-la daquele modo, contra sua vontade, e depois afast-la 
completamente de sua vida.
    O sol estava a pino, mas uma nvoa pesada cobria a cidade, formada pela fumaa dos fogos acesos para a refeio do meio-dia.
    
    Aislinn estendeu o tecido amarelo sobre a cama e comeou a cortar o vestido. Sem os acabamentos, ficaria um tanto simples demais, mas Aislinn confiava na sua 
habilidade com a agulha e tinha certeza de poder fazer um belo vestido se encontrasse linha.
    Ouviu vozes no salo e imaginou que deviam ser dos homens que voltavam para o almoo. Ento, os passos de Hlynn soaram na escada, e ela bateu com fora na porta. 
Aislinn abriu e recuou espantada. Uma fila de pessoas entrou no quarto, atrs de Hlynn. A moa deu de ombros e riu inocentemente, estendendo as mos com as palmas 
para cima, como se no soubessse nada sobre aquela invaso.
    Aislinn viu criados carregando peas de tecidos; veludos e sedas, linho e algodo; mulheres com tesouras, linha, acabamentos e peles. Atrs deles, entrou um 
alfaiate esbelto que a cumprimentou com uma profunda curvatura e pediu que ela subisse numa banqueta para tirar as medidas. O alfaiate comeou a medir, fazendo ns 
numa corda fina, enquanto dava instrues para as costureiras. Aislinn s conseguiu det-los quando chegaram ao veludo amarelo estendido na cama. Ento, sentou ao 
lado do alfaiate e ele comeou a desenhar o vestido especial que ela descrevia, com mangas longas e largas, corpete justo, decotado, deixando  mostra a combinao 
de seda amarelo-plida. Escolheu uma trana dourada para o acabamento e certificou-se de que seria feito com o maior capricho e cuidado.
    Todos comearam a trabalhar ativamente, as mulheres cortando e costurando e os criados estendendo os tecidos e apanhando os pedaos cortados. Aislinn passava 
de um para o outro, aprovando ou no o que estava sendo feito. Havia sapatos quase prontos, do tamanho de seu p. Havia tiras de pele de raposa, vison e zibelina 
para agasalhar o pescoo e os punhos. Uma pea chamou-lhe especialmente a ateno. Uma capa de veludo forrada de pele. O alfaiate trabalhava satisfeito e com entusiasmo. 
Raramente era contratado para vestir um corpo to esbelto e elegante e para um senhor to generoso.
    A tarde estava quase no fim quando Wulfgar encontrou uma pequena estalagem que no estava muito cheia e onde podia passar algumas horas tranquilamente. Sentou-se 
na frente do fogo, e o estalajadeiro serviu uma jarra de bom vinho tinto e um copo. Seu trabalho daquele dia estava terminado, mas no queria voltar para casa porque 
tinha certeza de que o alfaiate estava trabalhando ainda. Estremeceu pensando no preo e serviu outro copo de vinho. Mas, que diabo, no podia deixar Aislinn vestir 
aqueles andrajos. Pensou nas circunstncias que a haviam levado a essa condio. Gwyneth, sem dvida, aproveitando a sua ausncia. Mas e o dinheiro que deixara com 
ela? Provavelmente gasto em ninharias. Ah, as mulheres. Quem podia compreend-las? Gwyneth, muito amada pela me e filha legtima de uma boa famlia, era maldosa 
e agressiva como uma vespa. Por que, se sempre teve tudo que quis? O que a atormentava tanto, enchendo-a de maldade e amargura?
    Quanto mais Wulfgar bebia, menos pensava na meia-irm, voltando-se para Aislinn. Que mulher no ficaria satisfeita com um presente to generoso? Aquela despesa 
podia lhe trazer vantagens. Talvez a fizesse desistir daquela resistncia teimosa e se entregasse de boa vontade aos seus carinhos, sem ficar revoltada depois. Em 
sua imaginao, Wulfgar viaa suavidade e a graa do belocorpo e do rosto perfeito. No podia existir mulher mais bela. Mas ele jamais questionara sua beleza. Ela 
era uma entre muitas, e a melhor de todas. No fazia exigncias e parecia ansiosa em agrad-lo de todos os modos, menos um.
    Danao, pensou ele, esvaziando outro copo. Dei a ela mais do que a qualquer outra. Olhou para o copo vazio com a testa franzida e tornou a ench-lo. Por que 
ela continua a ser to fria? Qual  o seu jogo? Parece se importar comigo, entretanto s posso toc-la atravs do seu desejo, e depois chora como se eu a tivesse 
ferido profundamente. Permanece passiva e indiferente, at eu a despertar e lev-la alm de onde suas defesas podem alcanar. Ento ela se satisfaz, mas afasta-se 
de mim e nunca pede mais.
    Bateu com o copo vazio na mesa e encheu-o at a borda.
    - Mas isto vai acabar com o jogo - suspirou ele, confiante outra vez. - Terei uma retribuio mais valiosa do que o dinheiro que gastei.
    Ficou um longo tempo imaginando Aislinn com as roupas que ele havia comprado. Antegozando esse prazer, ps no copo o que restava do vinho e pediu ao estalajadeiro 
um odre do delicioso nctar. Com o corao leve e satisfeito com a prpria generosidade, sonhava com cachos de cabelo vermelho dourado sobre travesseiros de seda, 
com seios macios junto ao seu peito e braos muito brancos em volta do seu pescoo, enquanto os lbios sensuais respondiam aos seus beijos.
    Muitas horas haviam passado e, quando uma sombra se desenhou na mesa, Wulfgar ergueu os olhos para o estalajadeiro, de p ao seu lado.
    -  Meu senhor, j  tarde e eu vou fechar. Vai passar a noite aqui?
    -  No, no, bom homem. Especialmente esta noite, vou dormir na minha cama.
    Wulfgar levantou-se um pouco cambaleante, com o odre de vinho debaixo do brao. Contou as moedas at o estalajadeiro ficar satisfeito e saiu com passo lento 
e cuidadoso, caminhando para onde deixara Huno. O cavalo bufou, estranhando o andar do dono, mas esperou firme e com pacincia que Wulfgar, depois de trs tentativas, 
conse- guisse se deitar atravessado sobre a sela. Finalmente se firmou e encontrou os estribos. Incitou o cavalo para afrentee comeou aberrar quando Huno no fez 
qualquer movimento. O estalajadeiro abriu a porta e, desatando as rdeas do poste, entregou-as ao cavaleiro. O homem entrou na estalagem balanando a cabea, e Wulfgar 
agrade-ceu com voz tonitruante. Huno comeou a andar e, ignorando os comandos do dono, caminhou cautelosamente na direo da casa de pedra e do estbulo quente.
    
    A casa estava escura e uma nvoa se erguia do rio. Sozinha, afinal, Aislinn abraou o prprio corpo, no auge da felicidade. Os oito vestidos novos estavam estendidos 
sobre a cama, prontos e perfeitos, um prazer para qualquer mulher. O que mais a encantava, porm, era a generosidade de Wulfgar. Nunca poderia esperar tanto dele. 
Eram vestidos luxuosos, vestidos de uma grande dama. E Wulfgar os com-prara para ela, com o dinheiro que ele guardava to bem.
    Apanhou primeiro o amarelo de veludo e dobrou-o cuidadosa-mente. Fez o mesmo com os outros, exceto o cor de pssego, que ela vestiu. Hlynn penteou seu cabelo 
demoradamente e depois o tranou com fitas enroladas, formando uma coroa no alto da cabea. Aislinn desceu para esperar Wulfgar e, quando apareceu na porta, fez-se 
silncio completo, todos atnitos com a mudana radical em sua aparncia. Milboume, o mais velho dos cavaleiros, com seu cabelo grisalho e suas cicatrizes, levantou-se 
e ofereceu o brao para lev-la at a mesa. Aislinn agradeceu com um sorriso e uma leve inclinao de cabea, e Sir Gowain engoliu em seco e comeou a compor poemas 
de louvor para seu copo de cerveja. Nenhum deles merecia tanta beleza, mas os olhos de Gowain brilhavam cada vez que Aislinn sorria para ele.
    Os homens estavam encantados, e Hlynn sorria de prazer vendo aqueles normandos sem palavras para elogiar sua patroa. At Sanhurst,
    
    em seu carito, parou de passar cera nas botas de Wulfgar e, com o queixo apoiado na mo, olhou fascinado para Aislinn.
    Jantaram descansadamente, e estavam quase terminando quando Beaufonteergueuamo, pedindo silncio. Das janelas abertas na outra extremidade da sala vinha o som 
de patas de cavalo e de uma voz de homem cantando uma cano de amor. Ouviram um saxo praguejar furioso e depois a batida da porta do estbulo. Sobrancelhas se 
ergueram, e Aislinn riu nervosamente quando Sir Gowain ergueu os olhos para o alto com uma expresso de fingido sofrimento. A voz era abafada, mas ficou mais alta 
quando os passos pesados comearam a subir a escada. Wulfgar irrompeu na sala, segurando um odre de vinho quase vazio. Saudou a todos em altos brados com o brao 
estendido, depois seus ps executaram um estranho passo de dana e ele recuperou o equilbrio.
    -  Ho, bons amigos e belssima damoiselle-rugiu ele, entrando na sala. Sua fala era arrastada, uma mistura de ingls e francs.
    Na mente de Wulfgar, ele adiantou-se e, com uma curvatura graciosa para Aislinn, que se levantou para receb-lo, beijou-lhe delicadamente a mo. Na verdade, 
seus ps se embaralharam quando parou e os homens prenderam a respirao, com medo de que ele despencasse em cima da jovem. Segurou a mo dela e cambaleando beijou-lhe 
o antebrao, perto do cotovelo. Wulfgar endireitou o corpo e olhou em volta, at conseguir focalizar os olhos em Aislinn. Ela jamais o vira naquele estado. Na verdade, 
sempre soube que ele no bebia.
    -  Meu senhor - murmurou ela, suavemente. - Est doente?
    -  No, chrie. Estou embriagado com esta beleza que queima meus olhos e me faz segui-la constantemente quase sem poder respirar. Eu fao um brinde a voc. - 
Com um gesto largo para todos os presentes, gritou: - A Lady Aislinn. A mais bela mulher na cama de qualquer homem.
    Ergueu o odre e conseguiu acertar um pouco de vinho na boca. Aislinn ficou furiosa com a deselegncia daquele brinde. Wulfgar ps o odre de vinho na mesa e segurou 
a mo dela entre as suas, levou-a aos lbios e murmurou, do modo mais romntico que podia:
    -  Venha, chrie vamos nos retirar para a noite. Para a cama! Com um sorriso malicioso de bbado, despediu-se dos homens e,
    voltando-se, enfiou o p num cesto que estava no cho. Levou algum tempo para se livrar daquela coisa traioeira, e s Sanhurst teve coragem de rir alto, enquanto 
os cavaleiros e criados disfaravam o riso com acessos de tosse.
    Wulfgar tirou o p da armadilha, empertigou o corpo e olhou furioso para o saxo. Com a dignidade majestosa de um cavaleira normando, calculou mal a altura do 
segundo degrau da escada e caiu estatelado na sala. Com um suspiro resignado, Aislinn segurou-lhe o | brao e fez sinal a Gowain para segurar o outro. Depois de 
vrias " tentativas malogradas, conseguiram conduzi-lo at o quarto e o fizeram sentar na beirada da cama. Sir Gowain saiu, Aislinn fechou a porta e voltou-se para 
Wulfgar. Ele se lanou para a frente, estendendo os braos para ela, mas abraou apenas as capas dependuradas atrs da porta. Uma delas caiu e se enrolou em sua 
cabea, e, quando Wulfgar comeou a agitar os braos para se livrar, Aislinn segurou as mcv
    dele.
    - Quieto, Wulfgar - sua voz tinha um tom de comando. -
    Fique quieto, j disse.
    Ela o livrou da capa e o fez sentar outra vez na cama. Dependurou a capa no lugar e parou na frente dele, com as mos na cintura, balanando a cabea. Comeou 
a tirar a tnica do normando, mas Wulfgar, aproveitando aproximidade, a abraou. Aislinn gritou, exasperada, e empurrou-o com fora. Wulfgar sentou na cama outra 
vez. Dessa vez esperou, pois era evidente que a mulher estava ansisapara dormir com ele.                                                             
    
    Evitando as mos insistentes, Aislinn tirou os sapatos e os chaus-ses do normando, empurrou-o para os travesseiros e o cobriu. Os olhos vidos de Wulfgar a acompanharam 
quando ela foi para perto da lareira e comeou a se despir. Soltou o cabelo e tirou tambm a, combinao que dobrou cuidadosamente, como as outras peas de roupa. 
Tirou os sapatos e deitou-se, esperando as mos dele em seu corpo, mas o normando dormia, roncando suavemente. Rindo, Aislinn aconchegou-se a ele e, apoiando acabea 
no ombro forte, dormiu feliz.
    
    
    Aislinn abriu os olhos para o sol que entrava pela janela. Tinham ido para a cama bem tarde, mas alguma coisa a acordou, um gemido estranho, abafado, que vinha 
do outro lado, onde ficava o urinol. Rindo baixinho, ela aconchegou mais as cobertas. Um rufdo de guae a cama rangeu quando Wulfgar se deitou. Aislinn virou para 
ele, pronta para um alegre bom-dia, mas fechou a boca sem dizer nada, olhando para as costas do normando. Apoiada num cotovelo, ela puxou o ombro
    dele at faz-Io deitar de costas. Os olhos e os lbios de Wulfgar estavam fechados, e uma cor esverdeada cobria seu rosto e parte do peito. Aislinn o cobriu, 
prendendo o cobertor nos dois lados, e ergueu os olhos para os dele, abertos agora, dois lagos vermelhos arroxeados entre as plpebras azuladas e inchadas.
    -  As janelas, Aislinn - ele estendeu o brao. - Feche todas. Aquela luz parece um milho de lminas na minha cabea.
    Aislinn levantou e, enrolada num cobertor, foi fechar as janelas. Ps mais lenha no fogo, saltou graciosamente para a cama e deitou, encostando nele para se 
aquecer. Wulfgar rilhou os dentes quando o movimento dela balanou sua cabea.
    -  Devagar, minha querida, devagar - gemeu ele. - Minha cabea est do tamanho de um odre de vinho, e juro que o plo do animal ainda est na minha boca.
    -  Pobre Wulfgar - murmurou ela. - O vinho faz mal quando tomado em grande quantidade, e os prazeres da noite so pagos com o sofrimento da manh.
    Com um suspiro, Wulfgar virou a cabea.
    -  E estou deitado com uma filsofa-murmurou, como para 'si mesmo. - Talvez seus talentos incluam um remdio para dor de cabea.
    Mordendo a ponta do dedo, Aislinn pensou por um momento.
    -  Sim, mas a cura  quase to dolorosa quando a doena. . Wulfgar segurou a mo dela e~a encostou em sua testa.
    -  S eu viver at o fim deste dia- prometeu -, eu a recompensarei regiamente.
    Com um gesto afirmativo, ela levantou outra vez, enrolada no cobertor. Ps a ponta de um atiador da lareira no meio do carvo em brasa. Enquanto o ferro esquentava, 
misturou ervas e poes num copo e depois o encheu com vinho. Quando o atiador estava em brasa, ela o mergulhou na mistura, at o lquido comear a ferver. Foi 
at a cama e disse, com um sorriso hesitante.
    -  Deve tomar tudo rapidamente:
    Wulfgar ergueu-se a meio na cama. Franziu o nariz, sentindo o cheiro da mistura, e o verde de sua pele ficou mais intenso. Ergueu os olhos numa splica muda, 
mas ela encostou um dedo no fundo do copo e o segurou com firmeza contra os lbios dele.
    -  Tudo e de uma vez - instruiu Aislinn.
    Wulfgar respirou fundo, segurou o copo e tomou de um s gole.
    Abaixou a cabea, estremecendo quando o lquido amargo desceu para seu estmago. Aislinn recuou, abrindo espao para ele. Wulfgar retesou o corpo, e alguma coisa 
trovejou dentro dele. Na segunda vez, ele arregalou os olhos. Saltou da cama e, sem se importar com o frio, foi direto para o urinol.
    Aislinn voltou para o calor das cobertas, enquanto Wulfgar devolvia todo o vinho e mais alguma coisa no recipiente. Quando, algum tempo depois, ele voltou, Aislinn 
olhou para ele com as mos cruzadas e expresso inocente. Wulfgar se arrastou para debaixo da cobertas e desabou, fraco demais para qualquer movimento.
    -  Voc  malvada, mulher, malvada demais para sua idade. Se eu sair vivo desta, vou fazer com que seja exorcizada pelos monges.
    Aislinn sentou na cama e sorriu.
    - Qual  a sua proposta, Wulfgar? - perguntou, alegremente. - Como deve saber, s o marido legtimo pode exorcizar a mulher.
    -  Ahhh.- Wulfgar contorceu o corpo, como se estivesse sentindo dor. -Voc tenta me prender at neste momento difcil, quando estou amarradaao poste do seu encantamento.
    Seus olhos no estavam to vermelhos, e a pele estavaquase corada.
    -   s um blsamo para limpar o cfpo-suspirou ela, fingindo desapontamento. - Livre dos venenos, logo vai se sentir melhor.
    Wulfgar levou a mo  cabea.
    -  Est quase normal, e juro que sou capaz de devorar o Huno inteiro.
    Ps outro travesseiro atrs dos ombros e olhou para ela quase com carinho.
    -  Gostou das roupas que o alfaiate fez para voc?
    Aislinn fez um gesto afirmativo, sorrindo feliz, e os cachos cor de cobre danaram sobre o cobertor que a envolvia.
    -  Nunca vi tanto luxo, Wulfgar. Obrigada pelo presente. - Inclinou-se e beijou-o no rosto. - So vestidos para uma rainha. - Ergueu os olhos para ele. - O preo 
deve ter deixado sua bolsa bem mais leve.
    Wulfgar deu de ombros, e Aislinn, ajoelhada na cama, no notou o olhar sedento do normando para a parte superior de seus seios, que o cobertor deixava  mostra.
    -  Mas temo que tenham o mesmo destino dos meus outroc vestidos. So bonitos demais.
    Wulfgar rosnou:
    -  Pode deixar que eu trato disso.
    Aislinn deitou outra vez, aconchegando-se a ele.
    -  Ento so meus de verdade? Para usar quando eu quiser?
    -   claro. Acha que eu ia dar e depois tomar? - Wulfgar olhou para ela com o canto dos olhos.
    Aislinn esfregou o queixo no ombro dele.
    -  O que uma escrava pode possuir sem ordem do seu senhor? - suspirou e depois riu. - Aposto que sou a primeira escrava no mundo a se vestir com tanto luxo. 
Sem dvida vou provocar muita inveja em Darkenwald. O que vai dizer quando algum perguntar como pode vestir assim uma escrava?
    -  S Gwyneth  bastante atrevida para fazer essa pergunta. Mas o que eu fao com meu dinheiro no  da conta de ningum, pois foi ganho com o meu trabalho. 
Se quiser, posso dar tudo que tenho, e ela no tem direito nenhum de reclamar. No devo coisa alguma a ela, nem a qualquer outra mulher.
    Aislinn delineou com a ponta do dedo a cicatriz no peito dele.
    -  Ento devo me sentir duplamente agradecida por sua generosidade, uma vez que, afinal de contas, sou apenas outra mulher.
    Wulfgar virou de lado e segurou um cacho do cabelo vermelho.
    -  Voc vale mais do que qualquer outra. A prova disso  estar aqui comigo.
    Aislinn ergueu os belos ombros.
    -  Mas ainda sou a sua prostituta, e este ttulo no  uma prova de que gosta de mim. O que sou para voc que as outras mulheres no foram? Sou igual, nada mais.
    Ele riu.
    -  Pensa que eu ia abrir minha bolsa com tanta generosidade para outra mulher, nem que fosse para cobrir sua nudez? Eu j disse muitas vezes o que penso do sexo 
frgil. Deve sentir-se honrada por estar acima das outras.
    -  Mas, Wulfgar-murmurou ela -, qual  a diferena? Nesse presente que me fez? Para os outros, no sou mais do que sua prostituta.
    Ele se inclinou para os lbios dela.
    -  No dou ateno a maledicncias nem ao que os outros pensam - disse, silenciando-a com um beijo. Desceu a mo pelas costas dela numa carcia, mas Aislinn 
mordeu o lbio e recuou quando seus dedos tocaram o lugar ainda dolorido onde Gwyneth a atingira com o aoite. Franzindo a testa, Wulfgar segurou-a pelos ombros 
e ergueu o cobertor. Viu ento o vergo vermelho ainda na pele macia. Aislinn quase sentiu a fria crescendo dentro dele.
    -  O que foi isso? - perguntou ele.
    -  Eu me machuquei, nada mais, Wulfgar. Eu ca...
    Com um rosnado de raiva, ele se ajoelhou na cama, segurando-a pelos ombros.
    -  Aislinn, ser que pensa que sou tolo? - disse em voz baixa, mas a ira soava em cada palavra. - Conheo muito bem a marca do aoite.
    Os olhos cor de violeta encheram-se de lgrimas.
    -  Est me machucando, Wulfgar.-Ele diminuiu a presso dos dedos, e Aislinn ergueu a mo para o peito dele. - No foi nada - balanou a cabea. - Uma diferena 
sem importncia que j foi resolvida. - Acariciou o peito dele e disse suavemente: - Vai cicatrizar e desaparecer com o tempo, mas as palavras maldosas nunca desaparecem. 
No fale mais nisso, eu peo. J acabou.
    Aislinn saiu da cama e comeou a se vestir. Wulfgar a observava, intrigado. Aislinn sempreo surpreendia. Tinha uma fora, uma beleza, uma sabedoriada vida, uma 
compreenso, quando ele raramente podia dizer o que estava sentindo. Teve vontade de abra-la ternamente, proteg-la para que o mundo nunca mais a maltratasse. 
Afastou rapidamente esse pensamento.
    Ora! Mulheres, pensou. Sempre querendo mostrar um bom corao. No pretendo me deixar prender por fraquezas nem por palavras.
    Wulfgar levantou-se e se espreguiou, admirado com sua cura.
    -  Seu remdio foi muito bom, chrie. Mas venha, vamos comear nosso dia. H uma feira de Natal, e voc pode ver a cidade como quer.
    Wulfgar a abraou. Beijou-a na testa, depois nos lbios e disse com um sorriso:
    -  Melhor ainda... vamos deixar que Londres a veja.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Quinze
   
   
   
     O  SOL J DESFIZERA a neblina da madrugada e a cidade mal despertava quando quatro cavaleiros e uma bela mulher saram da casa do comerciante para um passeio 
tranquilo. Chegaram a uma rua larga onde vendedores, em altas vozes, chamavam aateno dos transeuntes para a mercadoria em suas barracas. Saltimbancos e palhaos 
faziam malabarismos e diziam gracejos pesados. Acrobatas davam saltos das tbuas mveis. Vendiam doces, vinhos e outros petiscos. Havia tambm ladres, batedores 
de carteira e trapaceiros que escondiam uma ervilha debaixo de vrias conchas para confundir os espectadores.
    A risada clara e musical de Aislinn soava feliz no meio da multido. Adolescentes seguiam o grupo, encantados com a beleza da mulher, mas, quando chegavam perto 
demais, encontravam o olhar ameaador do normando alto e forte que caminhava ao lado dela. Aislinn percebeu que bastava olhar com interesse para alguma coisa para 
que um de seus acompanhantes a comprasse. Quando segurou um espelho de prata e o examinou curiosa, Beaufonte imediatamente o comprou, entregando-o a ela. Era a primeira 
vez que Aislinn via um espelho daqueles, e agradeceu sinceramente o presente. Mas, a partir daquele momento, passou atermuito cuidado em demonstrar interesse por 
qualquer coisa.
    Eles riam com os ditos espirituosos e inteligentes de Sir Gowain e com o humor mais seco de Wulfgar. Beaufonte, um homem tranquilo e calado, ia atrs, divertindo-se 
com a conversa e a troca bem-humo-rada de frases espirituosas entre Gowain e Milbourne.
    O dia estava quase no fim quando Aislinn puxou a manga de Wulfgar, pedindo para sair do meio daquela multido. Entraram numa rua secundria e logo estavam em 
casa, onde Hlynn os esperava com uma refeio saborosa. Enquanto estavam fora, um mensageiro chegara levando a ordem de Guilherme para que todos os lordes e cavaleiros 
comparecessem  missa de Natal como convidados do Rei, seguida de uma apresentao  corte e um banquete. Aislinn ficou desapontada, pois esperava passar outro dia 
com Wulfgar, antes que seus deveres o afastassem novamente.
    Terminado o jantar, ficaram por algum tempo sentados na frente da lareira, antes se retirar para o descanso e os preparativos para o dia seguinte. Wulfgar dispensou 
Hlynn bruscamente e comeou a despir Aislinn. Ele a tomou nos braos e a levou paraacama, mas o normando ia descobrir que no encontrara ainda o preo de sua boa 
vontade, pois, embora Aislinn tivesse conhecido outra vez o limite mximo do prazer, quando terminaram, ficou imvel, olhando para o teto e chorando.
    Sentada na cama, abraando os joelhos, Aislinn via Wulfgar separar o traje para a cerimnia daquele dia. Outra vez escolheu o vermelho e o negro de suas cores. 
Chamou Sanhurst para preparar o banho e, pensando em Gowain, adicionou  gua um pouco de sndalo para disfarar o perfume de lavanda.
    Aislinn, observando esse cuidado, disse, rindo:
    -  Se entrar outra vez no meu banho, meu senhor, vou deixar que escolha o perfume.
    Wulfgar respondeu com um grunhido e entrou na banheira.
    -  Vai chegar tarde esta noite, Wulfgar? - perguntou Aislinn, com certa hesitao. - Ou devo esper-lo para o jantar?
    Ele tirou a toalha molhada do rosto e olhou para ela.
    -  Meus homens podem jantar quando quiserem, mas eu sei como so essas cerimnias, e provavelmente chegarei muito tarde.
    Aislinn suspirou, desapontada.
    -  Vai ser um longo dia sem voc, Wulfgar. Ele riu.
    -  Vai ser um longo dia, certamente, doura, mas vai pass-lo ao meu lado.
    Com uma exclamao de surpresa, Aislinn saiu da cama, com o cabelo farto e brilhante emoldurando sua esplndida nudez. Quando percebeu o olhar apreciativo de 
Wulfgar, cobriu-se com um cobertor e ficou de p perto da banheira.
    -  Mas, Wulfgar, sou sax. L no  o meu lugar. Ele esfregou o peito, tranquilamente.
    -  Seu lugar  onde eu a levar. Muitos saxes estaro presentes. -Sorriu, olhando nos olhos dela.-E, como no so to leais quanto voc, peo que seja discreta. 
Voc no  uma simples mulher do povo, e sabe quando deve ficar calada. Quanto a ser uma inimiga-ergueu uma sobrancelha -, juro que nunca tive tanto prazer com a 
companhia de um inimigo.
    Aislinn corou.
    -  Voc  desprezvel - disse ela, impaciente.
    Wulfgar deu uma sonora gargalhada, mas Aislinn afastou-se dele.
    -  Nunca estive na corte - disse ela. - Posso embara-lo. Wulfgar disse, com um largo sorriso:
    -  A corte inglesa est repleta de gorduchas damas saxs, e acho que j conheo todas... da mais nova  solteirona murcha. Todas elas se atiraram em cima de 
mim porque eu no tinha uma mulher ao meu lado. Voc no vai me embaraar. Nada disso. Vai fazer bem a elas saber qual  o meu padro.
    -  Mas Wulfgar - disse ela, exasperada. - Toda a nobreza e o prprio Guilherme estaro presentes... no tenho uma acompanhante apropriada. Vo saber que sou 
sua amante.
    -  S porque no tem nenhuma mulher gorducha vigiando seus movimentos? - Ele sorriu. - Posso dizer que  minha irm. - Ensaboou as mos e balanou a cabea- 
- No, no ia dar certo. Iam perceber o modo com que olho para voc e nos acusariam de um pecado maior. No, o melhor  enfrentar os olhares curiosos e no dizer 
nada.
    Aislinn tentou outra vez.
    -  Wulfgar, eu posso esperar aqui...
    -  Mas eu no posso. No se fala mais nisso. Agora, v se preparar.
    Aislinn percebeu que ele no ia ceder e entrou em pnico, compreendendo que estava desperdiando um tempo precioso. Abriu a porta e chamou Hlynn. Quando ela 
entrou no quarto, Wulfgar mergulhou mais na banheira. Divertiu-se vendo as duas mulheres afobadas, escolhendo a roupa de Aislinn e discutindo o melhor penteado para 
a ocasio. Finalmente Aislinn olhou para ele, e Wulfgar disse:
    -  Chrie, no quero assustar a jovem Hlynn, mas preciso sair da banheira e temo que ela arrebente a porta na pressa de sair do quarto. A gua est esfriando, 
e estou com os joelhos enrugados. Podiam me dar um momento para acabar meu banho?
    Aislinn mandou Hlynn apanhar alguma coisa fora do quarto. Com alvio evidente, Wulfgar saiu da banheira e comeou a se vestir, enquanto ela se penteava.
    -  Eu gostaria que voc usasse o vestido amarelo hoje, Aislinn - disse Wulfgar. - Tenho certeza de que far jus  sua beleza.
    -  Peo licena para discordar, meu senhor. - Esperou que Wulfgar olhasse interrogativamente para ela e continuou: - Prefiro reserv-lo para outra cerimnia.
    Wulfgar ficou surpreso.
    -  O que pode ser mais importante do que conhecer o Rei? Com um sorriso zombeteiro, ela deu de ombros.
    -  No vou dizer ainda, Wulfgar, mas voc no disse que eu podia escolher o que quisesse?
    Ele fez um gesto afirmativo.
    -  Quero que voc se vista da melhor forma possvel, e acho que a cor lhe vai muito bem.
    Aislinn ps as mos no peito dele e ergueu os olhos.
    -  Vou usar outro que  maravilhoso.
    Vendo a quase splica nos olhos cor de violeta, Wulfgar esqueceu todos os argumentos que podia ter a favor do vestido amarelo. Aislinn acariciou de leve o peito 
dele, esperando a resposta, e Wulfgar cedeu.
    -  A escolha  sua.
    Aislinn passou os braos pelo pescoo dele e beijou-o no rosto, agradecendo profusamente. Franzindo a testa, ele continuou a se vestir. Mais tarde, porm, quando 
a viu vestida e penteada, Wulfgar jurou a si mesmo que jamais ia interferir na escolha das roupas dela.
    Era um vestido de tecido creme, debruado no decote e nos punhos com uma trana de seda com pequenas prolas. O cinto dourado, com elos delicados e a adaga na 
bainha, cingia os quadris bem-feitos. O cabelo estava penteado para cima, tranado com finas fitas de seda e pequenas flores de cor creme. O rosto cintilava, radiante 
como sempre, e os olhos claros cor de violeta sobressaam entre as pestanas escuras.
    
    Em todas as suas andanas, Wulfgar jamais vira uma mulher to bela. Por um momento ficou preocupado. Sabia que Ragnor estaria presente, e imaginou o que aquele 
dia lhes reservava. Talvez fosse mais prudente deix-la em casa, mas no o agradava a ideia de passar longas horas longe dela. Tinha de admitir que gostava da companhia 
de Aislinn e que ela no o aborrecia, como as outras mulheres, quando no estavam na cama. Ia lev-la por puro egosmo. Nunca se sentia completamente  vontade na 
corte. As queixas chorosas das mulheres gordas, a falta de sinceridade dos lordes ambiciosos, os olhares convidativos das mulheres que traam os maridos, tudo isso 
fazia com que ele estivesse sempre alerta. Sentia-se melhor no campo de batalha, onde conhecia o inimigo e podia enfrent-lo face a face. A presena de Aislinn seria 
um conforto para ele e um alvio para a monotonia da longa missa.
    Estranhando o silncio de Wulfgar, Aislinn abriu os braos e girou o corpo na frente dele.
    -  Eu o agrado, monseigneur? - perguntou.
    Ergueu os olhos, e Wulfgar, com um largo sorriso e os braos cruzados no peito, disse:
    -  Est querendo elogios, chrie? Aislinn fez uma careta.
    -  Voc  avaro com suas palavras - acusou ela, depois riu e o examinou de alto a baixo. - Mas eu sou mais generosa. Voc est uma beleza. No admira que as 
vivas e as mocinhas casadouras o atormentem.
    A missa foi longa e cansativa. Ajoelhavam e levantavam e ajoelhavam outra vez quando o arcebispo comeava outra orao. Wulfgar olhava constantemente para Aislinn, 
sentindo prazer naqueles momentos em que todos se aborreciam. A serenidade das belas mos cruzadas trazia paz aos seus pensamentos. Aislinn estavaquieta ao seu lado, 
sem uma queixa, e s levantava a cabea no Fim de uma prece, abaixando-a quando comeava a seguinte. O olhar dela, quando Wulfgar estendia a mo para ajud-la a 
se levantar, era suave e cheio de calor. Wulfgar admirou a resistncia graciosa de Aislinn quando, na sala do trono, foram espremidos num canto pelos membros da 
alta nobreza que queriam ser apresentados a ela. Seus companheiros de duas noites atrs empurravam uns aos outros na pressa de bater nas costas de Wulfgar com grandes 
demonstraes de amabilidade. Com pacincia infindvel, Wulfgar apresentou um por um, e com rosto inexpressivo ouvia as referncias casuais  intimidade deles com 
Guilherme, como para suplantar o cavaleiro malnascido que a acompanhava. Quando seguravam sua mo por um tempo maior que o devido, Aislinn a retirava com delicadeza 
e respondia cortesmente a todas as perguntas, mas com tanta habilidade que s Wulfgar sabia que ela no estava contando toda a verdade. Sorrindo, Wulfgar convenceu-se 
de que Aislnn saberia se comportar em qualquer corte, at mesmo na de Guilherme.
    Sua dignidade esquiva contribuiu para aumentar o interesse dos normandos, e muitos pensavam que podiam ganhar seu favorcom seus ares rgios. Com alvio, Wulfgar 
ouviu a ordem de ateno para a entrada do rei. A maioria dos nobres e cavaleiros ia ser apresentada. No canto em que estavam, Wulfgar sentiu a mo de Aislinn na 
sua e os olhos dela, felizes e brilhantes, erguidos para ele. Porum momento, pensou em elogiar o modo pelo qual ela tratara os normandos, mas a reserva que sempre 
mantivera com as mulheres no o ajudava a encontrar as palavras apropriadas. Sorriu e apertou a mo dela. Aislinn olhou para ele, preocupada.
    -  Meu senhor, o dia o aborrece ou fiz alguma coisa que o desagradou?
    Wulfgar riu.
    -  Nem um coisa nem outra, chrie. Aislinn sorriu, aliviada.
    -  No deve ficar to srio quando est pensando, Wulfgar. Se eu fosse menos corajosa, ficaria com medo.
    -  Ah, senhora-suspirou ele.-Se voc fosse menos corajosa, talvez fosse para a minha cama de boa vontade.
    Aislinn corou e olhou em volta para ver se algum podia ter ouvido, Vendo que ningum estava por perto, sorriu docemente.
    -  Ora, meu senhor, tenho de recorrer a toda a minha coragem para aceitar o uso casual que faz de mini, sem me revoltar. No seria prudente faz-lo sentir toda 
a raiva que me domina quando tenho de suportar esse abuso.
    Ele apertou outra vez a mo dela.
    -  No est sendo usada - respondeu, com riso nos olhos. - Nenhuma mulher sax jamais foi to mimada por seu senhor norman-do. Deve admitir que  melhor do que 
ser acorrentada nos ps da minha cama.
    Aislinn deu de ombros e ajeitou a capa curta de veludo dele.
    -  Pelo menos, naquele tempo voc no me desonrava,
    Wulfgar sorriu, impassvel.
    -  Eu no adesonro agora. Na verdade, eu a honro acima de todas as mulheres. V alguma outra de brao comigo e usando as roupas que eu comprei? Aquele dinheiro 
era fruto do meu suor, e por ele teria morrido se o inimigo levasse a melhor. Eu a trato muito bem. Voc no faz trabalho pesado, nem ara a terra. Ocupa um lugar 
ao meu lado como se fosse a minha dama. A nica diferena  que nenhum voto ou promessa me prende a voc.
    Aislinn abriu a boca para responder, mas, ouvindo o nome chamado para a apresentao, no disse nada e olhou em volta. Ela o viu imediatamente e, quando Ragnor 
de Marte sorriu e os saudou com uma inclinao da cabea, teve certeza de que ele os observava h muito tempo. Ele parecia muito confiante, e quando a examinou dos 
ps  cabea, Aislinn sentiu-se despida e corou. Voltou-se ento para Wulfgar, que observava calmamente o outro normando.
    -  Voc no me disse que Ragnor estaria aqui - murmurou ela. Wulfgar olhou para o rosto corado da jovem.
    -  Voc precisa aprender, chrie:  melhor enfrentar Ragnor do que deixar que ele a apanhe de surpresa. Essa pequena precauo evita que voc tenha uma adaga 
enfiada nas costas.
    -  E deixa meu peito aberto para a lmina-disse Aislinn com sarcasmo.
    Wulfgar sorriu.
    -  No tenha medo, minha bela. Duvido que chegue a sentir aquela lmina afiada no seu belo corpo. Ragnor no  completamente idiota.
    -  Seria o menor dos males que ele poderia me causar - disse Aislinn.
    Wulfgar olhou interrogativamente para ela, mas Aislinn voltou-se para assistir  breve cerimnia, que lhe pareceu forada e fria. Guilherme era to alto quanto 
Wulfgar, porm mais forte e musculoso. O traje real o fazia parecer maior e mais imponente, e Ragnor, ajoelhado na frente dele, parecia ter diminudo de tamanho. 
Os olhos penetrantes de Guilherme obervaram o cavaleiro at ele se levantar, e ento o rei inclinou levemente acabea, aceitando calmamente ahomenagem que lhe era 
devida. Como com todos os outros nobres que haviam se apresentado antes de Ragnor, Guilherme ficou impassvel, sem qualquer demonstrao de amizade ou camaradagem. 
Mas Aislinn notou uma mudana sutil quando Wulfgar se aproximou, alguns momentos mais tarde. Foi como se Guilherme pela primeira vez relaxasse o corpo, e a austeridade 
do rosto se amenizou. Se Guilherme tinha alguma preferncia por aquele cavaleiro, no estava disposto a demonstrar, no seu interesse, tanto quanto no de Wulfgar. 
Com o corao aquecido, ela viu Wulfgar ajoelhar na frente do rei, e esqueceu por completo a presena de Guilherme.
    Aislinn notou o interesse das mulheres saxs pelo alto cavaleiro normando e as cabeas que se aproximavam para trocar impresses. Aparentemente sem notar a ateno 
que despertava, Wulfgar voltou para o fado dela e segurou outra vez sua mo, ignorando os olhares dos homens e das mulheres.
    -  Ah, meu senhor, ao que parece conquistou mais alguns coraes - comentou Aislinn. - Foi assim que colecionou tantas amantes?
    Wulfgar riu.
    -  Voc foi a primeira que eu tive, meu amor. Com as outras, era uma ou duas noites, nada mais. - Beijou-lhe a mo com um sorriso temo, para benefcio dos olhos 
curiosos. - Mas estou to encantado com esta situao que me pergunto por que no tentei antes.
    Com um sorriso doce, mas rilhando os dentes, Aislinn disse:
    -  Sem dvida na corte normanda havia tantas que voc achava difcil escolher. - Consciente dos olhares atentos, ela abaixou os olhos, como uma donzela tmida. 
- Devia estar to ocupado que meu rosto sem beleza no atrairia sua ateno. Oh, como eu gostaria que  fosse assim em Darkenwald!
    Wulfgar levou a mo dela aos lbios e murmurou:
    -  Cuidado, chrie, a corrente ainda est no p da cama. Aislinn riu e disse suavemente:
    -  No tenho medo, Wulfgar. Voc no ia aguentar aquela corrente fria machucando suas canelas a noite inteira.
    -  Sim,  verdade - riu ele, dando-se por vencido. - Prefiro que venha a mim de boa vontade, e no como uma escrava vencida.
    Aislinn olhou nos olhos dele e disse, com mais seriedade:
    -  De boa vontade? Ainda no disse o preo. Mas nem como uma escrava vencida, eu acho.
    Wulfgar sentiu um desejo quase incontrolvel de tom-la nos braos e beij-la na frente de todos, mas nesse momento anunciaram o banquete.
    Quando Wulfgar afastou a cadeira para ela, Aislinn olhou para a frente e viu Ragnor de p, atrs da cadeira, no outro lado da mesa. Ele sorriu e depois que ela 
sentou fez o mesmo, como se s estivesse esperando por ela. A comida foi servida, e s ento Aislinn percebeu que estava faminta, pois no comia h vrias horas. 
Dedicou toda a ateno ao assado e quando ergueu os olhos viu Ragnor olhando-a. Ele inclinou a cabea e sorriu, e Aislinn virou rapidamente para o lado. Teve o cuidado 
de no olhar mais para ele, pois, com um pouco de medo, sabia que Ragnor a observava. Conversou discretamente com os outros cavaleiros, e Wulfgar, em voz baixa, 
identificava para ela os nobres mais importantes e os que haviam praticado atos hericos. Quando terminaram, Wulfgar se afastou por algum tempo para discutir um 
assunto importante com um conde. Aislinn ficou sozinha, impressionada com a realeza que parecia encher a enorme sala. Ento percebeu que algum estava sentando na 
cadeira de Wulfgar e, voltando-se, viu Ragnor sorrindo para ela.
    -  Com licena, minha avezinha. Posso me sentar um pouco? Aislinn franziu a testa, mas no encontrou nenhum motivo plausvel para negar o pedido.
    -  Wulfgar - comeou ela, mas foi imediatamente interrompida.
    -  Est muito ocupado, e eu quero conversar um pouco com voc. - Aproximou a cadeira da dela. - No v que Wulfgar a est usando s por algum tempo? - Viu a 
fria crescendo nos olhos dela e procurou acalm-la. - Ele a pediu em casamento? Disse alguma coisa a respeito? Deu a voc algum ttulo ou posio a no ser a de 
escrava? Ouvi dizer que ele mandou outra jovem morar em Darkenwald. Voc  fiel a ele, mas, se algum dia perder o favor, a outra  quem vai aquecer sua cama.
    Aislinn olhou em volta, procurando um meio de fugir das palavras maldosas de Ragnor. Sobressaltou-se quando sentiu a mo dele em sua pema.
    -  Eu a faria senhora de Darkenwald e Cregan, tambm - murmurou, inclinando-se para ela.
    -  Como poderia fazer isso?-perguntou ela, empurrandoa mo ousada. - Essas terras pertencem a Wulfgar.
    Ela teria se afastado da mesa se no fosse o brao dele no espaldar de sua cadeira. Impassvel, Ragnor ps outra vez a mo na perna dela. Aislinn afastou-a vigorosamente, 
mas ele insistiu.
    -  Ragnor! - disse ela, levantando e afastando-se dele. Ragnor levantou tambm e segurou-a pelo brao, puxando-a para si. Olhos curiosos os observavam, e ele 
murmurou ardorosamente no ouvido dela, mas Aislinn no ouviu as palavras, atenta ao esforo de evitar as mos dele.
    -  Tire as mos dela - disse Wulfgar, em voz baixa, mas ; surpreendentemente prxima. Sua mo direita caiu sobre o ombro de: Ragnor e o fez virar para ele. - 
Esqueceu o meu aviso? O que  meu ] eu guardo.
    Ragnor sorriu zombando:
    -  Eu tenho algum direito a Darkenwald. Voc me negou qualquer parte do prmio, mas quem lutou por ele fui eu.
    Wulfgar o enfrentou com fria dignidade.
    -  No ganhou coisa alguma em Darkenwald, pois foi voc quem provocou a luta.
    Ragnor entrecerrou os olhos escuros.
    -  Voc  um tratante, Wulfgar-disse com desprezo.-Eu at salvei sua vida, mas voc no reconhece.
    -  Voc salvou a minha vida? - Erguendo a sobrancelha interrogativamente, Wulfgar no esperou a resposta. - Fiquei sabendo, por alguns dos meus homens, que dois 
cavaleiros normandos chegaram perto de Kevonshire, para provocar os saxes e, quando eles saram em sua perseguio, os levaram para onde podiam armar uma cilada 
para mim. O braso de um dos cavaleiros foi visto claramente. Era Vachel, e eu posso adivinhar quem era o outro. Salvou a minha vida? No, voc quase me custou a 
vida.
    Aislinn arregalou os olhos com uma exclamao abafada. Ragnor no disse nada, mas, cheio de fria, tirou as luvas pesadas e as atirou no rosto de Wulfgar. As 
luvas atingiram o alvo e caram no cho. Lentamente, Wulfgar desembainhou a espada e com a ponta da lmina as ergueu. Com um movimento rpido, devolveu-as para o 
rosto de Ragnor.
    -  O que est acontecendo? Uma luta entre meus dois cavaleiros? - perguntou uma voz atrs deles.
    Wulfgar, com toda calma, embainhou a espada, depois de se inclinar para o rei.
    Guilherme olhou para Aislinn, que retribuiu o olhar altivamente. Depois olhou para Ragnor e em seguida outra vez para Wulfgar.
    -  Brigando por causa de uma mulher, Wulfgar? No  o seu estilo.
    Com o cenho cerrado, Wulfgar disse:
    -  Sire, peo permisso para apresentar Aislinn de Darkenwald.
    Aislinn curvou-se profundamente para o Rei, depois ficou imvel, orgulhosa e altiva, com o queixo erguido, os olhos nos dele.
    -  No tem medo de mim, damoisellel - perguntou Guilherme. Aislinn olhou rapidamente para Wulfgar, depois respondeu:
    -  Vossa graa, certa vez respondi a essa mesma pergunta para o seu cavaleiro e, se me permite, vou repetir o que disse ento. Eu s temo a Deus.
    Guilherme fez um gesto afirmativo, impressionado com sua franqueza.
    -  E os meus cavaleiros lutam por sua causa? Eu posso compreender isso. - Voltou-se para Ragnor. - O que tem a dizer?
    Ragnor ficou rgido, tremendo de raiva.
    -  Peo perdo, Sire, mas este bastardo no tem direito a Darkenwald, nem a Lady Aislinn, pois ela  parte da recompensa, a filha do lorde que matei com minha 
boa espada.
    -  Quer dizer, Sir Ragnor de Marte, que reclama essas terras pelo direito das armas? - perguntou Guilherme.
    -  Sim, Sire - confirmou Ragnor, e pela primeira vez inclinou-se para o Rei.
    Guilherme voltou-se para Wulfgar.
    -  E essas terras so as mesmas que reclama, Sir Wulfgar?
    -  Sim, majestade. Uma vez que me deu ordens para guard-las para a coroa.
    Guilherme olhou para os dois homens, depois voltou-se para Aislinn.
    -  Tem alguma coisa a dizer sobre o assunto, damoisellei - perguntou gentilmente.
    -  Tenho, Sua graa - respondeu ela, com altivez. - Meu pai morreu como um guerreiro e foi enterrado com o escudo e a espada, mas saiu de casa ao encontro de 
uma bandeira de trgua. Estava disposto a se entregar se pudesse manter a paz, mas foi insultado sem nenhum motivo at ser obrigado a brandir a espada para defender 
sua honra. Tinha apenas servos para ajud-lo, e foram mortos com ele. - Sorriu com tristeza. - Mandara todos os seus homens para Harold. No tinha sequer um cavalo 
para morrer montado.
    Guilherme olhou outra vez para os dois cavaleiros.
    -  Vejo que a luva foi lanada e muito bem devolvida. Sir Ragnor, concorda com umadisputa pelas armas e aceita o resultado da mesma?
    Ragnor indicou que aceitava inclinando a cabea.

    -  E o senhor, Sir Wulfgar, concorda?
    -  Sim, Sire - respondeu Wulfgar.
    -  E Lady Aislinn? - Guilherme voltou-se para ela. - Curvar-se-  vontade do vitorioso?
    Aislinn olhou rapidamente para Wulfgar, sabendo que no podia dar outra resposta.
    -  Sim, Sire-murmurou, com uma profunda curvatura parao Rei. Guilherme dirigiu-se ento aos trs:
    -  O fim do ano se aproxima, e no primeiro dia do novo ano teremos um torneio, uma disputa pelas armas, at a queda do contes-tante, no at a morte, pois preciso 
dos meus cavaleiros. Desse modo determinaremos quem ser o senhor de Darkenwald. O campo e as armas sero escolhidos sob minhas ordens, e ningum poder dizer que 
a vitria no foi justa e verdadeira. - Ofereceu o brao para Aislinn. - At esse dia, a senhora ser minha convidada. Mandarei apanhar sua bagagem e sua criada 
e um quarto ser preparado aqui para seu uso. Est sob minha proteo contra esse dois tratantes at o dia em que eu a declare membro da corte real.
    Hesitante, Aislinn olhou para Wulfgar e viu o desagrado em seus olhos. Queria protestar, mas no podia. Antes de se afastar com ela, Guilherme disse:
    -  Tenha pacincia, Wulfgar. Se tudo correr bem, tudo ser resolvido para melhor.
    Ragnor sorriu, triunfante, mas Wulfgar franziu a testa, com uma sensao de perda que no tinha palavras para descrever.
    
    
    Wulfgar voltou para o enorme quarto tarde da noite. O fogo estava baixo na lareira, e no havia nem sinal da presena de Aislinn. O que era antes um lugar de 
repouso e prazer, depois de um dia cansativo, se transformara numa cmara de tortura. Via Aislinn em toda parte, de p ao lado da janela, ajoelhada na frente da 
lareira, sentada na banqueta, deitada na cama. Wulfgar alisou as cobertas e olhou para o quarto vazio de tudo que tinha antes, o luxo empalidecido, o conforto spero 
e cruel. Notou ento um pedao de veludo amarelo dobrado junto da banheira. Apanhou-o e levou-o ao rosto, sentindo o perfume de lavanda, quase sentindo Aislinn ao 
seu lado. Suspirou, frustrado, desejando fazer voltar atrs as horas daquele dia, ansiando por ter Aislinn em seus braos. Guardou o pedao de veludo sob a camisa, 
onde no podia ser visto. Apanhando sua capa comprida, Wulfgar desceu para dormir numa cama de campanha, no salo. Ah a solido era menos aparente, e ele se sentiu 
outra vez como um soldado. Mas ficou acordado um longo tempo, desejando o calor do corpo dela junto ao seu.
    Wulfgar levantou cedo no dia seguinte e notou que seus cavaleiros estavam estranhamente silenciosos, mas atentos a todos os seus movimentos. Mlbourne por fim 
quebrou o silncio. Levantando da cadeira com uma imprecao, comeou a amaldioar Ragnor, chamando-o de tratante miservel. Gowain apenas erguej os olhos tristes, 
como um namorado rejeitado. Beaufonte olhava para o fogo com expresso sombria, tomando um copo de cerveja.
    -  Vocs esto muito desanimados - disse Wulfgar. - Arreiem os cavalos. Vamos fazer alguma coisa til.
    Wulfgar entregou-se completamente ao seu trabalho, procurando no pensar. Quando voltou para a manso, esperava-o umconvite para jantar com o Rei. Mais animado 
e cuidadosametne vestido, foi introduzido na sala onde Guilherme e seu squito esperavam o jantar. Sua animao desapareceu quando viu Ragnor entre os convidados 
e Aislinn sentada ao lado dele. A irritao aumentou quando o pajem o conduziu a um lugar de igual importncia, mas no outro lado da mesa. Aislinn olhou rapidamente 
para ele, antes de dar ateno ao conde ao seu lado. Wulfgar notou que a beleza dela era um adorno especial na corte e que muitos outros, alm de Guilherme, estavam 
encantados com sua presena. Aislinn parecia feliz, de corao leve, conversava alegremente, e chegou at a contar histrias de antigas desavenas entre os saxes, 
mas sempre mantendo-se a boa distncia das mos de Ragnor, que, na companhia do Rei, agia com bons modos e divertia os presentes com seu humor gil e loquaz. Contudo, 
se suas mos estavam comportadas, seu olhar a devorava avidamente, disfarado sob uma atitude de ateno inocente. Com um sorriso forado, Aislinn disse com frieza, 
em voz baixa:
    -  Quer permitir que eu fique vestida na frente do Rei? Ragnor riu alto, e Wulfgar olhou para ele com expresso sombria.
    Sentia intensamente a presena de Aislinn, e o riso dela, claro e musical, era uma tortura para ele. Respeitava a deciso de Guilherme, pois, se vencesse o torneio, 
seu ttulo no mais seria contestado. A ausncia de Aislinn, porm, o arrasava. Resolveu agir apenas como soldado, e respondia ao humor dos lordes com um sorriso 
forado, algumas palavras resmungadas e uma inclinao de cabea. O clice de vinho esquentou em sua mo e no contribuiu em nada para anim-lo. No teve nenhuma 
oportunidade de ficar a ss com Aislinn e, sob o olhar penetrante de Guilherme, no quis insistir.
    Era difcil adivinhar o objetivo docapricho do Rei, e Wulfgar sabia que ele era fiel  sua Matilda. Com tanta coisa em jogo, Wulfgar no queria se arriscar a 
uma cena que podia causar m impresso e dar a Ragnor motivo para dizer que ele no estava agindo corretamente. Wulfgar desistiu de falar com ela; despedindo-se, 
saiu da salae voltou para sua cama de soldado.
    Quando Aislinn teve um momento de paz, olhou em volta e viu que Wulfgar tinha partido. Toda a alegria a abandonou, substituda por uma dor intensa. Com uma fraca 
desculpa, retirou-se para seus aposentos, onde Hlynn a esperava. Controlou-se para no chorar at poder dispensar Hlynn. Deitada e sozinha, podia abafar os soluos 
no travesseiro. A corte era fascinante, e os normandos a tratavam com a devida deferncia. Quando soube que Wulfgar fora convidado, sentiu-se feliz e esperou ansiosamente 
a chegada dele. Ningum podia dizer que ela era uma humilde moa do campo, nem Gwyneth, se estivesse presente. At Ragnor foi gentil, quando no estava tentando 
despi-la com os olhos. Mas, sempre que olhava para Wulfgar, a ateno dele estava em outro lugar, e Aislinn percebeu que ele estava de pssimo humor. Wulfgar vestia 
uma tnica marrom-clara que, no seu corpo alto e esguio, rivalizava com o rico traje de Guilherme. No trocaram uma palavra durante toda a noite, no recebeu dele 
nenhuma nota carinhosa e, sentindo-se esquecida, Aislinn soluava tristemente.
    Eu no tenho vergonha, pensou ela, como um animal no cio. Pois, sem estar oficialmente unida a ele, desejo seu abrao. Oh, Wulfgar, faa-me mais do que uma prostituta. 
No posso suportar o que sinto.
    Desejava o calor dele junto ao seu corpo. O travesseiro de seda no tinha msculos firmes para ela acariciar, nem um peito largo e forte para descansar a cabea, 
nem braos que, mesmo durante o sono, a puxavam para ele. Lembrava de cada cicatriz, de cada msculo do seu brao, at da barba um pouco crescida no seu pescoo. 
Aislinn virava de um lado para o outro na cama, sem encontrar paz em sua castidade forada, e mais de uma vez afastou da mente a sensao das carcias suaves de 
Wulfgar.
    
    
    
    Chegou outro recado de Guilherme, e, embora Wulfgar no tivesse sentido prazer algum no jantar da vspera, no pde recusar, pois o
    Rei exigia sua presena. O dia foi longoe montono, pois seus deveres no eram suficientes para ocupar todo seu tempo e ele no estava ansioso para ver Aislinn 
apenas de longe. Assim, entrou no palcio com passo lerdo, epara sua surpresa foi conduzido imediatamente para onde estava Aislinn. A alegria do sorriso dela e a 
carcia de seu olhar quase o atordoaram.
    -  Wulfgar, voc demorou tanto! Venha, sente aqui. Puxou-o pela manga, fazendo-o sentar ao seu lado.
    A beleza de Aislinn e o calorda acolhida o deixaram sem palavras. Finalmente, disse:
    -  Boa noite, Aislinn.-Ento, continuou:-Est tudo bem com voc? Parece tima.
    -  Pareo mesmo?-Elariuealisouasedaazul-gelodo vestido.
    - Foi muita bondade sua me dar os vestidos, Wulfgar. Espero que no tenha ficado aborrecido por retirarem tudo sem sua permisso.
    Wulfgar pigarreou.
    -  No, por que ia me aborrecer? Dei para voc, portanto no tenho nenhum direito sobre eles,
    Aislinn ps a mo sobre a dele e disse com voz suave:
    -  Voc parece que est bem.
    Wulfgar ficou calado, controlando-se para no a tomar nos braos. A maciez da mo sobre a sua o fazia imaginar outras partes de seu corpo, mais macias e dceis 
s suas carcias. Wulfgar retirou a mo, mas apenas aumentou sua tortura, pois a dela estava agora em sua perna. Empalidecendo, ele olhou em volta, pouco  vontade. 
Viu Ragnor na mesma cadeira que ocupara na noite anterior, olhando para Aislinn.
    -  Ele a vigia como um falco - disse Wulfgar -, como se j estivesse provando a doura do seu corpo.
    Aislinn riu e passou um dedo pela manga dele.
    -  Voc demorou bastante para descobrir o objetivo dele, mas agora exagera a ameaa. Outros tm olhado para mim sem disfarar suas intenes. - Wulfgar franziu 
a testa, e os olhos dela cintilaram.
    - No tema, Wulfgar. Recusei todas as atenes, dizendo que minha mo j est prometida. - Ergueu a mo, e Wulfgar segurou-a entre as suas. - Est vendo, Wulfgar 
- sorriu ela -, no  to difcil reclamar minha mo em pblico. Voc j tomou todo o resto, por que no minha mo?
    -  Sua mo? - Ele suspirou, levando os dedos dela aos lbios
    - Quero muito mais. Eu a trouxe para c para aquecer minha cama, e agora s tenho a companhia dos meus homens.
    -  Pobre Milboume - sorriu ela. - No consigo imagin-lo submetendo-se ao seu critrio de divertimento. E Gowain menos ainda. Sua poesia e sua prosa certamente 
vo ofender seus ouvidos. Ou ficam sentados, como quatro velhos lordes, na frente do fogo, trocando lembranas do passado?
    -  No - disse ele. - Parece que sua ausncia embotou as mentes dos trs. Gowain vagueia pela casa como se tivesse perdido seu nico amor. Milboume revolta-se 
em altos brados contra essei abuso, e Beaufonte senta na frente do fogo, bebendo cada vez mais.

    - Wulfgar riu. - J vi mais alegria numa masmorra do que naquela casa.                                                                                       
    Aislinn ps a mo no brao dele.                                              
    -  E voc, Wulfgar? Sanhurst no o serve bem?                       
    -  Ha! - disse ele com desprezo. - No mencione o nome; daquele saxo na minha presena. Aquele tolo  capaz de selar umi cavalo de trs para diante, se no 
tiver ajuda.                                   ,
    Aislinn riu, acariciando o brao dele.
    -  Tenha pacincia com ele, Wulfgar.  muito jovem aindae noi sabe nada sobre lordes e cavaleiros. Com o tempo aprender seus costumes e vai servi-lo bem.
    -  Est sempre censurando o modo como trato meus servos e,; como se eu fosse cego, quer me convencer de que aquele urso manhosos  um rapazinho imberbe.
    Assim, o tempo passou at terminarem de jantar. Mas, cada vez. que Aislinn o tocava, Wulfgar lutava contra o impulso de lev-la para a cama mais prxima e excit-la 
com suas carcias, at consumir a chama que o atormentava. O roar inocente da perna dela na sua era como ferro em brasa. Wulfgar recorreu a toda a sua fora de 
vontade para conversar normalmente com as outras pessoas, mas com Aislinn s conseguia trocar palavras breves e formais. Quando ela ria de uma coisa engraada contada 
por um lorde, inclinava-se sobre o brao dele, e Wulfgar sentia a maciez de seus seios, ele gemia em silncio e quase se afastava dela, numa agonia. O Rei se aproximou 
dos dois, dando a ele um pretexto para se levantar, mas Guilherme fez sinal para que ficasse sentado.
    -  Ento, Wulfgar - disse o Conquistador -, amanh tudo estar resolvido. Mas, diga a verdade, o que o atormenta? No parece
    o companheiro agradvel que conheci. Vamos erguer o copo e provar a cerveja e alegrar nossos coraes como fizemos muitas vezes no passado.
    -  Peo que me perdoe, Sire, mas tudo que j desejei possuir na vida vai estar naquele campo de honra. No temo perder a minha causa, mas impaciento-me com a 
espera.
    Guilherme riu.
    -  Sim, na verdade vejo que mudou muito pouco. Mas temo ter errado. No me parece um companheiro digno de uma dama to bela e cheia de vida. Voc pode desej-la, 
mas seus modos no demonstram isso. Se eu fosse a dama, ia provoc-lo ao mximo.
    Corando, Wulfgar desviou os olhos.
    -  A senhora est h tanto tempo sob meus cuidados que sua ausncia me perturba sobremaneira.
    Guilherme olhou atentamente para ele e, depois de um momento,
    disse.
    -  Verdade, Sir Wulfgar? E j pensou na honra da dama? Ns a expulsamos de sua casa. Seria lamentvel se agora abusssemos tambm de seu nome.
    Wulfgar ergueu uma sobrancelha, imaginando aonde o rei queria chegar, e Guilherme continuou, agora num tom mais descuidado e superficial.
    -  Fique descansado, Wulfgar. Eu o conheo bem e tenho certeza de que no deixar que uma jia to preciosa no tenha o engaste que merece.
    Guilherme levantou-se, ps a mo no ombro do guerreiro e se afastou. Wulfgar voltou-se para Aislinn, que o observava, um tanto hesitante.
    -  Alguma coisa errada, Wulfgar?-perguntou ela, suavemente - O Rei trouxe ms notcias?
    -  No - disse ele, secamente. - Queria que amanh j tivesse terminado e eu pudesse lev-la daqui. Ragnor  um tolo se pensa que vou perder para ele. Voc  
minha, e no vou admitir nenhum abuso.
    -  Mas Wulfgar - murmurou Aislinn. - O que vai fazer? O Rei falou.
    Wulfgar ergueu uma sobrancelha.
    -  Fazer? Ora, chrie, vou vencer,  claro.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   
   Captulo Dezesseis
   
    
    O PRIMEIRO DIA DE JANEIRO de 1067 chegou lentamente no cu I enevoado de Londres. A nvoa baixa se desfez primeiro, e ento a noite se transformou num dia cinzento 
e enfumaado. O ar estava frio, e a brisa fraca e intermitente era rnida. Antes de fazer a primeira refeio, Wulfgar vestiu a armadura completa e levou Huno para 
um campo aberto, perto da prefeitura do povoado. Trabalhou o animal na terra congelada, acostumando-o novamente  sensao to conhecida de seu peso. O sol estava 
alto, e a nvoa da manh h muito se dissipara quando Wulfgar se deu por satisfeito e levou o animal para o estbulo. Mesmo depois de alimentado e escovado, Huno 
sentia a proximidade da luta e pateava impaciente. Wulfgar subiu a escada e tomou seu desjejum tardio, servindo-se da sopa de po que estava no fogo. Depois sentou 
na frente da lareira, com os ps numa banqueta baixa. Ficou ali, pensando na luta, at perceber que alguma coisa estava entre ele e a luz do dia. Ergueu os olhos 
e viu Gowain, Milbourne e Beaufonte, esperando que ele notasse sua presena.
    Gowain falou primeiro, de p na beirada da lareira;
    - Meu senhor, preste ateno. Muitas vezes observei Ragnor nas batalhas. Parece que, quando ataca, ele tende a se inclinar...
    Wulfgar interrompeu-o com a mo erguida.
    Milbourne aproximou-se dele.
    -  Wulfgar, escute o que vou dizer,  importante saber que ele segura o escudo bem alto, um pouco atravessado na frente do corpo, o que enfraquece sua defesa. 
Um golpe certeiro pode empurrar o escudo para o lado, abrindo caminho para o seu ataque.
    -  No, no, meus bons amigos - riu Wulfgar. - Ouo suas palavras, e em outra ocasio qualquer daria ateno a elas, mas s preciso saber de uma coisa.  que 
Ragnor  mais covarde do que cavaleiro e que no terei ningum para proteger as minhas costas. Agradeo sua preocupao, mas nesta, como em qualquer outra luta, 
o que eu fizer no momento  sempre mais importante do que aquilo que posso planejar com antecedncia. O dia j est adiantado. Eu os vejo na lia para me aplaudir 
e me ajudar se eu cair. Sir Gowain, quer ser meu padrinho?
    O jovem cavaleiro fez um gesto afirmativo. Wulfgar levantou-se e subiu a escada estreita para o enorme e vazio quarto de dormir. Fechou a porta pensando na luminosidade 
do quarto quando Aislinn estava presente. Praguejou em voz baixa, reconhecendo maisuma vez seu estado de esprito nos ltimos dias. A luta ia exigir o uso de todas 
as suas faculdades mentais. No podia ficar eternamente pensando naquela mulher apetitosa, como fazia Gowain. Precisava manter sua determinao da noite anterior. 
No estaria lutando tanto por Aislinn quanto por Darkenwald, porm, no ntimo, sabia que havia outras terras para serem conquistadas, mas s uma Aislinn, e ele ainda 
no estava cansado dela.
    Despiu-se e, depois de se lavar, vestiu o traje com que ia chegar  sua tenda no campo de luta. Ps a cota de malha e o escudo sobre a cama. Sanhurst trabalhara 
arduamente para polir tudo, mas Wulfgar franziu a testa para o elmo. Podia notar ainda a marca do amassado na parte de trs. Pensou em seu oponente e at onde ele 
chegaria para ter Aislinn. A cilada de Kevonshire quase lhe custara a vida, e era isso que Ragnor queria. Se ele perdesse o torneio, no ficaria satisfeito. Wulfgar 
sempre desconfiara do cavaleiro. Agora, tinha motivos para desconfiar enquanto Ragnor estivesse vivo.
    Antes de sair do quarto, parou na frente da lareira, onde as brasas estavam ainda acesas, mas no havia fogo para aquec-lo. Sanhurst negligenciara mais uma 
vez seu dever, deixando de pr lenha ao lado da lareira, mas isso no importava agora. Ia partir dentro de poucos instantes, e Aislinn no estava ali. Com um suspiro, 
apanhou o pedacinho de veludo amarelo pousado sobre a mesa e contemplou-o por um longo tempo antes de atir-lo nas brasas, onde ele desapareceu num instante, devorado 
pelas chamas.
    Num movimento brusco, Wulfgar deu as costas  lareira, ps o manto pesado nos ombros e apanhou todo o seu equipamento. Ps a espada no cinto ao lado de um machado, 
presente de Sweyn para acompanh-lo em suas viagens. Os trs cavaleiros o esperavam no salo. Notando a lentido com que Sanhurst limpava a mesa, Wulfgar olhou carrancudo 
para ele, mas se conteve para no o censurar. Pela primeira vez desde que o saxo estava a seu servio, resolveu seguir o conselho de Aislinn e ser paciente.
    Gowain apanhou a armadura das mos dele e saiu da sala. Wulfgar seguiu-o com os outros dois cavaleiros, rindo da recomendao de Sir Milboume para no machucar 
muito Ragnor.
    -  Afinal, meu senhor-sorriu Milboume -, se ele desaparecer, em quem ia descarregar sua ira, seno em ns trs?
    A cena era imponente, embora rara. Todos os importantes lordes de Londres estavam apostos para assistir ao combate. Pequenas tendas tinham sido armadas. Outros 
lugares eram mais simples. O campo estava circundado por tiras compridas de tecido colorido para resguardar a lia dos olhos dos servos e camponeses, pois era um 
caso de honra, no um espetculo para o povo comum.
    Wulfgar entrou no campo com seus cavaleiros. Quando se dirigia com Gowain para a tenda com suas cores, olhou em volta. O pavilho de Guilherme estava ainda fechado, 
protegido da brisa fria, e no viu nem sinal de Aislinn. Era grande a atividade em volta da tenda de Ragnor, e Wulfgar sups que ele chegara cedo e estava to ansioso 
quanto ele para ver a luta terminada.
    Wulfgar desmontou na frente da tenda e, quando Gowain entrou, parou para acariciar Huno e ps um saco com rao no focinho dele. Quando entrou, Gowain estava 
examinando os elos de sua cota de malha e as presilhas do escudo. Em silncio, vestiu a roupa de couro que usava sob a armadura e, com a ajuda de Gowain, ps o pesado 
peitoral.
    Um criado levou um prato com carne e vinho. Wulfgar declinou a bebida, mas Gowain tomou dois goles respeitveis. Wulfgar ergueu as sobrancelhas.
    -  Gowain, no vamos perder a jovem com esta pequena luta. Seria preciso um adversrio muito melhor.
    O jovem cavaleiro ergueu o copo para ele.
    -  Meu senhor, tenho completa f na sua percia.
    -  Otimo - disse Wulfgar, pondo a espada no cinto. - Agora, deixe esse copo e apanhe minhas luvas, antes que eu tenha de ajud-lo a ficar de p.
    Com um largo sorriso, Gowain fez uma curvatura e obedeceu.
    O tempo parecia no passar, e Wulfgar, sem pensar na inteno de Guilherme, concentrou-se na ideia de que precisava vencer, No passado, era famoso por sua habilidade 
nos torneios, e nesse dia precisava estar em sua melhor forma, pois sabia que Ragnor era forte e astuto. Nunca haviam se encontrado num torneio, mas ele no era 
tolo para pensar que seria fcil vencer Ragnor. Ia precisar de muita fora e muita inteligncia.
    Soaram as trombetas anunciando a chegada do Rei e seu squito. Aislinn certamente estaria com Guilherme, a nica mulher no grupo. Se fosse outro rei, Wulfgar 
estaria preocupado, mas Guilherme no tinha amantes e era fiel a Matilda.
    Wulfgar saiu da tenda e caminhou para onde Huno o esperava. Tirou o saco do focinho do animal e acariciou o plo macio e negro, falando em voz baixa. Huno bufou 
e balanou a cabea, como se tivesse compreendido. Wulfgar montou, e Gowain lhe entregou o elmo e o escudo. Do pavilho do Rei no podiam ver a frente de sua tenda; 
assim, por mais que desejasse, no podia ver Aislinn, nem ela podia v-lo.
    Do outro lado do campo, Ragnor saiu da tenda balanando a cabea afirmativamente, enquanto ouvia as palavras de Vachel. Quando montou, Ragnor viu seu adversrio 
j montado,  espera do sinal. Ragnor se firmou na sela, inclinou o corpo para a frente, numa saudao zombeteira, e riu alto, com exagerada confiana.
    -  Finalmente, Wulfgar, nos encontramos - disse ele. - Venha me visitar em Darkenwald e  bela Aislinn no fim deste dia, No vou proibir que a veja, uma vez 
que no me proibiu.
    Gowain adiantou-se, com os punhos fechados.
    -  Calma, rapaz - disse Wulfgar. - Este assunto  meu. Deixe que eu tenha a honra.
    Ragnor riu mais alto, balanando na sela.
    -  O qu? Wulfgar? Outro rapazinho apaixonado pela mulher? Voc deve ter tido muito trabalho para afast-los dela. Aposto que at seu querido Sweyn teve vontade 
de dormir com ela. A propsito, onde est aquele bom homem? - Ragnor riu, sabendo muito bem a resposta. - Guardando as minhas terras?
    Wulfgar conhecia aquele jogo, e ficou imvel e em silncio. Vachel murmurou alguma coisa para Ragnor, e ele riu mais ainda, parando somente quando as trombetas 
soaram outra vez. Os dois cavaleiros adiantaram-se, como se fossem se encontrar - depois viraram para o lado e galoparam para a tenda do Rei. Ento Wulfgar viu o 
capuz amarelo que cobria a cabea de Aislinn e, quando chegou mais perto, viu que ela estava com o vestido de veludo sob o manto forrado com pele de raposa. A escolha 
o agradou. Sem precisar dizer nada, ela demonstrava sua preferncia, usando aquele vestido.
    Guilherme ficou de p e respondeu  saudao dos cavaleiros. Ento leu a ordem do dia, determinando que todos aceitassem o resultado da luta. Aislinn, sentada 
ao lado de Guilherme, estava tensa e plida, evidentemente preocupada. Embora os olhos de Wulfgar estivessem fixos no rei, os dela s viam a ele. Aislinn queria 
gritar sua preferncia para que o mundo soubesse qual dos dois ela queria, mas, como parte do prmio do combate, no podia dizer nada.
    As trombetas soaram outra vez, estridentes aos seus ouvidos e, quando os cavalos fizeram meia-volta, Aislinn teve a impresso de que Wulfgar lanara um rpido 
olhar para ela, mas no podia ter certeza. Os cavaleiros foram para seus lugares, marcados com as flmulas nas cores de cada um. Quando viraram, ficando um de frente 
para o outro, puseram os elmos. Receberam as lanas das mos de seus padrinhos e mais uma vez saudaram o rei. As trombetas soaram; quando parassem, era o sinal para 
o primeiro ataque. Aislinn estava tensa e com medo, mas no demonstrava, sentada ereta e imvel. Seu corao batia disparado no peito. Cruzou as mos sob o manto 
e repetiu a orao feita na capela naquela manh.
    Ela prendeu a respirao quando soou a ltima nota. Os cavalos enormes retesaram os msculos e lanaram-se para a frente, as batidas rpidas dos cascos ecoando 
as batidas do corao de Aislinn. Os cavaleiros se chocaram com um clangor de metal, e ela se sobressaltou. A lana de Wulfgar raspou o escudo do adversrio, e a 
de Ragnor partiu-se contra os braos de Wulfgar. Com um suspiro de alvio, Aislinn viu que Wulfgar estava ileso e montado, e por um momento seu corao se aqueceu. 
Os dois homens fizeram meia-volta e dirigiram-se para suas tendas, cada um apanhando uma nova lana, e outra vez ela sentiu medo. O segundo encontro foi sem qualquer 
aviso.
    Dessa vez, Wulfgar acertou o alvo, mas sua lana se partiu. O impacto atirou Ragnor para trs, na sela, fazendo-o erguer demais a lana e errando completamente 
o alvo. Voltaram e apanharam novas lanas. O grande Huno comeava a se aquecer para a luta, e Wulfgar sentia o tremor de impacincia dos msculos do animal. Ragnor 
girou rapidamente, e o rudo do choque foi como um trovo. Ragnor ps toda a fora na lanae tirou um pedao do escudo de Wulfgar. Huno atirou-se sobre o cavalo 
de Ragnor e o derrubou. Aislinn mordeu o lbioquando o cavalo de Wulfgar tropeou no de Ragnor, mas logo recuperou o equilbrio. Wulfgar recuou um pouco e, vendo 
Ragnor esforando-se para ficar de p, jogou para longe a lana e desmontou para enfrentar o oponente no cho. Com um esgar de raiva, Ragnor apanhou a maa sem ponta, 
mas atirou-a para longe. Com pontas, seria uma arma mortal, mas Guilherme no queria ver seus cavaleiros mortos. Isso no entanto de modo algum diminua a sede de 
sangue de Ragnor.
    Wulfgar tirou o machado do cinto e o ergueu, mas atirou-o para longe tambm. Os dois cavaleiros empunharam ento as espadas de folha larga e caminharam um para 
o outro. Aislinn observava, ansiosa e em silncio. Os primeiros golpes soaram metlicos no ar frio de inverno. As lminas brilhavam  luz do sol e cantavam, uma 
batendo na outra. Aislinn continuava rgida, evitando qualquer demonstrao de seus sentimentos. Os escudos pesados eram como paredes protegendo os antagonistas, 
onde as lminas batiam com um rudo surdo. O suor brotava nos rostos dos dois, escorrendo sob os coletes de couro sob os peitorais. Ragnor era rpido e gil, e Wulfgar 
era um pouco mais lento, porm desfechava seus golpes com mais segurana. No era um mero duelo de espadins, mas uma disputa de pura fora de vontade. Aquele que 
resistisse por mais tempo seria o vencedor. Ragnor comeava a sentir o peso da espada e, percebendo isso, Wulfgar, reunindo toda a sua fora, intensificou o ataque. 
Mas, de repente, sentiu um peso na perna, e seu p enroscou-se na corrente da maa que estava no cho. Ragnor aproveitou a vantagem e desfechou seus golpes com mais 
rapidez e mais fora. Wulfgar caiu sobre um joelho, com o tornozelo preso na corrente. Aislinn levantou a meio na cadeira, com uma exclamao abafada. Guilherme 
ouviu e ficou sabendo quem ela preferia.
    Wulfgar livrou a perna da corrente e conseguiu se levantar sob a chuva de golpes de Ragnor. Cambaleou para trs e, recuperando o equilbrio, enfrentou o ataque 
com os dois ps firmes no cho. A luta continuou feroz, e parecia que nenhum dos dois ia vencer, at que a pura fora de Wulfgar comeou a se fazer sentir novamente. 
Num movimento brusco, sua longa espada avanou, no com um golpe em arco, mas direto e horizontal. Atingiu o elmo de Ragnor e o fez virar para um lado. Antes que 
ele pudesse se recobrar do impacto, a espada de Wulfgar subiu e desceu com violncia, lascando a beirada do escudo e atingindo o elmo outra vez. Ragnor cambaleou, 
e Wulfgar procurou livrar sua espada do escudo do oponente. Ragnor atirou para longe o escudo quando Wulfgar conseguiu retirar a espada. Agora, Wulfgar tecia uma 
verdadeira teia em volta do adversrio com os golpes de sua arma. Ragnor foi obrigado a recuar, atacando e se defendendo s com a espada. Cada vez mais sua arma 
encontrava a do adversrio ou era desviada para o lado. Um golpe violento atingiu seu ombro, tirando toda a fora do brao. Suas costelas queimavam cada vez que 
a lmina ameaadora atingia a cota de malha. Ragnor tropeou outra vez e abaixou a espada por uma frao de segundo. O elmo voou de sua cabea, atingido por um golpe 
certeiro e pesado. Ragnor caiu e rolou na relva coberta de geada. Wulfgar recuou e descansou, ofegante, observando os esforos do adversrio para se levantar. Uma, 
duas, trs vezes Ragnor tentou, sem conseguir. Aislinn conteve a respirao, rezando de todo corao para que aquele fosse o fim da lata. finalmente, Ragnor ficou 
imvel, e Wulfgar voitou-se devagar para Guilherme, saudando-o com o punho da espada encostado na testa. Foram os olhos arregalados de Aislinn e a expresso de medo 
em seu rosto que o alertaram para o movimento s suas costas. Virou a tempo de desviar o golpe de Ragnor, e atingiu o peito dele com a parte larga da lmina da espada. 
Com um berro de dor, Ragnor foi atirado outra vez no cho. Dessa vez no se moveu, apenas gemeu de agonia.
    Wulfgar aproximou-se do pavilho do Rei. Viu de' relance o rosto alegre de Aislinn, antes de perguntar:                     
    -  A luta est terminada, Sire? 
     Guilherme sorriu.                             
    -  Nunca duvidei do resultado, Wulfgar. Foi um belo combate, e voc  o vencedor no campo de honra.-Olhou de soslaio para Aislinn e disse, com humor: - Pobre 
moa, ela parece se aquecer com seu pouco ardor. Devo dizer a ela para no se entusiasmar tanto com sua vitria?
    Wulfgar enterrou a ponta da espada no cho; jogando as luvas
    pesadas ao lado dela, tirou o elmoe o capuz e os dependurou no punho da lmina larga e alta. C om passos largos, subiu os degraus do pavilh o e, parando na 
frente de Aislinn, tirou-a da cadeira. Beijou-a com lentido deliberada, abraando-a com fora, como se quisesse guard-la dentro do prprio corpo. Abriu os lbios 
e beijou-a outra vez, agora com o ardor candente que ela s experimentara na privacidade do seu quarto.
    Vachel ajudou Ragnor a se levantar, e os dois ficaram sozinhos no campo vazio, olhando o abrao. Comocorpodolorido, Ragnorcrispou o rosto numa careta de dor, 
escondendo a raiva que fervia dentro de si. Apoiando-se em Vacbel, disse, com a fria vibrando na voz:
    -  Algum dia vou matar aquele bastardo - em seguida saiu claudicando at a tenda.
    Quando Wulfgar a soltou, Aislinn afundou na cadeira, com os joelhos fracos, e s depois de algum tempo conseguiu respirar. Wulfgar voltou-se para Guilherme com 
uma leve mesura.
    -  Isso o agrada, Sire? - perguntou.
    Guilherme deu uma gargalhada e piscou um olho para Aislinn.
    -  Ah, a verdade, sempre aparece. O rapaz a deseja mais do que s terras.
    Aislinn corou, feliz.
    Srio agora, o Rei voltou-se para Wulfgar.
    -  Precisamos redigir os contratos, e seremos o mais breve possvel. Quero que jante comigo esta noite com sua encantadora dama, pois pretendo aproveitar ao 
mximo a companhia dela. A corte tem estado muito tediosa sem a presena feminina. Eu os vejo noite. Bom dia, Sir Wulfgar.
    Guilherme retirou-se, indicando com um gesto que Aislinn deveria acompanh-lo. Ela obedeceu e tirou o capuz que cobria o brilhante cabelo vermelho. Antes de 
descer os degraus, virou para trs e despe-du-se de Wulfgar com um sorriso radiante.
    Agora, terminada a dura tarefa daquele dia, Wulfgar podia relaxar. Porm, quando voltou para a casa do comerciante, ficou tenso outra vez com a interminvel 
espera da chegada da noite. Cada vez que pensava em Aislinn, ficava mais excitado e mais ansioso. Impacientou-se com a lentido com que Sanhurst subia a escada com 
os baldes de gua quente para o banho que ia aliviar as dores e contuses de seu corpo. Escolheu novamente o traje marrom, discreto e sbrio.
    Cavalgando naquela noite para o palcio, Wulfgar cantarolava uma ria antiga, com o corao muito mais leve. Sua recepo na corte foi diferente. Huno foi levado 
para a estrebaria e admirado pelos homens. Um pajem o conduziu at a sala, onde foi recebido por um grupo de lordes, que o cumprimentaram pela vitria. Quando se 
livrou deles,viuAislinn,naoutraextremidadedasala,nacompanhiadeoutra mulher, olhando para ele. Seus olhos se encontraram e trocaram um sorriso. Com seu porte altivo 
e sua beleza, Aislinn parecia inatingvel. Porm, de todos os lordes presentes, Wulfgar era o nico que tinha direito a ela.
    Adiantou-se para ela, e Aislinn foi ao seu encontro.
    -  Outra vez, meu senhor - murmurou ela. - Sou seu prmio novamente.
    Impassvel. Wulfgar ofereceu-lhe o brao.
    -  Venha-disse ele, conduzindo-a para a mesa. Sua atitude era: a de um cavaleiro vitorioso reclamando sua recompensa, e ningum podia adivinhar a verdade. Wulfgar 
ansiava para tom-la nos braos. e abafar seus protestos com beijos. Era frustrante caminhar ao lado dela, sentindo o toque leve da mo delicada em seu brao, e 
no poder dizer a toda a corte o que estava sentindo.
    O jantar transcorreu num ambiente agradvel, com brindes  Normandia,  coroa,  Inglaterra, a Guilherme e, finalmente, ao vencedor da luta. Todos tinham comido 
e bebido, a destreza e coragem de Wulfgar foram devidamente louvadas quando os convidados comearam a se retirar. Um pajem curvou-se na frente de Aislinn e murmurou 
uma mensagem. Ela voltou-se para Wulfgar.
    -  O Rei quer falar com voc em particular, e eu preciso arrumar minha bagagem. At logo, monseigneur.
    Wulfgar levantou-se, esperou que a mesa fosse retirada pelos criados e ajoelhou-se na frente do Rei. Ouviu as portas se fecharem quando os criados saram, e 
o Bispo Geoffrey ficou de p atrs da cadeira de Guilherme.
    -  Sire, estou s suas ordens - disse Wulfgar, inclinando a cabea.
    -  Levante-se, cavaleiro, e oua as minhas palavras - disse Guilherme, com voz firme. - Voc venceu a luta, e este dia terminou. As terras de Darkenwald e Cregan, 
com tudo que fica entre as duas cidades e em volta delas, lhe pertencem, bem como Lady Aislinn. Que ningum, a partir de hoje, questione seu direito de propriedade 
sobre elas. Fui informado de que as terras no so muito extensas, portanto no lhe darei o direito de senhorio sobre elas, mas confiro o ttulo total de propriedade. 
Elas comandam as estradas para o leste e para oeste e o caminho mais curto para Londres. Desejo que seja construdo em Darkenwald um castelo capaz de abrigar mil 
homens, mais ou menos, se for preciso. Embora situada na encruzilhada, Cregan  uma extenso de terras baixas, pouco protegida. Um castelo em Cregan seria um testemunho 
de nosso domnio sobre as terras. Darkenwald servir ao mesmo propsito, e est situado nas colinas, mais alm. O castelo deve ser construdo. Voc escolhe o local, 
e a construo deve ser forte e harmoniosa. Os noruegueses ainda ambicionam a Inglaterra, e os reis da Esccia tambm querem conquistar-nos. Portanto, devemos planejar 
com antecedncia.
    Guilherme ergueu a mo para o bispo, que se adiantou, tirando de dentro das vestes volumosas um rolo de pergaminho que comeou a ler lentamente. Quando ele terminou, 
o Rei ps seu sinete no pergaminho, e o bispo o entregou a Wulfgar e saiu da sala. Guilherme recostou e bateu com as mos nos braos da cadeira.
    -  Foi um dia para ser lembrado, mas, repito, Wulfgar, eu no tinha nenhuma dvida.
    -   muita bondade sua, Sire - murmurou Wulfgar, um pouco embaraado com o elogio.
    -  Sim, Wulfgar, eu sou bom demais. - Guilherme suspirou. - Sou bom demais, mas no fao nada sem um motivo. Sei que  leal a mim e que cuidar bem do que  
meu, pois logo devo voltar  Normandia. At naquela terra distante, existem os que querem me afastar, para realizar seus fins, e tenho poucos homens verdadeiramente 
leais para cuidar de meus assuntos aqui. Faa um castelo forte, e garanta as terras para os seus filhos. Sei muito bem o que  ser um bastardo.  justo que partilhe 
minha fortuna com outro igual a mim.
    Wulfgar ficou calado, e o Rei levantou-se e se adiantou para ele, com a mo estendida. Wulfgar a apertou, e ficaram por um momento com olhos nos olhos, como 
dois soldados.
    -  Muitas vezes bebemos juntos, meu bom amigo - disse Guilherme, calmamente. - Siga o seu caminho, faa o melhor possvel, e nem por um momento pense na tolice 
de abandonar Lady Aislinn.  uma mulher extraordinria, e qualquer homem deve sentir-se honrado em ser seu marido.
    Wulfgar curvou-se outra vez, apoiado num joelho.
    -  A dama ser enviada para voc muito em breve, Wulfgar - continuou Guilherme. - Eu o verei outra vez antes de voc deixar Londres e antes da minha partida 
para a Normandia. Meus melhores, votos, Wulfgar. Boa sorte, amigo.
    
    Guilherme saiu da sala, e Wulfgar foi at Huno. Montou e saiu do ptio do castelo, mas sem pressa para chegar em casa. No podia deixar de se perguntar quando 
Guilherme ia devolver Aislinn, irritado por no ter insistido na sua volta. Cavalgou sem destino, olhando para os prdios de Londres. Entrou numa taverna e pediu 
um copo de cerveja. Talvez a bebida aliviasse sua solido. Se eu tomar uma boa quantidade, talvez seja mais fcil suportar esta noite. Ergueu o copo e sentiu o amargor 
da bebida. Levantou-se, sem ter tomado nem meio copo. Continuou seu passeio, entrou em outra estalagem e pediu um vinho tinto encorpado. Mas o vinho tambm no ajudou 
em nada. Saiu' da taverna e, quando chegou  casa do comerciante, parou, olhando! para as janelas, sem vontade de entrar. Era tarde quando Wulfgar entrou no salo, 
e todos j estavam deitados. O fogo estava baixo na lareira, e ele o reforou para o resto da noite. Subiu a escada compasso lento, mas, quando passou pelo pequeno 
quarto de Hlynn, ouviu um rudo.
    O que pode ser? Parou por um momento. Ser Hlynn? Sim,  Hlynn. Se Hlynn est aqui, ento Aislinn...
    Agora seus ps o levavam com pressa urgente para o quarto, e ele abriu a porta. Aislinn estava de p, ao lado da janela, penteando o cabelo. Ela voltou-se para 
ele e sorriu. Wulfgar encostou na porta fechada, olhando em volta. Tudo estava no devido lugar, os vestido onde deviam estar, os pentes na pequena mesa. Era como 
se o quarto tivesse ganhado nova vida com sua presena. Ela vestia uma tnica justa de cor suave. Parecia brilhar com uma luz prpria e intensa, e seu sorriso cintilava, 
caloroso  luz da vela ao seu lado. Aislinn no podia v-lo muito bem, onde a luz da vela no alcanava, mas de repente ali estava ele, tomando-a nos braos, erguendo 
seu rosto para, o beijo, abafando as palavras de acolhida, na mais antiga forma de saudao. Antes que ela tivesse tempo de recobrar a respirao, Wulfgar tomou-a 
no colo e levou-a para a cama. Seus lbios procuraram os dela outra vez, e ele deitou sobre seu corpo, fazendo-a afundar no colcho macio. Sua mo deslizou para 
dentro do decote da tnica, e os lbios ardentes desceram do pescoo at o seio. Wulfgar ergueu a tnica para tir-la pela cabea de Aislinn, mas afastou-se, confuso. 
Os lbios dela tremiam, e seus olhos estavam fechados, mas as lgrimas desciam por seu rosto. Ele franziu a testa.
    -  Aislinn, meu amor, est com medo? - perguntou.
    -  Oh, Wulfgar - murmurou ela. - S tenho medo de que voc me abandone. Ser que algum dia vai compreender o que eu sinto?- Abriu os olhos. - Uma taa pode ser 
cheia muitas vezes e o vinho tomado com prazer, mas, quando est amassada ou partida,  abandonada, no mais usada. A taa  uma coisa. Comprada. Possuda. Usada. 
Eu sou uma mulher. Meu objetivo na terra foi determinado no cu, e temo o dia em que serei abandonada, substituda por outra.
    Wulfgar riu, acalmando os seus temores.
    -  Nenhuma taa saboreia seu prprio vinho nem o acha mais embriagador quando est completamente cheia. Sim, pobre taa, minha mo acostumou-se com a sua forma, 
e voc me d muito mais do que eu jamais esperaria levar aos lbios. Amassada ou no, para mim a bebida que voc me oferece proporciona mais prazer do que o vinho 
pode conter. - Ento, disse, com um sorriso: - E voc sente prazer tambm, eu sei.
    Aislinn sentou na cama e arrumou a tnica.
    -  Monseigneur - olhou nos olhos dele. - Passei alguns dias na corte de Guilherme agindo como uma gentil donzela. O Rei e todos os lordes me trataram como se 
eu fosse uma gentil donzela, mas eu sentia o amargor da falsidade de tudo isso, pois sei o que sou.
    -  Voc se diminui, chrie, pois hoje arrisquei a vida no campo de honra por voc. Que preo mais alto pode desejar?
    Aislinn riu com ironia, balanando a mo.
    -  Quanto vocs pagam por suas mulheres na Normandia? O preo de um ou dois vestidos? Uma moeda de cobre ou um punhado de moedas? Que diferena faz, uma ou mil? 
A mulher continua a ser uma prostituta. Por esta noite pagou algumas horas de sua vida.  um alto preo, pode estar certo. - Ps a mo no brao dele. - At para 
mim, pois dou muito valor  sua vida, talvez mais at do que voc mesmo d. Quanto Guilherme pagou por sua vida, por seu juramento de lealdade? Posso compr-lo dele? 
Ento, voc faria esse juramento a mim? Mas, seja qual for o meu preo, para voc ainda sou uma mulher, muito bem-criada. Se eu me entregasse de boa vontade, pelo 
seu preo, seria ainda uma prostituta.
    Wulfgar levantou-se e disse, zangado:
    -  Voc  minha, duas vezes prometida por seus prprios lbios.
    
    
    Aislinn deu de ombros e sorriu.
    -  Uma escolha entre dois males, uma vez para aliviar o peso de um destino odioso, outra vez para prestigiar sua honra. Wulfgar, ser que no compreende? - Apontou 
para a porta. - Se eu sair para a rua, pode me proibir de trazer para a cama uma dzia de lordes da melhor reputao?
    Wulfgar balanou a cabea, e ela continuou, como que para gravar os pensamentos na mente dele:
    -  Wulfgar, oua o que estou dizendo. Que diferena faz um ou uma dzia? Que importa o preo? Se eu me entregar de boa vontade, ento, sou uma prostituta.
    Wulfgar tornou-se agressivo, esquecido de todo desejo.
    -  Ento, o que importa seu punhado de moedas de cobre ou palavras pronunciadas numa igreja? Qual a diferena, a no ser que estar prendendo um homem para toda 
a vida?
    Aislinn virou o rosto, outra vez com lgrimas nos olhos, vendo que ele jamais iria compreender o que realmente fazia dela a mulher que ele tanto desejava. Falou 
em voz to baixa que Wulfgar teve de se esforar para ouvir.
    -  Estou aqui sempre que desejar. Posso chorar e ceder outra vez ao seu desejo, mas sempre vou resistir at o limite mximo das minhas foras.
    Inclinou a cabea tristemente, e as lgrimas caram em suas mos cruzadas no colo. Detestando v-la chorar e incapaz de aliviar aquela tristeza, Wulfgar saiu 
do quarto.
    Ficou de p na frente da lareira, no salo, olhando para o fogo. Rilhou os dentes. "Preciso sempre violentar essa mulher", murmurou. "Quando ela vir para mim 
como eu quero?"
    -  Disse alguma coisa, meu senhor?-perguntou uma voz nasal atrs dele.
    Wulfgar voltou-se e viu Sanhurst olhando para ele.
    -  Porco saxo! - rugiu o normando. - Desaparea da minha frente!
    O jovem apressou-se a obedecer e Aislinn, no quarto, ouviu a voz de Wulfgar e compreendeu que ele descarregava sua fria nos outros. Foi at a porta, quase desistindo 
de sua deciso. Suspirou e balanou a cabea; aproximando-se da janela, encostou a cabea no batente, olhando para a cidade escura e nevoenta.
    O fogo estava apagado quando Wulfgar voltou para o quarto.
    Aislinn, na cama, fechou os olhos e fingiu que dormia, ouvindo os movimentos dele no quarto escuro e depois o peso de seu corpo na cama. Wulfgar encostou-se 
nela e Aislinn apenas suspirou, com um leve movimento. Mas era impossvel para ele resistir quela proximidade. Logo suas mos comearam a acarici-la e, fazendo-a 
ficar de costas, prendeu-a entre o peso de seu corpo e o colcho. Com beijos, suaves a princpio e cada vez mais ardentes, conseguiu fazer com que ela cedesse  
sua vontade.
    - No, no, por favor - murmurou ela, mas Wulfgar no a ouviu, e Aislinn sabia que, mais uma vez, estava perdendo a batalha. Ele a possuiu, e ela soluou quando 
seu corpo respondeu ao dele. Outra vez sob o peso do normando, o desejo cresceu at obscurecer tudo o mais, e depois a ergueu nas suas ondas enormes, carregando-a 
rapidamente para o seu destino.
    Satisfeita e exausta nos braos dele, Aislinn no sentiu vontade de chorar. Ficou intrigada com aquele estranho contentamento, que parecia encher todo seu corpo, 
e com o carinho com que Wulfgar a tratava. Ele lhe dera presentes, quando Aislinn sabia que no era seu costume. Dizia que no brigava por nenhuma mulher e tinha 
lutado por ela. Isso provava que mudara, e que podia mudar mais uma vez.
    Os dias seguintes passaram rapidamente, e Wulfgar foi vrias vezes chamado ao palcio para resolver certos detalhes de sua propriedade. Em pblico, ele e Aislinn 
agiam como um casal apaixonado. Havia lemura no menor contato e no olhar que trocavam. Mas na privacidade de seu quarto, Aislinn tornava-se fria e distante e parecia 
temer o mais leve toque das mos de Wulfgar. Essa resistncia comeava a cans-lo. Sempre tinha de comear tudo do princpio, atacando a fortaleza com vigor e pacincia, 
mas, quando terminavam, em vez de se afastar, como antes, Aislinn ficava perto dele, saboreando o prazer de seu abrao.
    
    No fim de trs dias, chegou a carta de Guilherme dispensando Wulfgar de seus deveres na corte e ordenando sua volta para Darkenwald. Quando a ordem chegou, Wulfgar 
no estava em casa, e s voltou muito tarde. Aislinn jantou sozinha e depois esperou por ele no quarto, com um prato de carne no fogo da lareira e uma jarra de cerveja 
no peitoril da janela. Na sua ltima noite em Londres, os dois ficaram na janela, olhando para a cidade, at a lua ficar alta no cu, calmos e em silncio, com um 
contentamento sereno que nunca haviam sentido antes. Aislinn apoiou as costas no peito de Wulfgar e ele abraou sua cintura, e aqueles momentos foram para ela de 
um prazer jamais experimentado.
    Na manh seguinte comeou a atividade. As ltimas peas da bagagem foram levadas para baixo. Agasalhada com a capa forrada de peles, Aislinn desceu para o desjejum 
e depois foi para o estbulo. Seu pequeno cavalo ruo estava amarrado na traseira da carroa, sem arreios. Intrigada, ela voltou-se e viu Gowain ao seu lado.
    -  Senhor cavaleiro, vou viajar na carroa?
    -  No, minha senhora. Sua montaria est ali adiante. Gowain apontou, com um sorriso satisfeito e, sem dizer mais nada,
    afastou-se. Aislinn franziu a testa e caminhou para a direo indicada. E l estava, no estbulo, a bela gua malhada, ajaezada com sua sela e um manto para 
cobrir suas pernas durante a viagem. Aislinn passou a mo no flanco do animal, sentindo os msculos fortes. Acariciou o focinho da gua, admirando o tom cinza-azulado 
do plo macio. Voltou-se a um pequeno rudo e viu Wulfgar atrs dela, rindo, satisfeito. Antes que ela tivesse tempo de abrir a boca, ele disse, com voz, brusca:
    -   seu - deu de ombros. - Eu lhe devia.
    Wulfgar levou Huno para fora e montou. Mais uma vez, com o corao aquecido, Aislinn lembrou da afirmao dele de que jamais gastava muito com suas mulheres. 
Feliz, levou o cavalo para fora e olhou em volta, admirada por no ter ningum para ajud-la a montar. Sir Gowain ento, galantemente, desmontou, ajudou-a a montar 
e ajeitou o manto sobre suas pernas. Tornou a montar, e eles partiram. Aislinn seguia um pouco atrs de Wulfgar. Atravessaram lentamente as ruas de Londres com a 
carroa rangendo atrs dos cavaleiros e os arqueiros fechando a retaguarda. Atravessaram a ponte, a estrada para Southwark, e chegaram ao campo aberto. Wulfgar olhava 
constante-mente para trs para ver se estava tudo bem. Finalmente, diminuiu o passo de Huno e esperou que Aislinn o alcanasse. Prosseguiram rapidamente outra vez, 
Aislinn feliz e sorridente, pois agora ocupava o lugar de esposa ao lado de seu senhor.
    O frio aumentou, e  noite armaram as tendas, uma para Wulfgar e Aislinn, outra para os cavaleiros e a terceira para os soldados. Hlynn ficou na carroa, ao 
lado da tenda de Wulfgar. Fizeram uma grande fogueira e, depois do jantar quente, retiraram-se para as tendas para se proteger do frio da noite. Tudo estava quieto, 
e Aislinn via o
    tremular do fogo atravs do pano da tenda. Estavam cobertos com grandes mantas de pele, e logo Wulfgar se aproximou e suas mos comearam a explorar. Um rudo 
na carroa onde Hlynn estava deitada interrompeu sua disposio. Depois de algum tempo, ele voltou  carga e, como de propsito, o rudo se repetiu. Wulfgar se afastou. 
Aislinn o ouviu resmungar uma imprecao e depois de um momento ele disse:
    - Aquela mulher se agita como um touro nervoso.
    Ele tentou outra vez, e outra vez Hlynn se agitou na carroa. Wulfgar resmungou e, virando para o outro lado, cobriu-se at o pescoo. Sorrindo e sabendo que 
estava livre por aquela noite, Aislinn aconchegou as cobertas e encostou-se nele para se aquecer melhor.
    
    O dia amanheceu claro e frio, e nuvens de vapor saam das narinas dos cavalos, umedecendo as rdeas e cobrindo de geada os brides. Continuaram a viagem, Aislinn 
com o corao leve porque naquela noite ia dormir em seu lar, em Darkenwald.
    
    
    
    
    

    
   
   Capitulo Dezessete
    
    
    ERA UM TPICO DIA de janeiro, frio e ensolarado. No havia fanfarras nem trombetas para receb-los, mas era a nica coisa que faltava quando entraram no ptio 
interno de Darkenwald, pois parecia que todo mundo viajara quilmetros para dar as boas-vindas ao novo senhor da manso. Envolta na capa forrada de pele, firme na 
sela da gua nervosa e esperta, Aislinn manteve-se um pouco atrs de Wulfgar. Ele conduziu Huno pelo meio da multido e desmontou na frente da casa. Um lacaio segurou 
o brido do cavalo de Aislinn, e Wulfgar ajudou-a a apear. Ele inclinou a cabea para ouvir o que Aislinn dizia, e Gwyneth, que os observava da frente da casa, franziu 
a testa, notando que o menor contato entre eles era quase uma carcia. Quando caminharam para o solar, a multido se aproximou - os cavaleiros que acabavam de chegar 
e os normandos que tinham ficado; crianas que desafiavam umas s outras para ver quem tinha coragem de tocar nos cavaleiros, especialmente em Wulfgar; e pessoas 
da cidade, vidas por notcias. Gwyneth tambm caminhou para a manso e, quando as portas se abriram, os sons que vinham de dentro misturaram-se com os de fora. 
Ces latiam e os homens gritavam suas boas-vindas. Da lareira vinha o cheiro doce do javali assado, preparado por dois criados jovens, misturando-se ao cheiro de 
suor, de couro e de cerveja.
    Ali Aislinn conhecia cada cheiro e cada voz. O barulho era
    atordoante, mas ela parecia mais viva e mais alerta no meio daquela cacofonia de sons, de coisas e de cheiros. Seu corao batia mais forte a cada rosto familiar 
que via. Estava em casa, longe da formalidade forada da corte. As mulheres falavam alto, apressando o banquete, e os homens tomavam cerveja. Saudaes e brindes 
soavam por todos os lados. Aislinn de repente viu-se no meio de uma roda de homens que conversavam alegremente com Wulfgar. Sentindo-se deslocada, fez um movimento 
para se afastar, mas, sem interromper a conversa, ele a impediu com a mo em seu ombro. Satisfeita, Aislinn encostou nele, ouvindo sua voz profunda e seu riso descontrado.
    A sala ficou silenciosa quando Gwyneth disse, com voz estridente:
    -  Muito bem, Wulfgar, j se cansou de matar saxes? Caminhou para ele com passo decidido, e todos abriram caminho
    para sua passagem.
    -  Voc ganhou este belo lugar e tudo que ele contm, ou devemos arrumar nossas coisas e procurar outro abrigo?
    Wulfgar sorriu, tolerante.
    -   meu, Gwyneth. Nem Ragnor conseguiu tir-lo de mim. Ela ergueu as sobrancelhas interrogativamente.
    -  O que quer dizer?
    -  Ora, Gwyneth, lutamos por esta bela terra e por Lady Aislinn. Gwyneth voltou para Aislinn os olhos entrecerrados e acusadores.
    -  O que a prostituta andou fazendo? Qual a intriga que levou voc a lutar com aquele valoroso cavaleiro? Imagino que ela encheu sua cabea de intrigas contra 
mim. Posso ouvir suas queixas chorosas e ver seus olhos inocentes.
    Wulfgar sentiu a tenso de Aislinn ao seu lado, embora ela parecesse impassvel.
    Estendendo as mos para ele, Gwyneth disse, em tom de splica:
    -  Oh, meu irmo, no percebe o jogo dela? Ela quer mandar em Darkenwald por seu intermdio e afast-lo de ns. Voc deve se libertar desse entusiasmo vulgar 
de bastardo e mand-la embora, antes de ser destrudo. Deve procurar uma mulher nobre na corte. Seus hbitos e suas brincadeiras com esta prostituta no condizem 
com sua posio de senhor de Darkenwald, e ela vai ser o seu fim.
    Olhou para Aislinn com altivo desdm e continuou:
    -  Ela incita os criados contra mim. Na verdade, chegou a me impedir de castigar aquele insolente Haylan por desobedecer s minhas ordens. Sim, at Sweyn foi 
enfeitiado, e sem dvida vai tomar as dores dela.
    Ela ergueu a sobrancelha para Wulfgar e sorriu.
    -  Ela contou de sua amizade com seu antigo noivo e das brincadeiras dos dois na sua ausncia? Foi muito conveniente para eles voc ter trazido aquele escravo 
para dentro de casa.
    Gwyneth viu a expresso furiosa do irmo e cantou vitria:
    -  Ora, a boa Haylan, que voc mandou para morar na manso - voltou-se e sorriu para a sax, um pouco constrangida, mas elegantemente vestida com as roupas de 
Aislinn -... Aislinn recusou dividir suas roupas com ela, at eu resolver acertar as coisas. No vejo nenhum mal em partilhar as roupas, quando a pobre mulher no 
tinha nada para vestir. Acima de tudo, esta escrava exige comida de mulher livre e prepara a comida como qualquer criada.
    Wulfgar olhou para os rostos dos que os observavam em silncio. Em alguns viu dvida, em outros raiva. Gowain, de p ao lado dele, estava pronto para defender 
Aislinn se Wulfgar no o fizesse. Wulfgar voltou-se para a irm.
    -  At voc aparecer, eu no tinha ouvido nenhuma queixa ou acusao, Gwyneth - observou ele, com voz calma, e viu a surpresa nos olhos dela. - Na verdade, Aislinn 
no disse uma palavra sobre voc ou Haylan.
    Gwyneth gaguejou, confusa, e Wulfgar sorriu sarcstico.
    -  Ao que parece, cara irm, os nicos lbios que a traram foram os seus. Mas, agora que j fez suas queixas, peo que escute com. ateno - continuou ele, 
com severidade. - Eu sou o senhor aqui, Gwyneth, agora, com ttulo concedido pelo Rei. Sou tambm juiz e, se julgar necessrio, executor. Compreenda, nenhuma punio 
ser aplicada sem minha ordem, e voc no tem nenhum direito a partilhar a minha autoridade, que pertence somente a mim e no pode ser usurpada por mais ningum. 
Voc, como todos aqui, deve obedecer s minhas leis, e pode estar certa de que no hesitarei em julg-la como a qualquer outra pessoa. Portanto, tenha cuidado, minha 
irm.
    -  Quanto queles que mandei para c - olhou para Haylan, que se encolheu, embaraada -, eu os mandei para servir minhas terras com o que sabem fazer, e a nenhum 
deles dei ordem para morar na manso.
    Olhou para Aislinn e depois outra vez para Gwyneth.
    -  Voc se recusa a ver que Aislinn me serve bem e fielmente em tudo que preciso e procura remediar o mal que voc faz. Tenho prazer em sua companhia e ela me 
obedece,dentro da minha casa, como voc. Quero repetir que ela  a mulher que escolhi. O que lhe pertence, cedo a ela de bom grado por seu servio ou por minha vontade. 
Kerwick sabe muito bem disso e conhece o peso de minha mo, portanto tenho certeza de que no tocaria nem de leve em qualquer coisa que me pertence.
    Apontou para as roupas que ela e Haylan vestiam.
    -  Vejo que dividiram muito bem esses pobres andrajos, mas, daqui em diante, o que  dela lhe pertence e, se for tomado, vou considerar roubo. No gosto que 
voc entre no meu quarto. Nunca mais faa isso sem minha ordem ou de Aislinn.
    Embaraada, Gwyneth ficou em silncio.
    -  Por considerao ao seu pai e  nossa me, estou dizendo isto gentilmente-continuou Wulfgar. - Mas tenha o maior cuidado para no abusar outra vez da minha 
boa vontade.
    -  Eu no esperava que voc compreendesse a minha situao penosa, Wulfgar-suspirou Gwyneth.-Afinal, no passo de sua irm.
    A calma dignidade com que ela saiu da sala enganou o corao de alguns dos presentes. Haylan acompanhou-a com olhos atnitos at ela desaparecer, depois foi 
para perto da lareira onde estavam assando o javali e outras caas. Kerwick olhou para ela com zombaria nos olhos azul-claros.
    -  Sua roupa  boa demais para este trabalho, minha senhora.
    -  Cala a boca, idiota - sibilou Haylan. - Do contrrio vou acabar com voc. Meu irmo Sanhurst est aqui agora e vai me defender.
    Kerwick olhou para Sanhurst que subia a escada carregando a arca de Wulfgar, e riu.
    -  Ao que parece, Sanhurst, est muito ocupado para se preocupar com seus problemas. Como um bom rapaz, ele no pretende partilhar a mesa do patro, mas est 
satisfeito com o trabalho.
    Com um olhar furioso para ele, Haylan voltou-se para experimentar a carne.
    Era tarde quando terminaram a refeio, e Wulfgar e Aislinn subiram juntos para o quarto. Ele fechou a porta e Aislinn rodopiou pelo quarto, feliz por estar 
em casa outra vez.
    -  Oh, Wulfgar - exclamou ela. - Quase no posso suportar tanta felicidade.
    O normando franziu a testa e olhou em volta, com a impresso de que tudo lhe dava as boas-vindas tambm. No podia ignorar as palavras de Gwyneth e procurava 
uma explicao para elas.
    Aislinn parou e, atordoada, deixou-se cair na cama; rolou para o lado, espalhando as mantas de pele e jogando algumas no cho.
    De repente Aislinn o viu inclinado para ela, com expresso sombria, e ficou imvel, ajoelhada na cama.
    -  Voc est doente, Wulfgar? - perguntou, preocupada. - Algum ferimento o incomoda? - Bateu com a mo na cama, ao seu lado. - Venha, deite aqui. Eu fao uma 
massagem.
    As sobrancelhas dele se fecharam, tempestuosas.
    -  Aislinn, voc me traiu?
    Ela arregalou os olhos, espantada.
    -  Antes de dizer alguma coisa - aconselhou ele -, quero que saiba que preciso saber a verdade. Dormiu com Kerwick durante minha ausncia?
    Aislinn olhou nos olhos, cinzentos e indecisos, os dela escurecendo  medida que a raiva crescia. Ela estremeceu, furiosa e ofendida. Roubar seu orgulho e depois 
questionar sua fidelidade. Seu punho fechado atingiu com fora o peito largo do normando. A dor lancinante que sentiu na mo encheu seus olhos de lgrimas, mas Wulfgar 
continuou impassvel. A raiva chegou ao auge.
    -  Como se atreve! Fez de mim sua escrava, tomou toda a virtude que eu ainda possua e ousa me fazer essa pergunta? Oh, seu traidor miser...
    Apanhou uma manta da cama e correu para a porta. Voltou-se ento para ele, ainda sem encontrar palavras que traduzissem sua fria. Bateu com o p no cho e saiu, 
descendo a escada e atravessando o salo, ignorando Bolsgar, que, sentado na frente da lareira, ergueu os olhos, surpreso. Aislinn atravessou o ptio e, como no 
tinha para onde ir, entrou na trilha que levava  cabana de Maida. Quase matou a me de susto quando abriu a porta e a fechou com violncia, encaixando a tranca 
pesada, finalmente satisfeita. Sem uma palavra de explicao, Aislinn sentou na nica cadeira, cobriu-se com a manta e ficou olhando para o fogo. Maida, adivinhando 
o que tinha acontecido, considerou a rejeio da filha uma vingana perfeita contra Wulfgar. Com uma casquinada, ela saltou da cama e, danando feliz, aproximou-se 
da filha, que olhou zangada para ela. Mas Maida parou de rir quando passos pesados soaram l fora. Algum tentou abrir a porta, e depois parecia querer derrub-la 
com batidas violentas.
    -  Aislinn - soou a voz de Wulfgar.
    Aislinn olhou furiosa para a porta e voltou a olhar para o fogo.
    -  Aislinn!
    A madeira estremecia, mas Aislinn no se moveu. Ento, com um estalo a tranca se partiu e a porta, arrancada das dobradias de couro, caiu no cho. Com um grito 
estridente, Maida fugiu para o canto mais escuro da cabana. Aislinn levantou-se e virou de frente para ele, furiosa. Wulfgar passou por cima da porta quebrada e 
olhou para ela.
    -  Megera sax! - rugiu ele. - Nenhuma porta trancada vai me impedir de ter o que  meu.
    -  Eu sou sua, meu senhor? - zombou ela.
    -  Sim,  - trovejou Wulfgar.
    Aislinn falou devagar, como se cada palavra a magoasse.
    -  Sou sua, meu senhor, por direito de conquista? Ou talvez, meu senhor, sou sua pelas palavras de um padre? Ou sou sua apenas por suas palavras?
    -  Voc dormiu com aquele filhote de co? - gritou Wulfgar.
    -  No!-gritou Aislinn, depois continuou com voz mais suave para que cada palavra soasse claramente:-Eu podia ter dormido com o filhote de co na presena de 
Hlynn, de Ham e de minha me e com Sweyn guardando a minha porta? Teria feito isso para diverti-los? - Seus olhos brilharam com lgrimas turbulentas. - Eu estaria 
me negando constantemente e pedindo para poupar a minha dignidade se eu no tivesse nenhuma? Acredite em Gwyneth, se quiser, mas no espere que eu rasteje aos seus 
ps para me penitenciar do que no fiz. Tem liberdade para escolher entre a minha palavra e a de Gwyneth. No vou mais responder a essas acusaes, e no vou implorar 
para que acredite em mim.
    Wulfgar olhou atentamente para ela e depois, delicadamente, enxugou uma lgrima do rosto suave.
    -  Mulher sax, voc encontrou um lugar no meu ntimo, onde s voc pode me ferir.
    Wulfgar abraou-a e olhou nos olhos dela, completamente dominado pela paixo e pelo desejo. Sem uma palavra, pegou-a no colo e, passando outra vez sobre os restos 
da porta, carregou-a noite adentro at a manso pouco iluminada quela hora. Quando atravessou o salo com ela nos braos, Bolsgar riu, olhando para sua caneca de 
cerveja.
    -  Ah, esses jovens namorados, sempre conseguem o que querem.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Dezoito
   
   
   
    ESTAVAM NO COMEO do segundo ms do ano e a neve j no caa mais, porm a chuva fria era constante, e as nuvens escureciam o topo das colinas. s vezes uma 
neblina pesada subia dos pntanos e cobria a cidade durante todo o dia. O frio mido parecia chegar at os ossos e convidava a ficar perto da lareira.
    A cabana de Maida ficou fria quando Aislinn abafou cuidadosamente as brasas para varrer as cinzas e limpar a lareira. Aislinn sabia que Wulfgar estava no estbulo, 
cuidando pessoalmente dos cavalos, como costumava fazer quando tinha uma folga, e aproveitou a oportunidade para cuidar do conforto de Maida e levar comida suficiente 
para que a me no precisasse se expor  chuva fria. Maida, sentada na beirada da cama, com um sorriso quase insano nos lbios e os olhos brilhando na cabana escura, 
observava o trabalho da filha.
    Aislinn ergueu o corpo com a mo nas costas para aliviar uma dor persistente. O movimento brusco fez a cabana girar em volta dela e, para no cair, apoiou-se 
na chamin da lareira. Quando ela enxugou algumas gotas de suor na testa, Maida perguntou.
    - Acriana j se mexeu?
    Sobressaltada e surpresa, Aislinn voltou-se para a me e rapidamente respondeu que no. Sentou na cadeira, segurando com fora a vassoura de gravetos, e ergueu 
os olhos numa splica.
    -  Pensou que podia esconder de mim para sempre, minha filha? - perguntou Maida.
    -  No - murmurou Aislinn, sentindo-se sufocar no pequeno espao. - Escondi de mim mesma por muito tempo.
    Aislinn compreendeu ento que h muito tempo sabia que ia ter um filho. Os seios estavam maiores e no tinha regras desde a noite com Ragnor. Uma tristeza pesada 
apertou seu corao, e as palavras tornaram real o que pela primeira vez ela admitia estar carregando no ventre.
    -  Sim - as palavras de Maida estalaram em seus ouvidos. - Eu sei que voc est com um filho, mas de quem?
    Com uma risada estridente, Maida inclinou a cabea para trs, depois para a frente e bateu com as mos nos joelhos. Ento, dobrou o dedo indicador, como quem 
chama algum, e murmurou com voz rouca e um riso spero:
    -  Escute, minha filha. No fique triste. Escute. - Inclinou outra vez o corpo para trs com seu riso insano.-Uma doce vingana para esses arrogantes senhores 
normandos. Um bastardo para um bastardo.
    Aislinn ergueu os olhos, horrorizada com a idia de ter um filho bastardo. A alegria insensata da me no lhe servia de consolo, e de repente sentiu necessidade 
de ficar sozinha. Vestiu a capa e saiu rapidamente da cabana abafada e malcheirosa.
    A nvoa fria em seu rosto acalmou-a, e ela caminhou devagar, tomando o caminho mais longo para a casa, entre os salgueiros que marcavam a borda do pntano. Parou 
por algum tempo na margem de um pequeno regato e teve a impresso de que a gua estava rindo dela. Como decara a antiga Aislinn, antes to orgulhosa! De quem  
o bastardo que voc traz no ventre? De quem? De quem?
    Ela queria chorar de angstia, expressar com lgrimas seu tormento, mas apenas olhava imvel para a gua escura e para os vultos das rvores meio encobertas 
pela nvoa, imaginando como ia contar a Wulfgar. Ele no ficaria feliz, pois gostava demais das noites com ela e certamente ia se aborrecer. Imaginou se ele a mandaria 
embora com o filho, mas afastou imediatamente esse pensamento. O que tinha a fazer era contar a ele assim que estivessem a ss.
    A ocasio se apresentou muito antes do que ela imaginava, pois, quando passou pelo estbulo, viu que Wulfgar estava sozinho. Aislinn pensara em esperar at a 
noite, na privacidade do quarto, mas sabia que aquele momento era melhor, quando Wulfgar tinha outras coisas para ocupar as mos e a mente.

    Wulfgar trabalhava  luz enfumaada de uma lanterna dependurada na viga do teto. Uma das patas de Huno estava presa entre seus joelhos, e ele acertava as bordas 
do casco com uma faca. Aislinn imaginou Wulfgar num acesso de raiva quando soubesse de sua condio. Parou, indecisa, mas Huno virou a cabea para ela e bufou, traindo 
sua presena. Aislinn respirou fundo e entrou no estbulo. Wulfgar ergueu os olhos e largou a pata de Huno ao v-la, comeando a limpar as mos. Quando ela se aproximou, 
ele notou sua hesitao. Enquanto esperava que ela dissesse alguma coisa, ele comeou a escovar o flanco do animal.
    -  Monseigneur - murmurou ela. - Temo que o que vou dizer vai deix-lo muito zangado.
    Ele riu, tranqilo.
    -  Deixe que eu julgue, Aislinn. Vai ver que prefiro sempre a verdade a mentiras.
    Olhando nos olhos dele, ela disse, sem mais rodeios:
    -  E se eu dissesse que vou ter um filho?
    Wulfgar ficou imvel por um momento, olhando para ela, depois deu de ombros.
    -  Era de se esperar. Todos sabem que isso acontece - riu, examinando-a de alto abaixo. - Faltam alguns meses ainda para que seu corpo impea o nosso prazer.
    A exclamao de Aislinn assustou os pombos no telhado. Huno arregalou os olhos e se afastou dela, mas Wulfgar, menos sensato do que o animal, ficou onde estava, 
sorrindo, divertido.
    -  Acho que eu posso suportar o perodo de abstinncia, chrie. Wulfgar voltou-se, rindo do prprio humor e, antes que pudesse dar
    um passo, os punhos de Aislinn comearam a castigar-lhe impiedosa-mente as costas. Ele virou-se para ela, surpreso, e Aislinn continuou o ataque, agora no peito 
largo, at notar a expresso de espanto do normando e compreender que seus golpes no tinham o menor efeito. Recuando, com os dentes cerrados, ela passou a outra 
forma de ataque, acertando a canela dele com a ponta do sapato. Wulfgar recuou e se escondeu atrs de Huno, passando a mo na canela. Perguntou ento:
    -  Que loucura  essa, mulher? - gemeu ele. ~- O que eu fiz para merecer toda essa fria?
    -  Voc  grosseiro e sem corao! - exclamou ela. - Tem a mente de uma galinha cacarejante.
    -  O que queria que eu fizesse? - perguntou ele. - Agir como se fosse um grande desastre, ou um milagre, quando j esperava que isso acontecesse? Voc tinha 
de ser apanhada, mais cedo ou mais tarde.
    -  Ohhh! - gritou Aislinn. - Seu normando insuportvel, cabea de porco, idiota!
    Aislinn deu meia-volta, furiosa, com o manto enfunado em volta dela, passou por Huno e chutou um monte de feno que estava perto dele. A palha espalhou-se no 
ar, e o cavalo recuou, nervoso, outra vez. O ar saiu todo dos pulmes de Wulfgar, com um breve "ufa!" quando Huno o espremeu contra a parede.
    Ao sair do estbulo, foi com satisfao que Aislinn o ouviu dizer.
    -  Saia da, seu pangar desajeitado! Mexa-se!
    Aislinn abriu a pesada porta da manso, fechou-a com uma batida e entrou na sala. Os homens em tomo da lareira voltaram-se, sobressaltados, menos Bolsgar e Sir 
Milbourne, absortos numa partida de xadrez. Vendo que no havia motivo para alarme, eles olharam outra vez para a lareira, e Aislinn subiu a escada, mal contendo 
sua fria. Encontrou Kerwick, que ia para o quarto de Gwyneth com uma braada de lenha, e lembrou que no chegara a acender o fogo para Maida. Parou na frente do 
ex-noivo.
    -  Kerwick, ser que podia levar um pouco de lenha para minha me, se no estiver muito ocupado? Acho que no deixei o suficiente para a noite.
    Notando o rosto corado e os msculos tensos, um sinal certo de agitao, ele perguntou:
    -  Alguma coisa a preocupa, Aislinn? Com um olhar altivo, ela respondeu:
    -  Nada de importante.
    -  Voc entra aqui como um furaco vindo do mar - disse ele - e diz que no  nada de importante?
    -  No seja inconveniente, Kerwick.
    Ele riu e com a cabea indicou os homens na sala.
    -  S falta o nico que podia ter provocado sua ira. Briga de namorados?
    -  No  da sua conta, Kerwick - disse Aislinn, secamente. Ele ps a lenha no cho.
    -  Voc contou a ele que vai ter um filho?-perguntou, falando devagar.
    Aislinn olhou para ele com espanto, mas Kerwick apenas sorriu.
    -  Ele no gostou? No gosta da idia de enfrentar a recompensa do prazer?
    -  Parece que vocs se divertem adivinhando as coisas da minha vida - murmurou Aislinn, recobrando-se do choque causado pela pergunta dele.
    -  Ento, o grande normando no sabia-concluiu Kerwick. - Ele se ocupa demais com guerras para entender um pouco de mulheres.
    Aislinn ergueu a cabea rapidamente.
    -  Eu no disse que ele no sabia - protestou ela, e depois cruzou os braos na frente do corpo. - Na verdade, ele esperava que acontecesse.
    -  Ele vai assumir a responsabilidade do feito ou deixar que Ragnor tenha o crdito? - perguntou ele, com ironia.
    Um brilho feroz apareceu nos olhos cor de violeta.
    -   claro que  de Wulfgar.
    -  Oh? - Kerwick ergueu as sobrancelhas. - Sua me disse...
    -  Minha me! - exclamou Aislinn, dando um passo para ele. - Ento, foi assim que voc soube!
    Kerwick recuou.
    -  Ela fala demais - disse Aislinn com os dentes cerrados. - No importa o que ela diga, este filho  de Wulfgar.
    -  Se  assim que voc quer, Aislinn-disse Kerwick, cauteloso.
    -   o que eu quero porque  a verdade - exclamou ela. Kerwick deu de ombros.
    -  Pelo menos ele  mais honrado do que aquele tratante.
    -  Certamente que -disse Aislinn com altivez.-E, por favor, meu bom amigo, no esquea isso!
    Entrou no quarto e bateu a porta com fora, deixando Kerwick confuso com tanta lealdade a Wulfgar, quando todos sabiam que o normando se recusava a casar com 
ela.
    Aislinn comeou a andar pelo quarto, tremendo de raiva da impertinncia de Kerwick. Como ele ousava insinuar que era a semente de Ragnor que crescia dentro dela, 
quando Aislinn odiava at a lembrana dele?
    Mesmo que fosse de Ragnor, Aislinn resolveu que faria tudo para que o pai fosse Wulfgar, custasse o que custasse.
    Kerwick atravessou o ptio e parou na porta do estbulo onde Wulfgar trabalhava. Os movimentos e o tom de voz do normando traam sua irritao.
    -  Animal idiota, com medo de uma coisinha dessas. Acho que vou mandar capar voc.
    Huno bufou e passou o focinho no brao do dono.
    -  Desencoste de mim - disse Wulfgar - ou fao com que ela o assuste outra vez. Sem dvida,  o maior castigo possvel.
    -  Problemas, meu senhor? - perguntou Kerwick, entrando no estbulo. Queria saber como estavam as coisas entre o normando e Aislinn e se ele ia fazer o que era 
direito.
    Wulfgar ergueu a cabea bruscamente.
    -  Ser que no posso fazer meu trabalho em paz?-resmungou.
    -  Peo que me perdoe, senhor. Pensei que havia alguma coisa errada. Ouvi o senhor falando...
    -  No h nada de errado - respondeu Wulfgar friamente. - Pelo menos, nada que eu no possa consertar.
    -  Vi Aislinn na manso - disse Kerwick cautelosamente, procurando controlar o medo que lhe apertava a garganta. Lembrava muito bem dos aoites em suas costas 
para ficar ansioso cada vez que mencionava o nome dela para o normando.
    Wulfgar endireitou o corpo e olhou para o jovem com uma sobrancelha erguida.
    -  Oh?
    Kerwick engoliu em seco.
    -  Ela parecia muito perturbada, senhor.
    -  Ela parecia muito perturbada! - zombou Wulfgar, e depois resmungou: - No tanto quanto eu estou.
    -  Essa criana o desagrada, senhor?
    Como Aislinn, Wulfgar se espantou e entrecerrou os olhos.
    -  Ento ela lhe contou, no foi? Kerwick empalideceu.
    -  A me dela me contou h algum tempo.
    Wulfgar atirou na pequena mesa ao seu lado o pedao de pano que tinha na mo.
    -  Aquela maluca da Maida tem a lngua solta.
    -  Quais so suas intenes, meu senhor?-perguntou Kerwick com voz rouca, antes que o medo o fizesse engolir as palavras.
    Os olhos cinzentos do normando eram como duas lminas aguadas.
    -  Est esquecendo o seu lugar, saxo?Ser que perdeu a cabea? Esquece que eu sou o senhor, aqui?
    -  No, Sire - apressou-se a responder Kerwick.

    -  Ento, lembre tambm que no admito que um escravo questione minhas aes - disse ele, com voz clara, acentuando cada palavra.
    -  Meu senhor - disse Kerwick, em voz lenta , Aislinn  bem-nascida e foi bem-criada. No pode suportar a humilhao de ter um filho sem ser casada.
    Wulfgar bufou e virou o rosto.
    -  Eu acho, saxo, que voc subestima demais aquela jovem.
    -  Se o senhor declarar que o filho  de Ragnor, ento...
    -  De Ragnor?-Wulfgar virou rapidamente para Kerwick com os olhos frios como ao. - Voc est indo longe demais, pondo em dvida a paternidade da criana. No 
 da sua conta.
    Kerwick suspirou.
    -  Ao que parece, Aislinn  da mesma opinio. Na verdade, foi exatamente o que ela disse.
    Wulfgar se acalmou.
    -  Ento, devia ter dado ateno s palavras dela, saxo.
    -  Aislinn no tem mais ningum para defender sua honra, senhor, e eu sempre desejei o melhor para ela. Conheo-a desde que nasceu, h uns dezoito invernos. 
No suporto a idia de v-la desonrada.
    -  No farei nenhum mal a ela - disse Wulfgar. - A criana pode ser mandada para a Normandia, e ningum saber as circunstncias. Tenho amigos que se encarregaro 
de cuidar muito bem dela. Ter mais vantagens do que eu tive.
    Kerwick olhou espantado para ele.
    -  Pretende mandar Aislinn embora tambm?
    -   claro que no-disse Wulfgar, surpreso. - Continuaremos como antes.
    Kerwick zombou com ironia.
    -  No, o senhor pode conhecer as mulheres da corte, mas acho que precisa aprender muito sobre Aislinn. Ela jamais deixar que levem seu filho.
    Wulfgar disse, carrancudo:
    -  Quando chegar a hora, ela vai compreender que  mais sensato. Kerwick riu.
    -  Nesse caso, tome cuidado, senhor, no diga nada a ela at chegar essa hora.
    Wulfgar ergueu uma sobrancelha.
    -  Est me ameaando, saxo? Kerwick balanou a cabea.
    -  No, meu senhor, mas, se quer conservar Lady Aislinn ao seu lado, no diga nada sobre isso, nem para ela nem para outros que possam avis-la de suas intenes.
    Wulfgar olhou atentamente para o jovem e disse, desconfiado:
    -  Ento vocs deixariam a criana aqui como prova dos meus pecados e para alimentar o dio do povo pelos normandos?
    Kerwick suspirou frustrado e inclinou a cabea numa saudao zombeteira.
    -  Tambm no, meu senhor. - Ergueu os olhos para o normando e disse com urgncia na voz: - Mas, senhor, pensa que Aislinn  uma jovem sem vontade prpria, que 
pode tirar o filho dela e mand-lo para o outro lado do mar? No. Quanto tempo poderia evitar a ponta de sua adaga? Ou o senhor a mataria antes que ela pudesse fugir 
ou atac-lo? - Levantou a mo, vendo que Wulfgar ia responder. - Pense bem, meu senhor - avisou. - O senhor pode ter os dois ou nenhum deles - balanou a cabea 
-, mas nunca um s.
    Wulfgar olhou para ele por um momento, depois voltou ao trabalho.
    -  Desaparea da minha frente, saxo. Est me irritando. Ela far o que eu mandar.
    -  Sim, meu senhor.
    A ironia na voz de Kerwick o fez olhar outra vez para o jovem saxo. Viu desprezo e incredulidade em seu rosto e abriu a boca para censur-lo, mas Kerwick deu 
meia-volta e saiu do estbulo. Wulfgar ficou um longo tempo com a boca aberta, depois fechou e voltou pensativamente a escovar Huno.
    Aislinn estava sentada na frente da lareira do quarto, envolta num cobertor, quando ouviu os passos de Wulfgar no corredor. Pareciam mais lentos que de costume. 
Ela se inclinou sobre a camisa de linho que estava fazendo para ele, concentrando-se nos pontos pequenos e perfeitos, e, quando ele entrou, nada indicava seu acesso 
de fria de poucos momentos atrs. Ele a vira muitas vezes naquela mesma posio, fazendo o mesmo trabalho. Aislinn levantou a cabea e sorriu, mas Wulfgar, de cenho 
cerrado, olhou para ela desconfiado. Ela percebeu que Wulfgar tinha se lavado no estbulo porque estava com o cabelo molhado e as mangas da camisa arregaadas.
    -  Voc est melhor? - perguntou ele.
    -  Estou tima, meu senhor. E o senhor? - respondeu ela, docemente.
    
    Wulfgar resmungou alguma coisa e comeou a se despir, como sempre arrumando a roupa na cadeira.
    Aislinn deixou a costura e levantou-se. O cobertor ficou na cadeira, e ela caminhou nua para a cama, atraindo o olhar de Wulfgar. Estremeceu de frio e deitou 
depressa, cobrindo-se com as mantas de pele at o pescoo. Ergueu os olhos para Wulfgar, mas ele virou o rosto bruscamente. Ela o observou abafando o fogo, e s 
depois de muito tempo ele se aproximou da cama. Tirou o cinturo com a espada deixou-o no cho. Embora no trancasse mais a porta todas as noite a espada Ficava 
sempre ao alcance de sua mo.

    Wulfgar parou por um momento, olhando para ela, com as mos dos lados do corpo e uma expresso ameaadora. Aislinn deitou lado, de costas para ele, e depois 
de algum tempo Wulfgar apagou vela e se deitou. Imvel e tenso, no se aproximou dela. Aislinn estremeceu outra vez, aconchegando mais as cobertas. Geralmente partilhava 
com ela o calor de seu corpo, mas nessa noite no pareci disposto a isso. O tempo passou lentamente. Quando afinal Aislinn virou para ele, viu com espanto os olhos 
de Wulfgar fixos neta, co se quisesse ler sua mente.
    -  Est preocupado, monseigneur - perguntou ela.
    -  S com voc, meu amor. Minhas outras preocupaes no dariam para impedir a passagem de uma formiga.
    Aislinn deu outra vez as costas para ele e ficou quieta, sentindo olhar penetrante do normando. O tempo se arrastou novamente,  Wulfgar no fez nenhum movimento 
para se aproximar dela.
    -  Estou com frio - queixou-se ela.
    Wulfgar chegou mais perto, mas no o suficiente para aquec-la. Aislinn estremeceu outra vez de frio e, depois de outro longo tempo, ele encostou o peito nas 
costas dela, mas continuou rgido e imvel.
    Os pensamentos que tumultuavam a mente de Wulfgar desapareceram, expulsos pela sensao da pele macia no seu peito e ele* imaginou outras partes daquele corpo, 
os seios redondos, rosados cor de marfim, macios como veludo sob suas mos, as pernas longas, esbeltas e perfeitas, os quadris estreitos...
    Aislinn quase se assustou sentir todo o corpo de Wulfgar encostado no dela. Abriu os olhos quando ele a abraou com fora e suas mos comearam a fazer coisas 
que nada tinham a ver com aquecimento. Wulfgar a fez virar para ele, e por um momento Aislinn viu nos olhos cinzentos o desejo intenso que o dominava.
    -  Voc sabe o que eu quero - murmurou, com voz rouca, antes de beijar os lbios dela.
    Wulfgar sentiu a frieza da resposta, enquanto suas mos percorriam livremente o corpo macio. Mas insistiu. Seus lbios acariciaram e abriram os dela com beijos 
sedentos que quase a impediam de respirar. Aislinn no sentia mais frio. Na verdade, as brasas de seu ardor, atiadas, erguiam-se em chamas que quase a consumiam. 
Com um gemido suave e tristonho, ela passou os braos pelo pescoo dele e seus lbios cederam  intensidade do desejo do normando. Wulfgar sentiu que, mais uma vez, 
quebrara o gelo da resistncia dela. Coma boca na dele, Aislinn respondia com todo o vigor de seu corpo. Naquele momento, ambos davam e tomavam at o calor da paixo 
os fundir num s corpo. Os lbios de Wulfgar acariciavam a testa de Aislinn, sua orelha, e o perfume suave de lavanda o embriagava. Encostou o rosto no pescoo dela, 
e seus lbios escaldantes pareciam queim-la. Aislinn estremeceu e murmurou o nome dele com urgncia na voz. Os lbios dele juntaram-se outra vez aos dela, e um 
turbilho os levou em suas correntes sinuosas para alturas inimaginveis, sempre para cima, at libert-los,e era como se flutuassem, unidos no prazer.
    
    Wulfgar levantou da cama e olhou para Aislinn, que dormia ainda, com a testa levemente franzida e os lbios entreabertos. O cabelo vermelho dourado sobressaa 
sobre a manta de pele, e seus ombros eram brancos e macios. Ele balanou a cabea, e os pensamentos tomaram conta de sua mente, afastando o sono. Vestiu a cala 
e a camisa e desceu para o salo. Bolsgar estava sentado na frente da lareira, tomando um clice de vinho de boa safra. Wulfgar serviu-se de um clice do bom vinho 
e sentou ao lado dele. Os dois ficaram um longo tempo em silncio, olhando para o fogo. Finalmente, Bolsgar disse:
    -  O que o preocupa, Wulfgar?
    Depois de um longo tempo, o normando fez a pergunta que o atormentava.
    -  Como se pode adivinhar o que uma mulher pensa, Bolsgar? - suspirou. - Ela me atormenta desse modo por no se importar comigo ou por vingana?
    -  Pobre tolo - riu Bolsgar. - A mulher  como o ao mais macio, porm extremamente afiado. Precisa ser mimada e bem-cuida-da constantemente.  uma arma para 
ser usada na luta mais feroz, mas para servir bem precisa ser afiada e protegida e, acima de tudo, ficar sempre muito perto de voc. - Ele sorriu. - Dizem at que 
a melhor lmina deve ser unida ao dono por um juramento de lealdade.
    -  Ora! - zombou Wulfgar. - Sempre compro minhas lminas com um punhado de moedas e depois determino sua forma.
    -  Sim - respondeu Bolsgar. - Mas lembre-se de uma coisa A lmina  temperada para cortar imediatamente uma simples haste de palha. O destino da mulher  comear 
uma nova vida no seu ventre, dar  luz e alimentar essa vida e cuidar dela para sempre.
    Wulfgar ergueu as sobrancelhas. No aceitava a opinio de Bolsgar. Olhou para o fogo, irritado.
    -  No sei de coisa alguma sobre esses artifcios e no dou valor a juramentos e votos de unio. Sou ligado por juramento a Guilherme e a Sweyn por amizade. 
No tenho nenhuma vontade de me ligar a mais ningum. Na minha opinio, devo viver minha vida do melhor modo possvel. - Com voz spera e irnica, continuou: - As 
mulheres so seres frgeis que eu uso. Elas me do prazer e, se eu tambm lhes dou prazer, o que mais podem desejar? Ser que isso precisa se transformar numa unio 
registrada no livro mofado de uma abadia escura? - Fez uma pausa, depois continuou, com voz mais suave:-Ou no ser mais bem gravado no esplendor de um momento, 
como algo justo e certo e lembrado com ternura?
    Bolsgar inclinou-se para a frente, irritado.
    -  No estamos falando de mulheres, Wulfgar, mas de uma mulher. Chega um momento para todo homem em que ele tem de enfrentar a prpria vida e determinar o que 
fez de certo e onde falhou. - Deu de ombros e recostou na cadeira.-Eu falhei. - Olhou para o fogo. - O que vejo no me d prazer. Tudo que fiz s levou ao sofrimento 
e  privao. No tenho terras, no tenho armas, no tenho filhos. O melhor que tenho  uma filha amargurada com o mundo. Levado pela fria, rejeitei tudo que devia 
ter conservado. - Voltou-se para Wulfgar com splica nos olhos.-Voc tem a oportunidade, uma bela mulher, sensata, digna de caminhar ao seu lado at as portas do 
cu. Por que insiste no erro e age como um tolo? Voc a detesta? Procura se vingar de um mal imaginrio?
    Ps a mo no ombro de Wulfgar, fazendo-o virar-se para ele.
    -  Voc a tortura porque ela o ofendeu? Quer v-la de joelhos, pedindo misericrdia? Voc a usou, primeiro pela fora, agora abertamente. Voc a possui todas 
as noites, como se ela fosse uma prostituta, sem prometer nada para o futuro. Se procura vingana, expulse-me de sua casa. Eu errei. Ou expulse Gwyneth. Ela o intriga 
e o ofende constantemente. Mas Aislinn, o que ela faz seno cumprir suas ordens? Ser um tolo se a abandonar ou se ferir seu orgulho aponto de afast-La de voc. 
Se fizer isso, aos meus olhos ser apenas mais um guerreiro idiota que, quando bebe demais, gaba-se, em altos brados, do grande heri que poderia ter sido.
    Se fosse outro homem, Wulfgar j teria partido todos os seus dentes, mas no podia erguer a mo para aquele rosto enrugado. Deu de ombros e levantou-se.
    -  No agento mais isso - disse, com os dentes cerrados. - Primeiro ela, depois Kerwick, agora o senhor. Aposto que at aquela simplria Hlynn vai conseguir 
me irritar antes que a noite chegue ao fim. - Olhou para Bolsgar. - Ela ter o filho onde quiser e, seja meu ou no, mandarei a criana para onde eu quiser mandar.
    Viu a surpresa no rosto de Bolsgar.
    -  Est dizendo que Aislinn j est com um filho? - perguntou Bolsgar.
    -  O senhor no sabia? - foi a vez de Wulfgar ficar surpreso. - Pensei que todos sabiam, menos eu.
    Bolsgar disse com certa urgncia:
    -  O que vai fazer agora? Vai casar com ela, como  seu dever? Outra vez furioso, Wulfgar quase gritou:
    -  Vou fazer o que eu quiser!
    Com essas palavras, Wulfgar saiu da sala e subiu para o quarto. Aislinn estava sentada na cama, assustada, mas, quando ele entrou, suspirou aliviada e se deitou. 
A ira de Wulfgar se desfez e, deitando ao lado dela, abraou-a e adormeceram.
    Na manh seguinte, Wulfgar desceu um pouco mais tarde do que de costume. Todos j estavam  mesa. Quando ele entrou, Bolsgar e Sweyn interromperam a conversa. 
O primeiro inclinou a cabea para o prato e o viking olhou para Wulfgar com um brilho irnico nos olhos azul-claros. O riso sacudiu os ombros largos de Sweyn, e 
Wulfgar compreendeu que a notcia da condio de Aislinn chegara a mais alguns ouvidos. O normando sentou, e Sweyn passou para ele a carne e os ovos cozidos. Todos 
que entendiam a lngua inglesa voltaram-se atentos quando a voz do viking ecoou na sala.
    -  Ento a mulher vai ter um filho? - riu outra vez. - O que ela diz a respeito? Est realmente domada e disposta a cham-lo de seu senhor, agora?
    Wulfgar percebeu que todos tinham ouvido. Miderd e Haylan interromperam o que faziam, Hlynn olhou para Wulfgar boquiaberta e surpresa e Kerwick continuou atento 
ao seu trabalho.
    -  Sweyn - murmurou Wulfgar -, s vezes voc fala sem pensar.
    O viking deu uma gargalhada e bateu nas costas de Wulfgar com fora.
    -   um segredo que vai ser conhecido mais cedo ou mais tarde. Seria diferente se a moa fosse gorda, mas magra como ela , no pode esconder por muito tempo.
    Todos estava atentos, e a voz de Sweyn ecoou na sala.
    -   o melhor modo de domar uma mulher, sempre com um filho na barriga e todas as noites sem roupa.
    Wulfgar olhou para ele em silncio, desejando ter uma toca de raposa por perto para enfiar o viking. Carrancudo, comeou a descascar um ovo cozido. Sweyn continuou:
    -  Voc est certo, tratando esses saxes com mo forte. Mostre a eles quem  seu dono. Mantenha as mulheres na cama e os pequenos  bastardos agarrados as suas 
saias.
    Bolsgar ergueu as sobrancelhas, olhando intrigado para Sweyn, e quando Wulfgar engasgou com a gema do ovo, bateu nas costas dele. Com um olhar ameaador para 
Sweyn, o normando tomou um gole de leite para desalojar a gema da garganta.
    Sweyn balanou a cabea afirmativamente.
    -  Sim, devamos comemorar o acontecimento. Ah, ela era uma mulher muito orgulhosa, mas no importa. Quando ela se for, haver muitas outras para conquistar.
    Foi a ltima gota. Wulfgar bateu com as mos abertas na mesa. Sem uma palavra, levantou, passou por Sweyn e saiu da sala.
    Recostando na cadeira, Sweyn riu divertido. Bolsgar olhou para ele, e compreendendo ento o objetivo das palavras do viking, comeou a rir tambm.
    Aislinn desceu para a sala um pouco depois de Gwyneth, que, informada por Haylan do futuro aumento na famlia, disse, em voz alta, para que todos pudessem ouvir:
    -  O melhor que uma escrava solteira tem a fazer  aproveitar a boa vontade do dono enquanto pode, porque logo ele vai se aborrecer
    com a deformao do seu corpo e mand-la para algum lugar distante para ter o filho da vergonha.
    Aislinn respondeu com dignidade:
    -  Pelo menos eu posso ter filhos - suspirou. - Muitas mulheres tentam mas no conseguem. Deve ser muito triste, no acha?
    Com uma pequena sensao de vitria, ela deu as costas aos olhares espantados de todos, extremamente perturbada com as palavras de Gwyneth. No tinha vontade 
de comer. Imaginava qual seria o destino de seu filho se no convencesse Wulfgar a casar com ela. Se fosse muito insistente, ele com certeza iria procurar outra 
mulher. Precisava se comportar com toda a honra e honestidade possveis. Assim, talvez conseguisse.
    Era quase noite quando Wulfgar voltou de Cregan e, enquanto subia a escada, tirou o elmo e o capuz. Aislinn estava costurando na frente da lareira quando ele 
entrou no quarto, mas, vendo a expresso sombria do normando, levantou-se e em silncio o ajudou a tirar o peitoral.
    -  Aqueci gua para o seu banho - murmurou ela, apanhando a tnica de couro de suas mos e dobrando-a como o vira fazer tantas vezes.
    Wulfgar respondeu com um rosnado, mas, quando Aislinn comeou a tirar o caldeiro pesado do fogo, ele perguntou com voz spera:
    -  O que est fazendo, mulher? Aislinn olhou para ele, surpresa.
    -  Estou preparando seu banho, como fao h meses.
    -  Sente-se, mulher - ordenou ele, e depois, abrindo a porta, gritou: - Miderd!
    Miderd apareceu na porta e olhou hesitante para Wulfgar vestido apenas com a cala justa. Ela engoliu em seco vendo o peito largo e forte, imaginando o que teria 
feito para despertar a ira do normando.
    -  Meu senhor? - disse em voz baixa.
    -  Voc vai se encarregar de manter este quarto limpo e preparar o banho quando Lady Aislinn ordenar. Hlynn pode ajud-la. - Apontou para Aislinn e berrou, assustando 
as duas mulheres:-E vai impedir que ela levante qualquer coisa mais pesada do que o copo.
    Miderd quase deu um suspiro de alvio, mas conteve-se vendo a carranca de Wulfgar. Apressou-se em preparar o banho, olhando para Aislinn, que, por sua vez, olhava 
espantada para o normando. Quando ele comeou a tirar a cala, Miderd saiu discretamente do quarto e fechou a porta. Wulfgar entrou na gua quente e encostou a cabea 
na beirada da banheira, esperando que o calor aliviasse o cansao da longa viagem. Absorto em seus pensamentos, naquele dia quase levara Huno ao limite de suas foras.
    Aislinn voltou  costura, olhando para Wulfgar entre um ponto e outro.
    -  Meu senhor - murmurou ela, depois de algum tempo. - Se sou uma escrava, por que manda outra pessoa me servir?
    -  Porque  escrava s para mim, para meu prazer, e de mais ningum!
    -  Eu no tinha inteno de informar mais ningum sobre o meu estado, mas acho que no posso fazer mais nada agora. Parece que minha condio de escrava com 
filho  conhecida por toda Darkenwald.
    -  Eu sei - respondeu ele, secamente.-Tem muita gente aqui em Darkenwald com a lngua solta.
    -  E vai me mandar para a Normandia, ou para outro lugar qualquer? - Aislinn precisava saber a resposta.
    Wulfgar olhou rapidamente para ela, lembrando de sua conversa com Kerwick.
    -  Por que pergunta?
    -  Eu preciso saber, monseigneur. No quero ficar longe do meu povo.
    Wulfgar franziu o cenho.
    -  Qual a diferena entre um normando e um saxo, para dizer que este  o seu povo e o da Normandia  o meu? Somos todos feitos de carne e ossos. O filho que 
carrega no ventre  meio normando, meio saxo. A quem ele vai empenhar sua lealdade?
    Aislinn deixou o trabalho que fazia e olhou para Wulfgar, que continuou a falar, irritado, percebendo que ele no respondera  sua pergunta. Estaria fazendo 
isso deliberadamente porque tinha resolvido mand-la embora?
    -  No pode confiar em algum que no seja saxo? - perguntou Wulfgar. - Ser que vai ficar sempre contra mim e a favor deles? No sou diferente de qualquer 
ingls.
    -  Tem razo, meu senhor. Muitas vezes me faz lembrar um saxo.
    Wulfgar ficou calado. Saiu da banheira, vestiu-se, e os dois desceram para o salo, onde comeram em silncio, sob os olhares dos servos e dos normandos.
    Aislinn estava sozinha no quarto, fazendo roupas para a criana. H um ms que informara Wulfgar de seu estado e estava chegando s raias do desespero. O normando 
safra de manh bem cedo e, aproveitando sua ausncia, a lngua de Gwyneth entrou em atividade. Aislinn lembrou as palavras de desprezo que a tinham feito deixar 
a mesa do almoo e se refugiar no quarto. Durante a refeio, Gwyneth perguntou casualmente se Aislinn j arrumara suas coisas e estava pronta para sair de Darkenwald, 
Depois, disse que Wulfgar ia mand-la para a Normandia assim que sua condio se tornasse aparente. Aislinn suspirou e balanou a cabea, tentando conter as lgrimas. 
Pelo menos estava no lugar que Gwyneth no se atrevia a invadir, onde podia encontrar um pouco de paz.
    A prpria Maida contribura para estragar o dia de Aislinn. Logo depois que ela subiu para o quarto, a me bateu na porta. Alegou que queria garantir o bem-estar 
da filha, mas na verdade pouco fez para isso. Implorou a Aislinn para ir embora com ela, dizendo que era prefervel partir por sua vontade do que esperar que Wulfgar 
a expulsasse. A visita acabou em discusso, e s quando Maida percebeu a profunda irritao da filha resolveu se retirar.
    Finalmente sozinha, Aislinn comeou a trabalhar nas roupinhas da criana e arrumou-as sobre a cama, pensando no pequenino ser que ia us-las. Mas a inquietao 
no a deixou, pois, cada vez que pensava na criana, lembrava de sua me. Sofria vendo a mente de Maida cada vez mais perturbada e sabendo que no podia fazer coisa 
alguma.
    "No se pode fazer nada agora", suspirou ela. " melhor esquecer o passado e pensar no futuro." Alisou um vestido do beb. "Pobre criancinha. Ser menino ou 
menina?" Sentiu um movimento, como se a criana estivesse respondendo, e riu baixinho."Isso no me preocupa. S queria que nascesse de um casamento verdadeiro, e 
no como um bastardo."
    Apanhou um pequeno cobertor e aconchegou-o na curva do brao. Foi at a janela, cantando uma cano de ninar, imaginando como seria segurar o prprio filho e 
senti-lo, confiante e seguro, contra seu peito. Talvez ela fosse a nica pessoa capaz de am-lo e dar a ele o calor e a bondade que alimentavam mais do que o leite 
materno.
    Uma chuva leve tamborilava no peitoril da janela e a brisa do sul brincava com seus cabelos, trazendo o cheiro de coisas brotando da terra, o cheiro da primavera 
que logo chegaria. Ouviu um grito vindo do estbulo, acompanhado por vrias vozes, anunciando a chegada de Wulfgar e Sweyn. Pensando que ele ia procur-la imediatamente, 
como era seu costume, Aislinn apressou-se em guardar as roupas do beb numa arca e fez uma rpida arrumao no quarto. Alisou o vestido e sentou na frente da lareira.
    O tempo passou e Wulfgar no apareceu.
    Aislinn ouvia a voz dele na sala, conversando e rindo com seus homens.
    Ele no se interessa mais pela minha companhia, pensou ela. Prefere agora ficar com os homens e com aquela assanhada da Haylan. Est se preparando para o dia 
em que vai me mandar embora para ter o seu filho onde seus olhos no possam ver a verdade. Aislinn entrecerrou os olhos. Isso no vai acontecer.
    As lgrimas ameaavam aflorar outra vez, mas balanando a! cabea, num gesto decidido, Aislinn cobriu o rosto com uma toalha molhada para diminuir o vermelho 
das plpebras. No precisava; chorar. Wulfgar era gentil com ela e ultimamente mais do que delicado, sobretudo depois de saber de sua condio. No a procurava com 
tanta freqncia.
    Na verdade, pensou ela com tristeza, pode-se dizer que a tratava com frieza. Certamente, agora que meu corpo comea a mudar, ele prefere as formas maduras da 
viva.
    Depois de uma batida leve na porta, Miderd disse, no corredor.
    -  Minha senhora, o jantar est servido, e meu senhor manda perguntar se a senhora vai descer ou prefere uma bandeja no quarto.
    Nenhum consolo nessa delicadeza, pensou Aislinn. Ele manda outra pessoa, em vez de vir pessoalmente.
    -  D-me um tempo, Miderd - respondeu ela -, e logo eu deso para jantar no salo. Muito obrigada.
    Quando ela entrou na sala, Wulfgar e os outros j estavam sentados  mesa. Ele se levantou com um sorriso, mas Aislinn, sem olhar para ele e sem sorrir, foi 
direto para a sua cadeira. Wulfgar franziu a testa perguntando a si mesmo o que a aborrecia e, sem encontrar resposta, sentou-se ao lado dela.
    O jantar estava bom, mas no especial, pois durante o inverno as provises tinham diminudo consideravelmente. Consistia de um cozido de carne fresca de veado 
e de carneiro, com os vegetais menos perecveis, um prato forte que forrava bem o estmago. A conversa era intermitente e desanimada, e Wulfgar e os outros cavaleiros 
bebiam mais do que de hbito. Ele tomava o vinho aos goles, notando
    que Aislinn mal tocava na comida. Parecia distanciada de tudo, tristonha e muito sria, como se tivesse perdido toda a alegria de viver. S podia ser por causa 
da criana, pensou Wulfgar, e perguntava a si mesmo se Aislinn ia detestar aquele filho como sua me o detestara. Seria melhor mandar a criana para longe, onde 
pudesse ter amor e carinho. Wulfgar sabia, por experincia prpria, o quanto sofre uma criana que no  amada pela me. No importava a opinio de Kerwick, ele 
devia pensar no bem da criana. Conhecia um casal que h muito tempo desejava um filho. Seriam sem dvida pais bons e amorosos.
    Wulfgar tinha de admitir que no entendia nada do temperamento de Aislinn. Qualquer pequeno gesto descuidado a irritava, e ele sentia o gume das palavras de 
revolta nos lbios dela. Porm, na cama, continuava como antes, relutante a princpio, depois respondendo apaixonadamente as suas carcias. Ele pensava que conhecia 
as mulheres, disse para si mesmo, com um sorriso.
    Gwyneth, notando a atitude de Aislinn, no fim do jantar aproximou-se do irmo e disse:
    -  Ultimamente voc tem passado muito tempo fora de casa, Wulfgar. Alguma coisa aqui perdeu o sabor? Ou talvez no goste desta casa?
    Aislinn ergueu os olhos, compreendendo que Gwyneth se referia a ela. Percebeu que fora um erro descer para jantar, agora no entanto no podia fazer mais nada 
a no ser enfrentar a situao ou se dar por vencida. Bolsgar notou e procurou mudar de assunto.
    -  Os animais comeam a sair da floresta, Wulfgar-disse ele. -  sinal de que a primavera est prxima, bem como a nvoa leve que temos tido ultimamente.
    Gwyneth olhou para o pai com desprezo.
    -  Nvoa leve! No h dvida de que o sul da Inglaterra quer nos ver tremendo de frio no meio desta umidade. Parece que, quando a neve no est aoitando meu 
rosto, a neblina est molhando meus cabelos. E quem se importa com a primavera? O tempo aqui  miservel o ano inteiro.
    -  Voc devia se importar, Gwyneth - censurou o pai -, pois na primavera vamos saber se Wulfgar e at mesmo Guilherme tero sucesso na Inglaterra- A terra est 
cansada e sem foras, bem como os jovens saxes, e, se a colheita deste vero no for boa, nossos estmagos ficaro vazios no prximo inverno.
    
    
    No silncio que se seguiu, os copos foram rapidamente esvaziados: e novamente enchidos por Hlynn e Kerwick. Aislinn viu Wulfgar olhar para Haylan e sua fria 
cresceu, notando que, por causa do calor do; fogo, o vestido da viva estava aberto na frente, revelando os seios.
    Terminado o jantar, os homens continuavam sentados, e a conversa se animou. Gowain apanhou sua ctara para acompanhar as canes \ obscenas de Milbourne e Sweyn. 
Os cavaleiros pediram mais vinho e! cerveja, e Kerwick ps os odres de pele e as jarras na frente deles.
    Haylan terminou seu trabalho e ficou vendo a animao dos homens, que apostavam quem bebia mais. Beaufonte ofereceu a ele um copo de cerveja. Sem hesitar, ela 
aceitou e ergueu o copo de chifre bem alto, antes de sorrir para os homens que a observavam. Levou copo aos lbios e, entre exclamaes de encorajamento, esvaziou-o 
uma vez. Bateu com o copo vazio na mesa, olhando desafiadoramente para os homens. Gowain foi o primeiro a imitar o feito, seguido Milbourne. Beaufonte preferiu deixar 
passar sua vez, pois j bebe: muito, mas Sweyn tratou de encher o copo dele at a borda, at o pobre cavaleiro pedir para parar. Respirando fundo, Beaufonte comeou 
beber. Gowain dedilhou sua ctara, e comearam a cantar ao ritmo cada gole. Beaufonte terminou e todos aplaudiram quando, com gesto de triunfo, ele passou a lngua 
na borda do copo para tomar a ltima gota. Sentou ento e, comum sorriso beatfico, escorregou para debaixo da mesa.
    Sweyn deu uma gargalhada quando Bolsgar encheu uma jarra com gua e jogou no rosto do cavaleiro.
    - Acorde, Beaufonte! - riu ele. - A noite mal comeou, e vai perder uma boa rodada de cerveja se continuar dormindo.
    Beaufonte levantou do cho e tentou ficar de p, balanando para a frente e para trs. A ctara de Gowain acompanhava o movimento oscilante do cavaleiro. Rindo, 
Haylan segurou a mo de Beaufonte e o conduziu numa lenta dana. Os homens aplaudiam e at Wulfgar riu, divertindo-se com a brincadeira. Aislinn no estava achando 
nenhuma graa. Para ela, eram homens adultos fazendo brincadeiras de criana. Eram todos cavaleiros de Guilherme e guerreiros experientes, mas cabriolavam e olhavam 
com malcia para o vestido aberto de Haylan como meninos tolos.
    Beaufonte, animado, tentou abraar Haylan para danar ao seu modo, mas ela, rindo, o empurrou. O cavaleiro cambaleou para trs, at cair sentado num banco. A 
viva continuou sua dana e parou na
    frente de Gowain, batendo o p, at ele acertar o ritmo em seu instrumento. Todos comearam a bater palmas, acompanhando as batidas rpidas dos ps da mulher. 
Haylan parou por um instante com as mos na cintura, depois comeou a danar, com movimentos sensuais de todo o corpo. Wulfgar virou para ver, estendendo as longas 
pernas na frente da cadeira.
    Haylan percebeu esse movimento e sua chance. Comeou a danar na direo dele, ignorando o olhar fuzilante de Aislinn, erguendo e balanando a saia, enquanto 
Gowain apressava o ritmo da msica. Ento, ela estava danando entre os ps de Wulfgar, com passos leves e rpidos. De repente, ela se afastou e, com um ltimo rodopio, 
ajoelhou-se na frente do normando. Seu corpete se abriu mais com o movimento, deixando muito pouco  imaginao dos homens e mostrando a Wulfgar a beleza madura 
e firme de seu corpo.
    Aislinn ficou tensa e olhou para Wulfgar, que no parecia nem um pouco aborrecido e batia palmas e gritava sua aprovao, como seus homens. Os olhos de Aislinn 
encheram-se de lgrimas e, quando Gowain comeou outra msica, convidando Haylan para nova dana, Aislinn virou sua cadeira, para no ver mais o espetculo. Dobrando 
outra vez as pernas, Wulfgar voltou-se para tomar um gole de cerveja. Olhou para o decote de Haylan, tamborilando com os dedos na mesa. Ningum podia adivinhar seus 
pensamentos, mas Gwyneth sorriu, vendo a expresso sombria de Aislinn e a batida dos dedos do irmo. Nessa noite, o lorde e sua amante no pareciam nem um pouco 
um casal de namorados, e, pensando nisso, Gwyneth riu alto, um som raro que despertou a ateno de todos. Wulfgar olhou surpreso para a irm, e Aislinn recolheu-se 
mais na sua tristeza, sabendo muito bem o motivo da satisfao de Gwyneth. Haylan continuou a danar, e Aislinn, quieta em sua cadeira, sentia a dvida, como uma 
mar devastadora inundando sua resoluo. Em pouco tempo Wulfgar no ia mais se interessar por ela. J estava procurando caa mais interessante. E a mais interessante, 
no momento, parecia ser Haylan.
    Quando Wulfgar inclinou-se para Sweyn e riu de alguma coisa que a bem-dotada viva acabava de dizer, Aislinn levantou e saiu da sala silenciosamente, sem que 
ningum notasse, a no ser Gowain. Tomou o atalho que levava  cabana de Maida, pensando em passar a noite com a me e, depois, morar com ela, deixando Wulfgar livre 
para procurar uma companhia mais agradvel. Estava cansada de ter suas esperanas desfeitas por aquela eterna negao. Seus sonhos s podiam lev-la a mais sofrimento 
e frustrao. Sentia-se vencida, incapaz de continuar. Seu maior medo era de que ele a mandasse embora. Wulfgar jamais negou essa possibilidade, e ultimamente falava 
muito na Normandia, na frente dela, como preparando-a para a mudana, garantindo que era um bom lugar, onde uma criana podia crescer e, ser feliz. Oh, sim! Ele 
pretendia se livrar dos dois.
    Andou apressadamente pela trilha estreita, como na noite de s volta de Londres, quando Wulfgar perguntara sobre Kerwick. Sorriu com amargura, pensando que Wulfgar 
podia questionar sua fidelidade, mas ela no podia questionar a dele. Uma escrava! Nada mais do que isso. Uma escrava para obedecer a suas ordens e suportar seu 
peso na cama, sem o direito de dizer sim ou no.
    Abriu a porta da cabana e viu a me sentada na frente da lareira perto das sobras do jantar. Maida ergueu os olhos com uma expresso quase normal e fez sinal 
para a filha entrar.
    -  Entre, minha beleza. O calor do fogo d bem para ns duas. Aislinn adiantou-se devagar, e Maida apanhou uma manta de pele.
    para agasalhar os ombros da filha.
    -  Ah, meu bem, por que sair nesse frio? No se importa com voc nem com o beb? O que a faz deixar o quarto do senhor e procurar abrigo na minha pobre cabana 
a esta hora da noite?
    -  Minha me, acho que vou ficar aqui de agora em diante -suspirou Aislinn, com um soluo.
    -  O qu? O bastardo a expulsou? Aquele nojento asno normando a ps para fora de casa? - Os olhos de Maida brilharam de fria, por; um momento, e depois ela 
sorriu. - Um bastardo para o bastardo,   isso que vai dar a ele. Vai ficar furioso cada vez que olhar para o cabelo louro do beb.
    Aislinn ficou tensa e balanou a cabea.
    -  O que eu temo  que ele esteja planejando me mandar para longe, onde no precise ver o filho bastardo.
    -  Mandar embora? - exclamou Maida, olhando para a filha. - No vai deixar que ele a mande para longe de mini - era quase uma pergunta.                      
    Aislinn deu de ombros, procurando abafar a dor intensa.
    -  Ele  o senhor aqui, e eu no passo de uma escrava. No posso dizer nada.
    -  Pois ento fuja, minha filha. Antes que ele faa o que est planejando - implorou Maida. - Pelo menos uma vez pense em
    voc. O que pode fazer por nosso povo se estiver na Normandia ou em outro pas distante? Fuja comigo para o norte, onde podemos pedir abrigo  nossa gente. Podemos 
ficar l at o beb nascer.
    Aislinn ficou sentada em silncio, olhando as chamas, at a tora de madeira ficar negra e calcinada. Agora, s pensava em fugir. Ser que ele ia se importar? 
Ou ficaria aliviado por se ver livre dela e do filho? No lhe agradava a idia de deixar o lugar onde nascera, o nico lar que jamais conhecera. Porm, a atitude 
de Wulfgar nos ltimos dias no lhe deixava outra escolha, pois no podia se imaginar feliz na Normandia. Encostou a cabea nas mos, sabendo que a deciso estava 
sendo imposta  sua vontade.

    -  Sim - murmurou, e a me teve de se esforar para ouvir. -  a melhor coisa. Se ele no me encontrar, no pode me mandar para fora da Inglaterra.
    Maida bateu palmas feliz e ensaiou alguns passos de dana no pequeno espao da cabana.
    -  Bastardo! Bastardo! Normando inimigo! Estaremos longe antes que voc d por nossa falta.
    Aislinn, sem se contagiar com o entusiasmo de Maida, foi at a porta.
    -  Arrume tudo que  seu ao romper do dia, minha me. Ele vai a Cregan de manh, e logo depois partimos para o norte. Fique pronta. Volto pela ltima vez para 
a cama dele para que no desconfie de nosso plano.
    Aislinn voltou para o solar, e Maida ficou sentada, olhando para o fogo, rindo, satisfeita. Aislinn entrou e fechou a porta silenciosamente. Wulfgar estava encostado 
na parede de pedra da lareira, Gowain dedilhava uma msica suave e Haylan danava na frente deles como se fosse uma sereia tentadora do Nilo. Sob o vestido solto, 
preso apenas nos ombros, os seios ondulavam suavemente, com os bicos marcando a fazenda fina. Aislinn imaginou se o vestido estava preso por um encantamento que 
fascinava os homens, todos  espera de que ele casse.
    Os olhos de Wulfgar percorreram a sala e finalmente a encontraram. Aislinn caminhou para a escada; Haylan, acompanhando o olhar do normando, voltou-se e comeou 
a danar na frente de Aislinn, expondo a ela seus talentos. Aislinn olhou friamente para a mulher, e Gowain, embaraado, parou de tocar. Haylan voltou-se furiosa 
para o cavaleiro, e Aislinn aproveitou a oportunidade para subir a escada com tranqila dignidade. Wulfgar passou pela viva rapidamente e alcanou Aislinn no topo 
da escada.
    -  Onde voc foi? - perguntou ele, em voz baixa. - Saiu to de repente que pensei que estava se sentindo mal.
    -  Estou muito bem, meu senhor. Peo desculpas se o deixei preocupado. Fui ver se minha me precisava de alguma coisa.
    Wulfgar abriu a porta do quarto para ela, depois fechou-a e ficou parado observando Aislinn, que comeou a se despir no canto mais escuro, de costas para ele. 
O normando apreciou uma vez mais as  pernas longas e esbeltas, os quadris, a cintura, ainda fina. Quando ela \ se deitou, pde ver os seios fartos e redondos rapidamente, 
antes de Aislinn se cobrir com as mantas de pele. Wulfgar aproximou-se da cama e, tomando-a nos braos, beijou-a. Depois, com os lbios nos cabelos levemente perfumados, 
murmurou:
    -  Ah, mulher, voc  o mais belo e perfeito prazer. O que eu faria com minhas horas de lazer se a tirassem de mim?
    Aislinn virou o rosto e suspirou.
    -  Meu senhor, eu no sei. O que acha que faria? Rindo, ele acariciou com os lbios o ombro dela.
    -  Eu procuraria outra mulher to bela e sensual, e talvez ento ficasse satisfeito - disse ele, provocando.                                       !
    Aislinn no gostou da resposta.
    -  Seria bom - disse - encontrar uma mulher talentosa como Haylan, para quando precisasse de distrao.
    Rindo, Wulfgar levantou-se, despiu-se e voltou para a cama. ; Aislinn estava de costas para ele, mas isso no o preocupou, pois muitas das noites mais agradveis 
passadas com ela comearam desse modo. Encostou o corpo no dela e afastou o cabelo da nuca macia, pois seus lbios estavam sedentos do sabor de sua pele.
    Aislinn no conseguiu se negar a ele, mesmo com o plano de fuga decidido em sua mente. S deixando-o poderia recuperar um pouco da auto-estima. Porm, seria 
perseguida para sempre pelas lembranas daquelas cariciais que a levavam ao auge do prazer. Com um suspiro, entregou-se completamente, respondendo a cada beijo com 
um beijo e apertando-o contra si, como se no quisesse perd-lo. Juntos atingiram o auge do prazer, e, depois da tempestade, descansando nos braos dele, Aislinn 
chorou silenciosamente por longo tempo.
    
    
    
    
    
    
   
   Captulo Dezenove
    
    aislinn ACORDOU com a luz que entrava pelas frestas das janelas e sonolenta estendeu a mo para o lado. O travesseiro estava vazio, e, olhando em volta, verificou 
que Wulfgar j sara. Sentou na cama e cobriu o rosto com as mos, pensando em seus planos para aquele dia. Tudo parecia um pesadelo horrvel, mas, quando Maida 
bateu levemente na porta, alguns minutos mais tarde, viu que no era sonho. Maida entrou e comeou ajuntar apressadamente a roupa de Aislinn, mas a filha a deteve.
    - No. Levo s este vestido velho que Gwyneth me deixou. Os outros so dele... - acrescentou com um soluo sentido. - Para Haylan, se ele quiser.
    No importava o fato de Wulfgar t-los dado para ela. Cada vez que olhasse para aqueles vestidos, ia lembrar de tudo que acontecera entre os dois, e ela no 
queria mais lembranas do que as que j levava no corao.
    Chamou Miderd e, fazendo-a jurar que guardaria segredo, pediu para ajud-las nos preparativos da fuga. Depois de tentar inutilmente convencer Aislinn a desistir 
do plano, Miderd resolveu fazer o que ela pedia. Mandou Sanhurst arrear seu cavalo antigo e, sem saber que era para Aislinn, ele obedeceu. Quando viu o velho animal, 
Maida reclamou furiosa:
    -  Leve a cinzenta, precisamos da sua resistncia. Aislinn balanou a cabea e disse, com voz firme:
    -  No,  este ou nenhum. No quero que um belo animal marque minha passagem por estas terras.
    -  O normando lhe deu o cavalo de presente, bem como os vestidos que est deixando. So seus, e seria mais um castigo para ele lev-los tambm.
    -  No vou embora levando seus presentes - disse Aislinn.
    A escolha da comida para a viagem tambm no agradou Maida.
    -  Vamos morrer de fome. Voc nos faz viajar com este animal imprestvel e ainda por cima no leva nada para comer.
    -  Encontraremos mais - disse Aislinn, encerrando o assunto. Miderd as viu desaparecer numa curva da estrada e voltou para a
    casa enxugando uma lgrima.
    Era quase noite e Miderd no podia se livrar da tristeza que lhe apertava o corao. Observou Haylan experimentando a carne de veado que estava preparando para 
o jantar. Sabia que Haylan ia ficai contente com a partida de Aislinn, e aquelas tentativas dela para conquistar o normando a preocupavam. Miderd sabia que Wulfgar 
era um homem honrado, e todos podiam ver que Aislinn era importante para ele.
    Miderd lembrou com desgosto a noite anterior.
    -  Por que voc insiste em provocar Lorde Wulfgar? - perguntou ela. - Vai se contentar com o papel de prostituta se Lady Aislinn vier a ser a dona de Darkenwald?
    -   quase impossvel que isso acontea - disse Haylan. - Wulfgar admite que odeia as mulheres.
    Miderd disse, zangada:
    -  Acha que um homem odeia a mulher que carrega seu filho no ventre?
    Haylan deu de ombros.
    -  Isso no  amor,  desejo.
    -  E voc quer que ele a deseje do mesmo modo at sua barriga crescer tambm? - perguntou Miderd, incrdula. - Ontem  noite voc danou na frente dele como 
Salom para aquele rei. Pediria a ele a cabea de Aislinn?
    Haylan sorriu.
    -  Se Aislinn fosse embora - suspirou ela -, Wulfgar seria meu.
    -  Pois ela vai embora - disse Miderd, com amargura. - Est feliz?
    Haylan arregalou os olhos escuros, surpresa, e Miderd balanou a cabea afirmativamente.
    -  Sim, neste momento ela est fugindo dele. Leva apenas a me, o filho dele e a velha gua para a me montar.
    -  Ele sabe? - perguntou Haylan.
    -  Vai saber quando voltar de Cregan, pois eu vou dizer. Ela me mandou guardar segredo, mas temo por sua segurana. H lobos nas florestas que ela vai atravessar. 
No posso ficar em silncio e deixar que ela seja atacada por animais selvagens ou humanos que no se importariam com sua condio delicada.
    -  Como podemos saber se Wulfgar vai atrs dela ou no? - Haylan deu de ombros.-De qualquer modo, logo Aislinn estar com o corpo deformado, e ele no vai mais 
querer saber dela.
    -  Haylan, seu corao est dentro de uma bainha de gelo. Nunca imaginei que fosse to impiedosa nem to determinada a conseguir o que quer.
    Haylan exclamou furiosa:
    -  Estou farta de suas censuras e de sua simpatia por aquela mulher. Ela no fez nada por mim. No lhe devo nada.
    -  Se algum dia precisar dela - disse Miderd, em voz baixa -, espero em Deus que Aislinn tenha mais compaixo por voc.
    -  No  muito provvel que eu precise de sua ajuda - disse Haylan, dando de ombros. - Alm disso, ela j se foi.
    -  O povo de Darkenwald vai sentir falta dela. No pode pedir a ningum mais o que minha senhora Aislinn lhe dava.
    -  Minha senhora, minha senhora! - imitou Haylan. - Ela no  a minha senhora, nem jamais ser. Serei mais esperta. Vou fazer Wulfgar me amar e me desejar s 
para ele.
    -  Lorde Wulfgar-corrigiu Miderd.
    Haylan sorriu e passou a lngua nos lbios, como antecipando um apetitoso banquete.
    -  Logo ser s Wulfgar para mim.
    Ouviram o rudo dos cavalos passando na direo do estbulo. Miderd levantou-se e olhou para Haylan.
    -  Ele est de volta, e eu vou contar. Se ele no for atrs dela, pode ficar certa de que eu a culparei pela morte de Lady Aislinn, pois  quase certo que vai 
morrer na floresta.
    -  Culpar a mim? - exclamou Haylan. - Tudo que fiz foi desejar que ela se fosse, e ela foi por vontade prpria.
    -  Sim - concordou Miderd. - Mas  como se voc a tivesse empurrado para fora.
    Haylan virou-se para a lareira, furiosa.
    -  Pouco me importa. Saia da minha frente. Estou feliz porque ela se foi.
    Com um suspiro, Miderd foi para o estbulo, onde Wulfgar e seus homens tiravam os arreios dos cavalos. Aproximou-se hesitante de Huno e olhou nervosamente para 
Wulfgar. Ele conversava com Sweyn, e s notou a presena dela quando Miderd o puxou pela manga. Com uma das mos no dorso de Huno, ele se voltou, sorrindo ainda, 
e ergueu uma sobrancelha interrogativamente.
    -  Meu senhor - disse Miderd, em voz baixa. - A senhora se foi.
    O sorriso desapareceu, e os olhos de Wulfgar ficaram frios como gelo.
    -  O que est dizendo?
    Miderd engoliu em seco, quase desejando no ter dito nada. Mas repetiu:
    -  Lady Aislinn se foi, meu senhor-disse ela. Torceu as mos. - Logo depois que o senhor saiu esta manh, meu senhor.
    Com um nico movimento, Wulfgar apanhou a sela do cho e jogou-a nas costas de Huno, que bufou, surpreso. Com o joelho encostado no flanco do cavalo e as rdeas 
entre os dedos firmes, ele perguntou:
    -  Ela foi para o norte,  claro. Para Londres?
    -  Para o norte, sim, mas no para Londres. Acho que mais para oeste, a fim de passar por fora da cidade,  procura de asilo com um dos cls do norte - respondeu 
ela, e acrescentou: - Onde no esto os normandos, meu senhor.
    Com uma praga, Wulfgar montou. Viu Sweyn preparando-se para acompanh-lo e o deteve,
    -  No, Sweyn, vou sozinho. Mais uma vez quero que fique e tome conta de minhas terras at a minha volta.
    Olhou para o estbulo e viu tudo em ordem, a gua que dera para Aislinn no lugar de sempre.
    -  Ela no levou nenhum cavalo ou carroa? Como est fugindo? A p?- perguntou para Miderd.
    Ela balanou a cabea.
    -  Minha senhora levou s aquele cavalo velho, alguns cobertores e pouca coisa mais. Vo parecer saxs pobres, fugindo da guerra. - Lembrou com tristeza a prpria 
jornada e continuou, apressadamente: - Temo por ela, meu senhor. Os tempos no so bons, e os animais carniceiros esto por toda parte. Os lobos... - parou de falar, 
e ergueu para ele os olhos cheios de medo.
    -  Acalme seus temores, Miderd-disse Wulfgar, inclinando-se para a frente, na sela. - Esta noite voc ganhou um lugar para os prximos cem anos.
    Wulfgar partiu para o norte, Huno devorando velozmente a distncia.
    Miderd ficou parada, at no ouvir mais o tropel do cavalo. Depois, balanou a cabea e sorriu. A despeito do porte ameaador e do gosto pela luta, aquele homem 
tinha um corao bastante sofrido. Por isso ele falava rudemente e blasfemava, dizendo que no precisava de ningum para esconder os prprios sentimentos. Por isso, 
escolheu a carreira das armas, talvez esperando que seu tormento terminasse na ponta de alguma espada. Mas agora cavalgava noite adentro para alcanar um amor que 
fugia como um falco amestrado que, de repente, tivesse se libertado e se recusasse a pousar na luva que o esperava.
    Wulfgar estava ainda com sua cota de malha, e a capa longa enfunava atrs dele. Tirou o elmo para que o vento do inverno o impedisse de sentir sono. Sentia os 
msculos fortes de Huno e sabia que em poucas horas percorreria o que Aislinn devia ter percorrido num dia.
    A lua alta no cu negro parecia sugar a nvoa dos pntanos. Wulfgar calculava pela subida da lua o momento em que devia procurar a luz de uma fogueira. Olhou 
para o norte, tentando compreender o que levara Aislinn a tomar essa deciso. No lembrava de ter acontecido nada nos ltimos dias que desse motivo a essa fuga. 
Mas o que ele sabia sobre as mulheres, a no ser que no se pode confiar nelas?
    Aislinn verificou a rdea amarrada numa rvore e passou a mo no flanco trmulo do velho animal.
    No passamos de um banquete para os lobos, pensou ela, desprevenidas e indefesas.
    Levou a mo s costas, tentando aliviar uma dor surda, e voltou para perto do fogo, onde Maida dormia tranqilamente na terra mida, enrolada num cobertor. Aislinn 
estremeceu quando a brisa fria fez estalar os galhos das rvore despidos pelo inverno e mais ainda quando um uivo distante anunciou a presena de lobos no campo. 
Sentou ao lado do fogo, atiando-o distrada, pensando na cama quente onde podia estar agora, com Wulfgar. Sua inteno no era parar na floresta. Esperava alcanar 
a cidade mais prxima dentro de mais ou menos duas horas, antes que a fadiga da me as impedisse de prosseguir. Mas a velha gua mancou de uma pata, obrigando-as 
a acampar  noite.
    Abraando os joelhos, Aislinn olhava pensativamente para o fogo. Devido  sua imobilidade, a criana fez um leve movimento. O beb estava satisfeito, embalado 
pelo calor, no refgio seguro do ventre da me. Aislinn sorriu, e seus olhos encheram-se de lgrimas.
    Um beb, pensou ela, maravilhada. Um tesouro, um milagre, uma doce alegria quando dois seres se unem por amor e fazem um filho.
    Oh, Deus, se ao menos ela e Wulfgar pudessem ter certeza de que ;ra dele. Mas a dvida pairava sobre eles, pondo o rosto de Ragnor entre os dois, como se fosse 
mais do que simples imaginao. Porm, mesmo que fosse de Ragnor, ela no podia abandonar o filho e mand-lo para longe, assim como no podia suportar a idia de 
viver longe de seu lar. Agora, pelo menos Wulfgar no teria mais de olhar para ela e perguntar a si mesmo de quem era aquele filho.
    As lgrimas encheram seus olhos outra vez e desceram pelo rosto.
    - Oh, Wulfgar - suspirou ela, tristemente. - Se eu fosse sua prometida e no tivesse sido violentada por Ragnor, talvez eu conquistasse seu corao, mas vejo 
que seus olhos comeam a se afastar de meu corpo para o corpo mais harmonioso da viva Haylan. No pude suportar o modo com que voc olhava para ela... ou ter sido 
minha imaginao que ps o desejo em seus olhos?
    Aislinn encostou o queixo nos joelhos e olhou para a floresta escura, com a viso embaciada pelas lgrimas que corriam livremente agora. Tudo estava quieto. 
Era como se o tempo tivesse parado, prendendo-a para sempre no limbo do presente. At as estrelas pareciam ter fugido do cu escuro, pois duas luzes brilhantes apareciam 
na escurido.
    Com um frio na espinha, Aislinn ergueu a cabea devagar e olhou
    atentamente para os dois pontos de luz. Paralisada de medo, compreendeu que no eram estrelas, mas dois olhos que a observavam. Outros apareceram, e a sombra 
alm da fogueira parecia cheia de pedaos de carvo em brasa. Um a um, os lobos se aproximaram, as mandbulas abertas, as lnguas de fora como se estivessem rindo 
da vtima indefesa. A pobre gua velha bufou e tremeu. Aislinn ps outra tora no fogo, segurou um pequeno ramo de rvore numa das mos e a adaga na outra. Agora 
que os lobos estavam mais perto do fogo, ela contou uma dzia deles, rosnando e se empurrando, como se estivessem disputando o melhor lugar para o ataque. De repente, 
uma voz mais forte soou na noite com um rugido, e os lobos se afastaram um pouco, com os rabos entre as pernas, quando um animal duas vezes maior do que os outros 
caminhou para a luz do fogo. Ele olhou em volta tranqilamente, deu as costas para Aislinn e com outro rugido fez os lobos recuarem mais um pouco, parando na margem 
da clareira. Voltou para ela os olhos extremamente inteligentes e, antes que pudesse adivinhar seu intento, Aislinn murmurou, com voz rouca:
    -  Wulfgar!
    O animal negro deitou na frente dela, perfeitamente manso e  vontade, como qualquer co treinado.
    Aislinn largou o galho fino que segurava e embainhou a adaga. O lobo abriu as mandbulas como se estivesse sorrindo e confirmando a trgua. Descansou a cabea 
nas patas dianteiras, mas os olhos alerta no a deixaram por um momento. Aislinn recostou no tronco da rvore, sentindo-se to segura no meio da floresta quanto 
se sentia em Darkenwald.
    Um lobo rosnou no escuro, e Aislinn acordou, de um sono breve. O lobo grande ergueu a cabea e olhou para a floresta, atrs dela, mas no se levantou. Aislinn 
esperou, sentindo a tenso crescer cada vez mais. Ento uma pedra rolou e ela virou a cabea devagar.
    -  Wulfgar! - exclamou ela.
    O normando entrou na clareira puxando Huno pela rdea, olhou para ela, depois para o animal ao lado do fogo. Aislinn o viu se aproximar com alvio e surpresa, 
pois estava quase convencida de que ele era uma espcie de lobisomem, como diziam alguns, e se transformara naquele lobo enorme para proteg-la.
    O animal se levantou, sacudiu o corpo, e seus olhos amarelos brilharam quando se encontraram com os de Wulfgar, no outro lado do fogo. Finalmente o lobo deu-lhes 
as costas e, com um uivo para sua matilha, desapareceu na noite. A floresta ficou em silncio por um longo momento. Por fim, Wulfgar suspirou e disse com humor:
    -  Madame, a senhora  uma tola. Aislinn ergueu o queixo e respondeu:
    -  E o senhor  um tratante.
    -  Concordo - ele sorriu. - Mas vamos partilhar o conforto desta clareira at o raiar do dia.
    Amarrou Huno ao lado da gua cansada e deu aos dois animais uma rao que tirou do alforje em sua sela. Resignada, a despeito do | fracasso da fuga, Aislinn 
sentiu-se reconfortada com a presena dele e no resistiu quando Wulfgar tirou a cota de malha e, deitando ao lado dela, envolveu os dois com sua pesada capa.
    Maida acordou de repente e levantou resmungando, para pr mais lenha no fogo. Parou quando viu Huno ao lado da velha gua e depois Wulfgar ao lado de Aislinn.
    -  Ah! - rosnou ela. - Vocs, normandos traioeiros, sabem como fazer uma cama quente em qualquer lugar, no  mesmo? - Voltou para sua esteira e, com um ultimo 
olhar para Wulfgar, disse: - Basta eu dar as costas por um momento! - Deitou-se e cobriu-se at o pescoo.
    Aislinn, com um sorriso satisfeito, aconchegou-se mais a Wulfgar. Maida no gostou de ver o normando, mas o corao de Aislinn cantava feliz por estar outra 
vez nos braos dele.
    -  Est com frio? - murmurou Wulfgar, com os lbios nos cabelos dela.
    Ela balanou a cabea. Wulfgar no podia ver o brilho de suprema felicidade nos olhos dela. Com o corpo encostado no dele e a cabea no ombro forte, Aislinn 
sentia o conforto e a segurana de sua cama em Darkenwald.
    -  O bebe est se mexendo - disse Wulfgar, com voz rouca. -  sinal de fora.
    Aislinn mordeu o lbio, tomada por uma incerteza repentina. Ele raramente falava sobre a criana e quando o fazia era para tranqiliza-la de um modo ou de outro. 
Porm, Aislinn se preocupava com o .modo com que ele olhava para a sua barriga, como querendo se convencer de que o filho era seu.
    -  Agora, ele se mexe constantemente - disse Aislinn, em voz baixa.
    -  Isso  bom. - Wulfgar puxou a capa mais para cima e fechou os olhos.
    De manh muito cedo, Aislinn acordou com o movimento de Wulfgar. Ele se levantou e entrou na floresta. Sentada, Aislinn puxou a capa at o queixo e olhou em 
volta. Maida dormia ainda, com o corpo encolhido, como que para impedir que o mundo e a realidade a perturbassem.
    Desembaraando os cabelos com os dedos, Aislinn espreguiou-se, feliz com a beleza da manh. O orvalho brilhava nas hastes de relva, enfeitando com pequenos 
brilhantes uma teia de aranha. Os pssaros voavam entre as rvores, e um coelho passou rapidamente no meio do mato. Aislinn respirou fundo, enchendo os pulmes com 
a fragrncia de coisas que renasciam. Suspirou, contente com o mundo e com suas maravilhas, e ergueu o rosto para os raios de sol que invadiam a clareira. Como era 
belo o orvalho da manh. Como era mavioso o canto dos pssaros. Por um momento, Aislinn perguntou a si mesma o porqu de tanta felicidade. Deveria estar desapontada 
com o fracasso de sua fuga. Afinal, talvez fosse mandada para a Normandia. Porm, a primavera enchia de contentamento seu corao.
    Ouviu os passos de Wulfgar atrs dela e voltou-se com um sorriso. O normando parou por um momento, como que estranhando aquela atitude, mas depois sentou ao 
lado dela. Apanhou o embrulho de comida e, depois de examinar o contedo, olhou para ela interrogativamente.
    -  Uma perna de carneiro? Um po? Vejo que se preparou muito bem para essa jornada.
    -  Gwyneth guarda muito bem sua despensa. Ela conta cada gro, e se eu tirasse mais alguma coisa ia chamar ateno.
    Maida acordou, passou a mo nas costas doloridas e disse com um sorriso:
    -  Deve perdoar minha filha, meu senhor. Ela no entende bem certas coisas. Achou que iam nos chamar de ladras se tirssemos um pouco da nossa comida.
    -  Encontraramos pessoas mais generosas assim que deixssemos as terras de Guilherme.
    Wulfgar disse com sarcasmo:
    -  Est falando dos saxes, daqueles heris do norte, sem dvida.
    -  Aqueles amigos leais nos receberiam de braos abertos e nos ajudariam como vtimas do Duque bastardo - disse Maida.
    -  Guilherme  rei por aclamao de todos, menos de vocs duas. Aqueles seus malditos amigos leais. Os cls do norte cobram um pedgio muito caro nas suas estradas, 
e pessoas muito mais ricas do que vocs chegaram ao fim da viagem completamente sem dinheiro.
    -  Ah! - Maida sacudiu a mo para ele, zangada. - Voc tagarela como um corvo com crupe. O tempo vai dizer quem conhece melhor os saxes, um aventureiro normando 
ou uma pessoa de puro sangue ingls.
    Encerrando o assunto, Maida entrou na floresta.
    Wulfgar cortou uma fatia de po e um pedao de carne para Aislinn. Serviu-se tambm, mas em maior quantidade, e comearam a comer o desjejum frio. O normando 
olhou para o vestido que ela usava.
    -  Voc no trouxe dinheiro nem ouro para a viagem? - Ele sabia a resposta e continuou: - Posso imaginar voc na cama de um saxo do norte, mas sua me teria 
mais dificuldade para pagar a passagem. - Riu, olhando atentamente para ela. - Porm, depois de pagar o pedgio, chrie, tenho certeza de que quase no ia conseguir 
passar da cama para o banco.
    Aislinn balanou a cabea, ignorando as observaes grosseiras, e lambeu os dedos delicadamente. Wulfgar sentou bem perto dela.
    -  Francamente, meu amor, por que fugiu?
    Aislinn ergueu os olhos, surpresa, mas percebeu que ele na verdade queria saber.
    -  Voc tem tudo que uma mulher pode desejar-disse Wulfgar, passando a ponta do dedo no brao dela. - Uma cama quente, um protetor forte. Um brao gentil para 
se apoiar. Comida farta e amor para mant-la ocupada nas noites longas e frias.
    -  Tudo? - protestou Aislinn. - Oh, por favor, considere tudo que eu tenho. A cama de meu pai assassinado, que jaz agora num tmulo frio. Vejo meus protetores 
usarem a espada e o aoite. Na verdade, eu preciso mais proteger do que ser protegida. No encontrei ainda um brao forte para me apoiar. A comida farta  distribuda 
mesquinhamente da despensa que foi minha. - Sua voz se embargou e as lgrimas lhe assomaram aos olhos. - E amor? Amor? Sou violentada por um idiota bbado. Isso 
 amor? Sou escrava de um lorde normando. Isso  amor? Sou acorrentada aos ps da cama e ameaada. - Segurou a mo dele e a encostou na sua barriga. - Sinta aqui.
    Ponha sua mo aqui e sinta o movimento da criana. Concebida com amor? No posso dizer. Na verdade, eu no sei.
    Wulfgar abriu a boca para responder, mas Aislinn continuou, afastando a mo dele.
    -  No, escute o que eu digo pelo menos uma vez e pense no que eu tenho. Sou maltratada na mesma casa em que brinquei quando era pequena, minha roupa e meus 
tesouros so roubados, um a um. No posso dizer que possuo sequer um simples vestido, pois amanh poder estar no corpo de outra mulher. Meu nico animal favorito, 
minha montaria, tem as pernas quebradas e  sacrificado. Diga-me, meu senhor Wulfgar, o que eu tenho?
    -  Basta pedir. Se estiver dentro das minhas possibilidades, voc ter.
    Olhando para ele, Aislinn falou devagar:
    -  Wulfgar, casaria comigo para dar um nome a esta criana? Franzindo a testa, Wulfgar ps mais lenha no fogo.
    -  A eterna armadilha - resmungou ele - para apanhar o p desprevenido.
    -  Aaah-suspirou Aislinn. - Voc satisfez seu desejo quando meu corpo era esbelto, mas agora no quer falar no assunto. No precisa me falar de sua paixo por 
Haylan. Seus olhos traam o desejo quando ela danava na sua frente.
    Wulfgar olhou para ela surpreso.
    -  Desejo? Mas eu estava s me divertindo.
    -  Divertindo! - zombou Aislinn. - Era mais como uni convite para a cama dela.
    -  Palavra de honra, senhora, nunca a vi procurando me distrair to bem.
    -  O qu? - exclamou Aislinn estupefata. - Com este corpo? Queria que eu danasse e fizesse papel ridculo?
    -  Est inventando desculpas. Continua to esbelta quanto antes. Eu gostaria de ter seu carinho na cama, em vez de ser sempre atacado por sua lngua.
    Os olhos cor de violeta brilharam de fria.
    -  Quem sempre ataca com palavras ofensivas, meu senhor? Eu devia usar sua cota de malha para me defender de seus insultos grosseiros.
    -  No sei agir como um galante namorado, como Ragnor. Acho difcil procurar agradar uma mulher, mas com voc tenho sido generoso.
    -  Talvez me ame um pouco?-perguntou Aislinn, suavemente. Wulfgar acariciou o brao dela.
    -   claro, Aislinn - murmurou o normando. - Eu a amarei todas as noites, at voc me pedir para parar.
    Aislinn fechou os olhos, cerrou os dentes e gemeu alto.
    -  Nega que as minhas carcias despertam uma resposta em voc? - perguntou Wulfgar.
    Com um suspiro, ela disse simplesmente:
    -  Sou sua escrava, meu senhor. O que deseja que sua escrava diga?
    Irritado, Wulfgar exclamou:
    -  Voc no  minha escrava! Quando eu a acaricio, voc corres- ponde.
    Corando intensamente, Aislinn olhou para o lugar em que a me entrara na floresta, temendo que ela tivesse ouvido. Wulfgar riu.
    -  Tem medo de que ela saiba que voc gosta da cama de um normando? - Apoiou o brao no joelho dobrado, e os dois sei inclinaram para a frente, aproximando as 
cabeas. - Voc podei enganar sua me, mas eu sei a verdade. No foi o que fazemos na cama; que a fez fugir.
    Com uma exclamao de raiva, Aislinn ergueu a mo aberta, mas Wulfgar a segurou. Com um movimento rpido, ele a fez deitar de: costas e imobilizou-a com o peso 
de seu corpo.
    -  Ento, abusaram de sua honra. Por isso fugiu de mim depois de tantos meses?
    Aislinn lutou em vo. Com o joelho entre os dela, ele a imobilizava; com um brao. Aislinn sentiu os msculos tensos do corpo dele contra! o seu e a mo forte 
em suas costas. Compreendendo que era intil resistir, ela parou de lutar. As lgrimas desceram de seus olhos fechados.
    -  Voc  cruel, Wulfgar - soluou ela. - Brinca comigo e zomba do que no posso controlar. Eu queria ser fria e indiferente, assim talvez suas carcias no 
fossem um tormento para mim.
    Wulfgar beijou de leve o nariz, as plpebras fechadas e depois os lbios, e nem naquele momento Aislinn conseguiu controlar a chama de desejo que a invadiu.
    A voz de Maida estalou no ar da manh.
    -  O que  isso? Um normando fazendo amor no cho molhado de orvalho. Meu senhor, no acha que devemos montar e seguir nosso caminho?
    Maida riu alto do prprio humor. Wulfgar sentou, passou a mo rio cabelo e olhou para ela como se quisesse parti-la ao meio. Aislinn, sem olhar para nenhum dos 
dois, passou a mo na saia para tirar as hastes de relva.
    Wulfgar selou os cavalos. Dobrou o peitoral e o ps na frente de sua sela, preferindo cavalgar mais  vontade naquela bela manh. Com um gemido, Maida tentou 
alcanar o estribo, e de repente viu-se erguida do cho para a sela da velha gua. Wulfgar, j montado, olhou para Aislinn. Sorriu vendo a interrogao nos olhos 
dela.
    -  A gua est manca e no agenta as duas.
    Olhando friamente para ele, Aislinn perguntou, com altivez:
    -  Ento eu vou a p, meu senhor?
    Wulfgar apoiou o cotovelo no suporte dianteiro da sela.
    -  No acha que merece?
    Com um olhar furioso, Aislinn deu meia-volta e comeou a longa caminhada para Darkenwald. Sorrindo, Wulfgar levantou as rdeas e a seguiu. Maida fechou a retaguarda 
na velha gua.
    O sol estava alto e a manh quase no fim quando Aislinn parou e sentou num tronco cado para tirar uma pedra do sapato.
    Wulfgar esperou que ela erguesse os olhos e perguntou, solcito:
    -  A senhora est cansada do passeio?
    -  A deciso foi sua, meu senhor - respondeu ela.
    -  No, meu amor, no foi - negou ele, inocentemente. - Eu apenas perguntei se no era o que voc merecia-
    Aislinn olhou para ele e corou.
    -  Oh, seu bruto!-bateu com o p no cho com tanta fora que fez uma careta de dor.
    Wulfgar se afastou na sela-
    -  Venha, meu amor. Vai ser um dia muito cansativo se continuar a p, e quero chegar logo em casa.
    Com relutncia, Aislinn estendeu a mo e Wulfgar ergueu-a para a frente de sua sela, ajudando-a a passar o joelho para o outro lado. Maida zombou:
    -  Minha filha,  melhor andar do que aquecer o colo de um normando.
    Wulfgar olhou para ela e disse, gentilmente:
    -  Gostaria de fugir, velha rabugenta? Se quiser, olho para o outro lado com todo prazer.
    Ouviram um som estranho e, quando viraram curiosos para Aislinn, ela estava imvel, olhando para longe, mas os cantos de sua boca tremiam levemente, contendo 
um sorriso.
    Continuaram a viagem, Maida atrs deles, resmungando e fazendo caretas para Wulfgar.
    Quando finalmente Huno diminuiu o passo, Aislinn comeou a sentir sono. A sela era macia e espaosa. Sentia o calor de Wulfgar e via as mos dele segurando as 
rdeas. Eram fortes e capazes de empunhar a lmina larga e pesada, mas os dedos eram finos e podiam ser suaves quando preciso. Sorriu, lembrando a fora daquelas 
mos. Aislinn encostou em Wulfgar, puxou o manto at o queixo, a cabea apoiada no pescoo dele. Relaxou o corpo com um sorriso, deixando a cargo dele mant-la firme 
na sela. Uma tarefa bastante agradvel para Wulfgar. A maciez do corpo dela e o perfume suave o provocavam, mas ao mesmo tempo ele se preocupava com a sbita mudana 
na atitude dela.
    De repente, um grito estridente de Maida quebrou o silncio. Aislinn acordou sobressaltada e olhou para a me.
    -  No foi nada, s que estou engolindo muita poeira-choramingou ela. - Quer que eu morra de sede, astuto senhor, para fazer o que quiser com minha filha, sem 
ser perturbado por minhas censuras?
    Wulfgar saiu da estrada e parou na margem de um regato. Apeou e estendeu as mos para ajudar Aislinn, depois de ajeitar a capa nos ombros dela. Olhou de soslaio 
para Maida e depois, com relutncia, ajudou-a a descer.
    -  Ummm - disse ela. - Tem muito que aprender sobre boas maneiras, normando. Tenho certeza de que violentou minha filha para fazer esse Filho.
    -  Me! - censurou Aislinn, mas Wulfgar olhou atentamente para Maida.
    -  Como sabe, velha rabugenta, que esse filho  meu? Maida olhou para ele e deu uma gargalhada.
    -  Ah, se o pequenino chegar com cabelo preto como a asa do corvo, ento foi Ragnor quem trabalhou bem, e se for da cor do trigo no vero, ento  deste bastardo, 
sem dvida. Mas - fez uma pausa e continuou, saboreando cada palavra - se a criana nascer com
    cabelos vermelhos como o sol da manh - deu de ombros e abraou o prprio corpo, satisfeita -, ento no vamos saber quem  o pai.
    Wulfgar virou de repente e levou os cavalos para beber. Aislinn franziu a testa para a me, que, rindo feliz, desapareceu outra vez na floresta; depois olhou 
para as costas largas de Wulfgar. Pareciam frias e ameaadoras, e Aislinn compreendeu que ele preferia a companhia dos animais naquele momento. Com um suspiro, Aislinn 
entrou na floresta, reconhecendo que ele precisava resolver sozinho esse problema.
    Quando voltou, Wulfgar estava  sua espera com po e carne cortada para os trs. Ele continuava absorto em pensamentos, e comeram em silncio. Maida notou o 
estado de esprito do normando e sensatamente conteve sua lngua.
    Continuaram a viagem, Aislinn cochilando nos braos de Wulfgar, saboreando o carinho com que ele a tratava. Quando chegaram a Darkenwald, ele a acordou falando 
em voz baixa em seu ouvido. Aislinn abriu os olhos e viu que j era noite. Wulfgar desmontou e ela apoiou as mos nos ombros dele para descer. Depois o normando 
olhou para Maida e viu que ela oscilava molemente na sela.  luz das tochas nos lados da porta, Aislinn viu que a me estava exausta e abatida. Segurou o brao dela 
e disse, em voz baixa:
    -  Venha, eu a levo at sua cabana. Wulfgar a deteve, com a mo estendida.
    -  Eu levo sua me. V para o quarto e me espere l. No demoro. Maida olhou desconfiada para o normando antes de comear a
    andar na frente dele. Aislinn ficou parada, ouvindo os passos dos dois. Depois de um longo tempo avistou, entre as rvores, a luz fraca da lareira acesa na cabana. 
Ento, com passos cansados, ela entrou e subiu a escada.
    O quarto estava iluminado pela luz do fogo alto, aceso certamente por algum que no duvidava do sucesso de Wulfgar em tudo que fazia - provavelmente Sweyn, 
sempre fiel e sempre preocupado com o conforto de seu chefe.
    Com um suspiro, Aislinn comeou a despir-se perto da lareira. Tirou a combinao e estendeu a mo para uma manta de pele da cama, mas, quando ouviu a porta se 
abrindo, segurou a combinao na frente do corpo para enfrentar o intruso.
    -  Ento, voc voltou - murmurou Gwyneth, encostada no batente da porta.
    Aislinn estendeu o brao.
    -  Como v, viva e respirando.
    -   uma pena - suspirou Gwyneth. - Eu tinha esperana de que encontrasse um lobo faminto.
    -  Se quer mesmo saber, encontrei. Ele deve chegar a qualquer momento.
    -  Ah, o bravo bastardo - zombou Gwyneth. - Sempre provando seu valor.
    Aislinn balanou a cabea.
    -  Conhece muito pouco seu irmo, Gwyneth.
    Gwyneth empertigou o corpo e avanou alguns passos, examinando Aislinn de alto a baixo.
    -  Admito que no compreendo por que ele sai no meio da noite  sua procura, quando dentro de pouco tempo vai mand-la para a Normandia ou para outra terra distante. 
Tolice, sem dvida, e nenhum bom senso.
    -  Por que voc o odeia tanto, Gwyneth? - perguntou Aislinn. - Alguma vez ele a prejudicou? Acho difcil compreender seu dio.
    Com um sorriso de desprezo, Gwyneth respondeu:
    -  No pode mesmo compreender, sax ordinria. Contenta-se em se abrir para ele na cama e fazer o que ele quer. O que vai conseguir dele a no ser mais bastardos?
    Aislinn ergueu o queixo e conteve-se para no responder  altura. Percebeu um leve movimento e virando a cabea viu Wulfgar parado na porta, muito interessado 
na conversa, com os braos cruzados e o peitoral no ombro. Acompanhando o olhar de Aislinn, Gwyneth voltou-se tambm.
    -  Veio nos dar as boas-vindas, Gwyneth?-perguntou ele, com voz spera.
    Wulfgar fechou a porta e atravessou o quarto, deixando a cota de malha ao lado do vestido de Aislinn. Depois, olhou para Gwyneth.
    -  Voc no esconde o desprezo que sente por ns, Gwyneth. No est feliz aqui? - perguntou, com as mos na cintura.
    -  Feliz? Nesta casa miservel? - indagou ela.
    -  Pode ir quando quiser - disse Wulfgar, lentamente. - Ningum vai impedir.
    Com um olhar frio, ela perguntou:
    -  Est me expulsando, irmo? Wulfgar deu de ombros.
    -  S estou dizendo que, se quiser ir embora, ningum vai impedir.
    -  Se no fosse por meu pai, encontraria um meio de se livrar de mim - acusou Gwyneth.
    -  Tem razo - admitiu Wulfgar com um sorriso irnico.
    -  O qu? O cavaleiro andante descobriu que ser senhor de terras tem certas desvantagens? - zombou ela. - Deve ser penoso para voc tratar os problemas de seus 
servos e de sua casa quando, antes, s se importava consigo mesmo. Por que no admite que est sendo um fracasso aqui em Darkenwald?
    -  Sim, s vezes  cansativo - disse Wulfgar, olhando direta-mente para ela. - Mas tenho certeza de que sou capaz de arcar com esse peso.
    -  Um bastardo tentando provar que  digno de seus superiores. D para fazer rir uma imagem de madeira.
    -  Voc acha engraado, Gwyneth?-Wulfgar sorriu e ficou de p ao lado de Aislinn. Segurou um cacho de cabelo cor de cobre e o beijou ternamente, acariciando-a 
com o olhar. - Deve achar que ns todos merecemos seu desprezo, porque somos humanos e imperfeitos.
    Observando a ateno dele para com Aislinn, Gwyneth ergueu os lbios com ironia.
    -  Alguns devem ser tolerados com mais pacincia do que os outros.
    -  Oh? - Wulfgar ergueu uma sobrancelha. - Eu tinha a impresso de que voc despreza a todos, sem exceo. Quem  o contemplado? - Esperou, pensativo, por um 
momento, depois sorriu e, voltando-se para a irm, perguntou: - Ragnor, talvez? Aquele tratante?
    Gwyneth mais uma vez empertigou o corpo.
    -  Voc, um bastardo, o que sabe sobre os bem-nascidos? - perguntou ela.
    -  Muita coisa - respondeu Wulfgar. - Desde a minha juventude venho suportando o desprezo de pessoas como voc e Ragnor. Sei muita coisa sobre os bem-nascidos 
e sei que no valem nem a bolsa de um mendigo, para mim. Se quer mesmo escolher um homem, Gwyneth, e dou o conselho sem cobrar nada, procure o corao, que d a 
verdadeira medida do homem, no o que seus antepassados fizeram ou deixaram de fazer. Cuidado com Ragnor, irm.  do tipo traioeiro, no qual nunca devemos confiar 
totalmente.
    -  Fala assim por inveja, Wulfgar - acusou ela.
    Ele riu e passou a mo no cabelo de Aislinn, fazendo-a estremecer.
    -  Acredite no que quiser, Gwyneth, mas no diga que no avisei. Gwyneth foi at a porta, virou para trs, olhou para os dois
    friamente e saiu sem dizer mais nada.
    Wulfgar riu e abraou Aislinn, fazendo-a levantar o rosto para ele. Aislinn no resistiu, mas tambm no correspondeu como ele desejava. Quando os lbios de 
Wulfgar pousaram levemente nos seus, ela procurou pensar em outra coisa, reagindo com frieza. Wulfgar estranhou:
    -  O que a perturba? - perguntou em voz baixa.
    -  Eu o desagrado, meu senhor? Qual  o seu desejo? Diga-me, \ que eu obedeo. Sou sua escrava.
    Carrancudo, ele disse:
    -  Voc no  minha escrava. J disse isso uma vez hoje.
    -  Mas, meu senhor, estou aqui para o seu prazer. Uma escrava deve sempre obedecer a seu dono. Quer meus braos em volta do seu pescoo? - Segurando a combinao 
com uma das mos, ela ps a outra na nuca dele. - Quer o meu beijo?-Ficando na ponta dos ps, beijou os lbios dele de leve e abaixando o brao voltou  posio 
inicial. - Pronto. Eu lhe dei prazer, no dei?
    Irritado, Wulfgar tirou a tnica e dobrou-a. Sentou na beirada da cama para tirar a camisa. Quando ficou de p para tirar a cala justa, Aislinn foi at a corrente 
ainda presa ao p da cama e sentou no cho frio. Wulfgar ergueu os olhos, e ela enfiou o tornozelo na argola de metal e fechou-a com um estalo.
    -  Que diabo est fazendo? - exclamou ele, levantando-a do cho e fazendo com que ela soltasse a combinao.-Que diabo pensa que est fazendo? - repetiu ele, 
furioso.
    Aislinn arregalou os olhos com fingida inocncia.
    -  Os escravos no so acorrentados, meu senhor? No sei muito bem como so tratados porque sou escrava h poucos meses. Desde & chegada dos normandos, meu senhor.
    Praguejando impaciente, Wulfgar abriu a argola, libertando o tornozelo dela. Ergueu-a do cho e atirou-a na cama.
    -  Voc no  escrava - gritou ele.
    -  Sim, meu senhor - respondeu Aislinn, a custo contendo o riso. - Como quiser, senhor.
    -  Pelo amor de Deus! O que voc quer de mim, mulher? -
    perguntou Wulfgar, erguendo os braos, frustrado.-J disse que no  escrava. O que mais voc quer?
    Aislinn bateu as pestanas tentadoramente.
    -  S desejo agrad-lo, meu senhor. Por que est to zangado? Estou aqui para fazer a sua vontade.
    -  O que preciso fazer para que me oua? - exclamou ele. - Preciso anunciar para o mundo todo?
    -  Sim, meu senhor - disse Aislinn, e Wulfgar olhou para ela com mais ateno.
    Por um momento, ele ficou indeciso, mas quando compreendeu Wulfgar comeou a se vestir outra vez. Quando chegou na porta parou, ouvindo a voz dela.
    -  Onde vai, meu senhor?
    -  Vou procurar Sweyn - resmungou. - Ele no me atormenta tanto.
    Dizendo isso, saiu do quarto e bateu a porta. Sorrindo, Aislinn se cobriu com as mantas de pele, abraou o travesseiro dele e adormeceu.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Vinte
    
    
    - QUE MULHER ATREVIDA! - resmungava Wulfgar, atravessando o ptio na direo do estbulo. - Quer que eu case com ela, anunciando para o mundo todo que  minha 
mulher. No sou do tipo que se deixa dominar por ningum. Ela tem que se contentar com o que tem.
    Ajeitou um monte de feno fresco ao lado de Huno e deitou. Sua chegada agitou os cavalos e provocou reclamaes irritadas dos homens. Quando um arqueiro soltou 
um palavro, Wulfgar se cobriu com a manta e tentou em vo dormir.
    No dia seguinte cavalgou veloz e incessantemente, procurando cansar a mente e o corpo, para conseguir um sono reparador, mas, quando a aurora surgiu no horizonte, 
estava ainda virando de um lado para o outro em sua cama de palha. Desde a noite anterior ele evitava o solar, mas vez ou outra via Aislinn indo para a cabana da 
me ou fazendo qualquer outra coisa fora da casa. Wulfgar parava, admirando o movimento ondulante de sua saia e o brilho do cabelo cor de cobre. Ela olhava de soslaio 
para ele, mas mantinha distncia. Os homens, intrigados, entreolhavam-se e depois coavam a cabea, vendo a cama de palha de seu chefe. Tinham cuidado para ficar 
em silncio, quando, durante a noite, uma exclamao ou uma praga os acordava, e ajeitavam-se em suas esteiras, desejando que ele conseguisse dormir.
    Na terceira manh, Wulfgar fez a primeira refeio do dia no solar, olhando constantemente para a escada at Aislinn aparecer. Por um momento, ela olhou para 
ele surpresa, mas logo se controlou e comeou a ajudar Ham e Kerwick a servir. Depois de servir os homens, finalmente ela chegou a Wulfgar. Ele escolheu uma ave 
avantajada e depois olhou para ela.
    -  Encha o meu copo - ordenou.
    Aislinn inclinou-se para apanhar o copo, roando o seio no ombro dele. Voltou logo depois com o copo cheio de leite e ps na mesa. Wulfgar franziu a testa.
    -  Foi a que o encontrou? Ponha no lugar certo, escrava.
    -  Como quiser, meu senhor - murmurou ela.
    Outra vez passou o brao pela frente dele e ps o copo onde estava antes.
    -  Est bem assim, meu senhor? - perguntou ela.
    -  Sim, est- disse Wulfgar, voltando a ateno para a comida. Gwyneth, satisfeita com a nova ordem de coisas, naquela noite
    sentou na cadeira de Aislinn, ao lado de Wulfgar. Tentou ser um pouco mais agradvel, e procurou conversar, mas Wulfgar respondia com resmungos e olhares silenciosos. 
Sua ateno era toda para Aislinn, que servia o jantar, com Ham e Kerwick. As travessas eram pesadas e Kerwick uma vez ou outra a ajudava. Essa solicitude irritou 
Wulfgar mais ainda, e ele acompanhava os dois com olhar sombrio. Apertou com fora o copo de chifre quando a viu rir com o jovem saxo.
    -  Est vendo como ela se diverte com ele?-murmurou Gwyneth no ouvido do irmo. - Acha que ela merece sua ateno? Olhe para Haylan e veja a diferena. - Ergueu 
a mo e mostrou Haylan que, no outro canto da sala, olhava esperanosa para Wulfgar. - Parece que ela tem mais amor para oferecer. J a experimentou na cama? Haylan 
pode ser uma cura para suas preocupaes.
    A despeito dos esforos de Gwyneth, porm, os olhos de Wulfgar no deixavam Aislinn. Depois de observ-lo por alguns momentos, Bolsgar inclinou-se para ele.
    -  O lobo percorre o campo, mas sempre volta para a companheira escolhida. Voc j encontrou a sua?
    Wulfgar voltou-se bruscamente para ele.
    -  Quanto voc cobraria para fazer esse casamento?
    -  Acho que no seria muito - riu Bolsgar, e depois continuou. srio.-Faa a sua escolha, Wulfgar. Liberte a jovem Aislinn ou case com ela.
    Wulfgar rilhou os dentes.
    -  Est conspirando com Maida - acusou ele.
    -  Por que voc mantm essa jovem malvada e vingativa em sua  casa? - perguntou Bolsgar, indicando Aislinn. - Ela o tortura com sua presena. Sabe que voc 
est olhando e conversa alegremente com outros homens. Kerwick no  nenhum tolo. Est disposto a casar com ela e ser o pai da criana. Por que voc no d Aislinn 
para ele? Kerwick ficar feliz. Mas voc, meu tolo senhor...-o velho cavaleiro riu --, o que vai acontecer com voc? Pode suportar a idia de Aislinn partilhar a 
cama dele?
    Wulfgar bateu com a mo fechada na mesa.
    -  Pare com isso! -gritou.
    -  Se no a tomar para voc, Wulfgar - continuou Bolsgar, impassvel -, ento no pode impedir que o jovem saxo case com ela para dar um nome  criana.
    -  Que diferena vai fazer para a criana? Minha me era casada com voc, mas eu continuo sendo um bastardo-respondeu Wulfgar, com amargura.
    Bolsgar empalideceu.
    -  Eu o rejeitei - disse devagar, lutando com as palavras. - Pode dizer que fui um tolo, pois muitas vezes me arrependi e desejei que voc voltasse. Voc era 
mais meu filho do que Falsworth. Torturo-me at hoje com o sofrimento que lhe causei, mas no pode ser desfeito. Voc cometeria o mesmo erro?
    Wulfgar virou o rosto, perturbado com as palavras do velho. Finalmente saiu da sala, sem notar que os olhos de Aislinn o seguiam com expresso preocupada.
    Na manh seguinte, Aislinn acordou sobressaltada quando Wulfgar tirou as mantas de cima dela e deu uma palmada sonora no seu traseiro.
    -  Levante, mulher. Vamos ter hspedes importantes hoje, e quero que os receba dignamente vestida.
    Aislinn passou a mo no lugar da palmada e levantou, sob o olhar atento do normando. Quando ela estendeu a mo para a combinao, Wulfgar bateu palmas, a porta 
se abriu e Hlynn e Miderd entraram com a gua para o banho. Segurando a combinao contra o corpo, Aislinn olhava das mulheres para Wulfgar, sem entender nada.
    Ele ergueu uma sobrancelha.
    -  Para a senhora. Um banho perfumado anima o esprito.-Foi at a porta e voltou-se. - Use o vestido amarelo que eu comprei. Fica muito bem em voc.
    Aislinn, furiosa, sentou na beirada da cama,
    -  Hum - disse ele. - Voc quer me agradar, no quer? Ou j esqueceu a obrigao da escrava? - Sorriu. - No me demoro.
    Rindo, ele saiu do quarto e fechou rapidamente a porta, temendo ser atingido por algum objeto contundente.
    Com relutncia, Aislinn deixou que as duas mulheres a ajudassem a tomar banho e finalmente conseguiu se livrar da tenso sob as mos que a massageavam com leo 
perfumado. Depois de escovar demoradamente o cabelo, elas o pentearam no alto da cabea, tranando-o com fitas amarelas. Ajudaram Aislinn a vestir a combinao amarela 
e o vestido de veludo da mesma cor e prenderam o cinto de filigrana dourada na altura dos quadris, completando a toalete.
    Miderd recuou para admirar Aislinn e sorriu entre lgrimas de alegria.
    -  Oh, minha senhora, est bonita demais para palavras. Estamos felizes porque ele a trouxe de volta.
    Aislinn abraou-a carinhosamente.
    -  Para dizer a verdade, Miderd, eu tambm estou, mas ainda tenho dvidas. Ser que ele vai me querer ainda, ou vai procurar outra?
    Timidamente, Hlynn passou o brao pela cintura de Aislinn e bateu de leve em suas costas, consolando-a, incapaz de encontrar as palavras certas. Aislinn abraou-a 
com fora, com os olhos cheios de lgrimas, e ento as duas comearam a arrumar o quarto apressadamente, antes que Wulfgar voltasse. Quando depois de alguns minutos 
ele chegou, Miderd e Hlynn saram discretamente.
    Wulfgar parou na frente de Aislinn, com as mos cruzadas nas costas e os ps afastados. Examinou-a de alto a baixo. Aislinn retribuiu friamente o olhar. Ele 
aproximou-se e levantou o rosto dela, devorando-a com os olhos, e beijou-lhe ternamente os lbios.
    -  Voc est linda - murmurou com voz rouca, e Aislinn teve de recorrer a todo seu controle para no o abraar.-Mas uma escrava no deve ser vaidosa. Desa para 
o salo, os outros a esperam-disse, saindo do quarto.
    Sentindo ainda o calor do beijo dele, Aislinn bateu com o p no cho, desanimada.
    
    Uma escrava para fazer suas vontades, nada mais. Vai ser preciso todas as foras do cu para convenc-lo de que sou a mulher para ele.
    Gwyneth estava tambm com seu melhor vestido e impaciente com todo aquele mistrio. Wulfgar tomava descansadamente sua cerveja, observando a irm, que andava 
de um lado para o outro, olhando furiosa para ele de vez em quando.
    -  Voc me tira da cama e no diz para qu, a no ser que algum vai chegar. Quem ia se aventurar neste lugar esquecido de Deus, a no ser um idiota?
    -  Voc se aventurou, querida Gwyneth-disse ele, com humor, e viu a fria se acender nos olhos dela. - Considera-se uma exceo ou somos todos idiotas?
    -  Est brincando, meu irmo, mas no posso imaginar seu Guilherme visitando sua propriedade.
    Wulfgar deu de ombros.
    -  Queria que um Rei visitasse um simples lorde com um pequeno pedao de terra? Seus deveres como Rei so muito maiores do que os meus como lorde. Compreendo 
que ele deve ter pouco tempo para visitas, se seus sditos reclamam tanto quanto os meus.
    Gwyneth balanou a cabea e aproximou-se de Ham e Kerwick, que estavam assando um javali, um veado, outras caas menores e aves no espeto sobre o fogo. Com um 
gesto de desprezo, apontou para as carnes.
    -  Isto daria para nos alimentar por um ms. Voc  descuidado com a comida, Wulfgar.
    -  Os gros no mingau - suspirou Wulfgar em voz baixa e voltou-se para Bolsgar, que descia a escada, uma bela figura bem-vestida. Wulfgar dera a ele algumas 
de suas melhores roupas. Embora apertadas na cintura, caam bem nos ombros. Bolsgar riu, girando o corpo para que o admirassem.
    -  Juro que recuperei minha juventude. Gwyneth zombou.
    -  Com roupas emprestadas.
    O pai olhou para ela, notando o vestido amarelo-escuro que fora de Aislinn.
    -  Ora, vejam s. A panela chama a chaleira de preta. Parece que voc tambm tomou alguma coisa emprestada.
    Gwyneth deu as costas ao pai, e Wulfgar ofereceu a ele um copo de cerveja. Ficaram sentados, saboreando a bebida, at a grande porta
    se abrir e um dos homens de Wulfgar entrar correndo para entregar a ele um grande embrulho envolto em mantas de pele. O homem falou alguma coisa ao ouvido de 
Wulfgar. Assim que o mensageiro saiu, ele comeou a cortar as cordas do embrulho. Tirou de dentro vrias peas de roupa masculina. Com as roupas no brao, caminhou 
para Kerwick, que estava atento ao seu trabalho e no o viu se aproximar.
    -  Kerwick.
    O jovem ficou de p imediatamente. Arregalou os olhos quando viu as roupas no brao de Wulfgar e empertigou o corpo.
    -  Meu senhor?
    Wulfgar estendeu as peas de roupa para ele.
    -  Estou certo dizendo que estas roupas so suas? - perguntou, um tanto asperamente, aumentando a confuso do jovem.
    -  Sim, meu senhor - respondeu Kerwick. - Mas no tenho idia de como vieram parar aqui. No fui eu quem as trouxe de Cregan.
    -  Se no notou, Kerwick, elas acabam de chegar. Mandei um dos meus homens apanh-las em Cregan.
    -  Senhor? - Kerwick olhou para o normando, bem maior do que ele, duvidando que pudesse vestir suas roupas.
    -  No so para mim, Kerwick, mas para voc. Quero que deixe esse trabalho e que se vista como convm a um homem bem-nascido.
    Kerwick estendeu as mos para as roupas, depois as recolheu rapidamente, limpando-as na tnica de fazenda spera. Ento apanhou-as com cuidado, ainda incrdulo.
    Gwyneth olhou com desprezo para o irmo e foi para a outra extremidade da sala.
    Wulfgar voltou-se ento e anunciou para todos os presentes:
    -  Meu homem disse que nosso hspede est a caminho e deve chegar a qualquer momento.
    
    Aislinn desceu a escada sob o olhar apreciativo de muitos, e quando chegou ao salo vrios homens de Wulfgar j haviam chegado, com suas melhores roupas. Sir 
Gowain, ao lado de Sir Milboume, perto da escada, olhou para ela boquiaberto e encantado, e o cavaleiro mais velho passou a mo na frente dos olhos dele, como para 
acord-lo de um transe, provocando o riso dos que estavam perto. Gowain ofereceu a mo a Aislinn e sorriu feliz quando ela aceitou.
    -  Minha senhora, sua beleza me deslumbra. No consigo encontrar palavras para descrev-la.
    
    
    
    
    
    Aislinn olhou para Wulfgar, a tempo de ver Bolsgar chamar-lhe a ateno com uma leve cotovelada, e sorriu tentadoramente para o jovem cavaleiro.
    -  Suas palavras so perfeitas, senhor, e tenho certeza de que muitas jovens j cederam aos seus encantos.
    Gowain olhou em volta, orgulhoso com o elogio, mas, quando Wulfgar se aproximou dos dois e ergueu uma sobrancelha interrogativamente, ele corou e engoliu em 
seco.
    -  O que  isso, Sir Gowain? No tem nada mais importante a fazer do que cortejar minha escrava?
    Gowain quase engasgou, confuso. Nos ltimos dias, todos comentavam que Wulfgar tinha abandonado Aislinn, e ele julgou que teria alguma chance.
    -  No, meu senhor. No - ele apressou-se em negar. - Eu estava apenas elogiando sua beleza, nada mais. Sem outra inteno.
    Wulfgar segurou a mo de Aislinn, puxando-a para si e disse com  um largo sorriso:
    -  Est perdoado. Mas, de agora em diante, seja mais cauteloso. Nunca fui homem de discutir por causa de uma mulher, mas por esta, | Sir Gowain, sou capaz de 
abrir sua cabea ao meio.
    Com essa advertncia para o jovem cavaleiro e para todos que o  ouviam, Wulfgar afastou Aislinn dos homens, voltando para perto de  Bolsgar, que olhava para 
ela com olhos brilhantes de alegria.
    -  Ah, voc  muito bela, Aislinn. Sua beleza faz bem aos meus velhos olhos. J vivi quase sessenta anos, e nunca vi uma beleza to  perfeita.
    -   muito bondoso, meu senhor - disse Aislinn, com uma pequena mesura, e olhou para Wulfgar. - Eu o agrado tambm, meu senhor?  meu dever obedecer suas ordens, 
mas seria difcil mudar minha aparncia se no tiver sua aprovao.
    Wulfgar sorriu com uma ternura intensa nos olhos, mas disse secamente:
    -  Como eu j disse, no devemos alimentar a vaidade de uma escrava.
    Apertou a mo dela e sorriu. O olhar frio de Aislinn foi desmentido pelo tremor de seus dedos entre os dele.
    -  Voc est linda - murmurou Wulfgar. - Agora, o que mais quer me obrigar a admitir? - Ela abriu a boca para responder, mas o
    normando ergueu a mo. - Pare com suas exigncias. Estou farto de ser acuado. Quero um momento de descanso.
    Ofendida, Aislinn tirou a mo da dele e foi para a lareira, onde Ham cuidava das carnes.
    -  Um banquete? - disse ela. - Devem ser hspedes muito importantes.
    -  Sim, minha senhora. Ele no mediu esforos para fazer deste dia uma ocasio memorvel. Esto trabalhando arduamente na cozinha para obedecer suas ordens.
    Aislinn olhou para Wulfgar no outro lado da sala. Era uma figura esplndida, com a tnica de veludo verde-escuro com debrum de trana dourada. A capa curta, 
vermelho-escura, presa no pescoo, descia sobre um ombro at os joelhos. Aislinn lembrou o cuidado com que fizera a camisa de linho macio que ele usava sob a tnica. 
Adaptava-se perfeitamente aos ombros largos e Aislinn tinha de admitir que a roupa nunca parecera to perfeita quanto agora, no corpo dele. Olhou para as pernas 
bem-feitas e musculosas cobertas pela cala justa, e seu peito encheu-se de orgulho.
    -  Aislinn?
    Ouvindo a voz familiar s suas costas, Aislinn voltou-se e olhou surpresa para Kerwick, ricamente trajado. Arregalou os olhos atnita, depois sorriu, feliz.
    -  Kerwick, voc est lindo - exclamou, satisfeita.
    -  Lindo?-balanou a cabea.-No, essa palavra s descreve voc.
    -  Ah, mas est sim - insistiu ela. Kerwick sorriu.
    -   bom vestir estas roupas outra vez. Ele mandou buscar... especialmente para mim - disse, com admirao.
    -  Quem? - perguntou Aislinn, e acompanhou o olhar de Kerwick at Wulfgar, no outro lado da sala. - Est dizendo que Wulfgar mandou apanhar sua roupa em Cregan? 
Para voc?
    Kerwick fez um gesto afirmativo, e um sorriso de felicidade iluminou o rosto de Aislinn. Com um aperto na garganta, ela pediu licena ao antigo noivo e caminhou 
lentamente para Wulfgar, tentando adivinhar seus motivos para tanta generosidade. Wulfgar sorriu quando Aislinn tocou-lhe a mo.
    -  Chrie - murmurou carinhosamente, apertando os dedos dela. - Resolveu ento que  capaz de suportar o meu humor?
    
    -  Uma vez ou outra, meu senhor, mas no em excesso - disse ela, sorrindo tambm.
    Wulfgar olhou encantado para os olhos cor de violeta. Ficaram assim por um longo tempo, saboreando a proximidade de seus corpos, sentindo a atrao que sempre 
os unia, A voz de Gwyneth quebrou o encantamento.
    -  Um bastardo e sua rameira - sibilou ela. - Vejo que se encontraram outra vez. O que mais se pode esperar de um homem comum?
    Bolsgar, zangado, mandou a filha se calar, mas ela, insolente, ignorou-o e examinou Aislinn de alto a baixo.
    -  O vestido  digno da realeza, suponho, mas sua barriga estraga a elegncia.
    Instintivamente Aislinn levou a mo  barriga, com expresso preocupada.
    Wulfgar olhou furioso para a irm.
    -  No seja cruel, Gwyneth. Hoje no quero nada disso. Trate Aislinn com respeito ou a expulso de seu quarto.
    -  No sou criana - disse Gwyneth -, e no vou tratar com respeito uma prostituta.
    -  No, voc no  criana-concordou Wulfgar. - Mas eu sou o senhor deste solar, e no admito que me desafie. Vai me obedecer?
    Gwyneth semicerrou os olhos e no disse nada, Viu Haylan entrando na sala e ergueu os olhos astutos para Wulfgar.
    -  Aqui est nossa querida Haylan. Naturalmente deve ter notado que dividi com ela os poucos vestidos que tenho.
    Aislinn reconheceu seu vestido cor de malva. Haylan era um pouco mais baixa e mais gorda do que Aislinn, mas mesmo assim o vestido acentuava sua beleza morena. 
Encorajada pelos acontecimentos dos ltimos dias, Haylan se colocou entre Wulfgar e Aislinn e ergueu os olhos para ele. Com a ponta do dedo, delineou a borda do 
manto no peito dele.
    -  Est com tima aparncia, meu senhor-murmurou ela. Aislinn ficou tensa e olhou para as costas da mulher. Era grande
    a tentao de puxar-lhe o cabelo longo, negro e crespo e dar-lhe um pontap no traseiro. Distraidamente, segurou o cabo da adaga, com os olhos fixos na nuca 
da sax.
    Haylan inclinou-se para Wulfgar e passou a mo no veludo macio de sua tnica.
    -  Deseja que eu me retire, meu senhor? - A voz de Aislinn cortou o ar como uma lmina afiada. - No pretendo interromper seu ...prazer. - A ltima palavra foi 
dita suavemente, mas em tom interrogativo.
    Wulfgar imediatamente se livrou de Haylan e se afastou com Aislinn, desapontando as duas mulheres.
    -  E dizem que eu sou devassa - murmurou Aislinn. Wulfgar riu.
    -  A viva v coisas que no existem, sem dvida. Para dizer a verdade, temi pela vida dela quando vi a sede de sangue em seus olhos.
    Aislinn tirou o brao do dele.
    -  No estrague o seu dia com preocupaes, senhor.-Fez uma mesura, mas os olhos negavam a humildade dos gestos e das palavras. - Sou uma escrava e suporto os 
caprichos dos outros calmamente. Se for atacada, procurarei apenas me defender, a no ser que d ordem em contrrio.
    Sorrindo, Wulfgar passou a mo no peito onde tinha ainda as marcas da fria dela.
    -  Sim, j experimentei seu temperamento indefeso e calmo e sei que, se a viva a irritar, corre o perigo de acabar sem nenhum cabelo na cabea.
    A porta da frente se abriu, deixando entrar uma rajada fria do vento de maro. Aislinn viu Sweyn de p com sua melhor roupa viking. Com as mos na cintura, ele 
riu alto, e sua voz ecoou na sala.
    -  O homem se aproxima, Wulfgar - rugiu ele. - Logo estar aqui.
    Wulfgar levou Aislinn at Bolsgar e ps a mo dela sobre a do velho saxo, pedindo a ele que a mantivesse ali. Depois ficou de p ao lado de Sweyn para receber 
o honrado visitante.
    Ouviram o tropel fraco do cavalo, acompanhado por suspiros e bufos, e o flap-flap de sandlias. Frei Dunley apareceu com um largo sorriso de felicidade. A surpresa 
foi geral. Wulfgar, Sweyn e o frade conversaram por algum tempo em voz baixa. Depois, Wulfgar conduziu o religioso at a mesa e serviu-lhe um clice de vinho.
    O frade esvaziou o clice e agradeceu. Pigarreou, ficou srio e, de p no quarto degrau da escada, de frente para a sala, esperou, segurando uma pequena cruz 
de ouro na frente do corpo. O silncio agora era completo, todos esperando para ver o que ia acontecer, confusos e espantados ainda.

    Wulfgar ficou de p na frente do padre e, voltando-se, ergueu as sobrancelhas para Bolsgar, que, compreendendo afinal o que ia acontecer, ergueu a mo de Aislinn 
e levou-a para o lado de Wulfgar. Frei Dunley inclinou a cabea afirmativamente, e, segurando a mo de Aislinn, o Lorde de Darkenwald ajoelhou, puxando-a gentilmente 
para ajoelhar ao seu lado.
    Maida sentou bruscamente no banco mais prximo, completa-mente atnita. Kerwick, por um momento, sentiu um aperto no corao, logo substitudo por uma enorme 
alegria por ver que Aislinn ia ter o que mais desejava. Gwyneth abriu a boca, surpresa e derrotada, vendo que as palavras de Frei Dunley destruam suas esperanas 
de poder. Haylan, finalmente compreendendo o significado da cerimnia, comeou a soluar, chorando o fim de suas aspiraes.
    Wulfgar repetiu os votos com voz forte e firme, e foi Aislinn quem tremeu e gaguejou, repetindo as palavras num atordoamento completo. Wulfgar ajudou-a a levantar 
para ouvir a declarao final do padre. S ento Aislinn percebeu que era a terceira vez que ele repetia a pergunta.
    -  O qu? - perguntou ela. - Eu no...
    O padre inclinou-se para a frente e disse, com urgncia na voz.
    -  Quer beijar o homem e selar os votos?
    Aislinn voltou-se para Wulfgar, certa de que estava sonhando. Sweyn quebrou o silncio batendo na mesa com uma caneca de cerveja, espalhando espuma por todos 
os lados.
    -  Salve Wulfgar, Lorde de Darkenwald! - trovejou ele.
    Os homens responderam a saudao com entusiasmo, em altas vozes, acompanhados pelo povo da cidade. A caneca de cerveja bateu outra vez na mesa.
    -  Salve Aislinn, Lady de Darkenwald!
    Dessa vez as vigas do teto estremeceram, ameaando cair.
    Finalmente, compreendendo que tudo era real, com um grito de prazer, Aislinn passou os braos pelo pescoo de Wulfgar e, rindo e chorando, cobriu de beijos seu 
rosto. Wulfgar segurou-a pelos braos, afastando-a um pouco para acalm-la, rindo daquela alegria esfuziante. Sweyn tirou-a das mos de Wulfgar, apertou-a nos braos, 
plantou um beijo sonoro em seu rosto e passou-a para Gowain, que a passou para Milbourne, este para Bolsgar, depois Kerwick e todos os outros. Finalmente foi devolvida 
a Wulfgar, corada de excitao e rindo feliz. O normando tomou-a nos braos e beijou-a demoradamente, e Aislinn
    respondeu em completo abandono, com o corao embriagado de felicidade. Deram uma volta completa assim abraados, por entre os gritos de encorajamento de todos.
    A alegria invadiu o salo, e apenas trs mulheres no estavam satisfeitas. Maida saiu do estupor e fugiu da sala comum gemido surdo de desespero, puxando os 
cabelos. Gwyneth subiu vagarosamente para seu quarto e sentou sozinha e em silncio na frente da lareira. Haylan saiu soluando atrs de Maida.
    Todos desejavam felicidades para Aislinn e batiam em suas costas, s vezes com vigor excessivo. O tempo todo, sua mente repetia sem cessar uma nica coisa.
    Wulfgar! Meu Wulfgar! Meu Wulfgar! As palavras cantavam no mais ntimo de seu ser, obscurecendo todo o resto.
    Mais barris de cerveja foram abertos, e mais odres de vinhos esvaziados. A carne foi cortada e o banquete comeou, as vozes ficando mais arrastadas a cada brinde 
erguido. Recostado na cadeira, Wulfgar divertia-se com a festa. Malabaristas, acrobatas e msicos, contratados apressadamente, alegravam a comemorao. Mas foi Gowain 
quem disse as palavras. Aislinn lembrou para sempre, acima de tudo, Gowain de p, na frente do novo casal:
    
    - Nenhuma rosa mais bela meu corao j viu
    Nem um cavaleiro errante jamais ganhou.
    Sua beleza reina na mais alta montanha
    Onde nenhuma outra pode alcanar ou tocar.
    Nenhuma noite mais negra, nenhum dia mais sombrio
    Do que quando essa rosa foi roubada,
    E presa pelos votos do casamento, que tristeza!
    
    Ergueu o copo de cerveja e terminou:
    
    -  Bebo ao nico prazer que me resta, o copo de cerveja!
    Aislinn riu e a festa continuou, ruidosa, at Wulfgar se levantar pedindo ateno. Olhou para os rostos alegres dos servos e dos cavaleiros, dos arqueiros e 
dos que serviam as bebidas. Todos esperavam suas palavras e, quando ele comeou a falar em francs, os servos reuniram-se em volta de Kerwick, que passou a traduzir 
para o ingls.
    -  Na nossa cidade, este dia ser lembrado como o dia da unio dos normandos e saxes - comeou ele, cautelosamente. - De hoje em diante, este ser um lugar 
de paz e um condado prspero. Logo comearemos a construo do castelo, ordenada pelo rei para proteger as cidades de Cregan e de Darkenwaid. Ser circundado por 
um fosso e ter os muros e paredes mais fortes que possamos construir. Nos momentos de perigo, servir de abrigo para normandos e ingleses. Os meus homens que assim 
desejarem podem se dedicar a qualquer profisso, abrindo lojas de comrcio ou de artesanato para sua subsistncia. Faremos essas cidades seguras e confortveis e 
teremos muitos i visitantes. Vamos precisar de pedreiros e carpinteiros, alfaiates e  vendedores de todos os tipos. Sir Gowain, Sir Beaufonte e Sir Milbourne consentiram 
em ficar como meus vassalos, e continuaremos a dar proteo a todo o povo.                                                             
    Wulfgar fez uma pausa, e todos comearam a comentar suas  palavras.
    -  Preciso de um tesoureiro, que seja honesto com os normandos e com os saxes. Ele agir em meu nome em assuntos secundrios e far um registro de tudo que 
for realizado. Nenhum ato de comrcio, venda, casamento, nascimento ou propriedade ser completo se no for registrado nos livros. Meu casamento com Lady Aislinn 
ser o primeiro registro.
    Fez outra pausa, olhando para os rostos dos que o ouviam, e depois continuou:
    -  Esse  o nosso objetivo. Chamou minha ateno o fato de que entre os saxes h um homem muito instrudo, que fala bem as duas lnguas, tem grande habilidade 
para lidar com nmeros e uma honestidade a toda prova. A Kerwick de Cregan confio esses deveres e o nomeio xerife de Darkenwaid.
    Exclamaes de surpresa encheram o salo, mas Aislinn ficou era silncio, atnita. Kerwick, incrdulo, foi empurrado para a frente entre vivas e gritos de alegria. 
De p perante os dois, Kerwick olhou para Aislinn, cuja satisfao cintilava nos olhos cor de violeta, depois para Wulfgar, que devolveu o olhar com a testa franzida.
    -  Kerwick, julga-se capaz dessa tarefa?
    O jovem saxo ergueu a cabea com altivez e respondeu:
    -  Sim, meu senhor.
    -  Ento, est resolvido. De hoje em diante voc no  escravo, mas xerife de Darkenwaid. Tem autoridade para falar em meu nome i em tudo que deixo sob sua jurisdio. 
Ser a minha mo, tanto quanto |
    Sweyn  o meu brao, e confio em voc para agir com justia para todos.
    -  Meu senhor - disse Kerwick, humildemente. - Estou honrado.
    Com um sorriso, Wulfgar acrescentou, s para os ouvidos de Kerwick.
    -  Que haja paz entre ns, Kerwick, para o bem de minha dama. - Estendeu a mo, que Kerwick apertou, concordando.
    -  Para o bem de sua dama e da Inglaterra.
    Apertaram as mos como irmos, e Kerwick voltou-se para receber as congratulaes dos normandos e dos saxes. Wulfgar sentou e olhou para Aislinn.
    -  Marido! - murmurou ela, maravilhada com a palavra, os olhos brilhando.
    Com uma risada, Wulfgar levou os dedos dela aos lbios.
    -  Minha mulher! - murmurou.
    Inclinando-se para ele, Aislinn desenhou uma linha no peito dele com a ponta do dedo e sorriu tentadoramente.
    -  Meu senhor, no acha que est ficando tarde? Wulfgar apertou mais a mo dela e sorriu.
    -  Tem razo, minha senhora, est ficando muito tarde.
    -  O que devemos fazer para impedir que o tempo passe to depressa? - perguntou Aislinn, com voz carinhosa, descansando a mo na perna dele. Para o observador 
casual era um gesto normal, mas para os dois foi como um incndio que precisava ser imediatamente apagado. Com um brilho nos olhos, Wulfgar disse:
    -  Minha senhora, no sei se est cansada; quanto a mim, pretendo ir logo para a cama.
    Aislinn respondeu:
    -  Ah, meu senhor, leu a minha mente. Eu estava pensando no conforto de nossa cama, depois de um longo dia.
    Trocaram olhares cheios de promessas que estavam ansiosos para cumprir, mas de repente foram separados pelos homens de Wulfgar, que ergueram o chefe normando 
nos ombros e o foram passando de mo em mo. Aislinn, no meio de um acesso de riso, foi surpreendida por Kerwick, que, levantando-a do cho, tambm a passou adiante, 
primeiro para Milboume, depois para Sweyn e finalmente para Gowain.
    Quando os puseram no cho, no meio da sala, Aislinn refugiou-se nos braos de Wulfgar, sem parar de rir. Ele a abraou com fora, mas foram separados outra vez. 
Vedaram os olhos dele, Sweyn o fez dar vrias voltas e depois o mandou encontrar Aislinn, se pretendia ir para a cama com ela naquela noite.
    Com uma gargalhada, Wulfgar disse:
    -  Oh, mulher, onde est voc? Venha, deixe que eu a apanhe logo.
    Hlynn, Miderd e outras mulheres rodearam Aislinn, fazendo sinal para ela Ficar em silncio. Contendo o riso, ela viu o marido comear ; a procura, com os braos 
estendidos para a frente.
    Wulfgar ouviu o farfalhar de uma saia e apanhou Hlynn. A jovem riu alto, e ele, balanando a cabea, a largou. Empurraram Miderd para ele, e, assim que tocou 
no brao musculoso da mulher, Wulfgar percebeu que no era Aislinn. Passou por uma jovem que cheirava a feno e suor. Comeou a andar no meio das mulheres, tocando 
uma de leve, parando por algum tempo na frente de outra. Ento parou, sentindo o perfume suave, e virou o corpo bruscamente. Estendeu a mo e segurou um pulso delicado. 
Sua presa ficou em silncio, mas as outras riam e murmuravam. Wulfgar tocou no ombro da mulher e sentiu a aspereza da l, e no a maciez do veludo do vestido de 
Aislinn, mas sua mo desceu lentamente para o seio redondo, para divertimento de todos.
    -  Sua dama est olhando - avisou algum.
    Wulfgar no hesitou. Abraou a cintura fina e inclinou a cabea; para beijar os lbios macios que o esperavam. A mulher respondeu! avidamente ao beijo. Wulfgar 
colou o corpo no dela, dominado pelo desejo.
    -  Meu senhor, pegou a mulher errada! - gritou algum. Wulfgar tirou a venda dos olhos, sem interromper o beijo, e viu
    Aislinn, rindo sob seus lbios. Ento se separaram e ela tirou o manto de l dos ombros. Segurou a mo de Wulfgar quando Gowain lhe passou uma caneca de cerveja.
    -  Qual  o seu segredo, meu senhor? - perguntou o jovem cavaleiro, com um largo sorriso. - Mesmo sem ver, sabia que era ela antes de toc-la. Conte a verdade, 
por favor, para que possamos fazer o mesmo.
    Wulfgar sorriu.
    -  Vou dizer a verdade, cavaleiro. Cada mulher tem uma fragrncia prpria. Muitos perfumes so comprados nas feiras, mas sob qualquer um deles est o cheiro 
caracterstico de cada mulher. Sir Gowain deu uma gargalhada.
    -   um homem bem esperto, meu senhor.
    -  Concordo, mas vocs me deixaram desesperado. No queria de modo algum passar a noite aquecendo a palha de Huno.
    O jovem cavaleiro olhou para Aislinn com as sobrancelhas erguidas.
    -  Certamente, meu senhor, compreendo perfeitamente. Aislinn corou com o elogio e, libertando-se do grupo alegre,
    dirigiu-se para a escada. Parou no meio e virou a cabea para trs. Wulfgar, embora ouvindo o que o cavaleiro dizia, s tinha olhos para ela. Aislinn sorriu, 
e o olhar do normando a acompanhou at ela entrar no quarto.
    Miderd e Hlynn a esperavam. As duas a abraaram carinhosamente antes de a conduzirem para perto do fogo. Elas a ajudaram a se despir e a envolveram num manto 
de seda macia. Aislinn sentou na frente da lareira, olhando pensativa para as chamas, enquanto Miderd lhe penteava o cabelo. Hlynn arrumou o quarto, guardando a 
roupa na arca e estendendo as mantas de pele na cama.
    
    A noite estava escura e as janelas abertas para a brisa fria. Com mais votos de boa sorte, Miderd e Hlynn se retiraram. Tensa agora, na expectativa, Aislinn 
ouvia os risos e as vozes do salo, e teve vontade de danar pelo quarto. Riu, lembrando a surpresa de todos com a chegada do padre. Era prprio de Wulfgar guardar 
segredo at o fim. Seu corao encheu-se de orgulho, lembrando a generosidade dele para com Kerwick. Wulfgar era um homem que sabia conduzir homens, no podia haver 
melhor senhor.
    Absorta em pensamentos, sobressaltou-se quando ouviu a porta se abrir. Maida entrou apressadamente no quarto.
    -  Aquelas duas j foram-disse ela, com voz lamentosa. - A tagarelice simplria delas d para coalhar qualquer leite.
    -  Minha me, no fale assim de Hlynn e Miderd. So amigas, e me confortaram nos momentos difceis.
    Aislinn olhou para os andrajos que a me vestia e franziu a testa.
    -  Minha me, Wulfgar no vai gostar de sua roupa. Quer que todos pensem que ele a maltrata? No  verdade, pois ele tem sido bondoso para a senhora, apesar 
de suas provocaes.
    
    Com o rosto contrado, Maida disse, como se no tivesse ouvido uma palavra:
    -  Casada! Casada! O mais triste dos dias!-Levantou as mos. - A melhor parte da minha vingana era voc dar um bastardo ao bastardo - riu da idia.
    -  O que est dizendo? - perguntou Aislinn, surpresa. - Este  o dia mais feliz da minha vida. Devia estar satisfeita por eu estar casada.
    -  No! No! - exclamou Maida. - Voc roubou minha ltima vingana. Tudo que eu queria era ver o sofrimento do assassino de meu pobre Erland.
    -  Mas Wulfgar no o matou. Foi Ragnor quem empunhou a espada.
    -  Ora! - Maida abanou a mo no ar. - Todos so normandos e todos so iguais. No importa quem empunhou a espada. Todos eles so culpados.
    Maida continuou seu discurso ininteligvel, gritando e esbravejando. Torcia as mos, e em vo Aislinn tentou acalm-la. Finalmente, a filha exclamou:
    -  Mas Ragnor se foi, e quem est aqui  Wulfgar, um homem justo e meu marido!
    Uma expresso diferente apareceu nos olhos de Maida. Com um sorriso de desprezo, examinou cada canto do quarto. Depois, agachou na frente do fogo e ficou um 
longo tempo imvel e em silncio.
    -  Minha me? - chamou Aislinn, - A senhora est bem? Viu que os lbios de Maida se moviam e aproximou-se, conseguindo ouvir as ltimas palavras.
    -  Sim, este normando est ao meu alcance... na minha prpria cama.-Com um brilho estranho nos olhos, ela se voltou bruscamente, como que surpresa com a presena 
de Aislinn. Arregalou os olhos e depois os entrecerrou com uma risada rouca.
    Ficou de p, olhou para Aislinn como se no a reconhecesse, aconchegou os andrajos, olhou mais uma vez para o quarto e saiu apressadamente.
    Passos e vozes que gritavam gracejos pesados soaram no corredor, a porta foi escancarada, e Wulfgar atirado para dentro do quarto por aqueles que o haviam carregado 
cerimoniosamente at ali. Aislinn viu Sweyn e Kerwick impedindo que entrassem atrs dele. Wulfgar apressou-se em fechar a porta e, ofegante ainda, olhou para ela. 
A luz do fogo delineava o corpo envolto no manto de seda, despertando seu
    desejo, mas ele se conteve, incerto da recepo que teria, pois Aislinn ficou em silncio, sem o menor gesto de encorajamento. Naquele momento, Wulfgar no era 
mais o senhor e dono, mas um recm-casado inseguro. Apontou para a porta.
    -  Ao que parece, eles acham que devemos nos encontrar e passar a noite juntos.
    O silncio continuou. Wulfgar tirou a capa curta e o cinto. Aislinn estava de costas para o fogo, e ele no podia ver a ternura nos olhos dela. O normando sentou 
na beirada da cama, depois levantou para dependurar a tnica. Tentou ver o rosto dela, mas no conseguiu.
    -  Se est cansada, Aislinn - murmurou ele, com o desapontamento soando em cada palavra -, no vou incomod-la esta noite.
    Wulfgar comeou a tentar, sem sucesso, abrir a frente a camisa, pela primeira vez na vida sem saber como agir com uma mulher. Ser que o casamento diminua o 
prazer?, perguntou-se ele, desanimado.
    Aislinn finalmente levantou da cadeira, aproximou-se dele e, com um nico movimento, desatou o cordo que fechava a camisa, levantou-a e ps a mo no peito dele.
    -  Meu senhor Wulfgar-murmurou ela suavemente.-Representa muito bem o papel do noivo atrapalhado. Devo orient-lo no caminho que voc conhece to bem?
    Aislinn tirou a camisa, passando-a pelos ombros e pela cabea do marido, depois, com a mo na nuca dele, fez com que seus lbios se encontrassem. Colando o corpo 
ao do marido, acariciou suas costas. A mente de Wulfgar era como uma rocha despencando pela encosta da montanha e explodindo num redemoinho de emoes: confuso, 
surpresa e especialmente prazer. Wulfgar pensava que era impossvel Aislinn responder mais do que nas outras vezes, mas agora ela o excitava deliberadamente, com 
beijos ardentes em seu pescoo, na boca, no peito, enquanto o movimento de seus dedos o fazia prender a respirao. Tolamente ele pensava que era capaz de conhecer 
os pensamentos de uma mulher. Agora, Aislinn o ensinava que cada mulher  diferente e no deve ser menosprezada.
    Aislinn deixou cair dos ombros o manto de seda e abraou-o outra vez. Por um momento, Wulfgar ficou imvel. Os seios macios pareciam queimar seu peito e, esquecendo 
suas dvidas sobre o casamento, ele a ergueu do cho e levou-a para a cama. Tirou rapidamente a roupa, e pela primeira vez Aislinn o viu jogar cada pea para um 
lado, sem pensar em dobrar e guardar como fazia antes. Wulfgar deitou ao lado dela e Aislinn correspondeu avidamente ao seu contato, improvisando carcias ousadas. 
Completamente dominado pelo desejo, Wulfgar deitou sobre ela e, com lbios trmulos, acariciou o pescoo e depois mais para baixo, onde podia sentir as batidas de 
seu corao. Aislinn ergueu o corpo ao encontro do dele, num xtase completo, abriu os olhos e de repente sentiu um aperto na garganta.
    Um vulto escuro estava ao lado da cama, e Aislinn viu o brilho do metal acima das costas de Wulfgar. Gritou, tentando desesperadamente empurr-lo para o lado. 
Wulfgar voltou-se a meio, surpreso, e a lmina desceu, raspando seu ombro. Completamente dominado pela fria, com uma praga, Wulfgar estendeu o brao e segurou o 
pescoo do assaltante. Com um rugido trovejante, ele arrastou o intruso at a lareira. Aislinn gritou apavorada quando a luz do fogo iluminou o rosto congestionado 
de sua me. Saltando da cama, correu e segurou o brao do marido.
    -  No! No! No mate minha me, Wulfgar!
    Puxou o brao dele freneticamente, mas em vo. Os olhos de Maida estavam saltados, e o rosto comeava a escurecer. Com um soluo, Aislinn segurou o rosto de 
Wulfgar e o fez olhar para ela.
    -  Ela est louca, Wulfgar. Deixe-a ir.
    A fria dele amainou, e Wulfgar abriu os dedos. Maida caiu molemente no cho e comeou a se contorcer, lutando desesperada-mente para recobrar a respirao. 
Wulfgar apanhou a lmina no cho e a examinou. Depois de algum tempo, lembrou de onde a vira antes. Era a lmina com que Kerwick tentara atac-lo uma vez. Wulfgar 
olhou para Maida, julgando compreender o que tinha acontecido. Depois, olhou para Aislinn, que, adivinhando seus pensamentos, exclamou:
    -  No! Est enganado, Wulfgar! - disse com voz estridente- No tenho nada a ver com isso. Ela  minha me, mas juro que eu no sabia de nada.
    Segurou a mo dele e virou a lmina para o prprio peito.
    -  Se duvida de mim, Wulfgar, acabe com suas dvidas aqui e agora.  muito simples acabar com uma vida. - Puxou a mo dele, at a lmina encostar em seu seio. 
Com as lgrimas descendo pelo rosto, ergueu os olhos para ele e murmurou: - To simples.
    Maida finalmente respirou, levantou-se e saiu do quarto sem ser notada, pois os dois, olhos nos olhos, procuravam saber a verdade. Vendo a incerteza de Wulfgar, 
Aislinn puxou mais a mo com a
    lmina, mas ele resistiu. Aislinn inclinou-se para a frente e uma gota de seu sangue misturou-se com o dele na ponta da lmina.
    - Meu senhor - murmurou ela. - Hoje fiz meus votos perante Deus, e Deus  testemunha de que para mim esses votos so sagrados. Como o nosso sangue na ponta desta 
lmina, somos um s. Uma criana cresce dentro de mim, e peo ardentemente que seja sua, e seremos um com esse filho, pois vai precisar de um pai como voc.
    Seus lbios tremiam, e Wulfgar, olhando nos olhos dela, sentiu o peso daquelas palavras e cedeu. Com uma praga, jogou a arma violentamente contra a porta. Depois, 
tomou Aislinn nos braos e comeou a girar no meio do quarto, at ela pedir para parar. Outra vez impaciente, ele caminhou para a cama, mas Aislinn, tocando o ferimento 
em seu ombro, balanou a cabea. Terminado o curativo, ela inclinou-se para a frente, encostando os seios no peito dele, e o beijou avidamente. Wulfgar a abraou, 
puxando-a para a cama, mas, apoiando as duas mos no peito dele, Aislinn empurrou-o para os travesseiros e depois deitou sobre ele. O sangue correu como fogo nas 
veias do normando, e o ferimento no o incomodou naquele momento... nem mais tarde... nem mais tarde.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    

   Captulo Vinte e Um
    
    
    WULFGAR ACORDOU com a primeira luz do dia e ficou imvel para no acordar a mulher que dormia com a cabea em seu ombro. Com a mente clara e descansada,Wulfgar 
lembrou aquela noite, convencido de que jamais sentira um prazer to completo e perfeito. Estava surpreso ainda com a entrega absoluta de Aislinn aos prazeres do 
amor. Conhecia damas da corte que correspondiam s suas carcias como se estivessem fazendo um favor, esperando passivamente que ele as excitasse. Conhecia as mulheres 
de rua e seus mtodos para fingir prazer, s se entusiasmando quando viam a possibilidade de um pagamento generoso. Mas ali estava uma mulher que ia ao seu encontro 
- muito alm da metade do caminho, que igualava suas investidas e as ajudava com uma avidez igual  sua, que erguia sua paixo a uma altura incrvel, num xtase 
ardente e cintilante que se dobrava sobre si mesmo, deixando brasas quentes para novas experincias.
    Agora, Aislinn dormia, com uma perna sobre a dele, a respirao suave e regular acariciando seu peito. Era difcil acreditar que aquela jovem delicada e frgil 
fosse a mesma mulher ousada e cheia de paixo da noite anterior.
    Wulfgar lembrou de outro acontecimento daquela noite e franziu o cenho, pensativo. Maida era um problema, mas, se Aislinn dissera
    a verdade, podia deixar que ela o resolvesse. Tinha certeza de que, com sua fora de vontade, ela saberia o que fazer. E se Aislinn estava mentindo... Wulfgar 
resolveu ser mais cuidadoso no futuro-
    Aislinn fez um leve movimento e ele puxou a manta de pele, cobrindo o ombro dela, e sorriu outra vez. Pensou nas palavras pronunciadas na vspera e no efeito 
das mesmas. Com palavras simples, ele assumira a responsabilidade pelo bem-estar e segurana de Aislinn e ela, ao que parece, como esposa se comprometia obedecer 
e amar o marido. Wulfgar quase riu alto, e em sua inocncia no tinha nem idia do que significava ser marido daquela mulher.
    Com um suspiro, Aislinn aconchegou-se nele e abriu os olhos para ver, por cima do peito largo do marido, a terra gelada l fora. Depois, olhou para Wulfgar e 
o beijou ternamente na boca.
    -  Deixamos o fogo apagar-suspirou ela.
    -  Acha que devemos acender? - perguntou Wulfgar com um sorriso nos olhos.
    Rindo, feliz, Aislinn saltou da cama completamente nua-
    -  Eu estava falando do fogo na lareira, meu amor.
    Wulfgar levantou-se e a apanhou no meio do caminho. Sentou na cama e, beijando o pescoo dela, a abraou pela cintura.
    -  Ah, mulher, com que magia me envolveu. Mal posso pensar nos meus deveres quando estou perto de voc.
    -  Eu o agrado, meu senhor?
    -  Oh, oh - suspirou ele - O mero toque dos seus dedos me faz tremer.
    Rindo, ela mordeu o lbulo da orelha dele.
    -  Ento admito que o mesmo acontece comigo.
    Seus lbios se encontraram e s muito mais tarde desceram para o desjejum. Apenas Miderd e Hlynn estavam na sala. Tudo estava muito limpo, a palha no cho seca 
e misturada com ervas aromticas para disfarar o cheiro das comemoraes da vspera. Uma sopa saborosa feita com carne de porco e ovos fervia na panela sobre o 
fogo, e, quando sentaram, Miderd serviu a comida e Hlynn trouxe as jarras de leite fresco.
    Comearam a refeio em silncio. Todo o povoado parecia silencioso aquela hora, sem qualquer sinal da alegria da vspera, at Kerwick entrar na sala com passo 
comedido e o cabelo ainda molhado da gua do regato. Sentou  mesa com um sorriso hesitante para Aislinn, a palidez do rosto acentuando a vermelhido dos olhos. 
O sorriso desapareceu quando sentiu o cheiro da comida e olhou para as tigelas com o caldo grosso, pedaos de carne de porco e ovos. Apertou o estmago com as duas 
mos e, pedindo licena com voz abafada, saiu correndo na direo do regato.
    Aislinn sorriu e Miderd deu uma gargalhada.
    -  O pobre rapaz tomou quase um barril inteiro de cerveja - disse Miderd. - E, ao que parece, no se deu nada bem.
    Wulfgar sorriu e sacudiu a cabea, concordando.
    -  De agora em diante, vou ser mais cuidadoso com meus presentes para ele - murmurou. - Acho que Kerwick leva as coisas muito a srio.
    Uma porta bateu vrias vezes no segundo andar, e todos olharam para cima. Bolsgar estava no topo da escada, com uma das mos apoiada na parede e a outra penteando 
o cabelo. Ele pigarreou e, recobrando o equilbrio, suspendeu o cs da cala e comeou a descer bem devagar, olhando para os ps, que pareciam se desviar um pouco 
do lugar em que os colocava. Quando chegou mais perto, todos viram os olhos congestionados e a barba por fazer. Dele Aislinn tambm recebeu um sorriso meio amarelo. 
Bolsgar parecia muito contente, conseqncia talvez dos vapores da cerveja ou do vinho da noite anterior. Aproximou-se da mesa at sentir o cheiro da sopa reforada, 
fez um quarto de volta e deixou-se cair em sua cadeira, na frente do fogo.
    -  Acho que no vou comer agora - resmungou Bolsgar, cobrindo a boca com a mo e fechando os olhos. Estremeceu e recostou-se na cadeira na frente do fogo, com 
um suspiro.
    Miderd ofereceu-lhe uma caneca da cerveja, que Bolsgar aceitou, agradecendo. A voz sonora de Wulfgar o fez estremecer outra vez.
    -  Senhor, por acaso viu Sweyn esta manh? Preciso falar com ele sobre a construo do castelo.
    Bolsgar pigarreou e respondeu com voz fraca:
    -  No o vejo desde que dividimos aquele barril de cerveja.
    -  Ah - riu Miderd -, com certeza ele est gemendo de dor, com a cabea enterrada na palha de sua cama. - Apontou para Hlynn com a concha que tinha na mo. - 
Aquela pobre moa nunca mais vai querer ficar ao alcance das mos dele.
    Aislinn ficou surpresa. Ao que sabia, Sweyn sempre se comportara muito bem com as mulheres do povoado.
    -  Hlynn tem ainda as marcas do abrao - continuou Miderd,
    jovialmente.-Mas tenho certeza de que o rosto dele vai arder durante muitos dias.
    Hlynn corou embaraada e voltou ao seu trabalho.
    -  Sim - riu Wulfgar -, Sweyn perde um inverno de sua vida com cada copo que esvazia, e sente-se outra vez como um animal jovem, capaz de qualquer conquista.
    Sir Gowain apareceu na porta, protegendo os olhos do sol, suspirou aliviado quando entrou na sombra fresca da sala e conseguiu caminhar quase em linha reta para 
o seu lugar  mesa. Sentou o mais longe possvel da sopa, segurando a borda da mesa com as duas mos, como para evitar que ela casse. Inclinou a cabea para Aislinn, 
mas no ousou sorrir, mantendo os olhos afastados das tigelas de sopa.
    -  Peo que me desculpe, meu senhor - disse, com voz rouca. - Sir Milbourne no se sente bem e ainda no se levantou.
    Contendo o riso, Wulfgar franziu a testa.
    -  No faz mal, Sir Gowain-respondeu ele, levando um pedao de carne  boca. Sir Gowain desviou os olhos. - Hoje ser um dia de descanso, pois vejo que o meu 
povo no est disposto a fazer muita coisa. Se puder, tome um copo de cerveja e trate de sua sade. - Inclinou-se para a frente e disse, com fingida preocupao: 
- Voc parece um tanto despreparado para enfrentar o dia.
    Gowain segurou o copo oferecido por Hlynn e, erguendo-o, de uma s vez, esvaziou-o e saiu da sala.
    Bolsgar encolheu-se na cadeira quando seus ouvidos foram atacados pelo riso sonoro de Aislinn e Wulfgar. Ento a voz de Gwyneth, spera e estridente, soou no 
topo de escada.
    -  Muito bem, vejo que o sol est bastante alto para fazer levantarem meu senhor e minha senhora.
    Bolsgar se levantou a meio na cadeira e atirou o copo vazio para o outro lado da sala.
    -  Por Deus! - rugiu ele.-Deve ser meio-dia. Minha bela filha aparece para o desjejum.
    Gwyneth desceu a escada e respondeu com voz chorosa:
    -  No consegui dormir at de madrugada. Ouvi rudos estranhos nos quartos a noite toda - franziu a testa, olhando para Aislinn. - Como de um gato preso num 
espinheiro - ergueu as sobrancelhas, ironicamente. - Meu senhor Wulfgar, no ouviu nada?
    Aislinn corou, mas Wulfgar, imperturbvel, deu uma gargalhada sonora.
    
    -  No, minha irm, mas, fosse o que fosse, garanto que no sei o que podia ser.
    Gwyneth fungou com desprezo e serviu-se da sopa.
    -  O que pode saber sobre as pessoas bem-nascidas? - zombou ela, levando um pedao de carne  boca.
    Miderd e Hlynn de repente pareciam ocupadas com tarefas de grande urgncia, por isso Gwyneth levantou-se para se servir de um copo de leite e depois parou na 
frente do pai. Disse com voz spera:
    -  Vejo que a pretensa juventude partiu to depressa quanto chegou.
    -  Minhas rugas so resultado de uma vida bem vivida. E as suas minha filha?
    Gwyneth voltou-se bruscamente e olhou furiosa para Miderd, que tossiu para disfarar o riso.
    -  As poucas que tenho - disse ela - so marcas das palavras cruis de meu pai e de meu irmo bastardo.
    Wulfgar levantou da cadeira e, segurando a mo de Aislinn, a fez levantar tambm.
    -  Antes que este dia seja estragado irremediavelmente, quer dar um passeio a cavalo comigo? - perguntou ele.
    Satisfeita com a oportunidade de se livrar da lngua de Gwyneth, Aislinn murmurou:
    -  Com todo prazer, meu senhor.
    Saram da sala enquanto Gwyneth descarregava seu veneno no pobre Bolsgar. Atravessando o ptio, Aislinn riu alto e, segurando a mo de Wulfgar, danou em volta 
dele, descontrada e feliz. Balanando a cabea, Wulfgar segurou-a e encostou-a na parede do estbulo.
    -  Voc  uma mulher muito tentadora - murmurou, com os lbios nos cabelos dela.
    Aislinn passou os braos pelo pescoo do marido e Wulfgar a beijou. Como na noite anterior, ficou encantado com a espontaneidade dela e o ardor de sua resposta, 
maravilhado com aquela mulher vibrante que excitava cada nervo de seu corpo.
    Nesse momento Frei Dunley saiu do estbulo, quase deitado na sela de seu burro, agarrado na crina do animal, e passou por eles, a caminho de Cregan, com o capuz 
puxado para a frente para esconder a palidez do rosto.
    Aislinn riu, e encostando outra vez em Wulfgar, abraou-o pela cintura e mordeu-lhe de leve o pescoo. Com um movimento rpido.
    Wulfgar a levantou do cho, mas quase a deixou cair, quando Aislinn o empurrou vigorosamente.
    -  Normando selvagem, vai me violentar aqui?-perguntou ela, com zanga fingida. - Se est disposto a brincar o dia todo, algum precisa cont-lo com mo forte.
    Sacudiu o punho fechado na frente do rosto dele e, quando o marido a ps no cho, ela o beijou, murmurando com os lbios nos dele:
    -  Apanhe os cavalos, meu senhor. A Inglaterra espera.
    Huno queria mostrar seus msculos e sua velocidade para a gua cinzenta, mas Wulfgar, em considerao ao estado de Aislinn, o conteve com mo firme. O garanho 
deu um ou dois saltos e tentou empinar, mas, a uma ordem severa do dono, desistiu e, bufando contrariado, partiu num trote macio.
    Aislinn riu, e, naquele dia ensolarado, seu corao voava com as andorinhas, acima das rvores. Passaram por um trecho da estrada calada com pedras antigas, 
onde as patas dos cavalos soavam com um ritmo metlico, e Wulfgar comeou a cantar em francs. Era uma cano maliciosa, e o normando a provocava com avidez exagerada, 
revirando os olhos para o alto. Aislinn riu e depois, com voz baixa e spera, comeou a cantar uma ousada cano saxnica, at Wulfgar pedir para ela parar.
    -  Essas palavras no foram feitas para os lbios de uma dama
    - censurou ele, e depois riu. - Nem para prostitutas saxs.
    -  Por favor, diga-me, meu senhor. - Aislinn sorriu docemente.
    - Ser que a idade o transformou num velho rabugento?
    Ela puxou a rdea rapidamente para evitar o brao de Wulfgar e depois fez o animal apressar o passo. Sacudindo a mo no ar, Aislinn levantou o nariz e disse 
com voz de falsete:
    -  Co normando, fique longe de mim. Sou uma dama da corte do meu senhor, e no vou suportar esses atrevimentos.
    aislinn apressou mais ainda sua montaria, rugindo  investida de Huno e, vendo o olhar decidido de Wulfgar, fez a gua saltar o anteparo baixo da estrada, saindo 
a galope pelo campo aberto. Wulfgar a seguiu.
    -  Aislinn, pare! - gritou ele. Fez Huno acelerar o passo e gritou outra vez: - Mulher louca, vai se matar!
    Finalmente Wulfgar conseguiu segurar as rdeas da gua e a fez parar, trmula ainda da excitao do galope. Apeou e, zangado, estendeu os braos para tirar Aislinn 
da sela.
    
    
    
    
    Rindo, Aislinn passou os braos pelo pescoo do marido e deslizou para o cho, com o corpo muito encostado ao dele. Wulfgar achou que era mais interessante beij-la 
do que falar,
    Depois de algum tempo, descansaram no calor do sol, no topo de uma colina. Aislinn, meio deitada, apanhava flores da primavera e tecia com elas uma grinalda. 
O cavaleiro normando, em paz, a cabea no colo da mulher, admirou a beleza da companheira e preguiosamente passou o dedo em seu seio. Aislinn inclinou-se para a 
frente e o beijou.
    -  Meu senhor, parece que jamais nos saciamos.
    -  Ah, mulher, como posso ficar saciado se voc est sempre me tentando?
    Aislinn suspirou:
    -  Tem razo. Voc  importunado demais pelas mulheres. Preciso falar com Haylan,.
    Wulfgar levantou de um salto e a fez levantar tambm, tomando-a nos braos.
    -  Que histria  essa de Haylan? - perguntou, sorrindo. - Estou falando de voc, no de outra mulher.
    Afastando-se dele, Aislinn ps a grinalda na cabea e fez uma mesura.
    -  Est dizendo que no foi tentado por Haylan quando ela danou na sua frente, com o seio quase nu? Devia estar cego para no ver.
    Wulfgar caminhou lentamente para ela, e Aislinn recuou, rindo. Ento, ela estendeu um brao.
    -  Espere, meu senhor. No dei nenhum motivo para me bater. Com um movimento rpido, ele a alcanou, tomou-a nos braos,
    e os dois comearam a rodar, rindo, felizes.
    -  Oh, Wulfgar, Wulfgar - a voz clara e musical cantava de felicidade. - Finalmente, voc  meu.
    Com uma expresso de dvida, ele sorriu.
    -  Tenho certeza de que voc planejou este casamento desde a primeira vez em que nos encontramos.
    Com o rosto no pescoo dele, Aislinn respondeu:
    -  Oh, no, Wulfgar, foi nosso primeiro beijo que me fez pensar em casamento.
    Passaram o dia todo juntos, despreocupados e felizes. O sol estava quase no horizonte e j perdera muito de seu calor quando entraram
    com os cavalos no estbulo. Enquanto Wulfgar cuidava dos animais, Aislinn o observava com olhos brilhantes. Depois, caminharam em silncio, de mos dadas, como 
dois jovens namorados. Quando chegaram na porta, com uma risada, Wulfgar tirou a grinalda da cabea dela, beijou a coroa de flores e atirou-a para dentro da sala. 
Entraram abraados e foram recebidos entusiasticamente pelos homens de Wulfgar e carinhosamente pelos amigos.
    Sweyn, sentado  cabeceira da mesa, parecia prestes a desaparecer debaixo dela. Aislinn olhou para ele e depois para Hlynn. O viking enfiou o rosto numa caneca 
de cerveja e aparentemente engasgou com a bebida. Aislinn murmurou alguma coisa para Wulfgar e ele deu uma gargalhada. Sweyn curvou os ombros e ficou rubro.
    -  Acho que voc tem razo, Aislinn - sorriu Wulfgar. - Ele deve procurar uma jovem gentil para fazer-lhe companhia na velhice. - Rindo ainda das prprias palavras, 
Wulfgar conduziu Aislinn para a cadeira e encontrou o olhar frio de Gwyneth.
    -  Voc trata esses saxes, Wulfgar, como se fosse um deles - disse ela, apontando para Kerwick, que agora fazia as refeies com Gowain e os outros cavaleiros. 
- Vai se arrepender por confiar nele. Tome nota de minhas palavras.
    Wulfgar sorriu, impassvel.
    -  Eu no confio nele, Gwyneth. Apenas ele sabe o que o espera se no agir direito comigo.
    Gwyneth riu com desprezo.
    -  S falta voc dar a Sanhurst algum posto de importncia.
    -  Por que no? - Wulfgar deu de ombros. - Ele sabe muito bem quais so os seus deveres.
    Gwyneth olhou para ele com desdm e continuou a comer em silncio. Wulfgar voltou-se ento para Aislinn, esquecendo a irm.
    Haylan ps os pratos na frente deles, sempre de cabea baixa para esconder os olhos vermelhos e a expresso sombria. A refeio transcorreu alegremente. Depois 
de mais algumas canecas de cerveja, Sweyn entrou tambm na conversa e ergueu a caneca para Wulfgar.
    -  Meu senhor, se resolvi escolher uma jovem gentil como Hlynn, e no conheo nenhuma mais mansa do que ela, foi porque o senhor me ensinou a tolice de desejar 
uma mulher mais determinada. - Todos riram, e o viking, levantando outra vez a caneca, saudou o normando com um largo sorriso. - Bom casamento, Wulfgar. Vida longa.

    Wulfgar sorriu satisfeito e esvaziou seu copo de vinho. A noite continuou alegre mas tranqila, e Milbourne desafiou Bolsgar para uma partida de xadrez. Os dois 
levantaram, acompanhados pelos respectivos torcedores, e Wulfgar e Aislinn levantaram tambm. Inclinando-se para o marido, ela disse:
    -  Se me d licena, vou ver como est minha me.
    -   claro, Aislinn - murmurou ele, e acrescentou: - Tenha cuidado.
    Ficando na ponta dos ps, ela o beijou no rosto. Os olhos de Wulfgar a seguiram quando ela apanhou a capa e saiu da casa e ento ele juntou-se aos homens. Mordendo 
o lbio, Haylan o viu atravessar a sala. Kerwick passou por ela e sorriu zombeteiro.
    -  Senhora de Darkenwald, hein? Parece que voc julgou mal suas habilidades.
    Com um olhar furioso e um palavro, Haylan comeou a ajudar Miderd a tirar a mesa.
    Aislinn seguiu, no escuro, o caminho que levava  cabana de Maida como tantas vezes Fizera, mas nessa noite com um objetivo diferente. Abriu a porta sem bater. 
Maida estava sentada na cama, olhando para o fogo fraco da lareira, mas, quando viu a filha, levantou-se de um salto e disse:
    -  Aislinn! Por que voc me traiu? Era a nossa nica chance de vingana...
    -  Pare com essa conversa--disse Aislinn, zangada-e escute o que vou dizer. Tenho certeza de que mesmo a sua mente confusa vai entender, embora eu acredite que 
grande parte de sua loucura seja fingida.
    Maida olhou em volta como um animai acuado, pronta para negar a acusao. Aislinn tirou o capuz e disse, furiosa:
    - Escute com ateno! - Seu tom era autoritrio e firme. - Fique calada e oua! - Com voz mais suave, pronunciando distintamente cada palavra, continuou: - Se 
conseguisse matar um cavaleiro normando, especialmente Wulfgar, que  amigo de Guilherme, para vingar a morte de meu pai, sofreramos muito mais nas mos dos normandos. 
O que acha que a justia normanda reserva para quem mata um de seus cavaleiros quando ele est dormindo?
    "Se a lmina tivesse acertado o alvo, ia me ver despida e pregada na porta de Darkenwald. Quanto  senhora, danaria na ponta de uma
    corda onde todo o povo de Londres pudesse ver. Tenho certeza de que no pensou nas conseqncias, mas s na sua vingana.
    Maida balanou a cabea, torceu as mos, e ia comear a falar. Aislinn no entanto segurou-a pelos ombros e sacudiu-a at ela arregalar os olhos, transida de 
medo.
    -  Escute bem, pois vou repetir at que minhas palavras alcancem o pouco de sanidade que ainda lhe resta. - Com lgrimas nos olhos, Aislinn suplicou, em desespero:-Quero 
que pare de perturbar os normandos. Guilherme  o rei e senhor de toda a Inglaterra. Por qualquer coisa que faa, de hoje em diante, contra um normando, cada saxo 
 obrigado a persegui-la e entreg-la  justia.
    Aislinn soltou-a, e Maida caiu sentada na cama, olhando furiosa para a filha. Aproximando o rosto do dela, Aislinn disse ento:
    -  Se no se importa com o que eu disse, ento preste ateno. Wulfgar  meu marido, fomos unidos por um homem de Deus. Se fizer algum mal a ele, receber o 
mesmo de mim. Se o matar, ter matado o homem que eu escolhi, e mandarei aoitar minha me e enforc-la no mais alto muro do castelo. Cobrirei minha cabea com cinzas 
e para o resto da vida vestirei s andrajos, para que todos vejam o quanto estou sofrendo. Eu o amo.
    Aislinn arregalou os olhos, surpresa com as prprias palavras, e as repetiu com ternura.
    -  Sim! Eu o amo. Sei que, de certo modo, ele me ama. No completamente ainda, mas esse dia chegar. - Inclinou-se outra vez para a me e disse com voz spera: 
- A senhora tem um neto crescendo em meu ventre. No vou permitir que o faa rfo de pai. Quando a razo voltar  sua mente, eu a receberei de braos abertos, mas 
at esse dia no ameace a segurana de Wulfgar ou eu a mando exilar para os confins da terra. Ouviu bem minhas palavras e sabe que estou dizendo a verdade?
    Maida abaixou a cabea e depois balanou-a afirmativamente.
    -  Muito bem! - Aislinn se acalmou.
    Teve vontade de consolar a me, mas sabia que era importante manter a atitude severa para que suas palavras penetrassem a mente dela.
    -  Eu continuarei a cuidar de seu conforto. Agora, boa noite. Com um suspiro profundo, Aislinn saiu da cabana, imaginando
    como a mente torturada de Maida ia interpretar suas palavras. Entrou na sala e ficou ao lado de Wulfgar, que observava o jogo de xadrez, na frente da lareira. 
Ele a recebeu com um sorriso e, passando o brao por sua cintura, voltou a ateno para o jogo.
    A primavera chegou com uma exploso de cores e de flores, das quais a mais bela era Aislinn. O desabrochar glorioso de seu esprito surpreendeu at Wulfgar. 
Ela se deleitava com a nova posio de esposa e senhora do solar e no negligenciava nenhuma das responsabilidades dessa situao, nem hesitava em exercer sua autoridade 
quando era preciso, sobretudo quando Gwyneth acusava algum injustamente. Sua determinao e fora faziam com que at os homens do povoado procurassem seus conselhos. 
Bolsgar admirava seu bom senso e, quando comentou a respeito com Kerwick, o jovem apenas fez um gesto afirmativo e sorriu, sabendo muito bem do que ele estava falando. 
Continuamente Aislinn intercedia por seu povo junto ao cavaleiro normando que muitos ainda temiam. Porm, quando reconhecia a justia de uma punio, deixava que 
fosse aplicada. Cuidava das doenas e ferimentos do povo de Darkenwald e muitas vezes ia a Cregan com Wulfgar quando algum precisava de seus cuidados. Vendo-a ao 
lado do marido e notando a confiana que depositava nele e o carinho com que o tratava, todos comearam a perder o medo de Wulfgar. No tremiam mais quando ele aparecia, 
e os mais corajosos, que ousavam conversar com ele, ficavam surpresos com a compreenso que ele demonstrava em relao a seus problemas e o quanto se interessava 
por seu bem-estar. No o viam mais como o inimigo conquistador, mas como um senhor compreensivo e sincero.
    Wulfgar foi o primeiro a reconhecer as vantagens de ter casado com Aislinn, e no s no que se referia  reao do povo. Era espantosa a diferena provocada 
pelas poucas palavras pronunciadas pelo padre. Agora, ao menor contato de suas mos, ela se entregava a ele calorosa e amorosamente, sem reservas. Wulfgar ficava 
cada vez menos tempo na sala, depois do jantar, preferindo subir mais cedo para o quarto. Gostava dos momentos tranqilos passados ao lado dela, tanto quanto dos 
de paixo. Gostava de olhar para ela. Era reconfortante v-la sentada, costurando alguma coisa para ele ou para o beb.
    Estavam quase no fim de maro, o tempo de arar, plantar e tosquiar; tempo para construir. Kerwick trabalhava com afinco na nova profisso, registrando nos livros, 
como Wulfgar ordenara, o nascimento de cada cabrito, cada cordeiro, cada criana, bem como a posio e afazeres de cada alma que habitava a cidade e o tempo que
    cada homem dedicava  construo do castelo, anotando quanto recebia e o desconto em seus impostos.
    Wulfgar ordenou que cada homem devia trabalhar dois dias na construo, e eles eram chamados do campo para ajudar os pedreiros. Cavaram um fosso profundo na 
base da colina sobre a qual iam construir uma ponte levadia, guardada por uma torre de pedra. O topo da colina foi aplainado, e construram um muro circular de 
pedra. No centro, comeava a se erguer a torre alta da fortaleza.
    Nessa poca, foram informados de que Guilherme ia voltar  Normandia para os festejos da Pscoa. Wulfgar sabia que o Prncipe Edgar e vrios nobres ingleses 
viajariam com ele como prisioneiros de guerra, mas no disse nada a Aislinn, sabendo que isso podia aborrec-la. Na sua viagem, Guilherme devia passar perto de Darkenwald 
e provavelmente ia verificar a construo do castelo. Comeou ento uma grande atividade, todos preparando Darkenwald para a visita do Rei. Quase uma semana depois, 
o vigia anunciou a aproximao do estandarte do Rei, e Wulfgar saiu a cavalo para encontr-lo.
    Uns vinte homens armados acompanhavam Guilherme, e, para surpresa de Wulfgar, Ragnor estava ao lado dele. Embora a presena do cavaleiro o desagradasse, Wulfgar 
consolou-se com a idia de que Ragnor ia com Guilherme para a Normandia. Guilherme o cumprimentou amistosamente e, no caminho, Wulfgar mostrou suas terras e explicou 
seus planos para defend-la. O Rei ouvia atento e com aprovao. Os camponeses interrompiam o trabalho para ver passar o Rei e sua comitiva. Finalmente chegaram 
a Darkenwald, e Guilherme deu ordem aos seus homens para apear e descansar, pois pretendia se demorar um pouco no solar.
    Quando Guilherme e Wulfgar entraram, Gwyneth e Aislinn saudaram o Rei com graciosas mesuras, e Bolsgar, Sweyn e todos os presentes prestaram a homenagem devida 
ao Soberano. Guilherme olhou atentamente para Aislinn e, vendo que ela estava grvida, ergueu uma sobrancelha interrogativamente para Wulfgar, esperando em silncio 
uma resposta.
    -  No ser um bastardo, Sire. Ela agora  minha mulher. Guilherme riu e balanou a cabea afirmativamente.
    -  Isso  bom. J existem muitos de ns no mundo.
    Com um olhar frio, Gwyneth viu Guilherme cumprimentar Aislinn com familiaridade, e os dois riram quando ele disse que ela crescera desde seu ltimo encontro. 
Gwyneth ficou verde de inveja, mas conteve a lngua ferina. Quando o rei e Wulfgar saram para ver a construo do castelo, ela subiu para seu quarto furiosa, sem 
saber que Ragnor estava na frente do solar.
    Sem se descuidar dos seus deveres de hospitalidade, Aislinn pediu ajuda a Ham, Miderd e Aislinn para servir aos homens da comitiva do rei a cerveja resfriada 
no fundo do poo. O vento quente do sul aquecia o ar e Aislinn achou que no precisava se agasalhar com o manto. Os homens aceitaram agradecidos a cerveja e comentaram, 
em francs, sobre a beleza da bela sax. Aislinn aceitou o elogio em silncio, sem demonstrar que agora falava fluentemente a lngua deles. Parou na frente de alguns 
homens ricamente vestidos. No foi recebida com elogios, mas com olhares de desprezo. Intrigada, Aislinn ia se afastar quando um deles se levantou e falou em ingls, 
sem nenhum sotaque.
    -  Sabe quem somos? - perguntou ele.
    -  No - disse Aislinn dando de ombros. - Como posso saber se nunca os vi antes?
    -  Somos ingleses, prisioneiros do rei. Vo nos levar para a Normandia.
    Com um "oh" silencioso, Aislinn olhou para os outros homens.
    -  Sinto muito - murmurou ela.
    -  Sente muito-disse o mais velho, olhando com desdm para a barriga dela. - Ao que parece, no perdeu tempo em dormir com o inimigo.
    Aislinn empertigou o corpo com altivez.
    -  Est me julgando sem conhecer as circunstncias. Mas no  importante para mim. No pretendo me justificar. Meu marido  normando e sou leal a ele, mas meu 
pai era saxo e morreu sob a espada de um normando. Se aceitei Guilherme como meu Rei foi porque no vejo razo para uma luta sem esperana, que s pode significar 
morte e derrota para o povo ingls. Talvez por ser mulher, no vejo futuro em prosseguir com os esforos para levar o ingls ao trono. Acho que devemos dar um tempo 
a Guilherme. Talvez faa algo de bom para a Inglaterra. No se pode fazer nada mais, contando s com homens mortos nos campos de batalha. Ser que precisam ver todo 
o nosso povo morto para compreender a verdade? Eu diria que Guilherme faz bem em mant-los sob seu poder para garantir a paz na Inglaterra.
    Sem dizer mais nada, Aislinn atravessou o gramado, passou pelo tmulo do pai e dirigiu-se para um cavaleiro normando que estava sentado  sombra de uma rvore, 
de costas para ela, olhando para a floresta. S quando chegou perto ela o reconheceu e recuou, surpresa. Ragnor voltou-se, ouvindo a exclamao abafada, e olhou 
para ela  com um largo sorriso,
    -  Ah, minha avezinha, senti sua falta - murmurou, levantando-se e fazendo uma profunda curvatura. Ergueu os olhos e, com um sorriso, disse: - Voc no me contou, 
Aislinn.
    Aislinn ergueu a cabea e olhou para ele friamente.
    -  No achei que fosse preciso - respondeu, com altivez. - O filho  de Wulfgar.
    Ragnor encostou o ombro na rvore e seus olhos escuros brilharam.
    -   mesmo?
    Aislinn quase podia ver Ragnor contando mentalmente os meses, e disse furiosa:
    -  No carrego seu filho, Ragnor. Ele riu, ignorando a negao.
    -  Seria uma grande recompensa se fosse meu. Sim, eu no podia ter calculado melhor a ocasio. Provavelmente o bastardo vai reconhecer como sua a minha cria, 
mas nunca saber quem  o pai. - Ficou srio e olhou nos olhos dela. - Ele no vai casar com voc, Aislinn. Wulfgar nunca Ficou muito tempo com uma mulher. Talvez 
j tenha tido algumas aventuras. Estou disposto a tirar voc daqui! Venha comigo para a Normandia, Aislinn. No vai se arrepender.
    -  Acho que ia me arrepender muito - respondeu ela. - Tenho tudo que eu quero aqui.
    -  Posso lhe dar mais. Muito, muito mais. Venha comigo. Vachel partilha a minha tenda, mas encontrar outro lugar, de boa vontade. S tenho de pedir. Diga que 
vem comigo. - Encorajado pelo silncio dela, Ragnor se animou. - Precisamos escond-la do rei, mas sei como disfarar sua aparncia e ele nunca vai perceber. Vai 
pensar que encontrei um garoto para ser meu lacaio.
    Aislinn riu com desprezo e continuou o jogo por mais um momento.
    -  Wulfgar iria atrs de voc.
    Ragnor segurou o rosto dela com as duas mos, passando os dedos pelos cabelos cor de cobre.
    -  No, minha querida. Ele vai procurar outra. Por que iria nos perseguir quando sabe que voc carrega um bastardo?
    Inclinou-se para beij-la, mas Aislinn murmurou suavemente:
    -  Porque sou sua esposa.
    Ragnor recuou surpreso, ouvindo o riso claro de Aislinn,
    -  Sua cadela - disse ele com os dentes cerrados.
    -  Voc no me ama, Ragnor? - zombou ela. - Pobre donzela, passada de amada para inimiga. - Parou de rir e disse, com desprezo: - Voc assassinou meu pai e roubou 
a sanidade de minha me! Acha que algum dia eu o perdoarei? Que Deus me ajude se fizer isso! Quero v-lo no inferno!
    Ragnor disse, furioso:
    -  Voc ser minha, sua cadela, para me servir quando eu quiser. Com Wulfgar ou sem ele, voc ser minha. O casamento no significa coisa alguma para mim. vida 
de Wulfgar menos ainda. Pode esperar, minha querida.
    Apanhando o elmo, Ragnor caminhou para o solar, abriu a porta e entrou com passos largos e decididos. Tremendo, Aislinn encostou no tronco da rvore e chorou, 
com o temor que a assaltava muitas vezes de que seu filho tivesse a pele morena e o cabelo negro de Ragnor.
    A sala estava vazia, e Ragnor subiu a escada sem que ningum o impedisse. Sem bater, abriu a porta do pequeno quarto de Gwyneth e, depois de entrar, fechou-a 
com violncia. Sentada na cama, ela ergueu para ele os olhos vermelhos e surpresos:
    -  Ragnor!
    Antes que Gwyneth tivesse tempo de correr para ele, Ragnor aproximou-se da cama e tirou o peitoral, jogando-o para o lado. Quase sem poder respirar com a violncia 
com que ele se lanou sobre ela, Gwyneth mesmo assim o abraou com fora, encantada com tanto ardor. Ragnor podia machuc-la, Gwyneth sentia prazer na dor, feliz, 
pensando que ele a amava a ponto de abandonar toda a cautela, enfrentando o perigo de serem descobertos. O perigo aumentava o calor daquela paixo violenta, e Gwyneth 
murmurava seu amor no ouvido dele. Ragnor possuiu-a sem qualquer sentimento de ternura, apenas com desejo e raiva combinados, sem a menor compaixo por sua presa. 
Mas no podia deixar de comparar o corpo magro e anguloso com o de Aislinn, e, pensando nela, se satisfez.
    Saciado, Ragnor podia outra vez fingir que gostava de Gwyneth e se preocupava com ela. Deitada nos braos dele, Gwyneth acariciava o peito musculoso, e Ragnor 
inclinou a cabea e beijou-a suavemente nos lbios.
    -  Leve-me com voc para a Normandia, Ragnor - murmurou Gwyneth com os lbios nos dele. - Por favor, amor, no me deixe aqui.
    -  No posso - disse ele. - Estou viajando com o Rei e no tenho uma tenda s para mim. Mas no se preocupe. Temos tempo de sobra, e vou voltar para voc numa 
situao muito melhor. Espere por mim e no d ouvidos s mentiras que ouvir a meu respeito. Acredite somente no que eu lhe disser.
    Beijaram-se outra vez, demorada e apaixonadamente, mas, saciado seu desejo, Ragnor s queria ir embora, e, inventando uma desculpa, levantou-se da cama e comeou 
a se vestir. Saiu do quarto com mais cuidado do que tinha entrado, e, no vendo ningum, desceu para o salo.
    Wulfgar fez Huno parar atrs do possante cavalo do Rei e desmontou, olhando para os homens que descansavam  sombra das rvores. Viu Ragnor debaixo de um carvalho 
e mais calmo procurou Aislinn. Viu-a enchendo o copo de um arqueiro. Ela se aproximou dos dois homens, e Ragnor, com os olhos entrecerrados, fingindo que dormia, 
os observava atentamente. Vachel fora com eles ver o castelo e, desmontando, caminhou para o primo, mas Ragnor no lhe deu ateno, notando o modo casual com que 
Wulfgar abraava a mulher.
    -  Ao que parece, a pomba domou o lobo-murmurou Ragnor. - Wulfgar casou com ela.
    Vachel sentou-se ao lado do primo.
    -  Ele pode ter casado com ela, mas continua sendo um normando. Est construindo aquele castelo como se esperasse abrigar toda a Inglaterra dentro dele.
    Ragnor disse com desprezo:
    -  O bastardo pensa que a ter para sempre. Mas outros tempos esto para chegar.
    -  No cometa um erro de julgamento, como no torneio-avisou Vachel. - Ele  inteligente e tem um apoio muito forte.
    Ragnor sorriu.
    -  Tomarei cuidado.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Vinte e Dois
    
    O VERO CHEGOU E a criana crescia no ventre de Aislinn, como crescia o castelo na colina. O povo observava ambos, o calor que parecia emanar dela, enchendo 
o ar de energia e de vida, e o castelo, que transmitia uma sensao de segurana, cumprindo a promessa de Wulfgar de proteger a todos. Pela primeira vez, camponeses 
e servos experimentavam uma prosperidade nunca imaginada, e no demorou para que bandos de ladres e assaltantes descobrissem a riqueza daquelas terras. Wulfgar 
organizou grupos para patrulhar as estradas e prevenir os estrangeiros, mas mesmo assim vezes sem conta famlias inteiras procuravam refugio no solar por terem suas 
casas saqueadas e destrudas.
    Foi por acaso que Wulfgar descobriu um mtodo mais rpido de alarme. Depois da refeio do meio-dia, Aislinn subiu para o quarto, a fim de descansar um pouco 
do calor mido de um dos ltimos dias de junho. Tirou a tnica e ficou s com a combinao de linho leve e fresco. Lavou o rosto e, apanhando o espelho de prata 
comprado para ela por Beaufonte, em Londres, comeou a pentear o cabelo, mas, ouvindo a voz de Wulfgar no ptio, foi at a janela e debruou-se.
    Os trs cavaleiros e Sweyn, que o acompanhavam, vestiam suas cotas de malha, pois queriam estar preparados quando soasse o alarme. Tinham voltado de Cregan um 
pouco depois do meio-dia e agora
    descansavam  sombra de uma rvore, antes de sarem outra vez para patrulhar os campos. Aislinn chamou Wulfgar vrias vezes, mas as vozes dos homens abafavam 
a sua. Finalmente, frustrada, ela se afastou da janela, mas a luz do sol iluminou a superfcie do espelho e refletiu nos homens l embaixo. Wulfgar procurou imediatamente 
a fonte da luz e, protegendo os olhos com a mo, viu Aislinn na janela. Aislinn abaixou o espelho, riu e acenou, satisfeita por ter conseguido chamar-lhe a ateno. 
Wulfgar acenou tambm e ia voltar ao descanso, mas endireitou o corpo bruscamente e ficou de p. Aislinn o viu correr para a casa e logo seus passos soaram no corredor. 
Wulfgar entrou no quarto e tirou o espelho das mos dela. Foi at a janela e, erguendo o espelho para a luz do sol, logo conseguiu chamar a ateno dos cavaleiros. 
Riu, examinando com curiosidade o objeto de prata; depois, aproximando-se, beijou Aislinn com entusiasmo. Rindo da surpresa dela, disse:
    - Madame, acho que salvou o nosso dia. Nada mais de patrulhas que cansam os homens e os cavalos. - Ergueu o espelho como se fosse um tesouro. - S precisamos 
de alguns homens no alto das colinas com espelhos iguais a este e pegaremos todos os ladres. - Riu e beijou-a outra vez, antes de sair do quarto, deixando-a intrigada 
e feliz.
    Mais ou menos uma semana depois, a um grito de aviso do alto da torre do castelo, os cavaleiros saram prontos para o combate, e todos os homens da cidade empunharam 
suas armas. Um sinal com o espelho do alto de uma das colinas avisava a aproximao de um bando de assaltantes. Wulfgar saiu na frente do pequeno exrcito, muitos 
cavalos levando dois ou trs homens. Seguiram para o sul, na direo de Cregan, que ficava a uma hora de Darkenwald com o cavalo a passo lento ou a meia-hora a galope. 
Armaram a cilada numa curva fechada, de onde o ataque de Wulfgar, encosta abaixo, teria maior impacto. Os homens se esconderam entre as moitas para atacar os assaltantes 
com pedras e flechas, e o grupo de arqueiros e de lanceiros bem treinados se encarregou de fechar a retaguarda dos malfeitores. Wulfgar, Sweyn e os cavaleiros esperaram 
em silncio, afastados da curva. Logo ouviram os gritos e as risadas do grupo, que nem desconfiava que estava sendo observado e esperado. Os chefes apareceram, falando 
em voz alta e vestidos com os despojos do ltimo ataque. Pararam sobressaltados quando viram quatro cavaleiros e um viking na sua frente. As risadas gelaram nas 
gargantas, e os que vinham atrs se aproximaram para ver o que estava acontecendo. Wulfgar abaixou a lana e inclinou-se para a frente na sela. O cho tremeu sob 
o tropel dos cavalos, os ladres gritaram assustados, tentaram fugir, e a estrada se transformou numa louca confuso de corpos.
    Um dos assaltantes, mais corajoso do que o resto, enfiou o cabo da lana no cho e segurou a ponta para esperar o ataque, mas o machado enorme de Sweyn sibilou 
no ar e decepou o brao do homem, que gritou, segurou o que sobrara do brao com a outra mo e morreu quando a lana curta do viking entrou-lhe no peito. A lana 
de Wulfgar espetou outro no cho. Ento, a espada longa foi desembainhada e por onde passavam as patas velozes de Huno iam deixando um rastro de sangue. Tudo terminou 
rapidamente, Alguns tinham tentado fugir e estavam agora no cho, derrubados pelas flechas. Um homem agonizante disse onde ficava seu acampamento, no meio do pntano, 
e foi para l que Wulfgar levou seus homens, depois de tirarem os mortos da estrada e despoj-los dos produtos de seus roubos e de suas armas.
    Encontraram o acampamento no meio do charco de turfa. Os habitantes foram avisados e fugiram para o interior do pntano, deixando tudo que tinham. Encontraram 
quatro escravos nus e acorrentados, maltratados para divertimento dos ladres, emaciados de fome. Quando foram libertados e receberam comida dos homens de Wulfgar, 
ajoelharam-se e agradeceram humildemente. Uma menina que no tivera tempo de fugir dos ladres, um cavaleiro normando que fora ferido num campo distante, e os outros 
dois eram servos aprisionados num pequeno povoado a oeste de Londres.
    Wulfgar e seus homens demoraram apenas o tempo suficiente para revistar as cabanas miserveis, retirando todos os objetos de valor que encontravam. Quando os 
quatro escravos estavam montados em cavalos capturados, os homens de Wulfgar puseram fogo no acampamento, como uma advertncia a outros assaltantes.
    A jovem foi devolvida  famlia, que a recebeu com gritos de alegria, e os outros ficaram em Darkenwald at recobrarem as foras, e todos voltaram pacificamente 
ao trabalho. Porm, nem todos estavam satisfeitos. Gwyneth no se conformava em ser apenas uma hspede que dependia da caridade do senhor e da senhora do solar. 
A prpria Haylan no dava mais ateno s suas palavras e comeava a se afastar dela. Sem a proteo e a caridade de Gwyneth, Haylan precisava cuidar de si mesma 
e do filho e no tinha muito tempo para conversa. Gwyneth amargava uma profunda solido, mas logo descobriu que, sem enfrentar Aislinn diretamente, podia se vingar 
de certo modo, inventando para Maida histrias sobre a crueldade com que Wulfgar tratava Aislinn, destruindo cada vez mais o pouco de sanidade que restava  pobre 
mulher. Era um prazer para ela ver Maida fugir rapidamente  aproximao de Wulfgar, e seus olhos brilhavam quando, com suas histrias, aumentava a preocupao dela 
pela sorte da filha. Uma boa mentira fazia o trabalho de um ano inteiro de desgaste na confiana de Maida, e Gwyneth no poupava nenhum esforo para conseguir isso.
    Maida observava a filha atentamente quando ela ia  cabana ou quando se encontravam em outro lugar qualquer,  procura dos sinais da crueldade do normando. A 
felicidade esfuziante de Aislinn a deixava confusa e cada vez mais deprimida.
    Os dias quentes de julho passavam com irritante lentido, e Aislinn comeava a perder a agilidade e a graa dos movimentos. Andava devagar e com cuidado;  noite, 
aconchegava-se em Wulfgar, e muitas vezes os dois acordavam sobressaltados com um movimento mais brusco da criana. No vero no acendiam as lareiras e no escuro 
do quarto ela no podia ver o rosto do marido para saber se o estava incomodando demais, porm os beijos carinhosos de Wulfgar acalmavam seus temores. Ele a tratava 
com extrema gentileza e a ajudava no que podia.
    Nos ltimos dias a criana tinha descido, e at ficar sentada era difcil. Durante as refeies, Aislinn mudava vrias vezes de posio na cadeira, quase no 
comia e ouvia distraidamente a conversa  sua volta, inclinando a cabea ou sorrindo quando se dirigiam a ela.
    Nessa noite, sentada ao lado de Wulfgar, de repente deixou escapar uma exclamao abafada elevou a mo  barriga. Preocupado, ele segurou o brao dela, mas Aislinn 
sorriu, tranquilizando-o.
    -  No foi nada meu amor - murmurou. - S a criana se mexendo - acrescentou com um sorriso. - Ela se move com toda a fora do pai.
    Cada vez mais Aislinn se convencia de que Wulfgar era o pai, pois no podia suportar a idia de ter um filho de Ragnor, mas compreendeu que tinha escolhido mal 
as palavras quando Gwyneth zombou:
    -  A no ser que voc saiba de algo que no sabemos, Aislinn, parece que o sangue que corre nas veias do seu filho  bastante duvidoso. Pode at mesmo ser s 
saxo.
    
    Gwyneth olhou ironicamente para Kerwick, que, passada a surpresa, corou e apressou-se a tranqilizar Wulfgar, dizendo:
    -  No, meu senhor, no foi assim... quero dizer - olhou para Aislinn, como quem pede socorro e depois, com a raiva fervendo dentro de si, voltou-se para Gwyneth: 
- Voc est mentindo! Isso  uma mentira!
    Wulfgar sorriu, mas no havia humor em sua voz,
    -  Gwyneth, com seu charme habitual, voc acaba de nos apresentar outra conjetura para nosso divertimento. Se no estou enganado, o vilo era Ragnor, no este 
pobre rapaz.
    Furiosa, Gwyneth respondeu:
    -  Pense um pouco, Wulfgar. Temos s a palavra de sua mulher e as afirmaes de alguns idiotas bbados para provar que Ragnor encostou as mos nela. Na verdade, 
duvido que Sir Ragnor a tenha tocado, e muito menos tenha feito o que ela alega.
    Aislinn olhou para ela atnita, e Kerwick levantou-se furioso.
    -  A prpria Maida viu a filha ser carregada para cima, por ele. Vai me dizer que ele no fez nada?
    Wulfgar olhou ameaadoramente para a irm quando ela disse:
    -  Maida, ah! No se pode confiar naquela tola maluca. Procurando manter a calma, Aislinn murmurou suavemente:
    -  Quando chegar a hora, Gwyneth, saberemos a verdade. Quanto a Kerwick, tanto ele quanto eu estvamos acorrentados at muito depois do tempo em que ele poderia 
ter sido o pai. Isso nos deixa apenas dois, e eu nego o primeiro, assim como nego a gentileza que voc atribui a ele.
    Gwyneth olhou para ela furiosa, mas Aislinn continuou, com a mesma calma:
    -  Espero, se Deus quiser, que o tempo prove que dei vida  semente de Wulfgar. Quanto  sua alegao de que o delicado Ragnor no podia tratar uma mulher desse 
modo, peo que lembre uma coisa - inclinou-se para a frente e disse, acentuando cada palavra: - O prprio Ragnor afirmou que foi o primeiro.
    Gwyneth enfureceu-se com a derrota. Sem pensar, apanhou uma travessa da mesa e a ergueu, como para atirar em Aislinn, mas Wulfgar levantou-se da cadeira com 
um rugido e bateu com as duas mos na mesa.
    -  Preste ateno, Gwyneth - trovejou. - Esta  a minha mesa, e no admito que questione a identidade do pai da criana outra vez.
     minha porque  o que eu quero. Peo que tenha muito cuidado se quiser continuar nesta casa.
    A raiva de Gwyneth foi substituda por uma amarga frustrao. Seus olhos encheram-se de lgrimas e, soluando, ela ps a travessa na mesa.
    -  Wulfgar, vai se arrepender do dia em que ps uma rameira sax acima de mim, negando-me a pouca honra que me resta.
    Com um olhar de desprezo e dio para Aislinn, ela saiu da sala e subiu para o quarto. Assim que fechou a porta, atirou-se na cama, soluando amargamente. Mil 
pensamentos lhe passavam pela mente, mas um a dominava. Era uma crueldade do destino que seu irmo, um bastardo normando, a destitusse do lugar a que tinha direito 
e tivesse casado com uma cadela sax. Mas Ragnor - estremeceu, lembrando as carcias dele. Ragnor prometera muito mais. Porm, seria ele realmente o pai do filho 
de Aislinn? Torturava-a a idia de que Aislinn fosse a primeira a dar  luz o fruto daquele cavaleiro bem-nascido e que o filho dela fosse moreno e esbelto, com 
os traos de um falco, ou tivesse os olhos tempestuosos e negros de seu amante. Jurou que quando Ragnor voltasse, como certamente ia voltar, para tir-la daquele 
chiqueiro, Wulfgar ia conhecer todo o peso de sua vingana.
    No salo, o jantar terminou num silncio tenso e, quando Haylan comeou a tirar a mesa, Aislinn levantou-se com dificuldade, corando ante o olhar zombeteiro 
da mulher, e pediu licena a Wulfgar para subir para o quarto.
    -  Parece que ultimamente me canso com facilidade-murmurou ela.
    Wulfgar levantou-se e segurou-lhe o brao.
    -  Eu a ajudo, chrie.
    Ele a levou at o quarto e, quando Aislinn comeou a se despir, acariciou os cabelos vermelhos e brilhantes. Com um suspiro, Aislinn encostou-se nele e Wulfgar, 
atrs dela, inclinou a cabea para beijar sua nuca, onde a pele era macia e perfumada.
    -  O que voc est pensando? - murmurou ele.
    Aislinn deu de ombros e, segurando os braos dele, cruzou-os sobre seus seios.
    -  Oh, somente que voc tem motivos para odiar as mulheres. Rindo, Wulfgar mordeu de leve sua orelha.
    -  Algumas mulheres eu no suporto, mas existem outras-seus braos desceram para o ventre dela - sem as quais no posso viver.

    A tnica fina se abriu um pouco, revelando parte do seios, redondos e fartos, pedindo para serem explorados. Com dificuldade, Wulfgar a soltou, torturado pelo 
desejo, ansiando pelo dia em que pudesse novamente se satisfazer.
    Bolsgar e Sweyn sentaram-se na frente da lareira. Kerwick e os outros saram da sala, constrangidos com a cena provocada por Gwyneth. Como conhecia Wulfgar, 
Sweyn conhecia tambm o velho lorde. O gnio irascvel de Gwyneth era uma provao para ele.
    L em cima, uma porta foi aberta e fechada. Bolsgar e Sweyn se entreolharam, com um sorriso. Wulfgar arrumara sua cama com o desejo sempre insatisfeito de um 
homem solteiro, e agora, saciado, reencontrava o mesmo catre desconfortvel de antes. Apareceu na porta, sombrio e irritado. Foi at o barril e serviu-se de uma 
caneca de cerveja; esvaziou-a e tornou a encher. Sentou-se perto da lareira, e os trs olharam para o fogo por um longo tempo. Wulfgar resmungou alguma coisa, e 
Sweyn olhou para ele.
    -  Disse alguma coisa, Wulfgar?
    O normando bateu com o fundo da caneca no brao da cadeira.
    -  Sim, eu disse que este casamento  um inferno. Eu devia ter casado com uma mulher sem encantos como Gwyneth, porque assim no ia me importar quando no pudesse 
dormir com ela.
    Bolsgar sorriu.
    -  O que voc acha, Sweyn? Acredita que o gamo vai procurar outra cora?
    -  Pode ser, senhor-riu o viking. - O chamado da caa  mais forte que o do verdadeiro amor.
    -  No sou um animal no cio - disse Wulfgar, irritado. - Fiz os votos por minha vontade. Mas sinto que a priso do casamento  demais para mim, especialmente 
com uma mulher to bonita. O desejo me atormenta, e no posso me satisfazer. Se no fosse pelos votos que fiz, ia procurar outra, mas sou obrigado a ficar ao seu 
lado, desejando-a e ao mesmo tempo amaldioando esse desejo.
    Bolsgar procurou acalmar a irritao do normando.
    -  Tenha pacincia, Wulfgar. A vida  assim, e voc vai ver que a recompensa vale a espera.
    -  Fala de coisas que no me interessam. Na minha opinio, uma mulher to bela s traz sofrimento. Estarei sempre desembainhando minha espada para proteger sua 
honra. Qualquer rapazinho imberbe fica atordoado com seu sorriso. Ora, at Gowain sorri como um idiota
     sua menor ateno, e penso tambm em Kerwick, nas lembranas que ele pode ter.
    Bolsgar ficou irritado. O normando estava questionando a honra de Aislinn e atribuindo toda a culpa a ela.
    -  Ora, Wulfgar - censurou ele. - No est sendo justo. Ela no pediu a nenhum cavaleiro normando para invadir sua casa, carreg-la  fora para a cama da me, 
e nem para ser acorrentada aos ps dessa mesma cama. - Com um sorriso tristonho, continuou: - Ouvi dizer que voc a acorrentou, estou certo?
    Wulfgar ficou surpreso com a ira do velho lorde, e Sweyn lamentou no ter ensinado ao jovem normando aceitar melhor as responsabilidades.
    -  No me culpe com tanta facilidade-disse Wulfgar, zangado. -Pelo menos ela sabe quem  a me, mas eu jamais vou saber quem  o pai, e posso vir a criar um 
filho que no  meu.
    -  Ento, no ponha a culpa em Lady Aislinn - disse Bolsgar, secamente.
    -  Sim-resmungou Sweyn, concordando.-Lady Aislinn no teve escolha e conseguiu enfrentar tudo com muita dignidade. Se a maltratar outra vez, eu o afastarei dela 
at o dia de minha morte.
    Wulfgar riu com desdm.
    -  Olhem para vocs - zombou. - Finalmente resolveram defender as cores de Lady Aislinn. Nem os velhos tolos esto livres de suas artimanhas. Ela t capaz de 
encantar at...
    Bolsgar agarrou a frente da tnica do normando e o fez levantar da cadeira com uma rapidez incrvel. O velho lorde ergueu o punho fechado, mas no desferiu o 
golpe. A raiva passou, e ele largou a tnica de Wulfgar.
    -  Bati em voc uma vez, com raiva - suspirou Bolsgar. - Nunca mais vai acontecer.
    Wulfgar inclinou a cabea para trs para uma gargalhada, e, de repente, a sala explodiu dentro dele. A poeira assentou lentamente sobre o corpo forte do normando 
estatelado de costas no cho. Sweyn esfregou as costas da mo e olhou para Bolsgar.
    -  Eu no tenho nada que me impea - explicou Sweyn, indicando Wulfgar com uma inclinao de cabea. - Isso vai lhe fazer bem.
    Bolsgar segurou os tornozelos do normando, Sweyn os ombros, e eles o carregaram para o quarto. Bolsgar bateu de leve na porta e, ouvindo a resposta sonolenta 
de Aislinn, eles entraram. Aislinn sentou-se na cama, esfregando os olhos.
    -  O que aconteceu? - perguntou ela, assustada.
    -  Ele bebeu demais - resmungou Sweyn, e os dois homens atiraram Wulfgar na cama, sem nenhum cuidado.
    Aislinn olhou para o viking.
    -  Vinho? Cerveja? Ora, seria preciso um odre cheio e metade da noite para...
    -  No para quem bebeu como um tolo - interrompeu Bolsgar. Aislinn passou a mo no rosto do marido e sentiu a salincia no
    lado do queixo. Franziu a testa, confusa.
    -  Quem o atacou? - perguntou, sentindo a fria crescer dentro dela.
    Sweyn esfregou as costas da mo outra vez e disse com um largo sorriso.
    -  Fui eu - confessou, muito satisfeito com a grande proeza. Aislinn hesitou, sem compreender, mas, antes que ela dissesse
    qualquer coisa, Bolsgar explicou gentilmente:
    -  Ele estava agindo como uma criana, e no conseguimos encontrar um chicote.
    Dizendo isso, fez um sinal para o viking e os dois saram do quarto. Aislinn olhou para o marido, consternada e atnita. Finalmente, levantou da cama e o despiu, 
deixando-o nu, sem cobertas, no calor da noite de vero.
    O estrondo do trovo rolou no quarto, e Wulfgar sentou-se na cama, sobressaltado, pronto para a luta. Ento percebeu que era apenas uma tempestade de vero vinda 
do mar. Deitou e fechou os olhos, ouvindo o som das primeiras grandes gotas de chuva nas pedras do ptio, depois o tamborilar rpido nas janelas e a brusca rajada 
de vento. A brisa fresca em seu corpo nu era um alvio para o calor mido do vero.
    Percebeu um movimento ao seu lado e, abrindo os olhos, viu Aislinn inclinada sobre ele, com ar preocupado. O cabelo vermelho emoldurava o rosto muito branco. 
Wulfgar ergueu o brao e puxou a cabea dela para baixo, para provar a frescura dos lbios entreabertos.
    Aislinn sentou-se e disse com um sorriso:
    -  Eu estava preocupada com sua sade, mas vejo que est bem. Wulfgar espreguiou-se como um grande felino, depois passou a
    mo no queixo. Franziu a testa e sentou-se, apoiando o brao no joelho.
    -  Sweyn deve estar ficando velho - resmungou. - O ltimo rosto que ele acariciou ficou bastante quebrado.
    Aislinn levantou-se e saiu do quarto, voltando logo depois com uma travessa com carnes, po quente e mel fresco, no favo. Encostando o corpo pesado no dele, 
apanhou um pedao de carne e o levou  boca do marido, envolvendo Wulfgar com sua ternura. Wulfgar a beijou outra vez, agora com a leveza de uma abelha pousando 
na ptala da flor para sugar o nctar. Recostada no joelho erguido dele, protegida pela fora de seus braos, Aislinn descansou. A forte presso em seu ventre, porm, 
indicava que estava chegando a hora.
    Wulfgar notou a tenso nos olhos e no corpo dela e perguntou:
    -  Por acaso Sat a atormenta com alguma lembrana desagradvel, Aislinn? - Ps a mo no ventre dela. - A idia que me persegue  de que, mesmo que a criana 
seja minha, no foi feita com amor, mas com um ato de brutalidade e de puro desejo. Quero que saiba que estou disposto a aceit-lo como filho, seja quem for o pai. 
Ele ter o meu nome e o meu braso, e jamais ser expulso da minha casa. Seria injusto se, tendo tudo isso, faltasse a ele o amor da me.
    Aislinn sorriu docemente para o marido, lembrando a crueldade com que fora rejeitado.
    -  No precisa temer, Wulfgar. Ele  o nico inocente de tudo que aconteceu, e eu o amarei de qualquer modo. Ser embalado nos meus braos e conduzido com amor 
e cuidado - continuou com um suspiro profundo.- s a dvida normal s mulheres, quando a hora se aproxima. Tantas coisas alheias ao meu controle vo formar sua 
vida. Mas, voc sabe, pode ser uma menina! - Brincou carinhosamente com uma mecha de cabelo do marido.
    -  O que Deus determinar, meu amor, est bem. Criaremos uma dinastia para estas terras, e eu gostaria que ela tivesse seus cabelos de feiticeira para encantar 
todos os homens como voc me encantou. - Beijou-lhe o brao. - Voc modificou completamente meu modo de vida, meus hbitos. Eu dizia que nenhum juramento jamais 
me prenderia, voc me fez repetir os votos do casamento, com voz alta e clara, para no a perder. Eu admitia que era avaro com meu dinheiro e voc jamais me pediu 
nada, mas eu passaria a vida trabalhando para que voc tivesse o que calar e vestir, sem me arrepender nem por um momento. - Riu com tristeza. - Desisti de erguer 
barreiras  minha volta, e agora confio em voc para conduzir meus ps errantes e tratar com honra a minha alma indefesa.
    -  Wulfgar-zombou ela -, qual o grande cavaleiro normando que cai de joelhos e deixa que uma simples escrava sax o arraste pelos cabelos? Voc est brincando 
e caoando de mim.
    Aislinn inclinou-se para ele e beijou-o carinhosamente nos lbios. Depois olhou-o nos olhos, como que buscando neles suas respostas.
    -  Alguma coisa nascida do amor cresce dentro de mim? - murmurou. - Quero seus braos em volta do meu corpo e anseio por suas carcias. Que loucura  esta que 
me faz ficar sempre  sua disposio? Sou mais escrava do que esposa, e no gostaria que fosse diferente. Como foi que dominou a minha vontade de um modo que, mesmo 
quando eu resistia, rezava para que voc estivesse sempre ao meu lado e nunca me deixasse?
    Wulfgar ergueu a cabea, e seus olhos cinza estavam quase azuis.
    -  No importa, chrie. Enquanto ns dois desejarmos a mesma coisa, vamos aproveitar o prazer que ela nos d. Agora deixe-me levantar, do contrrio voc pode 
ser forada a ceder contra a sua vontade.
    Rindo, feliz, Aislinn se afastou dele.
    -  Contra a minha vontade? No, nunca mais. Mas, se encontrar um beb no caminho, trate-o com carinho para no o ofender.
    Wulfgar levantou-se, rindo, vestiu-se e saiu do quarto, ouvindo o som alegre e musical da voz de Aislinn. Sorriu, desejando que chegasse logo o dia em que Aislinn 
ia cantar para embalar o filho, pois sua voz era suave e repousante. Atravessou o ptio e viu que o cu comeava a clarear.
    O sol estava alto no cu quando Wulfgar voltou. Bolsgar e Sweyn estavam sentados  mesa e, quando o normando sentou, olharam para ele, sem saber qual seria seu 
estado de esprito. Wulfgar levou a mo ao queixo e o moveu de um lado para o outro, como para ver se estava funcionando.
    -  Acho que uma jovem me beijou com muito ardor a noite passada - disse, secamente. - Ou talvez eu tenha sido atacado por um velho ou por uma criana.
    Bolsgar riu.
    -  Um beijo muito delicado, sem dvida. Voc sequer se levantou para nos dar boa-noite. Acredite! Voc deitou para descansar to bruscamente que o pobre Sanhurst 
teve um trabalho insano esta manh para consertar o buraco no cho.
    Ele e Sweyn riram, mas Wulfgar apenas olhou para os dois e depois disse, pensativo:
    -   um pesado encargo para mim ter de agentar a companhia de dois cavaleiros idosos que, esquecendo que no so mais jovens, me atacam quando minhas palavras 
os contrariam. Alm das mentes enfraquecidas, perderam a fora dos braos.
    Olhou para Sweyn, que bateu a mo na perna, ofendido.
    -  Se quiser disputar no brao comigo, sou capaz de quebrar seus ossos - disse o viking. - Ontem tive o cuidado de poupar a sua beleza, menino atrevido.
    Wulfgar riu satisfeito por conseguir irritar o viking.
    -  Temo mais sua lngua do que sua fora. O golpe foi bem aplicado, pois eu no tinha o direito de falar daquele modo da minha dama - ficou srio e murmurou: 
- Como na minha juventude, gostaria que todas as minhas palavras ditas com raiva pudessem voltar ao silncio, mas  impossvel. Peo desculpas aos dois e vamos esquecer 
o assunto.
    Bolsgar e Sweyn se entreolharam e depois concordaram, com uma inclinao da cabea. Ento ergueram suas canecas de cerveja e os trs beberam em silncio.
    Um pouco depois Wulfgar viu Aislinn descendo a escada cautelosamente e levantou-se para ajud-la, e os homens sorriram, lembrando os primeiros dias de Wulfgar 
em Darkenwald, quando parecia que jamais ia haver paz entre os dois.
    Wulfgar levou Aislinn at a cadeira ao lado da sua e, respondendo  pergunta ansiosa do marido, ela disse que estava bem. Depois de algum tempo, porm, a presso 
em seu ventre se transformou numa violenta pontada. Dessa vez, quando Wulfgar voltou-se para ela, Aislinn fez um gesto afirmativo e estendeu a mo.
    -  Quer me ajudar a subir para o quarto? Temo no ser capaz de ir sozinha.
    Wulfgar levantou-se da cadeira e, ignorando a mo estendida, tomou-a nos braos. Subindo a escada, com Aislinn no colo, ele disse para os homens:
    -  Mandem Miderd ao meu quarto. Est na hora.
    Os cavaleiros e Kerwick agitaram-se, atordoados, e Bolsgar, vendo a confuso, saiu para chamar Miderd. Wulfgar subiu os degraus de dois em dois, como se no 
sentisse o peso de Aislinn, abriu a porta com o p e levou-a para a cama onde ela nascera. Demorou para tirar os braos que a enlaavam, e Aislinn perguntou a si 
mesma se a preocupao que via nos olhos dele era por ela ou pela dvida sobre a paternidade da criana. Segurou a mo dele e levou-a ao rosto, e Wulfgar sentou-se 
na cama. Ali estava uma coisa para a qual todo seu aprendizado e sua experincia no o haviam preparado, e o normando sentiu-se completamente intil e indefeso,
    A dor voltou, e Aislinn apertou-lhe a mo com fora. Wulfgar conhecia os sofrimentos da guerra, tinha muitas cicatrizes para provar sua resistncia e sua aceitao 
da dor. Mas aquela agonia o assustava.
    -  Calma, minha senhora - disse Miderd, entrando no quarto e aproximando-se da cama. - Poupe suas foras para mais tarde. Vai precisar delas. Ao que parece, 
vai ser um longo trabalho de parto. A criana tem seu prprio tempo, portanto, procure descansar.
    Miderd sorriu e Aislinn respirou aliviada, mas Wulfgar de repente parecia exausto e abatido. Miderd disse, com voz suave:
    -  Meu senhor, quer mandar chamar Hlynn? Vamos precisar de muita coisa, e quero ficar ao lado da minha senhora. - Viu que a lareira estava apagada e acrescentou, 
quando Wulfgar j estava na porta: - E mande Ham e Sanhurst trazerem lenha. Precisam encher de gua o caldeiro.
    Assim, Wulfgar foi afastado de Aislinn e no teve mais oportunidade de se aproximar. Ficou na porta, vendo as mulheres atarefadas. A todo momento refrescavam 
a testa de Aislinn com toalhas midas, enxugando o suor provocado pelo calor de julho e pelo fogo na lareira. Wulfgar esperou e observou, e nos intervalos das dores 
Aislinn sorria para ele. Quando a dor voltava, o suor cobria seu corpo e, com o passar do tempo, ele comeou a se perguntar se alguma coisa estava errada. Miderd 
e Hlynn estavam muito ocupadas para responder s suas perguntas. Ento uma idia insuportvel o atormentou. Acriana podia ser morena e com cabelos negros. No podia 
aceitar a possibilidade de a bela Aislinn dar  luz uma criana obviamente gerada por Ragnor. Ento outro pensamento surgiu-lhe na mente. Lembrou-se de ter ouvido 
dizer que muitas mulheres morriam de parto. Seria um triunfo para Ragnor se a criana fosse dele e tirasse a vida de Aislinn. Mas e se fosse sua e do mesmo modo 
a levasse deste mundo para sempre? Seria melhor? Tentou imaginar sua vida sem ela, depois de todos aqueles meses felizes ao seu lado, e sua mente ficou vazia. Era 
como se nuvens escuras tivessem obscurecido sua razo, e o ar parecia ter desaparecido do quarto. Apavorado, ele fugiu.
    Wulfgar atirou os arreios nas costas de Huno e o animal, assustando-se, bufou e recuou quando o brido foi passado entre seus dentes e o normando saltou para 
a sela. Montado no grande cavalo de batalha, Wulfgar cavalgou velozmente por longo tempo, sem diminuir o passo, at o vento levar os ltimos vestgios de confuso 
de sua mente. Ento, homem e animal pararam no topo de uma pequena colina ao lado da colina maior, onde estava sendo construdo o castelo. Wulfgar olhou para a construo 
que crescia rapidamente. Mesmo quela hora, os homens tabalhavam com afinco, antes que a noite os interrompesse. Wulfgar pensou na ansiedade com que o povo esperava 
a concluso da obra. Todos trabalhavam de boa vontade e, depois de terminar uma tarefa, traziam mais pedras para cortar e montar. Mas era tanto para a defesa deles 
quanto para a de Wulfgar, e ele podia compreender aquela pressa, depois da carnificina provocada por Ragnor. Ningum queria que aquilo acontecesse outra vez. Olhou 
para a torre central, onde ele e Aislinn iam morar um dia. A construo era mais lenta que a das muralhas. Quando estivesse pronta, seria uma fortaleza inexpugnvel 
para qualquer inimigo. Menos para a morte...
    Wulfgar desviou os olhos, sabendo que nada seria bom sem Aislinn ao seu lado. Pensamentos terrveis invadiram sua mente, e ele ficou inquieto. Fez Huno dar meia-volta 
e, sacudindo as rdeas, galopou para percorrer as divisas de suas terras.
    Suas terras!
    As palavras soaram com a solidez da segurana. Se a outra parte de sua vida desmoronasse, pelo menos teria isso. Pensou no velho e grisalho cavaleiro que Aislinn 
sepultara quando se conheceram. Talvez o velho lorde pudesse entender o que ele sentia agora. Ali estava a sua terra. Ali ele morreria para descansar ao lado daquele 
outro tmulo no alto da colina. Talvez fosse morto por outro grande lorde. Mas continuaria ali. No mais andanas e aventuras. No importava que Aislinn lhe desse 
um bastardo ou um filho seu, um menino ou uma menina. Ele o aceitaria como seu e, na pior das hipteses, descansariam todos no alto da colina. Com uma sensao de 
paz, Wulfgar podia agora enfrentar qualquer coisa que o destino lhe reservasse.
    Huno diminuiu o passo e Wulfgar viu Darkenwald l embaixo. Percorrera suas terras e estava voltando quando o sol desaparecia no horizonte, alm dos pntanos. 
A noite chegou envolvendo-o com seu manto negro, e ele continuou parado, vendo seu povo aos poucos se aquietar para o descanso.
    
    
    Todos, pensou ele, vo me procurar com seus problemas. No posso desapont-los. Olhou pensativamente para o tmulo ao seu lado. Posso ler sua mente, velho senhor. 
Sei o que estava pensando quando saiu para enfrentar Ragnor. Eu teria feito o mesmo.
    Wulfgar apanhou uma flor silvestre e aps ao lado das que Aislinn deixara na vspera.
    - Descanse bem, velho senhor. Farei o melhor possvel por eles, e Aislinn tambm. Se Deus permitir, vai sentir os ps de muitos netos neste solo, e, quando eu 
vier descansar aqui, apertaremos as mos como velhos amigos.
    Esperou sob uma rvore, pois no queria enfrentar os olhares curiosos do povo da cidade.
    As estrelas apareceram no cu e o velho solar se iluminou. Podia ver o movimento no interior da casa, sinal de que no estava acabado ainda. As primeiras horas 
da manh o encontraram no mesmo lugar, e ento ele ouviu um grito.
    O cabelo eriou-lhe na nuca e o suor brotou-lhe na testa. Wulfgar ficou petrificado de medo. Seria Aislinn? Oh, Deus, to tarde na vida conhecera a ternura de 
uma mulher. Estaria destinado a perd-la agora? Longos momentos se passaram, e Wulfgar ouviu o choro forte e indignado de uma criana.
    Ele esperou mais, enquanto a notcia corria de boca em boca pela cidade. Viu Maida sair do solar em direo  sua cabana. Os outros tambm saram, e finalmente 
o solar ficou deserto. Wulfgar levantou-se e levou o cavalo cansado para o estbulo. Atravessou silenciosamente a sala e subiu para o quarto. Abriu a porta e viu 
Miderd sentada na frente da lareira, com o beb nos braos. Olhou para a cama e no escuro s via o vulto de Aislinn. Ela estava imvel e em silncio, mas Wulfgar 
percebeu o leve ondular da respirao. Est dormindo, pensou ele, agradecido por aquele dia ter terminado.
    Foi at a lareira e Miderd descobriu a criana para que ele visse. Era um menino, enrugado, parecia mais um velho do que uma criana, e tinha cabelos vermelhos.
    Nenhuma ajuda, pensou Wulfgar, com um sorriso. Mas, pelo menos, no tinha cabelos negros.
    Foi at a cama e ficou parado, tentando ver o rosto de Aislinn. Quando se inclinou mais, viu que ela o observava atentamente. O cabelo espalhado pelo travesseiro 
e cobrindo os ombros emoldurava seu rosto. Um sorriso iluminou o rosto plido e abatido. O esforo de
    trazer um filho ao mundo deixara sua marca no rosto delicado, mas sob a palidez adivinhava-se uma fora que o encheu de orgulho. Aislinn era, sem dvida, a mulher 
certa para ficar ao lado de um homem e enfrentar o que a vida lhes reservava.
    Wulfgar beijou-a carinhosamente, pensando em pedir perdo. Ergueu um pouco o corpo, apoiando as mos na cama para ver o rosto dela enquanto falava, mas Aislinn 
olhou para ele com um longo suspiro, fechou os olhos e adormeceu. Ela queria apenas v-lo, e agora cedia  exausto, entregando-se ao sono reparador. Wulfgar beijou-lhe 
outra vez os lbios e saiu do quarto.
    Foi direto para o estbulo e, quando comeou a arrumar sua cama na palha limpa e cheirosa, Huno bufou, reclamando da intruso. O guerreiro normando olhou para 
o enorme garanho e o mandou ficar quieto.
    -  s mais esta noite - garantiu Wulfgar, e adormeceu.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Vinte e Trs
    
    
    O MENINO RECEBEU o nome de Bryce, e Aislinn estava feliz porque ele era forte e alegre. Um grito quando tinha fome e logo se acalmava, sugando avidamente o seio 
da me. A dvida continuava atormentando Wulfgar, sem encontrar resposta no cabelo do bebe, que era agora louro-avermelhado, nem nos olhos azul-escuros. Maida assistira 
o parto e durante as primeiras semanas no apareceu, mas agora, sempre que Bryce descia do quarto, ela estava por perto. S entrava no solar com ordem de Wulfgar 
ou de Aislinn, mas, quando o dia estava quente, sentava-se ao lado da porta e ficava olhando para o menino deitado na manta de pele. Parecia sempre distante, revivendo 
antigas lembranas. Sabia que Bryce era seu neto, sangue de seu sangue. Anos atrs vira a filha de cabelos vermelhos brincando naquele mesmo lugar. Lembrava agora 
os momentos de alegria e de felicidade, e Aislinn tinha esperana de que, com o tempo, ela esquecesse todo o horror que sofrera.
    Os dias longos e quentes do vero ficaram mais curtos, e setembro trouxe o frio no ar da noite. O povo via a plantao crescer nos campos. Sob a orientao de 
Wulfgar, as plantaes recebiam cuidados constantes, e um grupo de meninos se encarregava de afastar os pssaros e os animais. A colheita prometia ser rica, como 
nunca antes. Kerwick fazia sua ronda e mantinha os livros em dia. O povo j estava acostumado a ver o jovem a cavalo com os livros amarrados atrs da sela. Os homens 
o procuravam para medir o resultado de seu trabalho antes de ser recolhido aos graneiros e s ucharias.
    Os moinhos de Darkenwald eram movidos por bois que caminhavam em crculo para girar a grande m. Todos iam a Darkenwald para comprar de Gavin as ferramentas 
de que precisavam para o inverno ou para preparar o campo na prxima primavera. Estava quase na poca da primeira colheita e as outras amadureciam ainda ao sol. 
Os gros abarrotavam os graneiros, e carnes defumadas e secas e as salsichas que pendiam das vigas do teto enchiam as ucharias. Wulfgar tinha direito  parte do 
dono das terras, e os grandes depsitos atrs do solar comeavam a ficar cheios. As jovens colhiam uvas e outras frutas para fazer vinho e compotas, que eram tambm 
armazenados. Enormes favos de mel eram derretidos em potes de barro, e quando a cera subia era retirada para fazer velas. Quando o pote estava cheio, a fina camada 
que se depositava no fundo era deixada para solidificar e o pote guardado na parte mais fria da adega. A atividade era constante, e o gado, depois de separados os 
animais para a procriao na primavera, era levado para o matadouro e o ar se enchia com o cheiro acre do abate e da curtio das peles. A casa de defumao estava 
sempre cheia, e o sal era carregado penosamente atravs da charneca; com ele era feita a salmoura para conservar a carne.
    Haylan era muito procurada por sua habilidade para temperar e curtir a carne. Sempre ocupada, via com satisfao a amizade de seu filho com Sweyn. O viking podia 
ensinar muita coisa que o menino precisava saber. Aprendeu os hbitos dos gansos e de outras aves e como atirar uma flecha para apanh-las; aprendeu tudo sobre gamos 
e coras e os lugares da floresta onde podiam ser encontrados; tudo sobre raposas e lobos e como fazer uma armadilha, como esfolar os animais e transformar o plo 
ensangentado em pele macia.
    As rvores comeavam a ficar avermelhadas quando uma geada prematura assolou o sul da Inglaterra. Nesse dia, Miles estava sozinho porque Sweyn precisara ir a 
Cregan. O jovem resolveu ento tirar os animais das armadilhas e arm-las novamente. Sir Gowain viu quando ele saiu na direo da charneca. Haylan s deu pela falta 
de Miles na hora do almoo. Ela foi ao estbulo e ficou sabendo que Sweyn estava em Cregan. Foi ao solar e Gowain disse que vira Miles indo para o pntano. Kerwick 
e o jovem cavaleiro saram  procura do menino, seguindo as marcas de seus passos na espessa camada de geada.
    
    Encontraram-no onde tinham armado uma tora pesada para apanhar raposas ou lobos e carreg-los at um pequeno regato, onde ficavam presos. Miles estava com gua 
at os ombros, tremendo de frio e com os lbios azuis. Passou horas agarrado num arbusto para evitar ser carregado pela tora de madeira. Gritou at quase ficar sem 
voz, mas ningum ouviu. Quando o tiraram, quase congelado, de dentro do regato, ele disse com voz rouca:
    -  Sinto muito, Gowain. Eu escorreguei.
    Eles o agasalharam e levaram para a cabana da me, mas, mesmo enrolado em pesadas mantas de pele, na frente da lareira, ele continuou a tremer. Kerwick disse 
que ia chamar Aislinn, mas Haylan o segurou pelo brao e disse:
    -  No, ela  uma bruxa. Vai enfeitiar meu filho. No, eu mesma tomo conta dele.
    As horas se passaram; a testa de Miles Ficou muito quente e a respirao spera e difcil. Mas Haylan no queria chamar a senhora do solar.
    Estava escuro quando Sweyn voltou e soube do incidente. Foi direto para a casa da viva, acompanhado por Gowain. Apeou do cavalo, abriu a porta, entrou e agachou-se 
ao lado da cama do menino. Segurou as mos dele entre as suas e sentiu a febre. Voltou-se para Gowain e ordenou:
    -  V chamar Aislinn.
    -  No, eu no quero! -- exclamou Haylan, assustada com a doena do filho, mas com o corao cheio ainda de dio.-Ela  uma bruxa. Enfeitiou o seu Wulfgar para 
poder prend-lo, para que ele nunca mais olhe para outra mulher. Ela  uma bruxa, estou dizendo. No a quero aqui.
    Sweyn, ainda agachado, olhou para ela e disse com voz ameaadora:
    -  Haylan, voc  capaz de caluniar um santo, mas eu a perdo por isso. J vi pessoas nestas condies que morreram por falta de cuidados. Ningum mais sabe 
o que deve ser feito, e quero Lady Aislinn aqui. Certo, eu no me importo com voc, mas no vou deixar que este menino morra por causa de seu dio. Se tentar me 
impedir vai para o inferno montada em meu machado. Agora, saia da frente.
    Sweyn ficou de p, e Haylan, vendo os olhos dele, deixou-o passar
    Aislinn estava brincando com Bryce na frente da lareira do quarto
    e Wulfgar, recostado na cadeira, os observava. Ela estava deitada, com
    o cabelo enfeitando a manta de pele, e segurava o menino com os dois braos, fazendo-o saltar para cima e para baixo.
    Bateram com fora na porta e Bryce arregalou o olhos, assustado. Aislinn o abraou e Wulfgar mandou entrar. A porta se abriu e Sweyn irrompeu no quarto.
    -  Lady Aislinn, peo que me desculpe - trovejou ele. - O menino Miles caiu na gua e est com febre e arrepios de frio. Mal pode respirar, e temo por sua vida. 
Pode nos ajudar?
    -  E claro, Sweyn.
    Com Bryce ainda no colo, Aislinn teve um momento de indeciso. Depois, virou rapidamente para Wulfgar e ps a criana nos braos dele.
    -  Wulfgar, por favor, fique com Bryce. Tome conta dele, e, se ele chorar, chame Miderd.
    A autoridade de sua voz era mais imponente que a de Guilherme e, sem esperar resposta, ela ps uma manta sobre o ombros, apanhou suas poes e ervas e saiu com 
Sweyn.
    Wulfgar ficou segurando o filho que ele no aceitava e tambm no rejeitava. Olhou para ele e Bryce retribuiu o olhar com uma expresso to sria e intensa que 
o normando riu. Tentou fazer o que Aislinn estava fazendo com ele, mas o estmago e o peito musculosos no eram to confortveis, e Bryce reclamou. Com um suspiro, 
Wulfgar sentou-se na cadeira com ele no colo. Bryce ficou feliz. Comeou a puxar as mangas da camisa de Wulfgar, e logo estava instalado sobre o peito dele, brincando 
com os cordes que fechavam a camisa.
    Aislinn abriu a porta da cabana e foi detida por Haylan, que sacudia um galho de azevinho para afastar a bruxa. Aislinn empurrou-a para o lado e correu para 
o menino. Haylan acabava de recobrar o equilbrio quando Sweyn entrou e a empurrou outra vez. Haylan sentou-se no banco mais prximo e ficou quieta. Aislinn apanhou 
uma vasilha rasa, que encheu com carvo em brasa e levou para perto da cama, com uma pequena panela com gua sobre o carvo. Assim que a gua ferveu e a fumaa subiu, 
ela tirou vrias ervas do bolso, amassou com os dedos e espalhou na vasilha rasa. Depois, derramou um lquido esbranquiado dentro da gua que fervia e logo o ar 
se encheu com um cheiro acre e pesado, que fazia arder os olhos e a garganta. Fez uma mistura de mel, vrias pitadas de um p amarelo e a gua da panela e, segurando 
a cabea de Miles, o fez beber, massageando-lhe a garganta para ajudar a deglutio. Ento, molhou um pedao de pano em gua fria e ps na testa do menino.
    Assim passaram a noite. Sempre que a testa de Miles ficava muito quente, Aislinn a refrescava com o pano tmido. Quando sua respirao ficava mais difcil, ela 
esfregava o lquido esbranquiado na garganta e no peito. Vez ou outra levava uma colher do mesmo lquido quente aos seus lbios, fazendo-o beber. Aislinn cochilou 
algumas vezes, mas acordava ao menor movimento.
    O dia estava chegando quando Miles comeou a tremer incontrolavelmente. Aislinn ps todas as mantas e cobertores que encontrou em cima dele e mandou Sweyn atiar 
o fogo at ficarem todos com os rostos brilhando de suor. Miles ficou muito vermelho, mas continuava a tremer e mal podia respirar.
    Haylan no tinha sado do banco, e de tempos em tempos murmurava uma prece. Aislinn, em voz baixa, pediu tambm o auxlio de uma fora maior. Assim passou-se 
uma hora. O cu estava claro. Cada um fizera a viglia a seu modo.
    Ento Aislinn levantou-se e olhou para Miles. Gotas de suor apareciam acima do seus lbios e na testa. Ps a mo em seu peito e sentiu a roupa molhada. Logo, 
o menino estava encharcado de suor e parou de tremer. A respirao era spera ainda, mas ficava mais regular a cada momento. O rosto voltou  cor normal, e pela 
primeira vez desde que Aislinn entrou na cabana Miles dormiu tranqilamente.
    Com um suspiro, Aislinn passou a mo nas costas doloridas. Apanhou suas poes e ervas e parou na frente de Haylan, que ergueu os olhos vermelhos.
    - Agora voc tem outra vez seu Miles - murmurou Aislinn. - Vou voltar para o meu filho, pois j passou muito da hora de ele mamar.
    Aislinn foi at a porta e, com um gesto cansado, levou a mo  testa para proteger os olhos da claridade do sol. Sweyn segurou o brao dela e voltaram para o 
solar. No falaram, mas Aislinn sentiu que acabava de ganhar um amigo. Quando entrou no quarto, Wulfgar e Bryce estavam dormindo na cama de casal, Os dedos do menino 
estavam emaranhados no cabelo de Wulfgar e as perninhas rolias sobre o brao dele. Aislinn despiu-se e, passando por cima de Wulfgar, puxou o filho para si. Wulfgar 
acordou, Aislinn sorriu para ele, fechou os olhos e dormiu.
    Quase uma semana depois, Haylan aproximou-se de Aislinn, que estava amamentando o filho. Naquele momento os homens estavam todos fora, e s as mulheres tinham 
ficado em casa.
    -  Minha senhora - disse Haylan, timidamente. Aislinn ergueu os olhos para ela.
    -  Minha senhora - repetiu Haylan. Fez uma pausa, respirou fundo e falou rapidamente: - Sei agora que fui muito injusta com a senhora. Acreditei em palavras 
maldosas, pensei que fosse uma bruxa e tentei roubar seu marido - parou de falar, torcendo as mos e com os olhos cheios de lgrimas. - Posso pedir que me perdoe? 
Pode compreender minha tolice e me perdoar? O que eu lhe devo jamais poderei pagar.
    Aislinn estendeu o brao e fez a viva sentar ao seu lado.
    -  No, Haylan, no h nada para perdoar. Voc no me fez nenhum mal - deu de ombros e riu -, portanto, no fique triste e no tenha medo. Compreendo muito bem 
e sei que a culpa no foi toda sua. Sejamos amigas e vamos esquecer os erros do passado.
    Haylan concordou com um sorriso e olhou para o beb rechonchudo no seio da me- Ia comear a falar de Miles quando era pequeno, mas Wulfgar abriu a porta e entrou 
na sala. Haylan se retirou. O normando se aproximou de Aislinn com um olhar intrigado para a viva.
    -  Est tudo bem com voc, meu amor? Aislinn viu a preocupao dele e sorriu.
    -   claro, Wulfgar. O que podia estar errado? Est tudo muito bem.
    Wulfgar sentou ao lado dela, estendeu as pernas e apoiou os ps numa banqueta.
    -  H sempre palavras desagradveis nesta casa - disse ele, pensativo, passando a mo no rosto. - Gwyneth rejeita qualquer demonstrao de boa vontade de nossa 
parte e est sempre procurando nos irritar. No compreendo por que ela se isola o tempo todo no quarto. Se controlasse seu gnio, todos a tratariam melhor.
    Aislinn olhou amorosamente para ele.
    -  Est muito pensativo hoje, meu senhor. No costuma se preocupar com o que pensam as mulheres.
    -  Ultimamente descobri que uma mulher  mais do que seios rosados e quadris geis e bem-feitos - com um largo sorriso e os olhos cheios de desejo, ps a mo 
na perna dela. - Mas dos dois, a mente e o corpo,  este ltimo que oferece maior prazer a um homem.
    
    
    Aislinn riu e logo deixou escapar uma exclamao abafada quando Wulfgar beijou seu pescoo, acendendo chamas de desejo em cada nervo de seu corpo.
    - O beb... - murmurou ela, mas os lbios dele encontraram os dela, silenciando-os. Ouviram um rudo na porta. Aislinn levantou da cadeira, muito corada, e deitou 
Bryce na manta, e Wulfgar ficou de p olhando para o fogo, como se estivesse aquecendo as mos. Bolsgar entrou carregando no ombro um saco cheio de codornas para 
o jantar do dia seguinte. Cumprimentou os dois alegremente e foi entregar a caa a Haylan, na cozinha. Wulfgar ficou irritado com a interrupo. Ultimamente sempre 
havia alguma coisa exigindo a ateno de Aislinn. Ele j esperara bastante, mas agora parecia que tudo conspirava contra ele. Quando o beb no estava gritando de 
fome, algum criado queria falar com um dos dois. Ento, quando finalmente parecia que tinha chegado o momento e estavam sozinhos no quarto, via os sinais de cansao 
no rosto de Aislinn e compreendia que devia esperar um pouco mais.
    Ele a seguiu com os olhos, notando o delicado movimento dos quadris. Ela estava mais magra do que antes, pensou ele, mas tem agora um corpo de mulher, no mais 
de menina.
    Seria esse o seu destino? Ter Aislinn sempre ao seu alcance, sem o prazer da privacidade que tinham antes? Teriam sempre um beb entre eles, e poucos momentos 
para saciar sua paixo? Com um suspiro, Wulfgar voltou a olhar para o fogo. O inverno est prximo, pensou. As noites so longas. Teria mais tempo para estar com 
ela. O beb no pode ocupar todos os seus momentos para sempre. Na primeira vez ele a possuiu num momento breve de desejo. Podia fazer o mesmo agora.
    Aislinn ergueu os olhos e viu Maida no lado de fora da porta, olhando timidamente para dentro. Notou que ela estava limpa e penteada. Era um prazer pensar que 
Maida podia vir a gostar do neto, esquecendo seus planos de vingana. No existia melhor blsamo do que uma criana.
    Aislinn ergueu a mo, convidando a me para entrar. Com um olhar nervoso para as costas de Wulfgar, Maida entrou sorrateiramente, foi direto para o bero e agachou-se, 
encolhendo o corpo, como se quisesse se tornar invisvel para o normando. Wulfgar no olhou para ela, mas acompanhou com os olhos Aislinn, que saiu da sala para 
combinar com Haylan os preparativos para o dia seguinte.
    Iam comemorar a colheita farta com uma grande festa. Os cavaleiros e suas damas deviam sair ao meio-dia para a caa ao javali, tanto para matar os animais quanto 
para afast-los das plantaes. Seria um evento festivo, e todos esperavam ansiosamente o dia seguinte.
    Sweyn e os cavaleiros entraram na sala para tomar uma caneca de cerveja e brindar o dia seguinte. Wulfgar juntou-se a eles; Bolsgar reapareceu, e estava formado 
o grupo alegre. A tarde tornou-se noite, e Aislinn, virando de um lado para o outro na cama, inquieta com a demora de Wulfgar, ouvia ainda as vozes deles na sala. 
No podia adivinhar que, sempre que Wulfgar fazia meno de se retirar, algum o puxava pelo brao e voltava a encher sua caneca de cerveja.
    Aislinn acordou com o balbucio de Bryce pedindo seu desjejum e viu Wulfgar j de p e quase completamente vestido. Ficou imvel, admirando o corpo longo e musculoso, 
o rosto de traos fortes, mas os gritos de Bryce ficaram insistentes. Aislinn levantou-se, vestiu uma tnica leve e folgada e sentou na frente da lareira para amamentar 
o filho. Quando Bryce finalmente se acalmou, Aislinn ergueu os olhos para o marido.
    -  Meu senhor, ser que o esporte de beber o agrada mais agora do que antes? Suponho que subiu para o quarto depois que o galo cantou.
    Wulfgar disse com um largo sorriso:
    -  Tem razo, chrie, ele cantou duas vezes antes de minha cabea encostar no travesseiro, mas no foi por minha vontade. Meus cavaleiros me brindaram com histrias 
antigas, e no tive outro remdio seno ficar e agentar.
    Olhou para ela, desejando-a mais do que nunca, mas ouviu vozes no salo, e sabia que seus homens logo subiriam para apanh-lo se no descesse depressa. Com um 
suspiro, beijou Aislinn na testa e, vestindo o gibo de couro, saiu do quarto.
    Quando Aislinn desceu, pensou que estava entrando numa casa de loucos. Atordoada com os gritos e risadas, no compreendeu bem o que estava acontecendo. Bryce 
agarrou-se a ela, assustado com o barulho. Aislinn estendeu uma manta de pele ao lado da lareira, onde ele podia ficar aquecido e ver o movimento. Escolheu um lugar 
perto de Wulfgar e dos comerciantes da cidade, que na certa evitariam a aproximao dos ces de caa que perambulavam pela sala, latindo quando algum tropeava 
neles. O aroma da cozinha pairava no ar. As apostas eram variadas. Apostavam nos cavalos, no primeiro javali, no maior e em quem seria o primeiro a usar a lana. 
Gowain, o mais jovem, era alvo de brincadeiras, especialmente porque Hlynn tinha acessos de riso cada vez que chegava perto dele. Gracejos pesados cruzavam o ar. 
Os homens riam e as mulheres gritavam quando as mos ousadas acariciavam certas partes de seus corpos. Aislinn teria passado por isso tambm se fosse casada com 
outro qualquer. Apesar da tentao, os homens mantinham uma distncia respeitosa, nenhum deles disposto a experimentar a espada do normando.
    Os homens que estavam perto da lareira praguejaram em altas vozes e um co enorme fugiu do meio dos ps deles com gritos de dor. A voz de Wulfgar soou clara 
e alta.
    -  Quem est tomando conta desses ces? Esto andando soltos pela sala, mordendo os calcanhares de nossos convidados. Quem est tomando conta desses ces?
    Ningum respondeu, e ento ele chamou mais alto:
    -  Kerwick? Onde est Kerwick, xerife de Darkenwald? Venha at aqui, senhor,
    Muito corado, Kerwick atendeu ao chamado.
    -  Sim, meu senhor?
    Wulfgar ps a mo no ombro dele e, erguendo um copo de chifre para os homens que estavam perto, disse com humor:
    -  Meu bom Kerwick. Todos sabem de sua amizade com os ces e de como os conhece muito bem; eu o nomeio responsvel pelos ces de caa. Acha que pode desempenhar 
bem essa tarefa?
    -  Posso, meu senhor - respondeu Kerwick imediatamente. - Na verdade, preciso ajustar algumas contas. Onde est o chicote?
    Entregaram a ele um longo aoite e Kerwick o brandiu no ar, com um estalo.
    -  Acho que aquele vira-lata avermelhado foi o que mordeu a minha perna - passou a mo na coxa, lembrando os dentes dos ces naquelas noites frias. - Prometo, 
meu senhor, se ele no caar bem hoje, vai provar a mordida desta bela arma.
    Wulfgar deu uma gargalhada.
    -  Ento est resolvido, grande senhor dos ces de caa. - Bateu nas costas de Kerwick. - Tire todos daqui, prenda com as correias e cuide para que estejam famintos 
na hora da caada. No queremos ces gorduchos de barriga cheia se arrastando entre as rvores.
    Os homens riram e fizeram um brinde. Na verdade, era incrvel a
    quantidade de cerveja necessria para manter aquelas vozes fortes e animadas.
    Bryce choramingou e Aislinn abriu caminho entre ombros largos e peitos fortes para atend-lo. Wulfgar deu passagem a ela com uma profunda mesura, o brao estendido, 
mas, quando Aislinn se abaixou para pegar o filho, a mo dele desceu para o seu traseiro com tamanha naturalidade que ela ergueu o corpo muito antes do que pretendia.
    -  Meu senhor! - exclamou Aislinn, recuando e apertando o beb contra o peito.
    Wulfgar recuou tambm e ergueu a mo, como para se defender, provocando risos de todos. Embora ofendida com aquela carcia em pblico, Aislinn no pde conter 
o riso.
    -  Meu senhor - disse ela, com um sorriso encantador. - Haylan est no outro lado da sala. Por acaso confundiu meu corpo desajeitado com o corpo apetitoso dela?
    Wulfgar parou de rir e ergueu as sobrancelhas. Vendo o brilho gaiato nos olhos da mulher, acalmou-se e resolveu tomar mais cuidado com a bebida.
    Beberam e conversaram at Bolsgar olhar boquiaberto para a escada. Gwyneth, luxuosamente vestida para a caada, desceu altiva para a sala e, depois de um olhar 
para Aislinn, com o filho no colo, voltou-se para Kerwick e disse:
    -  Seria muita presuno minha pedir que mande arrear um cavalo para mim?
    Kerwick inclinou a cabea e, com um pedido de licena silencioso na direo de Wulfgar, saiu da sala. Bolsgar adiantou-se e se curvou na frente da filha.
    -  Minha senhora, pretende se juntar aos camponeses hoje? - zombou ele.
    -   verdade, meu querido pai. Eu no perderia essa festa nem por todos os tesouros da Inglaterra. Ultimamente tenho trabalhado demais nesta casa, e preciso 
sair para um exerccio mais nobre. O primeiro que vejo neste lugar.
    E assim, deixando claro o quanto desprezava todos, ela foi at a mesa e experimentou alguns dos pratos.
    O resto da manh foi dedicado aos preparativos para a caada e o banquete. Antes do meio-dia, Aislinn subiu com Bryce e, depois de amament-lo, o ps para dormir, 
encarregando Hlynn de tomar conta dele. Depois desceu com um vestido longo de saia rodada, amarelo e marrom, feito especialmente para o esporte da caa. A maioria 
das pessoas comeu de p, pois no havia lugar para todos. Um grupo de menestris entrou no ptio para distrair o povo com msica alegre. Os cavalos foram levados 
para a frente da casa, e Gwyneth viu que Kerwick escolhera para ela o pequeno ruo que Aislinn montara quando foi a Londres. Era um animal forte e obediente, mas 
no tinha as pernas longas nem o porte elegante da gua cinzenta e negra de Aislinn.
    Os caadores partiram. Kerwick segurava as correias dos ces, e no era fcil fazer com que todos andassem juntos e em ordem. Os ces sentiam a excitao da 
caa e uivavam e rosnavam nervosos.
    Todos conversavam e riam alegres, menos Gwyneth. Aislinn, cavalgando ao lado de Wulfgar, ria de suas tiradas de humor e tampava os ouvidos quando ele comeava 
com suas canes maliciosas. Gwyneth tinha a mo pesada, e o pobre animal sacudia a cabea e saltitava, mordendo o brido. Saram da estrada, subiram uma colina 
e logo avistaram, na entrada da floresta, uma manada de javalis, com alguns animais bem grandes entre eles. Kerwick saltou da sela para soltar os ces, que partiram 
imediatamente, latindo e uivando. A obrigao deles era encurralar aqueles enormes animais selvagens, valentes, negros e cruis, com presas longas nos cantos da 
boca Uma vez acuados, os ces os mantinham assim at a chegada dos caadores. No era trabalho fcil, e era preciso muita coragem para enfrentar o ataque de um javali. 
As lanas eram curtas, pois a maior parte da caa era feita no meio do mato alto, e a uma certa distncia da ponta tinham duas hastes de ferro cruzadas para evitar 
que o javali alcanasse o brao do caador.
    Quando entraram no bosque, Aislinn e Gwyneth ficaram bem para trs, Aislinn porque no estava acostumada com aquele esporte violento. Puxou as rdeas de sua 
montaria e emparelhou com Gwyneth, que batia freneticamente em seu cavalo com um chicote curto. O pequeno animal se acalmou quando percebeu a presena de Aislinn 
e Gwyneth parou de bater, sabendo que isso traa sua crueldade. Cavalgaram lado a lado por algum tempo, e finalmente Aislinn resolveu dizer alguma coisa. O ar de 
outono estava quase quebradio, e era forte o cheiro das folhas cadas sob as rvores de cores variadas.
    -  Um dia maravilhoso - disse ela, com um suspiro.
    -  Seria se eu tivesse outra montaria - respondeu Gwyneth imediatamente.
    Aislinn riu.
    -  Eu ofereceria a minha, mas acontece que gosto muito dela. Gwyneth disse com desprezo:
    -  Voc sempre consegue melhorar sua posio, especialmente no que se refere aos homens. Sim, voc ganha duas vezes por uma vez que perde.
    -  No, dez ou cem vezes mais, voc pode dizer, uma vez que perdi Ragnor tambm.
    Foi demais para Gwyneth, que no conseguiu mais conter a raiva.
    -  Prostituta sax - vociferou ela. - Tenha cuidado com o nome que est degradando.
    Ergueu o relho curto, mas Aislinn se desviou, e o golpe atingiu o flanco de sua montaria. A gua cinzenta, assustada, disparou para o mato cerrado sob as rvores. 
Alguns metros adiante, o animal bateu de frente num espinheiro, girou o corpo bruscamente, e as rdeas fugiram das mos de Aislinn. O animal escorregou, quase caiu 
e empinou, atirando Aislinn para fora da sela. De costas no cho, atordoada, ergueu os olhos e viu vagamente a silhueta de Gwyneth delineada contra o sol. A mulher 
riu alto, esporeou seu cavalo e desapareceu. S depois de um longo tempo, Aislinn conseguiu se levantar, com uma dor aguda na coxa. Provavelmente uma pequena contuso, 
pensou ela. Com alguma dificuldade, saiu do mato alto e espesso.
    A gua cinzenta estava parada um pouco adiante, com as rdeas dependuradas. Quando Aislinn se aproximou, ela passarinhou, assustada ainda com a dor no peito 
arranhado pelos espinhos. Aislinn falou com ela mansamente e, quando o animal comeava a se acalmar, um rudo surdo no meio do mato a fez virar o corpo e sair no 
galope, como que perseguida por mil demnios.
    Aislinn voltou-se e viu um javali enorme caminhando para ela, abrindo caminho no mato alto, rosnando e guinchando, identificando com o faro o medo do inimigo 
indefeso. Os olhos pequenos pareciam perceber a dor de Aislinn, e as presas brilhavam. Ela recuou, procurando um lugar para se esconder. Viu um carvalho, calculou 
que podia alcanar o galho mais baixo da rvore. Quando comeou a andar, o javali a seguiu com um brilho feroz nos olhos. Mas Aislinn no conseguiu erguer a perna 
ferida o suficiente para segurar no galho. Tentou saltar, mas sua mo escorregou, e ela caiu ao lado do tronco enorme e ficou imvel. Cessado o movimento na sua 
frente, o animal parou tambm. Bufou e arranhou o cho com as presas, atirando para o ar torres de terra e relva. De repente, sacudindo a cabea de um lado para 
o outro, avistou o manto vermelho que ela vestia. Com um ganido de raiva, ele se adiantou, rasgando as folhas dos arbustos com as presas.
    Aislinn entrou em pnico. No tinha uma arma, nada com que se defender. J vira cortes enormes nos ces e nas pernas dos homens, feitos pelas presas de javalis. 
Encostou-se na rvore e, quando o animal arremeteu, ela gritou. Sua voz ecoou nas rvores, parecendo enraivecer ainda mais o javali. Aislinn apertou a mo contra 
a boca para evitar outro grito.
    Ouviu um som s suas costas, e o javali ergueu a cabea para a nova ameaa. Ento, Wulfgar disse em voz baixa e suave:
    -  Aislinn, no se mova. Se ama a vida, no faa nenhum movimento. Fique quieta.
    Ele apeou de Huno, com a lana na mo. Comeou a avanar agachado, cada movimento observado pelo javali, agora imvel. Wulfgar parou do lado de Aislinn, mas 
a alguma distncia. Ela fez um movimento e o javali virou a cabea em sua direo.
    -  No se mexa, Aislinn - avisou Wulfgar outra vez. - No faa nenhum movimento.
    Continuou a avanar at a ponta da lana ficar a uns dois palmos do javali. Ento, firmou o suporte do cabo no cho e o apoiou com o joelho, mantendo a ponta 
cuidadosamente na direo do animal. O javali, com um grito de raiva, apoiou o corpo nas patas traseiras, arranhando o solo com as presas outra vez, jogando para 
o ar torres de terra e, finalmente abaixando o corpo para trs, arremeteu para a frente. Com seu grito de guerra, Wulfgar segurou a ponta da lana com fora. O 
animal gritou de dor quando o ferro longo e fino penetrou em seu peito, empalando-o. O impacto quase partiu a ponta da arma e quase a arrancou das mos de Wulfgar, 
mas ele segurou firme, apoiando sobre ela todo o peso do corpo, e os dois comearam a lutar de um lado para o outro, na clareira, at o javali perder todo o sangue. 
Ento ele parou, estremeceu violentamente e morreu. Wulfgar deixou cair a lana e ficou por um longo momento ajoelhado, procurando recobrar o flego. Finalmente, 
voltou-se e olhou para Aislinn. Ela, com um soluo abafado, tentou ficar de p mas no conseguiu e caiu deitada no cho. Wulfgar correu para ela.
    -  Ele a feriu? Onde? - perguntou, ansioso.
    -  No, Wulfgar - ela sorriu. - Eu ca do cavalo. Minha gua entrou num espinheiro, assustou-se e me derrubou. Machuquei a perna.
    Wulfgar ergueu a saia dela e passou a mo na mancha escura da coxa. Seus olhos se encontraram, e Aislinn ps a mo na nuca do marido e puxou o rosto dele para 
o seu. Depois ela o abraou e eles perderam a noo do tempo.
    Wulfgar ajudou-a a se levantar e eles foram para um lugar na clareira onde o cho estava coberto de folhas. Ele estendeu seu manto longo e deitou-se ao lado 
dela.
    Muito mais tarde, quando o sol j estava baixo no horizonte, ouviram vozes e o barulho de cavalos abrindo caminho no mato alto. Ento, Sweyn e Gowain apareceram 
na clareira e viram Wulfgar e Aislinn deitados na sombra do carvalho, como se fosse o melhor lugar para fazer amor. Wulfgar ergueu o corpo, apoiado no cotovelo.
    -  Aonde vocs vo? Sweyn? Gowain? O que os faz atravessar a floresta com tanta pressa?
    -  Peo que me desculpe, senhor. - Gowain engoliu em seco. - Pensamos que tinha acontecido alguma coisa com Lady Aislinn. Encontramos seu cavalo...
    Outra vez o som de um cavalo se aproximando, e Gwyneth entrou em cena. Franziu a testa, cerrou os lbios e dando meia-volta, desapareceu.
    -  No aconteceu nada - sorriu Aislinn. - Eu ca do cavalo. Wulfgar me encontrou e... resolvemos descansar um pouco.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    

   
   Captulo Vinte e Quatro
   
   
   
    
    A  COLHEITA estava quase no fim, e as noites frias de outubro tinham empalidecido as cores vibrantes do outono e estendido uma coberta marrom sobre a floresta. 
Desde o incidente com o javali, Gwyneth desistira de implicar com Aislinn e, para espanto de todos, controlava cuidadosamente a lngua ferina; s vezes chegava a 
ser at agradvel. Passou a descer para as refeies e depois sentava-se com sua tapearia, ouvindo a conversa descontrada  sua volta.
    Kerwick e Haylan eram agora muito conhecidos no povoado. Sempre que se encontravam, trocavam palavras speras. Parecia que um no podia ver o outro sem pensar 
em alguma provocao. Discutiam interminavelmente sobre coisas sem importncia, e suas brigas ficaram famosas: quando comeavam, as crianas danavam em volta deles, 
imitando suas palavras e gestos raivosos. Por sua habilidade na cozinha, Haylan estava encarregada da escolha e do preparo da comida. Em seus momentos de folga, 
procurava aprender a fiar linho e l e a costurar. Resolveu aprender a falar francs, e estava indo muito bem.
    Era uma felicidade para Aislinn ver que Maida agora tomava banho regularmente e usava roupas limpas e bem-cuidadas. Quando achava que no devia ter ningum no 
solar, saa de sua cabana para passar algum tempo com Bryce, levando brinquedos de pano ou de madeira que ela mesma fazia. Certa vez sentou-se ao lado de Aislinn 
quando ela estava amamentando. Maida no falava com ningum, mas cada vez mais parecia-se com a antiga Maida de Darkenwald.
    Bryce tinha a pele clara de Aislinn, mas seu cabeleira louro-avermelhado. O nico seno naqueles dias felizes era o fato de Wulfgar tratar o menino com indiferena, 
como se o considerasse uma imposio necessria ao tempo de Aislinn. Mas Bryce crescia forte e saudvel, aquecido pelo amor da me e pela ateno constante de Miderd, 
Hlynn e at mesmo de Bolsgar.
    Os dias passavam, as noites ficavam mais frias, a riqueza da terra abarrotava os graneiros e o castelo estava quase pronto. S faltava terminar a torre central, 
ou residncia, porque era um trabalho mais demorado. Os enormes blocos de granito eram transportados da pedreira, medidos e cortados e depois iados com cordas fortes, 
puxadas por cavalos.
    Ento, numa manh, quase no fim de novembro, chegou um mensageiro com notcias que deixaram Wulfgar preocupado. Senhores rebeldes de Flandres tinham se aliado 
aos senhores depostos de Dover e Kent. Desembarcaram suas tropas entre os penhascos brancos e marcharam para tomar Dover dos homens de Guilherme, mas o castelo que 
o Rei mandara construir nas terras altas os manteve a distncia. Guilherme conduziu seu exrcito da Normandia at Flandres para abafar a rebelio em seu ponto de 
origem, mas o Prncipe Edgar conseguiu rugir e juntou-se aos reis escoceses para incitar a rebelio no norte.
    A mensagem informava tambm que grupos desgarrados de homens do exrcito flamengo estavam rugindo para o interior e logo comeariam a depredar a regio, para 
se vingar da derrota. Guilherme no podia enviar reforos naquele momento, mas avisava Wulfgar para ficar preparado e, se possvel, fechar as vias de acesso e de 
fuga de Cregan e Darkenwald.
    Depois de avaliar seus recursos, Wulfgar chamou todos ao trabalho. O castelo teria de servir como estava, pois agora no tinham tempo para terminar a construo. 
Todo o produto da terra devia ser colhido para que os assaltantes no tivessem com que se alimentar. Cabras, ovelhas, porcos e o gado bovino deviam ser recolhidos 
 fortaleza. Graneiros e armazns deviam ser esvaziados, e as provises levadas para o castelo, para os enormes depsitos construdos ao longo das paredes internas, 
debaixo da torre central. Cregan devia esvaziar primeiro suas ucharias, porque eram grandes e de difcil defesa, depois esvaziariam as de Darkenwald, se tivessem 
tempo. Enquanto Wulfgar e os cavaleiros percorriam os limites de suas terras, os homens do povoado deviam formar a guarnio do castelo. Beaumonte e Sweyn Ficaram 
encarregados de organizar essa parte. Quando todas as provises e o povo de Cregan estivessem seguros no castelo, as duas pontes perto da cidade seriam destrudas 
para bloquear as estradas.
    Uma vez determinado o plano, comeou o trabalho. Todas as carroas, abertas e fechadas, todos os animais de carga foram usados para transportar as provises 
de Cregan, e era intenso o movimento de vaivm entre Cregan e o castelo. Os itens de valor eram registrados nos livros de Kerwick e depois guardados no cofre da 
torre do castelo. Os fazendeiros da periferia fecharam suas casas e foram para a fortaleza, formando o primeiro contingente de defesa dentro dos muros do castelo. 
As mulheres apanhavam no pntano varas de salgueiro e teixo, fortes e flexveis, com as quais os homens faziam arcos, flechas e lanas. Grandes barris do lquido 
negro e malcheiroso que filtrava das rochas para o pntano foram iados para as ameias. Era facilmente inflamvel e servia para ser atirado, em chamas, sobre os 
atacantes. Gavin e os filhos trabalhavam dia e noite na forja, fazendo pontas de lanas, de flechas e espadas rsticas, mas eficientes. Todos trabalhavam. Todos 
cooperavam.
    Aislinn levou cobertores e roupa de cama para a torre do castelo e providenciou o trabalho constante dos teares de Darkenwald. Todas as provises de Cregan j 
estavam nos pores e depsitos do castelo, e ainda havia lugar para muito mais, pois haviam sido construdos para conter o produto de muitos anos e agora garantiam 
a todo o povo alimento para aquele inverno e muito mais, se fosse preciso.
    Finalmente surgiu o primeiro problema. Uma nuvem de fumaa se ergueu sobre a cidade de Cregan e Wulfgar e seus homens saram para enfrentar o inimigo. No muito 
distante de Darkenwald, encontraram um grupo de moradores de Cregan que tinham se recusado a abandonar a cidade e agora fugiam, depois de verem suas casas destrudas 
pelos assaltantes. Wulfgar ficou sabendo que um pequeno grupo de cavaleiros e arqueiros havia assaltado Cregan ao nascer do dia, vencendo facilmente a tentativa 
de defesa dos habitantes. Incendiavam tudo  sua passagem e pareciam mais dispostos a destruir do que a saquear. Matavam impiedosamente todos que tentavam impedir 
seu avano.
    Frei Dunley caminhava na retaguarda da coluna de fugitivos, puxando um pequeno carro de duas rodas com seu amado crucifixo e outras relquias da igreja. Parou 
na frente de Wulfgar e enxugou o suor da testa.
    -  Eles incendiaram a minha igreja - disse, com voz entrecortada. -No respeitaram nem as coisas de Deus. So piores do que os vikings, que procuravam coisas 
de valor. Estes assaltantes s querem destruir.
    Wulfgar encostou a mo aberta na testa para proteger os olhos da claridade e olhou para Cregan.
    -  Uma vez que sua igreja foi destruda, se ns sobrevivermos, padre, ter o salo de Darkenwald para substitu-la. Um bom lugar para receber os senhores das 
cidades prximas no dia do Senhor.
    O monge agradeceu humildemente e em voz baixa. Wulfgar designou Milbourne e alguns de seus homens para proteger os fugitivos e lev-los para Darkenwald.
    Quando Wulfgar chegou em Cregan, as brasas ainda fumegavam na cidade completamente destruda. Viram os corpos dos poucos que tentaram em vo defender suas casas 
ou que no fugiram a tempo. Wulfgar lembrou de outra cena de carnificina e de outra cidade repleta de mortos. Seu rosto ficou sombrio, e seu corao, duro como ao. 
Os homens que destruram Cregan seriam castigados, nem que tivesse de persegui-los at os confins do mundo.
    Com o corao pesado, voltou com seus homens para Darkenwald. Aislinn e Bolsgar o esperavam no salo, e Wulfgar respondeu em voz baixa  pergunta que viu nos 
olhos deles.
    -  No encontramos mais os rebeldes, mas acho que ainda os veremos. Levaram pouca coisa de Cregan, e um deles, morto com seu cavalo, parecia emaciado e faminto. 
No iro muito longe se no encontrarem comida para os homens e para os cavalos.
    -  Sim - disse Bolsgar -, vo alimentar seus cavalos nos nossos pastos e caar at recuperarem as foras para continuar seu caminho. Precisamos ter cuidado para 
que nossos rebanhos no sejam presa fcil.
    Aislinn mandou servir o jantar. Wulfgar e Bolsgar sentaram  mesa e continuaram a conversa. Haylan serviu uma travessa com carne e po e voltou para apanhar 
as jarras de cerveja. Uma rajada de vento frio percorreu a sala quando Sweyn abriu a porta e sentou-se tambm. Sem uma palavra, ele apanhou uma costeleta de carneiro, 
comeou a comer e recostou-se na cadeira, com um suspiro de satisfao, esvaziando uma caneca de cerveja. Ainda sentiam a brisa da entrada de Sweyn quando a porta 
se abriu novamente e os trs cavaleiros entraram na sala. Como Sweyn, atacaram a comida e a cerveja com prazer evidente. Wulfgar olhou com espanto para a travessa 
vazia.
    -  Mesmo que eu fosse rei, meus amigos famintos, acho que morreria de fome se os tivesse por companheiros de mesa.
    Todos riram, e Aislinn pediu mais comida. O som alegre das risadas fez Gwyneth descer para a sala, embora ela j tivesse jantado. Sentou com sua tapearia, como 
era seu hbito ultimamente, e parecia ter prazer na companhia dos homens e de Aislinn. Depois de algum tempo, Kerwick chegou, cansado e abatido. Queixou-se da desordem 
criada em seus livros pelos ltimos acontecimentos e ergueu a mo com os dedos rgidos de tanto escrever.
    -  Vejam isto! - exclamou ele. - Fiquei com cibra de tanto segurar a pena para corrigir e alterar minhas anotaes.
    Quando todos pararam de rir, ele voltou-se para Wulfgar e disse:
    -  Foi com pesar que registrei a morte de oito pessoas em Cregan. Todos ficaram em silncio, lembrando o horror daquele dia.
    -  Eu conhecia todos eles - continuou Kerwick. - Eram meus amigos. Eu gostaria de deixar meus livros por algum tempo e juntar-me a vocs na caada aos vndalos.
    -  Fique descansado, Kerwick, ns os levaremos  justia. Voc vale muito mais aqui, para pr ordem nessa confuso.
    Dirigindo-se ento aos outros, ele exps seus planos.
    -  Os vigias continuam como antes - voltou-se para Bolsgar. -Escolha os homens que conhecem os sinais e veja que fiquem bem escondidos nos bosques e nas colinas. 
Devem partir esta noite, para estarem a postos ao nascer do dia. - Para os cavaleiros, disse: Sairemos assim que os rebeldes atacarem. Daremos um sinal aos vigias, 
indicando nosso rumo, e eles nos informaro sobre a posio dos atacantes. Beaufonte, voc continua a preparar o castelo para um possvel ataque. Tudo correu bem 
hoje?
    Beaufonte fez um gesto afirmativo e disse, com ar preocupado:
    -  O castelo est sendo armado e os homens organizados para defender os muros. Mas temos um problema-fez uma pausa, incerto, depois continuou: - O povo de Cregan 
acha insuficiente o espao nas muralhas e armou tendas perto do muro externo. Isso seria perigoso para ns, em caso de ataque.
    
    -  Sim - concordou Wulfgar. - De manh, providencie para que todos se dirijam para o outro lado do fosso. Com nossos vigias a postos, tero tempo de entrar no 
castelo quando derem o alarme.
    Olhou interrogativamente para os outros, mas no havia mais nenhum problema.
    -  Ento est resolvido - ergueu o copo. - Ao dia de amanh. Que possamos mandar todos eles para seu criador.
    Todos beberam, menos Gwyneth. Ela estava um pouco afastada, e ningum se lembrou de lhe oferecer um copo.
    S uma pessoa notou a entrada de Haylan com outra travessa de carnes, po e uma tigela de molho. Kerwick apanhou um pedao de carne, experimentou e franziu o 
nariz.
    -  Tem sal demais nesta carne - disse ele.
    Todos olharam para ele. Kerwick apanhou outro pedao, experimentou e jogou no prato.
    -  E esta est sem sal.  uma vergonha, Wulfgar. Podia pelo menos arranjar algum que saiba temperar a comida.
    Kerwick riu das prprias palavras e voltou-se para Aislinn, ao mesmo tempo estendendo o brao para apanhar uma fatia de po. Haylan ps a tigela com molho quente 
bem debaixo da mo dele. Kerwick gritou de dor e levou os dedos  boca para aliviar o ardor da queimadura.
    -  Essa carne est mais ao seu gosto? - perguntou Haylan inocentemente. - Talvez precise de mais um pouco de sal.
    Estendeu para ele o pequeno saleiro, provocando uma risada geral. At Gwyneth sorriu.
    Na manh seguinte, um jovem servo, que safra para terminar a colheita de suas plantaes, acordou o solar com batidas frenticas na porta. Wulfgar atendeu, e 
o campons contou rapidamente o que tinha acontecido.
    Tarde da noite, viu um grupo de cavaleiros aproximando-se de sua fazenda. Com medo de estranhos, ele saiu de casa e se escondeu no bosque. Depois de queimar 
sua casa e espalhar os cereais que ele colhera com tanto trabalho, eles armaram o acampamento perto do regato, no muito distante da fazenda.
    Wulfgar mandou servir comida quente ao campons e saiu com seus homens. Aproximaram-se do acampamento sob a proteo de um desfiladeiro mas encontraram apenas 
as marcas das fogueiras os restos de um bezerro desgarrado. Os rebeldes tinham aproveitado s as melhores partes, deixando o resto para apodrecer. Wulfgar balanou 
a cabea, olhando para a carcaa. Gowain estranhou a preocupao dele com um animal morto.
    -  O que o preocupa, meu senhor? - perguntou. - Eles o mataram para comer.  simples.
    _ No - disse Wulfgar. - No levaram nada para defumar ou curtir, mas s tiraram o que precisavam para matar a fome naquele momento. Devem ter outros planos 
para conseguir provises para a viagem, e temo que sejamos parte desses planos.
    Olhou para os topos das colinas com um arrepio. Gowain o viu franzir a testa.
    -  Sim, Wulfgar. - O jovem cavaleiro olhou tambm em volta. - Tambm sinto que alguma coisa est errada. Esses homens atacam sorrateiramente  noite, no como 
soldados, mas como animais predadores.
    Voltaram para Darkenwald sem nenhuma vitria para contar e souberam que, quando foram para o norte, uma pequena fazenda fora incendiada no sul e um rebanho de 
cabras dizimado. No levaram nenhuma carne dos animais mortos, deixando para os abutres. Era como se o nico objetivo dos assaltantes fosse destruir o mximo possvel.
    Wulfgar ficou extremamente irritado. Andando de um lado para o outro, recriminava-se em voz alta por ter permitido que o enganassem, enquanto o inimigo invadia 
e destrua dentro de suas terras. Aislinn ouvia em silncio, sabendo que Wulfgar atribua toda a culpa a si mesmo. O normando finalmente se acalmou e, atendendo 
 insistncia da mulher, comeu um pouco; quando terminou, estava outra vez tranqilo. Tirou o pesado peitoral e, s com a tnica de couro, sentou-se na frente da 
lareira, trocando idias com Bolsgar e Sweyn.
    -  Os ladres estiveram em Cregan, depois no norte, e hoje foram para o sul. Amanh, iremos para oeste,  primeira luz do dia. Talvez os encontremos.
    Ningum tinha um plano melhor. Confiariam nos sinais para localizar o bando de assaltantes, e esperavam alcan-los antes que causassem maiores danos.
    Durante toda a noite, Gwyneth quase esgotou a pacincia dos homens com sua censuras ferinas por no terem encontrado os rebeldes. Quando, mais tarde, ela recomeou 
a cantilena, Aislinn olhou para
    Bryce, que brincava sobre a manta ao lado da lareira, procurando se acalmar.
    -  Estou cheia de medo, no meio destas runas calcinadas que mal podem deter uma lana - disse Gwyneth, olhando para as vigas antigas do teto. - O que voc fez 
para garantir a nossa segurana, Wulfgar?
    Ele olhou para o fogo, sem responder.
    -  Sim, vocs gastam os cascos de seus cavalos patrulhando as estradas, mas suas espadas j encontraram pelo menos um desses ladres? No. Eles continuam livres 
como o vento. Na verdade, amanh talvez eu precise empunhar uma espada para me defender enquanto vocs vagueiam pelos campos.
    Wulfgar olhou para ela, como desejando que aquelas palavras no se tornassem realidade.
    Bolsgar resmungou e depois disse:
    -  Deixe a espada, minha filha. Use sua lngua.  muito mais afiada e, uma vez que pode castigar seus protetores, certamente far muito pior aos nossos inimigos. 
Quem pode resistir a ela?  capaz de penetrar no escudo mais forte e partir o inimigo pelo meio.
    Aislinn engasgou e tossiu, para no dar uma gargalhada e, quando Gwyneth olhou furiosa para ela, concentrou-se na roca, desenrolando um longo fio do novelo de 
l.
    -  Meu bom pai se diverte enquanto os ladres incendeiam e saqueiam e ns nos escondemos entre estas paredes-disse Gwyneth. - No posso sequer sair a cavalo 
para me acalmar um pouco.
    Sweyn riu.
    -  Muito obrigado por pequenos favores. Pelo menos no precisamos temer pelos cavalos.
    Bolsgar riu tambm.
    -  Se pelo menos pudssemos ensin-la a fazer com que eles dem meia-volta. Ela est sempre saindo, mas sempre voltando.
    Gwyneth deixou seu bordado de lado, olhou para eles fuzilando de raiva, e levantando-se da cadeira com as mos na cintura, disse:
    -  Podem rir, seus corvos crocitantes. Eu no fico montada na torre esperando sinais idiotas das colinas nem como ou bebo como um animal selvagem.
    -  Tem razo, mas o que voc faz? - perguntou Bolsgar, e foi agraciado com outro acesso de fria.
    - Como uma dama, eu me mantenho a distncia. - Olhou de soslaio para Aislinn. - Fao meu bordado e minha costura, e nada mais, como ordenou meu senhor Wulfgar. 
Tenho cuidado para no ofender o orgulho sensvel dos outros.
    Gwyneth ouviu a voz de Bryce e olhou para trs. O menino tinha encontrado seu bordado perto da lareira e destrudo uma grande parte, tentando se livrar dos fios 
que se enrolavam nele. Com um grito, Gwyneth arrancou a tapearia das mos dele.
    -  Menino malcriado! - exclamou ela, dando uma palmada no brao dele. Bryce fez beicinho e respirou fundo para comear a chorar. - Menino malcriado! - repetiu 
ela. - Vou te ensinar a...
    Com uma pancada surda, Gwyneth caiu sentada no cho. Aislinn acabava de lhe passar uma rasteira. Gwyneth bufou, zangada, depois arregalou os olhos com medo quando 
viu Aislinn de p ao seu lado, o cabelo vermelho brilhando  luz do fogo e os olhos cor de violeta fuzilando de raiva. Segurava a roca como uma lana pronta para 
ser usada. Aislinn disse, com voz entrecortada mas firme:
    -  O que voc faz a mim, Gwyneth, eu posso agentar. Sou uma mulher crescida-Inclinou-se para a outra, movendo a roca ameaadoramente. - Mas, normando ou ingls, 
claro ou moreno, vermelho ou verde, aquele menino  meu. Se encostar a mo nele outra vez,  melhor procurar uma espada, pois vou faz-la em pedaos.-Depois de uma 
pausa, Aislinn perguntou: - Voc me ouviu?
    Boquiaberta, Gwyneth fez um gesto afirmativo. Aislinn afastou-se e pegou o menino assustado no colo, falando em voz baixa e passando a mo na marca vermelha 
do brao dele. Gwyneth levantou-se do cho, limpou a poeira da saia e apanhou a tapearia. Sem olhar para os homens, que sorriam divertidos, subiu para o quarto.
    Mais tarde, no quarto, Wulfgar olhou pensativo para a mulher, enquanto ela deitava o filho na frente da lareira. Era difcil acreditar que aquela fria que h 
pouco jogara Gwyneth no cho fosse a mesma ninfa que andava pelo quarto com movimentos leves e graciosos. Cada movimento era um estudo de ritmo e graa. A tnica 
branca e folgada danava em volta de seu corpo, revelando ora um seio, o quadril bem-feito ou a cintura fina. Sentindo o desejo ferver dentro dele, Wulfgar a abraou 
e inclinou a cabea para o beijo, mas foram interrompidos por um grito de Bryce.
    -  Espere at ele dormir - murmurou Aislinn, com os lbios junto dos dele. - Ento, seu desejo ser mais bem satisfeito.
    -  Meu desejo?-resmungou ele, desapontado. - E quem  que
    meneia os quadris e me acaricia em pblico at eu sentir que as costuras da minha roupa esto quase se abrindo?
    Ele a beijou outra vez e depois recostou-se na cadeira, continuando a observ-la. Aislinn se inclinou para apanhar as caixas de l, expondo os seios redondos.
    -  Tenha cuidado, meu amor - murmurou ele, suavemente -, seno eu posso assustar o beb.
    Aislinn endireitou o corpo rapidamente e corou, sabendo que ele era bem capaz de fazer isso.
    -  Tome conta dele enquanto vou acertar com Miderd o que deve ser feito amanh - pediu ela, pondo um xale sobre os ombros e deixando Wulfgar por conta de Bryce. 
O normando fechou os olhos e relaxou os msculos, com a sensao de paz que parecia invadir seu corpo com o calor do fogo. Abriu os olhos sentindo um puxo no tornozelo 
e viu Bryce que, depois de rolar at ele, tentava sentar com a ajuda de sua perna. O menino conseguiu e ergueu para Wulfgar os olhos grandes e muito azuis. No parecia 
ter medo do normando, mas sorriu, franzindo os cantos dos olhos. Agitou os braos gorduchos com alegria, rindo feliz, e caiu bruscamente para a frente. Levantou 
os olhos, tristes agora, o queixo tremeu e lgrimas enormes rolaram por seu rosto. Sempre fraco quando via lgrimas, Wulfgar pegou-o no colo.
    As lgrimas secaram e Bryce, feliz com sua nova posio no mundo, comeou a puxar a gola da camisa de Wulfgar. Subiu pelo peito largo e explorou os lbios sorridentes 
do rosto grande acima do seu. Wulfgar apanhou debaixo da cadeira um brinquedo de pano e madeira e deu a ele. Depois de alguns momentos, Bryce bocejou e deixou cair 
o brinquedo. Ajeitou-se confortavelmente naquela cama dura demais, deu um suspiro e adormeceu.
    Wulfgar ficou um longo tempo imvel para no acordar o menino, com uma sensao de paz e calor, sabendo que aquela criana indefesa confiava completamente nele- 
O peito de Bryce subia e descia com a respirao regular. Ser que essa criana podia ser o fruto do desejo satisfeito com uma jovem e bela cativa?
    Este menino dorme tranqilo no meu peito, pensou ele. Contudo, eu me esquivo de seu amor. Por que ele vem to confiante para mim, quando eu no fao nada para 
atra-lo?
    Com a mente num turbilho, Wulfgar compreendeu que estava preso a muito mais do que os votos do casamento. Outras coisas prendem o corao de um homem, e jamais 
o libertam sem deixar cicatrizes profundas na alma. Os votos do casamento eram uma promessa cujo cumprimento o prendia mais do que as palavras.
    Olhou para o rostinho inocente adormecido e compreendeu que no importava quem fosse o pai. A partir desse dia, aquela criana era seu filho.
    O bravo cavaleiro normando beijou ternamente a cabea que descansava em seu peito. Ergueu os olhos e encontrou os de Aislinn com um brilho magnfico. Ela olhou 
para os dois com um amor intenso.
    Ao raiar do dia, Wulfgar saiu com seus homens e cavalgaram para oeste. No demorou para que o sinal de luz de uma das colinas desse o aviso de um ataque a leste 
de Darkenwald. Com uma praga, wulfgar fez meia-volta e, deixando um homem para avisar a mudana de direo, partiu para o leste. Acabavam de passar pelo castelo 
quando um dos arqueiros gritou e apontou para a torre onde outro vigia fazia sinais. O bando de assaltantes se dividira e incendiava agora as casas ao norte e ao 
sul. A raiva e a frustrao de wulfgar cresceram. Deu ordem para informar os vigias que iam tambm se separar e seguir para o norte e para o sul. Mal acabava de 
se separar de Milbourne e Gowain, partindo para o norte, quando foram avisados de que o bando voltara a se juntar e atacava um campo a oeste de suas terras. wulfgar 
ficou possesso. Ele e seus homens tinham descansado naquele lugar h poucas horas. Como os flamengos podiam saber com tanta preciso onde eles estavam? Enviou uma 
mensagem a Gowain e Milbourne para se encontrarem com ele perto de Darkenwald.
    Assim passou aquele dia. Wulfgar no viu nem sinal dos invasores. Sempre que chegava a algum lugar, eles estavam atacando em outro ponto. Antes do pr-do-sol, 
ningum mais viu os assaltantes, e Wulfgar sups que estavam escondidos em algum lugar da floresta ou do pntano. Amaldioando aquele dia, ele e seus homens voltaram, 
cansados, para Darkenwald.
    Wulfgar entrou na sala extremamente agitado e abriu a porta com tanta violncia que assustou Bryce. O lbio do menino tremeu e seu rosto se crispou de susto. 
Aislinn largou a roca e pegou-o no colo. Olhou para Wulfgar, que andava de um lado para o outro na frente da lareira, batendo com as luvas na perna.
    -  como se eles soubessem com antecedncia os meus movi-
    mentos - disse ele. - Se eu lhes confiasse meus pensamentos no estariam mais bem-informados.
    Parou de repente e olhou para Aislinn.
    -  Como podem saber, a menos que... - Balanou a cabea. - Quem poderia inform-los? - Deu mais alguns passos pela sala, depois virou outra vez para Aislinn: 
- Quem saiu da cidade?
    Ela deu de ombros.
    -  No prestei muita ateno, mas o povo ficou perto do castelo, e a maioria estava a p.
    Wulfgar insistiu na pergunta.
    -  Kerwick, talvez? Maida?
    Aislinn balanou a cabea vigorosamente.
    -  No. Kerwick passou o dia todo com Beaufonte, no castelo, e Maida aqui, com Bryce.
    -  Foi s uma idia - suspirou Wulfgar.
    Ele mandou Sanhurst chamar Bolsgar e Sweyn. Subiu com eles para o alto da torre, onde ningum podia ouvi-los. Wulfgar olhou para suas terras.
    -  Esta pequena propriedade me pertence, e no posso defend-la de um bando de soldados desertores. Nem os vigias esto nos servindo como espervamos.
    -  Eles s nos informam sobre bandos de homens - disse Bolsgar. - Se os flamengos entrarem na cidade, um de cada vez, ou aos pares, com capas normandas, no 
sero notados, e quando voltassem ao bando seria muito tarde para intercept-los.
    -  Tem razo-concordou Wulfgar.-Vamos deixar ento que os vigias informem sobre todos os cavaleiros que virem e a direo que tomam. Precisaremos criar mais 
alguns sinais, mas voc pode se encarregar disso, Bolsgar.
    -  Wulfgar - disse Sweyn. - Uma coisa me preocupa. Todos na cidade sempre souberam dos seus planos e nunca fomos atacados de surpresa. Deve haver um traidor 
entre ns. Desta vez, no vamos dizer a ningum para onde vamos.
    -  Est certo, Sweyn, e eu s queria saber quem  esse judas. - Wulfgar bateu com o punho fechado na grade da torre. - Ou talvez algum conhea os nossos sinais. 
Mas, se fosse esse o caso, seria mais simples matar os vigias ou entrar no castelo por meio deles. Amanh faremos como voc disse. No conte a ningum nossa deciso. 
-

    Voltou-se para Bolsgar. - No deixe nenhum vigia avisar para onde estamos indo e veremos o que acontece.
    Depois de terem providenciado para que o dia seguinte fosse melhor, encontraram-se no salo e fizeram justia  arte culinria de Haylan. Terminada a refeio, 
Wulfgar tirou Bryce dos braos da me e os trs subiram para o quarto. Bolsgar e Sweyn trocaram olhares significativos e, erguendo os copos, brindaram em silncio.
    Bryce ria satisfeito, brincando com Wulfgar na manta de pele, ao lado da lareira. Quando o menino se cansou e bocejou, Aislinn o deitou no bero. Serviu um copo 
de vinho para o marido e sentou-se no cho, na frente dele. Wulfgar ps o copo de lado e a abraou e beijou, Com um suspiro, Aislinn passou a mo carinhosamente 
no rosto dele.
    -  Est cansado, meu senhor?
    -  Voc pe na minha taa um elixir da juventude - murmurou Wulfgar, acariciando-lhe o rosto com os lbios - que me faz sentir como se o dia estivesse apenas 
comeando. - Abriu os cordes da tnica dela, descobrindo os seios.
    Abraaram-se, seus lbios se encontraram, e o som e a fria de seu amor nem por um momento acordaram Bryce.
    No dia seguinte, Wulfgar saiu com seus homens logo depois do nascer do sol, e esperaram num pequeno bosque o primeiro sinal dos vigias. A primeira casa acabava 
de ser incendiada quando chegaram. Os montes de feno tinham sido espalhados, e tudo indicava que os assaltantes haviam partido s pressas. Eles apagaram o fogo, 
salvando boa parte da casa.
    O sinal brilhou no topo de uma colina, e Wulfgar e seus homens montaram outra vez. Dessa vez, a casa no fora queimada, mas uma pequena fogueira para acender 
as tochas ardia ainda. Outra vez os assaltantes se espalharam pela floresta, mas, com a pressa, deixaram uma pista da direo que haviam tomado. Entusiasmados com 
o sucesso do novo plano, os normandos partiram velozmente em perseguio do inimigo. A um novo sinal, foram para o sul,e desta vez viram as cores de Flandres quando 
o bando se reuniu e fugiu. Os assaltantes se espalharam outra vez, e os homens de Wulfgar alargaram o cerco.
    Outro sinal cintilou. Wulfgar reuniu seus homens, e seguiram para o norte. Chegaram ao topo de uma colina no momento em que os assaltantes se reuniam, e a caada 
recomeou. Os ladres fugiram para as margens do pntano e espalharam-se outra vez. Os homens de Wulfgar encontraram dois flamengos escondidos e, quando eles ergueram 
as lanas, foram abatidos por vrias flechas certeiras, que atravessaram suas tnicas de couro. Wulfgar confirmou que eram flamengos, mas no tinham nenhuma cota 
de armas ou braso que indicasse quem era seu lder.
    Os outros conseguiram fugir, e Wulfgar e seus homens, enquanto esperavam novos avisos dos vigias, pararam para descansar os cavalos e para uma breve refeio. 
Continuaram, cada vez mais perto dos assaltantes, e assim foi aquele dia, at o comeo da noite. Voltaram para o solar, e Wulfgar sentia-se agora mais seguro. Os 
assaltantes no tiveram tempo para descansar nem comer, e no podiam providenciar nada a esse respeito, pelo menos at o nascer do dia. Wulfgar prometeu que ia persegui-los 
sem trgua, at eles abandonarem suas terras ou se renderem. Quanto ao possvel traidor, depois de considerar e rejeitar vrios nomes, Wulfgar no chegou a nenhuma 
concluso, mas elaborou um plano.
    J era tarde quando ele levou Bolsgar e Aislinn para um passeio na noite fria iluminada pela lua cheia.
    -  Temos um traidor entre ns-disse ele.-Resolvi fazer com que meus homens saiam de dois em dois, antes da primeira luz do dia, e esperem alm da colina. Eu 
saio com Gowain e Sweyn, como se fssemos procurar algum sinal dos atacantes.
    Aislinn foi contra o plano e segurou no brao dele.
    -  Mas, Wulfgar,  perigoso sair s com dois homens. Os assaltantes so mais de vinte.  loucura.
    -  No, meu amor. Pretendo me juntar aos meus homens e seguir lentamente para leste, na direo de Cregan, onde os vimos pela ltima vez. Devem ter acampado 
por perto. Voc e Bolsgar vigiam o solar e a cidade. Se algum sair, vocs mandam um cavaleiro me avisar. Sabendo que eles foram avisados, seguiremos velozmente 
para impedir que continuem a destruio. Talvez possamos matar alguns, e sabendo quem  o informante o dia ser nosso.
    Bolsgar concordou, e Aislinn tambm, depois de se convencer de que Wulfgar no ia correr perigo algum. Wulfgar ps a mo no ombro dela.
    -  Muito bem, ns os venceremos.
    Wulfgar levantou-se muito antes do nascer do sol e chegou  janela para ver seus homens partindo, em grupos de dois e trs, escondidos pela noite e em silncio. 
Quanto todos tinham sado e a primeira luz do dia expulsou as estrelas no leste, ele se vestiu, saiu do quarto com o peitoral na mo e desceu com Aislinn para o 
desjejum. Logo chegaram Bolsgar, Sweyn e Beaufonte. Gwyneth desceu sonolenta, esfregando os olhos e bocejando, como se as vozes dos homens a tivessem acordado. Quando 
estavam todos sentados  mesa, Wulfgar levantou-se.
    -  Venha, Sweyn. Os ladres no vo esperar que acabemos de comer. Vamos chamar Sir Gowain e ver se conseguimos encontrar os rebeldes.
    Sweyn levantou resmungando e Wulfgar vestiu o peitoral, ps o capuz e o elmo. O viking apanhou a espada e experimentou o corte do machado com um brilho nos olhos 
azuis.
    -  Ela parece ansiosa para morder hoje - riu ele, referindo-se ao machado, que para ele era feminino. - Talvez encontremos uma ou duas cabeas para abrir ao 
meio.
    Gwyneth zombou:
    -  Espero que tenham mais sucesso do que nos ltimos dias. Estou convencida de que terei de trancar as portas de Darkenwald para defender minha virtude de um 
miservel bando de abutres.
    Wulfgar sorriu com ironia.
    -  Por favor, mana, no fique nervosa. Esse perigo me parece pouco provvel, e tenho certeza de que no tem com que se preocupar.
    Gwyneth fuzilou-o com os olhos, e Sweyn riu.
    -  No, Wulfgar, ela no est preocupada. Apenas conta ansiosamente o tempo at a chegada deles.
    Sweyn saiu, seguido por Wulfgar e Gowain, e todos viram quando os trs foram para oeste.
    Bolsgar ficou na torre do solar com um sinaleiro, observando o povoado. Beaufonte cavalgou para o castelo, e Aislinn sentou-se na frente da janela do quarto, 
com as venezianas entreabertas, de onde avistava a parte mais baixa do povoado e o caminho para o pntano e para a floresta. No via a cabana de Maida e preocupava-se 
com a idia de que a me tivesse encontrado um meio de se vingar de Wulfgar. No conseguiu prestar ateno  costura que tinha no colo. Temia que alguma coisa sasse 
errada e Wulfgar casse numa armadilha. No podia aceitar a idia de perd-lo, e sua ansiedade crescia a cada momento.
    De repente viu um movimento na moita espessa da margem do pntano. Uma mulher caminhava sorrateiramente na sombra. Com um
    frio no corao, pensou em Maida, e procurou distinguir alguma caracterstica nos movimentos da mulher que indicasse sua identidade. Mas ela estava envolta num 
manto escuro e amplo. Talvez no fosse Maida. Haylan? Teria ela encontrado um lorde flamengo?
    O vulto atravessou um pedao de campo aberto e Aislinn viu que no era Maida porque movia-se com uma leveza e agilidade que sua me no possua mais. A mulher 
parou e olhou para trs. Aislinn conteve uma exclamao de espanto. Mesmo quela distncia e na sombra, ela reconheceu o rosto magro e fino de Gwyneth.
    Aislinn viu a mulher entrar no bosque de salgueiros e se encontrar com um homem com roupas de campons. Conversaram por um momento e o homem desapareceu na floresta. 
Gwyneth esperou ainda algum tempo e depois voltou para o solar.
    Depois de se certificar de que Bryce dormia ainda, Aislinn saiu do quarto e chamou Bolsgar, na torre. Ela o esperou andando de um lado para o outro na frente 
da lareira, pensando no melhor meio de dizer a ele o que acabava de descobrir.
    -  O que aconteceu, menina? - perguntou ele. - Preciso ficar vigiando para descobrir o traidor e no confio em nosso vigia.
    Aislinn respirou fundo.
    -  Sei quem  o traidor, meu bom Bolsgar. Eu vi... - hesitou, e depois continuou, falando muito depressa. - Gwyneth. Vi quando se encontrou com um homem na 
entrada do pntano.
    Bolsgar curvou os ombros, e os olhos que refletiam a agonia da sua alma examinaram Aislinn atentamente, para verificar se ela estava mentindo, mas viu apenas 
dor e simpatia por seu sofrimento.
    -  Gwyneth - murmurou ele. -  claro. S podia ser.
    -  Logo ela estar aqui - avisou Aislinn.
    Bolsgar fez um gesto afirmativo, com olhar distante. Ficou de p na frente da lareira, com os ombros curvados, olhando tristemente para o fogo.
    Gwyneth abriu a porta e entrou na sala, cantarolando baixinho. Estava quase bonita, com o rosto corado e o cabelo longo e louro descendo at os ombros. Bolsgar 
virou-se rapidamente, e seus olhos fuzilavam sob as sobrancelhas unidas.
    -  O que o preocupa, meu pai? - perguntou Gwyneth alegremente. - O desjejum est ainda em seu estmago?
    -  No, filha - rosnou ele. - Outra coisa tortura meu corao. O traidor que entrega a prpria famlia.
    
    Gwyneth arregalou os olhos e virou para Aislinn.
    -  Que mentiras andou inventando agora, sua ordinria? - perguntou, com desprezo.
    -  No  mentira! - exclamou Bolsgar. - Eu a conheo melhor do que qualquer outra pessoa e sei que em toda a sua vida jamais se preocupou com outra coisa que 
no fossem seus prprios interesses. Sim! Traidora, eu acredito. Mas por qu? - Deu as costas a ela. - Porque ajuda uma causa que s pode trazer morte  nossa terra? 
Quem so os seus amigos? Primeiro aquele mouro grosseiro, Ragnor, e agora um flamengo!
    Aislinn viu Gwyneth ergueu o queixo com um brilho orgulhoso no olhar quando o pai mencionou o nome de Ragnor. Ento, tudo comeou a fazer sentido. Aislinn tinha 
a resposta para todas as perguntas e sabia o motivo da traio de Gwyneth.
    -   Ragnor! Ele comanda os assaltantes! Quem mais podia conhecer to bem estas terras e a localizao de cada casa? Ela est nos traindo com Ragnor.
    Bolsgar virou-se outra vez para a filha.
    -  Juro por Deus - disse ele, emocionado - que voc fez deste dia o mais negro da minha vida.
    -  Mais negro do que o dia em que descobriu que seu filho era bastardo? - zombou ela, continuando com orgulho. - O senhor, ele e essa rameira sax roubaram o 
pouco orgulho que me restava. Eu no sou nada neste solar, do qual devia ser a dona. Fui proibida de responder s mentiras e calnias dos outros. Meu prprio pai 
riu como uma criana idiota quando me privaram de todos...
    A mo de Bolsgar atingiu em cheio a boca da filha, e Gwyneth cambaleou at a mesa.
    -  No me chame mais de pai - disse ele. - Nego que seja minha filha, ou mesmo minha parenta.
    Gwyneth apoiou o brao na mesa e olhou para ele com dio.
    -  Ama tanto assim Wulfgar, embora o mundo todo saiba que  um bastardo? - Passou a mo na marca deixada pelos dedos do pai. - Pois ento procure alongar este 
dia o mais possvel, porque quando chegar a noite ele estar morto.
    Aislinn sobressaltou-se.
    -  Armaram uma cilada para ele. Oh, Bolsgar, vo atra-lo e mat-lo!
    Chegou muito perto de Gwyneth e, com os olhos entrecerrados e a mo apoiada no cabo da adaga, perguntou:
    -  Onde, sua cadela? - Nesse momento desapareceram toda a suavidade e gentileza de Aislinn. - Diga onde ou vou abrir um buraco em sua garganta para o vento assobiar 
por ele.
    Gwyneth estremeceu, lembrando os acessos de raiva de Aislinn.
    --  tarde demais para ajudar meu irmo bastardo, por isso vou dizer o que quer ouvir. Talvez ele j esteja morto agora, na floresta perto de Cregan.
    Gwyneth abaixou os olhos e deixou-se cair na cadeira, cruzando as mos no colo. Aislinn fez mais perguntas, enquanto Bolsgar olhava incrdulo para a filha. Quando 
Gwyneth no tinha nada mais para dizer, Aislinn voltou-se para Bolsgar.
    -  V at ele, Bolsgar. Escolha o cavalo mais veloz e v avis-lo. Ainda h tempo, uma vez que esto cavalgando devagar  espera do sinal.
    Sem outro olhar para a filha, Bolsgar apanhou o manto e o elmo e saiu.
    Wulfgar saiu de Darkenwald e seguiu para oeste, enquanto podia ser visto da cidade, depois fez uma volta e juntou-se aos seus homens. No tinha pressa, e disps 
guardas para proteger os flancos e prevenir uma cilada. Cavalgava lentamente, parando muitas vezes, examinando as colinas e a estrada.
    O primeiro sinal de um cavaleiro foi uma nuvem de poeira na sua retaguarda, e eles pararam e esperaram. Surpreso, Wulfgar viu que era Bolsgar. O velho lorde 
fez seu cavalo parar ao lado do normando.
    -  Ragnor  o lder dos vndalos - disse ele, ofegante. - E foi Gwyneth quem nos traiu. Os flamengos armaram uma cilada para voc perto de Cregan. Vamos continuar 
e explico tudo no caminho.
    Wulfgar esporeou Huno, e Bolsgar relatou tudo que tinha acontecido em Darkenwald. Quando ele terminou, Wulfgar cavalgou em silncio, pensando na traio de Gwyneth. 
Uma coluna de fumaa se ergueu alm da floresta, confirmando o que Bolsgar acabava de dizer. Chegando na entrada da floresta, Wulfgar mandou parar seus homens e 
ordenou rapidamente:
    -  Bolsgar! Sweyn! Fiquem comigo. Verifiquem suas armas! Gowain! Milboume! Escolham metade dos homens e entrem na floresta. Quando ouvirem meu chamado, ataquem 
com lana e espada. Ns os traremos para o campo aberto.
    
    
    A floresta estava quieta e sinistra. O menor rudo ecoava em cada rvore. Por todo o lado viam carvalhos enormes com os troncos cobertos de musgo. rvores cadas 
bloqueavam constantemente o caminho, porm o mais impressionante era a ausncia de animais. No se via nenhuma lebre, nenhum pssaro cantava ou fugia assustado. 
Apenas silncio e os homens.
    O grupo de Wulfgar saiu da trilha, embrenhando-se na floresta escura, onde em raros pontos os raios do sol penetravam as copas das rvores. Seguiram em paralelo 
 trilha at avistarem a luz do sol ao longe e as runas de Cregan entre os arbustos. Voltaram ento e seguiram em silncio, at ouvirem vozes  frente. A primeira 
carga seria com todos os homens montados e, quando o inimigo estivesse em campo aberto, os arqueiros desmontariam para atirar suas flechas.
    Esperaram. A tenso crescia a cada momento. Quando Wulfgar calculou que os outros j deviam estar em suas posies, seu grito de guerra ecoou na floresta. Todos 
ao mesmo tempo, os homens inclinaram-se para a frente nas selas e esporearam suas montarias para o ataque.
    No meio da floresta, era como se milhares de homens estivessem atacando, e comeou o louco caos da batalha. A sombra com poucas manchas de sol contribuiu para 
a confuso, e apareciam cavaleiros de todos os lados, por toda a parte. Os rebeldes, vendo a inutilidade de resistir naquele lugar, fugiram para o campo aberto, 
prximo da cidade destruda.
    O cavaleiro que os comandava deu ordem a seus homens para formarem uma parede de escudos. Alguns ficaram dentro do crculo, com os arcos retesados. Tinham deixado 
os cavalos na floresta e estavam agora completamente expostos ao inimigo.
    Wulfgar fez seus arqueiros desmontarem na entrada da floresta, onde tinham bastante proteo e cobertura. Avanou com seus cavaleiros, Bolsgar  esquerda, Sweyn 
 direita e Gowain e Milbourne nas duas extremidades. Ergueu a haste com seu estandarte e gritou:
    -  Entreguem-se! Vocs esto perdidos. O nico cavaleiro do grupo respondeu:
    -  No. J ouvimos falar da justia usada por Guilherme para castigar assaltantes. Preferimos morrer aqui a morrer com a lmina do machado. - Ergueu o escudo 
e a espada e acrescentou: - Venha para a matana, normando.
    Wulfgar olhou para a direita, depois para a esquerda. Abaixou a
    lana, e uma chuva de flechas caiu sobre o inimigo. Esporeou Huno e atacou. Sua lana longa atingiu a lana mais curta do homem  sua frente e o derrubou, abrindo 
a barreira de escudos. Enfrentaram os defensores e voltaram rapidamente para nova carga. O cavaleiro tentou formar seus homens outra vez, mas Wulfgar e seus cavaleiros 
no deram trgua. Dessa vez, o normando atingiu no o centro, mas um dos cantos do quadrado. Derrubou um homem, continuando o avano para atacar os outros. Deixando 
cair a lana, desembainhou a espada longa e larga e abriu caminho, ajudado pelo mpeto de Huno. Metade dos arqueiros normandos desembainhou as espadas e, com a lmina 
e a lana, na luta. A outra metade ficou onde estava, atirando as flechas quando viam um espao aberto ou quando um inimigo tentava fugir.
    S se ouvia no campo de batalha agora um gemido ou outro, e s o cavaleiro inimigo estava de p. Quando Wulfgar recuou, acompanhado por seus homens, ele apoiou 
os braos no punho da espada e a ponta da lmina no cho. Sem uma palavra, Wulfgar aceitou o desafio e desmontou, com o escudo e a espada. O cavaleiro no estava 
 altura de Wulfgar, mas morreu com honra.
    Sweyn e Bolsgar procuraram Ragnor ou Vachel entre os mortos e feridos, mas no os encontraram. Trs normandos foram mortos, e os seis feridos podiam montar. 
Recolheram as armas e as armaduras dos flamengos e os mortos foram enfileirados para esperar que abrissem seus tmulos. Wulfgar, inquieto na sela, perscrutou o horizonte, 
imaginando onde poderiam estar Ragnor e Vachel.
    Aislinn andava de um lado para o outro, na sala, com a mente em turbilho. Wulfgar estava em perigo, e tudo por causa da loucura de uma mulher. Virou para Gwyneth, 
disposta a censur-la duramente mais uma vez, mas viu que ela olhava fixamente para a porta. Aislinn seguiu o olhar dela mas no viu nada. Gwyneth abaixou os olhos 
para as mos cruzadas no colo. Aislinn sentou-se e apanhou seu bordado, vigiando Gwyneth entre um ponto e outro. A irm de Wulfgar estava sentada, quieta, mas vez 
ou outra olhava para a porta.
    -  Ns sabamos que havia um traidor aqui dentro, Gwyneth - disse Aislinn. - Wulfgar est cavalgando devagar  espera do nosso aviso.  mais provvel que seu 
Ragnor encontre seu fim hoje.
    -  Ragnor no vai morrer - disse Gwyneth, com um pequeno movimento.
    

    
    -  Os homens saram mais cedo para esperar Wulfgar alm da colina - disse Aislinn, continuando a bordar e vigiando Gwyneth cuidadosamente.
    -  Ragnor no vai morrer.
    Aislinn bateu com as mos abertas nos braos da cadeira e levantou-se bruscamente, atraindo a ateno de Gwyneth.
    -  Ragnor no vai morrer-repetiu Aislinn - porque est vindo para c!
    A expresso de triunfo de Gwyneth disse a Aislinn que ela estava certa. Imediatamente mandou o sentinela da torre chamar Beaufonte. Enquanto esperava, no tirou 
os olhos de Gwyneth nem a mo do punho da adaga. Ouviram o tropel de cavalos no ptio e Aislinn desembainhou a arma, pronta para lutar se Ragnor entrasse na sala. 
Para seu alvio, quem entrou foi Beaufonte com outro homem. O cavaleiro olhou em volta e, no vendo motivo para alarme, olhou interrogativamente para Aislinn.
    -  Minha senhora?
    Todos se voltaram quando Kerwick chegou apressado com o sentinela. Os homens olharam para Aislinn.
    -  Ragnor est vindo para c enquanto seus homens se preparam para apanhar Wulfgar numa cilada-disse ela.-Precisamos impedir que ele entre.
    Todos correram para fechar as janelas, e Beaufonte ps a barra pesada na porta. Aislinn lembrou da noite em que Ragnor atacara o solar, e quase podia ouvir o 
estalo da porta estilhaando-se sob as pancadas de um arete. Ainda bem que sua me estava a salvo na cabana. Sua mente no suportaria outra noite de horror. Aislinn 
tentou lembrar de mais alguma coisa que garantisse a defesa do solar e disse:
    -  Beaufonte, os vigias! Mande uma mensagem para Wulfgar e vamos rezar para que ele veja o sinal!
    Beaufonte fez sinal para o vigia e o homem desceu para falar com ele. Estavam determinando qual seria a mensagem quando, com uma batida violenta na porta, Ragnor 
exigiu que a abrissem. Antes que pudessem impedir, Gwyneth correu e tirou a tranca. A pesada porta de carvalho se abriu e apareceram dois homens estranhos, seguidos 
por Ragnor, Vachel e outros dois. Estavam todos vestidos como normandos, mas Beaufonte desembainhou a espada. Um dos homens atrs de Ragnor atirou uma lana e matou 
o vigia. O homem que estava com Beaufonte lutou bravamente, mas foi morto por Vachel. Beaufonte
    ficou sozinho lutando contra Ragnor e os outros, enquanto Kerwick empurrou Aislinn para a escada. Vachel foi para o lado e ficou atrs de Beaufonte. Segurando 
a espada com as duas mos, ele a baixou sobre as costas do cavaleiro, e a lmina atravessou a cota de malha, atingindo o pescoo. Beaufonte caiu com um grito de 
alarme, olhou para o teto, seus olhos perderam o brilho e sua respirao cessou.
    Kerwick empurrou Aislinn para dentro do quarto e fechou a porta. Depois, apanhando um velho escudo e uma espada que estavam no corredor, esperou o inimigo, para 
det-lo o maior tempo possvel. Dois homens avanaram para ele, seguidos de perto por Ragnor.
    -  Co saxo, desista disso - disse Ragnor com um sorriso confiante. - O que vai ganhar defendendo a dama? De qualquer modo, eu a terei quando voc estiver morto.
    Kerwick no se moveu.
    -  Se a vida  tudo que posso dar por ela, que seja. Venha, Ragnor, espero por este momento desde que voc roubou minha noiva.
    -  Voc tambm, saxo? - zombou Ragnor. - Ser que todo mundo est apaixonado pela mulher?
    Kerwick desviou um golpe de lana e enfiou a ponta de sua espada na barriga de um dos homens. O flamengo caiu, mas Ragnor atacou com a espada e partiu a de Kerwick 
junto ao punho. O segundo golpe atingiu o escudo, mas a lana do outro assaltante burlou a guarda de Kerwick e o derrubou. Com o sangue escorrendo da cabea, ele 
rolou no cho, e Ragnor, passando por cima dele, adiantou-se para abrir a porta do quarto.
    Aislinn reprimiu uma exclamao de espanto, e Ragnor caminhou para ela com um largo sorriso.
    -  Eu disse que voc seria minha - riu ele. - Chegou a hora. Os olhos dela brilharam de raiva, mas no deixou transparecer o
    medo que sentia. Um movimento no bero fez Ragnor parar e levantar a espada. Com um grito, Aislinn avanou e segurou o brao dele, mas Ragnor empurrou-a com 
as costas da mo e ela caiu perto da cama, com um filete de sangue escorrendo da boca.
    -  Seria capaz de matar seu prprio filho? - perguntou ela.
    -  H uma possibilidade de que seja meu, mas h tambm alguma dvida - respondeu ele, calmamente. - Ele estar melhor morto do que como filho de Wulfgar.
    Ragnor ergueu a espada outra vez.
    -  No! - gritou Aislinn.

    Alguma coisa na voz dela o fez parar. Aislinn segurava a adaga contra o prprio peito, e ele viu a ameaa nos olhos dela.
    -  Toque a criana e eu me mato. Voc conhece Wulfgar, e sabe que, se eu morrer, ele o encontrar, nem que seja no mais escuro canto do inferno.
    Ele riu cruelmente.
    -  Aquele bastardo no me preocupa. Neste momento, meus homens esto enchendo de terra o seu tmulo.
    -  Cuidado, meu amor - disse Gwyneth, na porta. No queria deixar Ragnor com Aislinn por muito tempo. - Wulfgar foi avisado. Eles descobriram que eu os estava 
traindo e meu pai foi avis-lo. Sabiam que devia ser algum aqui de dentro e me armaram uma cilada.
    Ragnor embainhou a espada e ficou pensativo por um momento.
    -  Isso no  bom para ns, meu bem - disse. - Se conheo a sorte do bastardo, ele vai sobreviver, e em vez de manter a mulher dele como refm, para que ningum 
nos impea de queimar toda a cidade, acho que temos de fugir. Perdi os poucos homens que me restavam, para matar Wulfgar.
    Olhou para Aislinn com Bryce nos braos e compreendeu que seria difcil separ-la do filho, e seu tempo era agora precioso. Voltou-se para Gwyneth.
    -  V apanhar comida. Procuraremos Edgar e seus escoceses do norte e nos uniremos a eles. Depressa, meu bem. Temos pouco tempo.
    - Voltou-se para Aislinn. - Traga o menino! Ser refm como voc, embora eu duvide que para Wulfgar ele seja mais do que um estorvo.
    - Acrescentou com voz ameaadora: - Mas quero avisar, meu bem, se quer que seu filho viva, no faa nada para nos denunciar ou marcar nosso caminho.
    Aislinn respondeu com altivez:
    -  Voc mesmo marca o caminho por onde passa. Meu filho no ser nenhum estorvo. Mas posso deix-lo aqui. Outros vo chegar e cuidaro dele. - Procurou falar 
casualmente: - Wulfgar pensa que  seu e no d muita importncia a ele, mas tenho certeza de que no o deixar passar necessidade.
    Ragnor entrecerrou os olhos, desconfiado.
    -  A querida Gwyneth no  da mesma opinio. Ela disse que deu seu nome ao menino e ultimamente tem demonstrado gostar muito dele. Acho que vamos lev-lo.
    -  Aquela cadela tem cuidado bem de voc - sibilou Aislinn.
    -  No fale mal dela, meu amor. Gwyneth tem me servido fielmente.
    -  Sim - disse Aislinn, furiosa. - Mas no serviu a mais ningum, e acho que nem a si mesma.
    -  Ela quer o mundo aos seus ps. E quem pode negar alguma coisa quela flor to delicada? - O tom de sua voz negava as palavras. - Chega de perder tempo - disse, 
com aspereza. - Apanhe o que quiser, mas depressa. Estou farto de conversa.
    Aislinn fez uma trouxa de roupas para Bryce e apanhou sua manta forrada de pele para agasalhar os dois.
    -  Isso chega - disse ele. - No vai precisar de mais nada. Aislinn saiu do quarto na frente dele, e Ragnor empurrou-a quando
    ela fez meno de ajoelhar-se ao lado de Kerwick, no dando tempo tambm para que ela olhasse para Beaufonte.
    Gwyneth j estava montada na gua malhada de Aislinn. Vestia um bom vestido, comprado com o dinheiro que Wulfgar deixara quando fora a Londres com Guilherme. 
Ragnor ergueu Aislinn e Bryce para as costas da pequena gua. Gwyneth olhou desconfiada quando ele ajustou o estribo para Aislinn e disse:
    -  No esquea, minha avezinha, eu mato a criana se me der algum motivo.
    Aislinn fez um gesto afirmativo, e Ragnor montou. Gwyneth atrasou a partida por mais alguns minutos. Tirou a capa de l dos ombros e trocou-a pela de Aislinn, 
forrada de pele. Ragnor observou, com um sorriso zombeteiro. Gwyneth ps sua montaria ao lado da dele e sorriu.
    -  No estou elegante agora, meu amor? - perguntou, faceira. Ragnor riu mas olhou para Aislinn por cima da cabea de Gwyneth.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
   Captulo Vinte e Cinco




    WULFGAR OLHOU para as colinas outra vez, com a impresso de ouvir vozes dentro da cabea. Concentrou-se para ouvir melhor, e as palavras soaram claras. Ragnor!
Aislinn! Bryce! Darkenwald! Ouviu os nomes um depois do outro, e sabia agora onde Ragnor estava.

    Huno bufou surpreso quando Wulfgar puxou as rdeas bruscamente e gritou para Bolsgar:
    - Fique aqui e providencie para enterrar esses homens. Eles lutaram bravamente. Milbourne, fique com ele e com dez homens para cavar os tmulos. O resto vem 
comigo.
    Sweyn, Gowain e uns quinze cavaleiros montaram, alguns feridos, mas ansiosos para lutar. Cavalgaram velozmente, sem dar descanso aos cavalos at chegarem ao 
ptio do solar. Wulfgar notou que ningum na torre tinha avisado sua chegada e que Aislinn no estava na porta para receb-lo. Afastou os pensamentos funestos, apeou 
e entregou as rdeas para Sweyn. Entrou na sala e o que viu excedeu de muito seus temores.
    Wulfgar sentiu o sangue gelar nas veias. A sala estava em completa desordem, e o vigia morto na porta de entrada para a torre. Beaufonte estava deitado num mar 
de sangue, com os olhos abertos. No meio da escada, Haylan tratava do ferimento de Kerwick, que ia da testa at o queixo. Ele segurava ainda o punho da espada quebrada. 
Um estranho estava cado no topo da escada, com a lmina da velha espada enfiada na barriga. Miderd torcia as mos em desespero, e Maida encolhia-se num canto.
    -  Foi Gwyneth! - gritou Haylan. - Aquela cadela, Gwyneth, abriu a porta para eles. E ela foi com eles. - Um soluo fez tremer sua voz. - Levaram Lady Aislinn 
e Bryce.
    Wulfgar estava calmo, quieto demais. Mas empalideceu, e seus olhos pareciam de ao polido. At Maida, em seu canto, viu a morte neles.
    Haylan continuou, chorando e soluando:
    -  Eles levaram o beb, e eu o ouvi dizer que vai matar Bryce se ela criar problemas.
    Wulfgar perguntou em voz baixa, quase suave:
    -  Quem, Haylan? Quem disse isso? Ela olhou para ele surpresa e disse:
    -  Aquele que veio com o rei... Ragnor. Estava com outro cavaleiro e quatro homens. Beaufonte matou um deles antes de ser morto e o outro caiu sob a espada de 
Kerwick. Os outros pegaram Aislinn e o menino e fugiram.
    Haylan continuou a tratar do ferimento de Kerwick. O tempo todo, Maida, agachada, balanava o corpo ao lado do bero, gemendo baixinho e puxando os cabelos. 
Wulfgar aproximou-se e olhou para seu xerife.
    -  Kerwick?
    O jovem abriu os olhos e disse, com um sorriso plido:
    -  Eu tentei, meu senhor, mas eles eram muitos. Eu tentei...
    -  Descanse, Kerwick - murmurou Wulfgar, pondo a mo em seu ombro. - Voc foi duas vezes castigado por causa de minha mulher.
    Sweyn irrompeu na sala com o machado na mo e a morte nos olhos.
    -  Eles mataram o cavalario. Um menino desarmado. Cortaram sua garganta.
    Arregalou os olhos quando viu Beaufonte e praguejou furioso. Wulfgar olhou outra vez para seu cavaleiro morto, com o corao apertado, mas disse com voz de comando:
    -  Alimente e escove Huno e seu cavalo. - Depois, acrescentou: - Nada de armadura, nada de alforjes. Vamos viajar com o mnimo de peso.

    O viking inclinou a cabea num gesto afirmativo e saiu. Wulfgar
    disse para Miderd:
    -  Apanhe na despensa algumas tiras de carne de veado. Traga duas sacolas pequenas com farinha e dois odres com gua.
    Antes que Miderd tivesse tempo de fazer um movimento, Wulfgar subiu para seu quarto. Voltou logo depois sem cota de malha nem elmo, apenas com uma capa e uma 
camisa de pele de cora sob um gibo de pele de lobo preso por um cinto do qual pendiam a espada e a adaga afiada. Sobre as botas de pele de cora, usava perneiras 
de pele de lobo amarradas  moda dos vikings. Passou por Haylan e Kerwick e disse com voz rouca e spera:
    -  Esta  uma coisa que venho adiando h muito tempo; agora chegou a hora. At a minha volta, Kerwick, tome conta deste solar. Bolsgar e meus cavaleiros o ajudaro.
    Apanhou as sacolas e os odres das mos de Miderd e saiu sem dizer mais nada. No estbulo, dividiu as provises com Sweyn e viu com aprovao que o viking estava 
vestido quase como ele, e inclura um bom saco de rao para os cavalos. Os dois montaram e partiram.
    Bolsgar terminou o trabalho e saiu do campo de batalha, agora em paz, com as sepulturas bem marcadas. Deixou no estbulo os vinte cavalos carregados com tudo 
que o inimigo tinha roubado e entrou na sala. Kerwick estava sentado  mesa, ainda plido e abatido. Haylan amarrou a ltima atadura na cabea do jovem, depois sentou-se 
e segurou-lhe a mo.
    O velho saxo ouviu a histria de Kerwick com o sofrimento e a vergonha estampados no rosto.
    - Gwyneth  minha filha, e eu preciso resolver isso - murmurou ele. - Wulfgar pode perdo-la, mas eu no perdo. Vou atrs dele e, se Wulfgar hesitar, eu me 
encarrego de acabar com a vida da traidora.
    Subiu para o seu quarto e desceu logo depois. Saiu de Darkenwald levando apenas um saco com sal, um arco forte e sua espada.
    Ragnor cavalgava como se todos os demnios estivessem no seu encalo e se irritava com qualquer demora. No era fcil para Aislinn conduzir o cavalo com Bryce 
no colo. Ela reclamou quando Ragnor chicoteou sua montaria, fazendo-a galopar, mas sabia que ele no hesitaria em usar a espada se ela o aborrecesse.
    Continuaram a fuga, passando ao largo de Londres e das patrulhas
    normandas. Paravam algumas horas  noite e ao nascer do dia e, depois de um desjejum apressado de cereal frio e carne, prosseguiam a viagem. Era conveniente 
para Aislinn essa brevidade das horas de descanso. Pelo modo com que Ragnor olhava insistentemente para ela, tinha certeza de que tentaria domin-la se tivessem 
mais tempo. Aislinn percebia os olhares vidos de Ragnor mesmo quando ele estava deitado ao lado de Gwyneth, e de madrugada, quando ela amamentava Bryce, ele sempre 
procurava estar por perto.
    Bryce dormia quase o tempo todo, mas quando acordava chorava berros altos brados, impaciente com aquela inatividade no colo da me. Ragnor ficava cada vez mais 
selvagem, e at Gwyneth, que at ento viajara em silncio, comeava a sentir os efeitos de sua ira. Aislinn tentava imaginar o que ele pretendia fazer. Talvez conseguisse 
chegar s colinas do norte para uma vida rude nas terras ridas, roubando para sobreviver, ou juntar-se ao Prncipe Edgar, mas sempre haveria Wulfgar.
    Pensando nele, seus olhos encheram-se de lgrimas. Desejava ardentemente que ele a libertasse e ao filho. Na verdade, no sabia se Bolsgar chegara a tempo para 
avis-lo da cilada. No sabia se ele estava vivo e tremia quando Ragnor falava do que tinha preparado para Wulfgar.
    O sol estava alto e a poeira subia da estrada. Bryce acordou impaciente e choramingou porque queria sair do colo da me, ansioso por movimento.
    Ragnor virou-se na sela e vociferou:
    -  Faa esse bastardo parar de chorar!
    Aislinn comeou a cantar em voz baixa, embalando o filho, e finalmente Bryce adormeceu. Acabavam de deixaras terras baixas dos rios e entravam agora na regio 
das charnecas e das colinas do interior. Passaram por uma pequena cidade em runas. Quando atravessavam a passo lento o que devia ter sido a praa principal, uma 
velha enrugada surgiu das sombras. Tinha s um olho, e o brao direito pendia inerte e intil. Segurava na mo esquerda uma tigela de madeira que estendeu para Ragnor.
    -  Uma esmola, meu senhor? - pediu ela com um sorriso nos lbios deformados. - Uma esmola para uma pobre velha...
    Ragnor estendeu a perna para afast-la com um pontap, mas a mulher, com uma agilidade inesperada, desviou o corpo. Aislinn parou e, quando a mulher repetiu 
o pedido, jogou para ela um pedao de po, compreendendo que fazendo isso talvez estivesse se privando de uma refeio. Ragnor zombou do ato de caridade. Quando 
chegaram ao fim da praa, ele parou de repente na frente de Aislinn e desembainhou a espada.
    -  Essa criana est nos atrasando, e eu no preciso de dois refns.
    Aislinn apertou Bryce contra o peito e disse, com a determinao corajosa de uma me:
    -  Deu sua palavra, Ragnor. Para matar meu filho, tem de me matar primeiro, e no vai ter nenhum refm quando Wulfgar chegar.
    Tirou a adaga da bainha. Os outros homens recuaram de olhos arregalados, e Ragnor amaldioou o prprio descuido, por no ter tirado a adaga de Aislinn antes 
de comear a viagem. Vachel descansou os braos no anteparo da sela e sorriu.
    -  Ento, meu primo? - disse ele. - Vai deixar essa mulher se matar?
    Gwyneth, aproveitando a oportunidade, esporeou seu cavalo, fazendo o animal se chocar com o de Aislinn, e arrebatou a adaga da mo dela. Aislinn tentou se equilibrar, 
para no cair com Bryce. Ento, refazendo-se da surpresa, olhou furiosa para a irm de Wulfgar.
    -  Traidora! - sibilou ela. - Sempre com suas traies. Pobre Gwyneth.
    Ragnor riu e embainhou a espada.
    -  Ah, minha avezinha, ser que nunca vai se dar por vencida? Posso matar quem eu quiser, e ningum vai me impedir. Mas dei minha palavra e, a no ser que me 
obrigue, no tenho inteno de fazer mal ao menino. Prefiro deix-lo com aquela velha, dar a ela bastante comida e algumas moedas para cuidar dele.
    -  No! - exclamou Aislinn. -No pode fazer isso!
    -  H muitas cabras nesta regio - disse ele. - E a velha pode conseguir muito leite. Alm disso, se, como voc diz, Wulfgar, Sweyn ou outros esto nos seguindo, 
encontraro o menino e o levaro para casa.
    Aislinn achou que isso realmente podia acontecer e sem Bryce ela talvez pudesse escapar. Finalmente, chorando, ela entregou Bryce para Gwyneth, que o levou para 
a velha acocorada na praa. Bryce reclamou, gritando a plenos pulmes, e foi com alvio que Gwyneth o entregou para a mulher. Depois de uma breve discusso, ela 
contou o dinheiro e o entregou, com um pequeno odre de vinho e algumas provises. Gwyneth montou rapidamente e voltou para o grupo.
    Seguiram a toda pressa. Agora Ragnor podia exigir mais do seu grupo. Em pouco tempo os cavalos comearam a demonstrar cansao. Pararam  sombra de algumas rvores 
e passaram as selas dos animais exaustos para os cavalos tirados por Ragnor do estbulo de Wulfgar.
    Enquanto esperavam, Ragnor e Gwyneth, um pouco afastados dos outros, conversavam e riam. Depois que os cavalos descansados comeram e tomaram gua, Aislinn montou 
e com tristeza viu sua gua malhada ser solta e seguir seu caminho. Ragnor aproximou-se e com um sorriso estranho tirou as rdeas das mos dela e as passou para 
a frente, pela cabea do animal.
    -  Vou levar seu animal pela rdea por algum tempo, para o caso de estar pensando em voltar.
    Ragnor seguiu a passo lento, deixando que os outros se adiantassem. Ento, ele riu e emparelhou o cavalo com o dela.
    -  Gwyneth teve uma idia muito boa-disse ele.-Convenceu a velha de que logo vai precisar de algum para esmolar, e um menino bem treinado pode ser muito til.
    As garras do medo cravaram-se no corao de Aislinn.
    -  Alm disso - continuou Ragnor -, ela avisou a mulher para se precaver contra um malvado cavaleiro normando que pode aparecer para levar o menino.
    Antes que Aislinn pudesse dizer alguma coisa, ele esporeou o cavalo e partiu no galope, puxando o dela. Quando chegaram perto dos outros, ele virou para trs 
e gritou:
    -  No pense em saltar do cavalo, Aislinn. Pode quebrar uma perna, e, se isso no acontecer, eu a amarro na sela, o que ser um duro golpe para sua dignidade.
    Aislinn abaixou a cabea, desanimada e assustada, e olhou para as patas velozes do cavalo que cada vez mais a distanciavam de Bryce.
    Naquela noite mal conseguiu comer a carne e o po, quase frios porque tinham pressa de apagar o fogo. Foi amarrada pelos pulsos ao tronco de uma rvore, e, desanimada 
e sem esperana, logo cedeu  fadiga e adormeceu.
    Wulfgar e Sweyn cavalgavam lado a lado. Os dois cavalos de guerra, sem o peso das armaduras, galopavam com segurana e facilidade. S falavam quando era necessrio, 
e nos povoados e fazendas paravam brevemente para pedir informaes. O viking nem por um momento largou seu machado, e a mo do normando descansava constantemente 
no punho da espada.
    Ambos eram conduzidos pelo mesmo objetivo mortal e pela mesma determinao. Nas breves paradas para descanso, depois de alimentar os animais, comiam apressadamente 
as tiras de carne defumada e cochilavam por algum tempo ao sol.
    Bem depois da meia-noite, os camponeses ouviam o tropel dos cavalos passando pela frente de suas casas. Wulfgar era incansvel, treinado como fora para os esforos 
de guerra. No se percebia qualquer tenso em seu corpo, e seus pensamentos estavam longe, muito adiante. Talvez Aislinn e o beb estivessem mortos. Procurava afastar 
da mente a idia sinistra de uma vida sem o riso alegre de Aislinn. Como o sol brilhando  meia-noite, a revelao surgiu clara no seu pensamento. Amava Aislinn 
acima de tudo, mais que a prpria vida. O normando aceitou o fato com imenso prazer.
    Wulfgar riu no escuro e disse para o viking:
    - Ragnor  meu! Acontea o que acontecer, Ragnor  meu! - falou em voz baixa, mas Sweyn, sem ver o rosto dele, sentiu o frio da morte naquelas palavras.
    Logo comearam a aparecer as pistas. As cinzas frias de um acampamento, a grama amassada onde uma mulher devia ter descansado. Prosseguiram mais determinados 
do que nunca, despertando a ateno dos viajantes que encontravam no caminho.
    Ento, mas terras altas da costa norte da Esccia, subiram ao topo de uma colina e viram num vale distante seis cavaleiros, um deles puxando o cavalo de outro 
pela rdea. Os enormes cavalos de guerra, como que sentindo a urgncia dos donos, apesar de cansados, continuavam no galope veloz.
    Trs homens do grupo ficaram para trs, enquanto um cavaleiro e duas mulheres continuaram a toda velocidade. A distncia diminuiu, e os trs homens ficaram aliviados 
vendo que eram apenas dois seus perseguidores. A um grito de Vachel, pararam, desembainharam as espadas e esperaram em posio de combate.
    Quando os caadores viram a presa ao seu alcance, o grito de guerra de Wulfgar soou no vale, arrepiando os plos de uma raposa, que fugiu correndo para a toca. 
O vento sussurrava na grande espada erguida e o machado de guerra rodava acima da cabea do viking. Ouvindo o som arrepiante, Ragnor puxou as rdeas de seu cavalo 
e
    praguejou, pois conhecia o grito de guerra de Wulfgar e, o que era pior, conhecia Wulfgar.
    Os dois guerreiros arremeteram, inclinados para a frente nas selas, para os trs homens que os esperavam. Wulfgar firmou os joelhos nos flancos de Huno e  distncia 
de uma lana curta do inimigo puxou as rdeas. Huno ergueu as patas dianteiras e atingiu no o outro cavalo mas o cavaleiro, amassando-o sob o escudo. A espada de 
Wulfgar partiu o escudo do outro homem e metade de seu brao antes que ele pudesse ergu-lo para se defender. Outro golpe e o homem estava morto.
    Huno se libertou da confuso e virou rapidamente, mas no era preciso. Vachel, com a perna amassada, estava ajoelhado no cho, olhando para Sweyn.
    -  Por Beaufonte! - rugiu o viking abaixando o machado. Vachel desabou na poeira do cho, pagando com a vida sua lealdade a Ragnor.
    Sweyn arrancou a lmina do machado do elmo de Vachel e agradeceu a Odin em altos brados, mas cedo demais. Seu cavalo dobrou lentamente as pernas e caiu com a 
espada de Vachel enfiada na barriga. O viking saltou da sela e olhou tristemente para o animal que estrebuchava no cho. Ergueu e abaixou o machado mais uma vez 
acabando com o sofrimento do nobre cavalo de guerra.
    Wulfgar desmontou e limpou a espada no manto de um dos mortos. Com o p, virou Vachel de costas. Ele estava com os olhos abertos, e filetes de sangue escorriam 
da testa at o queixo. Wulfgar ergueu a cabea e olhou para os trs cavaleiros ao longe.
    -  Eu preciso continuar - disse ele. - Cuide desses corpos c volte para Darkenwald. Se Deus permitir, eu o encontro l com Aislinn e o beb.
    Sweyn fez um gesto afirmativo e advertiu:
    -  Proteja suas costas.
    Trocaram um longo aperto de mos. Wulfgar saltou para a sela f partiu num galope que no poupava homem nem animal.
    Ragnor no perdeu tempo. Quando desapareceu o eco do grito de guerra de Wulfgar, conduziu as mulheres, com toda a velocidade de que eram capazes seus cavalos, 
pelas encostas cada vez mais ngremes das colinas. Aislinn, atrs dele, estava estranhamente calma. Agora que sabia que Wulfgar estava vivo, sentia o corao aquecido, 
e seus lbios se curvaram num sorriso. Olhando para trs, Ragnor inquietou-se com a serenidade do rosto dela.
    A tarde passou e continuaram a fuga, os cavalos tropeando e bufando, com o corpo coberto de espuma, mas constantemente aoitados com os chicotes. Os trs cavaleiros 
passaram pelo topo de um rochedo, vendo l embaixo o reflexo do sol poente nas guas prateadas de um lago. Chegaram a uma abertura no paredo de pedra e comearam 
a descida lenta e cuidadosa. Sua respirao transformava-se em nuvens brancas no ar gelado. Segurando com fora a crina do cavalo, Aislinn sentiu as mos dormentes 
de frio, mas no tinha coragem de soltar, com medo de cair no desfiladeiro. Ragnor as conduziu pela descida do penhasco, atravessaram uma fina faixa de areia e chegaram 
a uma ilha baixa, com as runas de um forte dos antigos pictos. Pararam num grande ptio, com trs lados fechados por um muro baixo de pedra e, no lado do mar, pelas 
runas da parede de um templo. No centro do ptio erguia-se um bloco de pedra com argolas rsticas nos cantos, provavelmente onde eram oferecidas as vtimas dos 
sacrifcios pagos.
    Ragnor tirou Aislinn da sela e carregou-a para a pedra. Gwyneth desmontou tambm e amarrou seu cavalo junto dos outros. Ragnor amarrou os pulsos de Aislinn nas 
argolas, usando tiras de couro e, vendo que ela tremia de frio, tirou o manto e agasalhou-a com ele. Ficou parado por algum tempo, olhando para ela com um misto 
de desejo e respeito, imaginando com podiam ter sido as coisas com aquela mulher se tivessem se encontrado de modo diferente. Talvez o mundo tivesse sido uma fruta 
fcil de apanhar tendo Aislinn ao seu lado. Lembrou da noite fatdica em que a vira pela primeira vez. Como podia adivinhar que seus esforos para possu-la o levariam 
 runa? Agora Wulfgar, se tivesse conseguido escapar de Vachel e dos outros dois homens, estava em seu encalo como um lobo farejando sangue.
    Wulfgar seguiu no galope at sentir que Huno chegara ao limite de suas foras. Desmontou, deu ao animal o resto da rao, escovou seu plo com o saco vazio e, 
com uma palmada na anca, mandou-o voltar para onde tinham deixado Sweyn. Wulfgar comeou a caminhar, mastigando uma tira de carne com farinha de trigo, ajudando 
a deglutio com pequenos goles de gua. Quando terminou, tomou vrios goles. Tirou o cinto com a espada e o ps no ombro, de modo que a espada batia em suas costas 
a cada passo, com o punho logo abaixo do seu pescoo. Ento, comeou a correr, de cabea baixa,  acompanhando as marcas semi-apagadas dos cavalos na terra seca. 
Anoitecia quando chegou no alto de um penhasco e viu a ilha iluminada pela luz de uma fogueira. A mar estava enchendo, e a faixa de areia era muito estreita. Quando 
Wulfgar acabou de descer o penhasco comeava a escurecer e a faixa de areia estava coberta por uns trinta centmetros de gua. Ragnor planejara bem, pensou ele. 
Agora era impossvel se aproximar em silncio.
    Procurou uma rocha na sombra e esperou a lua aparecer, mastigando outra poro de comida seca, vendo a nvoa se erguer da gua no ar frio da noite. As colinas 
negras em volta do lago pareciam curvar os ombros para se proteger da noite que chegava. Escalou o rochedo at um ponto de onde podia ver a antiga praa e os trs 
vultos iluminados pela luz da fogueira. Gwyneth movendo-se perto do fogo, Ragnor de p observando a praia estreita e Aislinn envolta na capa, encolhida perto da 
pedra negra. E Bryce... onde estava?
    Vagarosamente a noite clareou e a meia-lua cor de laranja apareceu no horizonte. Wulfgar sorriu. Chegara a hora. Inclinando a cabea para trs, soltou seu grito 
de guerra, um uivo surdo e longo que ecoou nos rochedos e terminou num brado de raiva.
    L embaixo, nas runas, Ragnor levantou a cabea, sobressaltado. Os ecos do grito de guerra o imobilizaram por um momento, como se s pudesse ouvir o chamado 
da morte. Ao lado da pedra, Aislinn tambm levantou a cabea e olhou para a noite escura, alm do fogo. Conhecia o grito de guerra de Wulfgar, mas aquele era mais 
um uivo, uma promessa de morte, e ela sentiu um frio na espinha e lembrou do enorme lobo negro que olhara para ela por cima de outro fogo, com uma expresso quase 
humana.
    Com uma exclamao de medo, Gwyneth voltou-se rapidamente para Ragnor, muito plida  luz fraca do fogo, mas, quando no se ouvia mais o eco do brado de Wulfgar, 
Ragnor caminhou para Aislinn com o rosto contorcido de raiva e tirou uma faca curta do cinto. Aislinn prendeu a respirao, depois olhou para ele com desafio, esperando 
sentir a lmina afiada no peito, mas, com um movimento rpido, Ragnor cortou as tiras de couro que a prendiam. Aislinn olhou para ele, tentando adivinhar o que ia 
acontecer. Com um sorriso cruel, ele embainhou o punhal e a fez levantar. Ragnor apertou-a contra a cota de malha que cobria seu peito, olhando nos olhos de Aislinn 
como se quisesse ver sua alma. Ele no resistiu. A mo dele acariciou-lhe o rosto, como que hipnotizado por tanta beleza. Os dedos longos e morenos seguraram o queixo 
delicado. Ignorando Gwyneth, que os observava boquiaberta, Ragnor beijou Aislinn, abrindo com brutalidade os lbios dela. Aislinn ergueu a mo e tentou em vo empurr-lo 
para longe. Os lbios de Ragnor continuavam quentes e pesados nos dela.
    -  Ele no vai levar voc, meu bem, eu juro - murmurou ele, com voz rouca. - Ele jamais a ter.
    Gwyneth se aproximou das costas dele com uma tentativa de sorriso no rosto cansado.
    -  Ragnor, meu querido, o que o faz dar ateno a ela? Quer provocar a ira de meu irmo? Tenha cuidado, meu amor. Ele j est suficientemente furioso sem que 
voc precise acariciar essa cadela na sua frente.
    A gargalhada de Ragnor ecoou no penhasco. O som morreu lentamente, deixando apenas silncio. Ento, ele ficou de p, atrs de Aislinn, e, segurando-a contra 
o corpo, perscrutou o escuro para alm da faixa de areia.
    -  Wulfgar, venha ver a sua companheira - gritou ele. Tirou o manto dos ombros de Aislinn, deixando-o cair aos seus ps. O fogo iluminou fracamente a figura 
esbelta com vestido de veludo. Com uma calma que a fez prender a respirao, as mos de Ragnor acariciaram seus seios lentamente, como para torturar o homem que 
devia estar observando em algum lugar do rochedo escuro. - Veja, Wulfgar, bastardo de Darkenwald. - Ragnor gritou para a noite. - Ela agora  minha, como era antes. 
Venha tom-la de mim se for capaz.
    Outra vez o silncio foi a resposta, e Aislinn ouvia somente a respirao pesada de Ragnor junto ao seu ouvido. Com um soluo de revolta, tentou se livrar, mas 
ele a segurava com firmeza. Ragnor riu alto, e suas mos desceram para a cintura fina e depois para os quadris.
    -  Ragnor! - protestou Gwyneth, percebendo a inteno dele. - Quer me torturar tambm? - a pergunta era um grito de agonia.
    -  Fique quieta - respondeu ele. - Deixe-me em paz! Numa carcia mais ousada, sua mo alcanou a barriga de Aislinn,
    e ela tentou empurr-lo, ofendida.
    -  Quer que eu a possua na frente dos seus olhos, bastardo? - gritou ele, com uma risada.
    No se ouviu nenhuma resposta de Wulfgar, apenas o silncio opressivo. Ragnor continuou por mais alguns momentos, at compreender que no ia conseguir qualquer 
reao. Wulfgar no ia permitir que a raiva o levasse a um ato impensado.
    -  Acabo isto depois - zombou ele, no ouvido de Aislinn. - Primeiro devo tratar da morte do seu marido.
    Saiu de trs dela, amarrando novamente seus pulsos, mas agora um em cada canto da pedra, de frente para a fogueira.
    Arrulhando baixinho, Gwyneth tentou se encostar em Ragnor, mas ele a empurrou.
    -  Afaste-se, cadela- rosnou ele, com veneno na voz e um olhar de desdm. - Eu experimentei o nctar dos deuses. Acha que vou preferir os favores de um monte 
de ossos? Leve seus flancos frementes para a rua.
    Com o rosto crispado de desespero, Gwyneth olhou para ele, sem poder acreditar no que ouvia.
    -  Ragnor, deve parar com isso. Logo vai enfrentar Wulfgar e  de mau agouro levar para a luta um beijo dado de m vontade. Posso lhe dar um talism para a luta.
    Gwyneth abriu os braos, numa splica, mas Ragnor disse, com raiva:
    -  Silncio!
    Ragnor ps mais lenha na fogueira, olhando atentamente para as colinas, e Gwyneth correu para ele, tentando abra-lo.
    -  No, meu amor - disse ela chorando. - Eu me entreguei a voc com paixo e desejo. Vai preferir o prazer roubado? Leve o meu amor com voc.
    Ragnor a empurrou, mas ela insistiu. Praguejando, ele a atingiu na cabea com o galho que ia pr no fogo. Gwyneth cambaleou para trs, quase caiu e bateu a cabea 
no muro de pedra. Uma mancha vermelha apareceu na pedra quando ela escorregou e caiu de joelhos, com as mos no cho e a cabea entre os braos. A mancha vermelha 
se espalhou pelos cabelos louros. Ela gemeu baixinho, e Ragnor atirou o galho pesado, atingindo-a nas costas.
    -  Desaparea, monte de ossos - zombou ele. - No preciso mais de voc.
    Gwyneth se arrastou at o portal de pedra e desapareceu na noite. Com um esgar de desprezo, ele a viu partir, e depois voltou a vigiar a praiano outro lado da 
ilha,  procura de algum sinal de Wulfgar. Como antes, no se ouvia nenhum som, no se via nenhuma sombra. Ragnor comeou a andar de um lado para o outro, parando 
para olhar para longe, como se pressentisse a presena de Wulfgar. Praguejando, montou a cavalo e comeou a percorrer as runas  procura de alguma pista da passagem 
do normando. Puxou as rdeas bruscamente na parte alta da ilha quando viu um tronco de rvore empurrado para a praia e a marca de ps molhados que ia desde o tronco 
at um monte de blocos de pedra. Ragnor galopou para a outra extremidade da ponta de terra e desapareceu nas sombras.
    Reinou silncio outra vez, quebrado apenas pelo patear nervoso dos outros dois cavalos presos na praa. Aislinn prendeu a respirao, procurando ouvir algum 
sinal de presena de Wulfgar, e ento, vinda da noite, ouviu a voz do marido.
    -  Ragnor, ladro de Darkenwald. Venha experimentar a minha lmina. Ser que seu corao negro vai lutar sempre s contra mulheres e crianas? Venha enfrentar 
um homem!
    O corao de Aislinn disparou.
    -  Wulfgar! - a voz de Ragnor ecoou na noite. - Aparea que eu farei o mesmo, bastardo. Quero ter certeza de que no vai me atacar pelas costas.
    Aislinn ouviu a exclamao de surpresa de Ragnor quando Wulfgar pareceu surgir da parte alta da praa como um espectro, sinistro e ameaador na escurido da 
noite. Desembainhou a longa espada e balanou-a acima da cabea.
    -  Aparea, ladro! - sua voz soou clara, e Wulfgar avanou rapidamente. - Venha conhecer a minha espada, ou preciso levantar todas as pedras para encontr-lo?
    Ragnor apareceu montado, ao lado do fogo. Aislinn gritou apavorada, pois, naquele espao pequeno, parecia que ele ia lanar o cavalo sobre ela. Lutou para se 
libertar at seus pulsos comearem a sangrar, mas conteve outro grito, temendo desviar a ateno de Wulfgar.
    Girando a maa com pontas aguadas, Ragnor avanou. Precisava acabar com o inimigo enquanto tinha vantagem nas armas. Wulfgar esperou que ele erguesse a maa 
para o golpe e ento desviou para a direita, atravessando na frente do cavalo. A bola com pontas zuniu no ar, descendo exatamente onde Wulfgar estivera. Wulfgar 
apoiou um ombro no cho e rolou o corpo. Quando o cavalo passou por ele, desfechou um golpe com a espada nas pernas do animal. A lmina atingiu os tendes logo acima 
da jarreteira traseira e, com um relincho de dor, o cavalo tropeou e caiu.
    Ragnor saltou rapidamente da sela e voltou-se, com a maa na mo. No era uma arma para ser usada contra um bom espadachim, e ele a atirou no adversrio. Wulfgar 
se esquivou com facilidade, mas isso deu tempo a Ragnor para desembainhar a espada e ficar em posio de combate. Olhou com dio para Wulfgar e sentiu-se mais confiante 
quando viu que ele no estava usando a cota de malha e sua nica arma era a espada larga. O menor toque de sua espada podia inutiliz-lo para sempre, e um homem 
aleijado era intil para a guerra. Ragnor j podia ver Wulfgar mendigando nas ruas. Riu e firmou o escudo junto ao ombro, avanando para o combate. Ragnor atacou, 
mas Wulfgar, com um movimento rpido, rasgou a beirada do escudo do cavaleiro moreno.
    Ragnor, com os ps firmes no cho agora, defendia-se dos golpes desferidos pela espada larga que Wulfgar segurava com as duas mos e s podia atacar quando o 
adversrio chegava muito perto. Wulfgar manteve a seqncia rpida de golpes, mais para impedir o ataque do que para ferir. Ragnor comeava a sentir o peso do escudo 
e da cota de malha. Como na lia, Ragnor no conseguia encontrar nenhuma abertura na defesa do oponente. Com um aperto na garganta, compreendeu que no era uma disputa 
esportiva, mas uma luta de morte. Diminuiu o ritmo de seus movimentos, com o corpo encharcado de suor. Wulfgar alcanou o escudo e segurou a espada com as duas mos. 
Estavam agora quase corpo a corpo, e a espada de Ragnor encontrava sempre a de Wulfgar.
    Ragnor percebeu que Wulfgar tambm comeava a sentir cansao. Sem a cota de malha, tinha de defender cada golpe e ao mesmo tempo procurar atingir o inimigo. 
Ele recuou um passo e Ragnor renovou o ataque, atingindo a perna do adversrio. O golpe foi defendido em parte, mas rasgou a perneira e a bota de couro, tirando 
sangue. Ragnor rugiu comemorando o sucesso e ergueu a espada quando Wulfgar caiu com um joelho no cho. Aislinn estremeceu apavorada, mas Wulfgar percebeu a inteno 
de Ragnor. Ainda agachado, encostou o lado da espada no ombro, para aparar o golpe, e desviou a lmina de Ragnor, que se cravou no cho, quase inutilizando seu brao. 
O sangue apareceu no ombro de Wulfgar quando o colete e a tnica fora rasgados com o impacto de sua prpria espada. Ele arremeteu com violncia, e Ragnor recuou 
com um corte profundo no brao.
    Com um grito de dor, Ragnor segurou o brao ferido e saltou por cima da fogueira. Com um rugido de frustrao, empalideceu quando Wulfgar avanou para ele com 
a espada erguida. Ragnor viu a morte  sua frente e fugiu.
    Correu para a porta e parou de repente. Com um gemido estertorante, encostou a mo no muro de pedra, para no cair. Aislinn olhou para Wulfgar, que esperava, 
pronto para continuar a luta. O normando aproximou-se dela e cortou as tiras de couro que prendiam seus pulsos, atento a Ragnor, ainda encostado no portal de pedra.
    Ragnor encostou na parede e virou para os dois, com os olhos arregalados de surpresa. Wulfgar e Aislinn viram ento o cabo incrustado de pedras preciosas da 
adaga de Aislinn projetando-se de seu peito. A lmina longa e fina tinha atravessado a cota de malha e penetrado profundamente na altura do corao. Ragnor arrancou-a 
com um gemido, e o sangue jorrou do ferimento, descendo pelo peito. Ragnor ergueu os olhos incrdulos para Aislinn e Wulfgar.
    -  Ela me matou, a cadela.
    Dobrou os joelhos, caiu para a frente e ficou imvel. Ento Gwyneth apareceu das sombras. O ferimento na testa contrastava com a extrema palidez de seu rosto. 
Ela olhou para o corpo imvel de Ragnor e depois voltou para Aislinn e Wulfgar sua mscara macabra. Um filete de sangue escorria de seu ouvido e outro do nariz. 
Seus olhos parados pareciam implorar perdo.
    -  Ele disse que me amava e tomou tudo que eu tinha para dar, depois me expulsou como se eu fosse uma...
    Soluando, deu um passo para eles, mas tropeou e caiu. Ficou imvel, chorando desesperadamente. Aislinn correu para ela e apoiou a cabea de Gwyneth em seu 
colo.
    -  Oh, Aislinn, fui uma tola-suspirou Gwyneth. -Eu s ouvia minha vaidade e meus desejos. Perdoe-me, pois eu a persegui cruelmente, tentando ganhar o poder e 
as honras que jamais poderia ter. Esse  o destino de um bastardo.
    Wulfgar olhou para a irm. Gwyneth ergueu os olhos para ele e sorriu.
    -  Eu no podia suportar a idia de tomar o seu lugar e ser alvo do desprezo do mundo, mas voc soube muito bem honrar sua condio de bastardo - tossiu, e um 
filete de sangue desceu do canto de sua boca. - Nossa me queria ferir seu pai e inventou uma mentira inominvel, Wulfgar - fechou os olhos e respirou fundo. - No 
seu leito de morte, ela me pediu para contar tudo a voc e corrigir seu erro, mas no tive coragem. Fui covarde, mas agora voc vai saber. - Abriu
    os olhos. - Voc no  bastardo, Wulfgar, mas filho verdadeiro de Bolsgar. - Sorriu, vendo Wulfgar erguer as sobrancelhas. - Sim, eu e nosso irmo, morto h 
tanto tempo, somos os bastardos. Falsworth e eu fomos gerados pelo amante dela quando Bolsgar lutava ao lado do Rei. Perdoe-me, Wulfgar. Ela tossiu outra vez.
    -  Oh, Senhor, perdoai os meus pecados. Perdoai a minha... - com um longo suspiro ela relaxou o corpo e morreu.
    Wulfgar ajoelhou ao lado da irm, e Aislinn limpou o sangue e a poeira do rosto finalmente sereno de Gwyneth. O normando disse ento, com voz rouca e baixa:
    -  Espero que ela encontre a paz. Eu a perdo. O maior pecado foi de nossa me que, com sua vingana, torturou a ns todos.
    Em tom mais spero, Aislinn disse:
    -  S a perdoarei se conseguirmos consertar mais uma coisa. Ela deu o nosso filho para uma velha mendiga que pedia esmolas nas runas de uma cidade.
    Com o rosto crispado de fria, Wulfgar foi at onde estavam os dois cavalos e apanhou uma sela do cho. Mas acalmou-se de repente, lembrando que os abutres iam 
aparecer de madrugada. No ia deixar que sua irm se transformasse num monte de ossos expostos ao sol. Largou a sela e voltou-se para Aislinn:
    -  Mais uma noite no vai fazer diferena.
    Ele estendeu as mantas de pele no cho, longe da porta no muro de pedra, onde jaziam Ragnor e Gwyneth, e abraados, bem protegidos contra o vento frio que assobiava 
entre as runas, adormeceram, exaustos.
    Acordaram com a primeira luz do dia, e enquanto Aislinn preparava a comida, Wulfgar cavou duas covas rasas na areia. Enterrou Ragnor com sua sela, escudo e espada, 
e Gwyneth segurando a pequena adaga, como uma cruz, sobre o peito, envolta na capa forrada de pele. Com esforo, Wulfgar arrastou duas grandes lajes de pedra para 
cobrir a terra das sepulturas, protegendo-as dos lobos. Durante algum tempo procurou algumas palavras, mas no encontrou. Por fim, arreou apressadamente os cavalos. 
Depois de aplacar a fome, ajudou Aislinn a montar e saltou para a sela do outro animal. Ento partiram, Wulfgar na frente, os cavalos chapinhando na gua que ainda 
cobria a faixa de areia.
    S pensando em Bryce, os dois galoparam velozmente at chegar as runas da antiga cidade. Encontraram uma cabana rstica, mas as cinzas estavam frias. No encontraram 
nada que indicasse para onde a mulher tinha ido. Percorreram ento os povoados prximos, mas embora algumas pessoas a conhecessem, ningum sabia de seu paradeiro.
    Chegou a noite do segundo dia, e Wulfgar e Aislinn, completando o crculo de busca, pararam no meio das runas. Aislinn sentou-se no cho, chorando desesperadamente. 
Wulfgar ajudou-a a levantar-se e abraou-a com ternura. Abafando os soluos dela contra o peito, Wulfgar afagou os cabelos e beijou a orelha de Aislinn. De todos 
os sofrimentos que enfrentara, esse foi o nico que a derrotou completa-mente. Sem foras, soluava nos braos do marido. No tinha mais vontade nem estmulo para 
continuar a busca. S depois de algum tempo as lgrimas secaram. Seu peito e sua garganta ardiam de tanto chorar. Wulfgar tomou-a nos braos e levou-a para o abrigo 
de um muro em runas. Acendeu uma pequena fogueira para afastar o frio da noite. O vermelho intenso do cu a oeste logo se transformou num manto azul-escuro que 
aos poucos se estendeu acima deles, e olhando para cima, Wulfgar viu as estrelas aparecerem, uma a uma. Parecia que bastava erguer a mo para alcan-las. Segurou 
as mos de Aislinn, que estava sentada, imvel, olhando para o fogo, desejando passar para ela sua fora. S havia nos belos olhos cor de violeta a agonia da perda 
do filho.
    -  Meu filho, Wulfgar - gemeu ela. - Quero o meu filho. Um soluo spero subiu de sua garganta, e Wulfgar a embalou
    durante um longo tempo, ao lado do fogo.
    -  Eu sei pouco sobre o amor, Aislinn - disse o normando, finalmente -, mas sei muito sobre coisas perdidas. Jamais consegui o amor de minha me. O amor de meu 
pai foi arrebatado de meus braos. Guardei meu amor com avareza durante toda a vida, e agora ele explodiu em chamas dentro de mim.
    Os olhos cinzentos do normando brilhavam com a inocncia de uma criana. Afastou o cabelo do rosto dela,
    -  Primeiro amor-murmurou ele, docemente. - Amor do meu corao, no me traia nunca. Tome o que eu posso dar e faa disso uma parte de si mesma. Leve meu amor 
dentro voc o tempo todo, como fez com aquela criana, e ento, com uma exclamao de alegria, deixe que saia para que possamos partilhar essa felicidade. Eu lhe 
ofereo a minha vida, meu amor, meus braos, minha espada, meus
    olhos, meu corao. Fique com tudo. No deixe sobrar nada. Se jogar tudo fora, estarei morto, e vou vaguear pelos montes como uma alma perdida.
    Aislinn sorriu, e Wulfgar beijou-a com ternura.
    -  Teremos outros filhos, talvez uma filha, sem nenhuma dvida sobre quem  o pai.
    Aislinn o abraou e, com um soluo abafado, murmurou.
    -  Eu o amo, Wulfgar. Abrace-me com fora. Abrace-me assim para todo o sempre.
    Ele murmurou no ouvido dela:
    -  Eu a amo, Aislinn. Beba o meu amor. Deixe que ele lhe d foras.
    Aislinn afastou-se um pouco e, apoiando-se no brao do marido, acariciou-lhe o rosto.
    -  Vamos embora - pediu ela. - No posso passar outra noite aqui. Vamos para casa, para Darkenwald. Quero sentir a segurana do ambiente que  meu.
    -  Sim - concordou Wulfgar, e levantou-se para apagar o fogo e espalhar as cinzas.
    Quando chegou perto dos cavalos, Aislinn sorriu tristemente, passando a mo no traseiro.
    -  Nunca mais vou montar com o mesmo prazer - disse ela. Wulfgar olhou para ela, pensativo.
    -  Quando fui tomar gua, vi um barco no rio. Sim, vai resolver o seu problema. Venha, no est longe.
    Segurou a mo dela e a levou para um pequeno bosque de salgueiros. Separando os galhos pendentes, ele mostrou a canoa, longa e estreita, feita com um nico tronco 
de rvore. Wulfgar fez uma mesura.
    -  Seu barco real, minha senhora. Este regato vai dar naquele que passa pelos pntanos de Darkenwald.
    Aliviada, Aislinn compreendeu que no precisava mais montar. Wulfgar soltou os cavalos e ps a pouca bagagem na proa da canoa. Aislinn sentou-se no centro, confortavelmente 
encostada numa sela, envolta na capa de Wulfgar. Empurrando o barco para a gua, ele sentou na popa e, apanhando o remo curto, comeou a remar a favor da corrente.
    O tempo parou. Depois de um sono breve, Aislinn acordou, ouvindo a batida ritmada dos remos na gua. Olhou para cima, para os salgueiros, e ergueu a mo para 
o cu como para revelar ao mundo a sua angstia. Via as estrelas entre os galhos despidos de um carvalho e a lua erguendo-se vermelha, depois dourada, empalidecendo 
 medida que se afastava da charneca. Adormeceu outra vez. Assim passaram a noite. Breves momentos de sono para ela, enquanto Wulfgar remava, conduzindo o barco 
pelo regato sinuoso.
    Wulfgar no queria pensar. O filho que ele comeava a amar estava perdido, e nunca mais ia ver aquele cabelo claro, nem ouvir seu riso alegre. Comeou a remar 
mais depressa, esperando que o esforo afastasse o sofrimento da alma.
    A primeira luz cinzenta do dia delineou um carvalho amigo numa colina que eles conheciam, a cidade adormecida, o solar ao fundo e, na colina mais distante, o 
castelo de Darkenwald, quase completo. O fundo do barco arrastou na areia, e Wulfgar desceu na gua, puxou-o para terra e carregou Aislinn para a margem seca coberta 
de folhas. De mos dadas, ele na frente, Aislinn atrs, seguiram por uma trilha estreita. Wulfgar conhecia o caminho, o mesmo que percorrera com Huno, seguindo as 
marcas no cho da floresta, para encontrar uma bela jovem tomando banho na gua gelada do regato. Assim passa o tempo, com a alegria curando os ferimentos, ou a 
dor arrancando a felicidade de seus coraes.
    Com um suspiro, Aislinn olhou para o nascente, sentindo a dor imensa da perda e do vazio. Chegaram ao solar. Wulfgar abriu a porta e eles entraram.
    Pararam confusos, estranhando o rudo e as luzes da sala. Estavam todos l. Bolsgar e Sweyn conversavam em altas vozes com Gowain e Milbourne e Haylan cuidava 
de Kerwick, perto da lareira. Sua perna e sua cabea estavam envoltas em ataduras, mas seu estado de esprito parecia timo. Ele e Haylan trocavam olhares ternos 
e carinhosos. E num canto escuro, de costas para os outros, estava Maida.
    Era uma cena completamente absurda, num solar onde todos deviam estar calados e apreensivos, especialmente quela hora da manh. Aislinn e Wulfgar no queriam 
interromper aquela tranqilidade com as notcias que traziam, e aproximaram-se silenciosamente da lareira. Bolsgar os viu e levantou-se da cadeira com uma saudao 
alegre.
    - Afinal chegaram - disse ele.--timo! timo! Os vigias da torre viram quando se aproximavam daqui. - Olhou atentamente para Aislinn. - Muito bem, minha filha, 
vejo que aquele cavaleiro apaixonado no lhe fez nenhum mal. - Olhou para Wulfgar. - Voc o matou, espero? Gosto muito da companhia desta jovem, e ficaria muito 
aborrecido se aquele cavaleiro a incomodasse outra vez.
    Wulfgar balanou a cabea e, antes que pudesse explicar, Sweyn levantou-se de um salto.
    -  O que est dizendo?-rugiu o viking. - Ser que no posso confiar nesses jovens nem para fazer uma coisa simples? - O riso subiu como um trovo de seu peito, 
e ele deu uma palmada nas costas de Bolsgar que deixou o velho lorde sem flego por alguns momentos. - Acho que ns dois temos de nos encarregar da caada para acabar 
com isso. Espero que desta vez no encontre uma desculpa para se atrasar.
    Wulfgar olhava de um para o outro, sem oportunidade de dizer nenhuma palavra. A ltima observao de Sweyn o intrigou.
    -  Sim - disse Bolsgar. - E eu no vou confiar em voc para me ajudar, uma vez que parece ter uma tendncia para no me poupar do trabalho pesado.
    Sweyn deu uma gargalhada sonora.
    -  Ora, velho saxo cavalo de batalha. No viu que minhas mos estavam ocupadas para manter aquele garanho no cio longe das guas que Ragnor soltou? Quando 
passei por voc na estrada, s conseguiu acenar com a mo.
    O viking olhou para Wulfgar e explicou:
    -  Eu acampei de noite e Huno me acordou na manh fria com o nariz no meu rosto. - Riu, olhando rapidamente para Hlynn, que estava pondo lenha no fogo, e depois 
continuou, em voz alta: - Ora, sonhei que uma bela jovem me acariciava, ento aquele garanho fedido bufou no meu pescoo e fui obrigado a montar nele para procurar 
os outros animais. - Sweyn deu uma gargalhada. - Todos eram guas e aquela sua mula zurrante, Wulfgar, quase me matou, especialmente quando viu a gua malhada de 
Lady Aislinn. - Apontou para Bolsgar: - Agora, este saxo miservel diz que eu o abandonei quando ele mais precisava de ajuda.
    -  Uma desculpa muito fraca - resmungou Bolsgar. - Voc podia ver que eu estava muito mais carregado.
    Wulfgar olhou curioso para o pai.
    -  Carregado com o qu?
    O velho homem deu de ombros.
    -  Uma parte da bagagem que vocs deixaram para trs.
    
    Sweyn interrompeu, sem se preocupar em satisfazer a curiosidade de Wulfgar.
    -  Mas o que aconteceu com aquele tratante do Ragnor? Fugiu para o norte com Gwyneth?
    Wulfgar balanou a cabea.
    -  No - murmurou. - Eles se mataram.
    Bolsgar inclinou a cabea tristemente e disse, com voz rouca:
    -  Ah, Gwyneth, pobre moa. Talvez esteja em paz, agora. - Fungou e passou a manga no rosto.
    No breve silncio, Aislinn chegou mais parapeito de Wulfgar, que a abraou ternamente. Ela sentia o calor do lar, mas faltava alguma coisa. Havia um vazio dentro 
dela que no combinava com a alegria e o riso com que foram recebidos. Olhou em volta e viu Kerwick e Haylan muito juntos, Miderd e Hlynn preparando a refeio da 
manh, e Maida ainda encolhida no canto.
    Sweyn tossiu, quebrando o silncio.
    -- Ns enterramos o bom Beaufonte.
    Gowain levantou-se.
    -  Sim. Mas ns trs e mais o frade no conseguimos impedir que Sweyn o pusesse num barco com uma fogueira acesa.
    -  E verdade - riu Milboume. - Prestamos as ltimas homenagens ao nosso amigo, mas a cerimnia dos vikings nos deixou atordoados.
    -  Sim - confirmou Bolsgar. - Na verdade, diminuiu muito o suprimento de cerveja para o prximo inverno.
    -  Foi para homenagear um amigo valoroso - murmurou Wulfgar, olhando para Sweyn. - Vo descansar, pois amanh vamos sair com Gowain e Milboume para procurar 
uma velha com um brao paralisado.
    -  Para que voc quer a velha? - perguntou Bolsgar. - Ela vai roubar tudo que voc tiver no bolso.
    Wulfgar olhou surpreso para ele.
    -  Conhece a mulher? - perguntou, ansioso, notando que Aislinn esperava avidamente a resposta de Bolsgar. Seria demais esperar que o velho saxo os levasse  
mulher e talvez a Bryce?
    -  Fiz alguns negcios com ela - respondeu Bolsgar. - Ela me vendeu alguma mercadoria, cedendo  minha insistncia, pois no queria se desfazer dela e tive muito 
trabalho para convenc-la. Mas,
    com um punhado de moedas e mostrando a lmina da minha espada, conseguiu ficar com a parte melhor do negcio. Wulfgar olhou atentamente para ele.
    -  De que mercadoria est falando?
    Bolsgar virou para o canto da sala.
    -  Maida! - chamou ele.
    -  Sim - respondeu ela, como se aquele chamado brusco a tivesse ofendido.
    -  Traga a mercadoria! Precisamos ensinar estes dois a no jogar fora descuidadamente parte de sua bagagem. Sim, traga o meu neto!
    Aislinn ergueu a cabea bruscamente e Wulfgar olhou surpreso para o pai. Maida levantou-se e virou para eles com um volume nos braos. Quando viu a cabecinha 
com os cachos avermelhados, Aislinn deu um grito de alegria; com os olhos cheios de lgrimas, correu para a me e tomou Bryce nos braos. Apertando o filho contra 
o peito, comeou a girar pela sala. Wulfgar riu quando Bryce protestou contra a fora excessiva daquele abrao.
    -  Querida, tenha cuidado. Ele pode no agentar tanto amor.
    -  Oh, Wulfgar! Wulfgar! - exclamou ela, aproximando-se dele.
    Wulfgar sorriu e depois, como se acabassem de tirar um grande peso de seu peito, segurou o menino no ar, sacudindo-o acima de sua cabea, para alegria de Bryce. 
Mas Maida estalou a lngua e balanou a cabea, reprovando.
    -  Essa criana vai lamentar muito ter um pai como voc. Tenha cuidado com o meu neto.
    Wulfgar olhou para Maida, duvidando de sua sanidade, mas segurou Bryce com o maior cuidado, pois percebeu na antiga Lady de Darkenwald uma firmeza e autoridade, 
alm de vestgios de beleza, que nunca notara antes. As cicatrizes tinham quase desaparecido de seu rosto, substitudas por uma cor saudvel. Wulfgar compreendeu 
que, na juventude, a beleza de Maida rivalizaria com a de Aislinn atualmente.
    -  Por que tem tanta certeza de que eu sou o pai? - perguntou ele.
    -   claro que  seu filho - disse Bolsgar. - Assim como voc  meu filho.
    
    
    Wulfgar olhou surpreso para ele, e Bolsgar abaixou a roupa de Bryce, mostrando uma marca avermelhada numa das ndegas.
    
    -  Este sinal de nascena  meu... se  que aceita a minha palavra, uma vez que no vou mostrar minhas ndegas para voc. Quando eu trouxe Bryce para casa, precisei 
trocar a roupa dele, e ento vi a marca, e fiquei sabendo que voc  meu filho e que ele  seu.
    Wulfgar perguntou, atnito:
    -  Mas eu no tenho essa marca. Bolsgar deu de ombros.
    -  Meu pai tambm no tinha, mas o pai dele sim, bem como os netos.
    -  Gwyneth disse que eu sou seu filho - murmurou Wulfgar. - E que nossa me contou, em seu leito de morte, que ela e Falsworth eram filhos de outro homem.
    Com um profundo suspiro, Bolsgar disse:
    -  Talvez tudo fosse diferente se eu no estivesse sempre fora de casa,  procura de aventuras de guerra. Agora, parece que fracassei tristemente com vocs todos.
    Wulfgar ps a mo no ombro dele e sorriu.
    -  Ganhei um pai, mas perdi a simpatia de Guilherme. Ainda assim,  uma troca de valor desconhecido.
    Nos braos de Wulfgar, Bryce olhava o movimento, chupando o dedo, os olhos arregalados e curiosos. Maida murmurou alguma coisa e o acariciou. Depois olhou de 
soslaio para o normando.
    -  Nunca houve dvida quanto  paternidade do menino, Wulfgar. Ser que no  capaz de conhecer uma virgem quando dorme com ela?
    -  O que est dizendo? - perguntou Wulfgar. - Ficou louca outra vez, mulher? Ragnor...
    Com uma risada satisfeita, Maida olhou para a filha.
    -  Esta menina manejou muito bem o que Ragnor no conseguiu levantar, no foi, minha filha? E aquele normando, cheio de bazfa, gabava-se de uma coisa que nunca 
teve.
    -  Me - suplicou Aislinn.
    Maida balanou na frente do rosto de Aislinn um saquinho que trazia dependurado no cinto.
    -  Sabe o que  isto?
    Aislinn olhou para o saquinho por um momento e depois sorriu.
    -  O que  isso? - perguntou Wulfgar.
    -  Uma erva para dormir, meu amor - sorriu Aislinn, olhando ternamente para ele.
    
    
    
    
    
    -  Sim,  verdade! - confirmou Maida. - Naquela noite eu pus uma poo no vinho. Para ele! S para ele! Mas Ragnor obrigou Aislinn a beber. Ele no sabia que 
eu estava no quarto. Ragnor tentou violentar Aislinn. Rasgou as roupas dela e jogou os pedaos no cho.
    - Apontou para a escada. - Caiu deitado em cima dela... na cama
    - Maida riu. - Mas, antes que pudesse satisfazer seu desejo, os dois mergulharam num sono profundo e dormiram assim abraados at eu acord-la ao raiar do dia, 
e ns duas fugimos. - Deu de ombros. - Eu o teria matado se no temesse que os outros matassem minha filha.
    Wulfgar continuava com a testa franzida.
    -  Mas devia haver outros sinais.
    -  Eu escondi as provas - riu Maida, com os olhos brilhando.
    - A tnica rasgada de sua primeira noite com ela, com as manchas da virgindade.
    -  Me! - interrompeu Aislinn. - Por que deixou que eu passasse todos esses meses sem saber?
    Maida ergueu o queixo com altivez, deixando entrever sinais de uma beleza perdida.
    -  Porque ele era normando e voc ia contar a ele - deu de ombros outra vez. - Agora ele  meio normando e meio saxo.
    Wulfgar inclinou a cabea para trs e deu uma gargalhada feliz. Depois, mais calmo, murmurou:
    -  Pobre Ragnor. Nunca chegou a saber.
    Wulfgar estendeu a mo para Aislinn e, quando Maida pegou Bryce no colo, os dois se abraaram carinhosamente. O normando olhou para a sala, sentindo o calor 
e a atmosfera amistosa do solar que sempre fora o lar de Aislinn. Olhou para Milboume e Gowain, seus companheiros de tantas lutas; para Sweyn, que o criara desde 
muito jovem; Bolsgar, o pai que lhe foi devolvido; Maida; Miderd; Hlynn; Ham; seu lacaio, Sanhurst; Haylan e Kerwick, todos amigos. Sorriu para Kerwick.
    -  Tem minha licena para casar com a viva, Kerwick. Logo terminaremos a construo do castelo e teremos muitas comemoraes e festividades. Ser uma ocasio 
maravilhosa para um casamento
    Kerwick olhou para Haylan com um largo sorriso.
    -  Sim, meu senhor, se at l eu conseguir ficar de p. Haylan fez uma mesura para Wulfgar e Aislinn.
    -  Ele estar bom-garantiu ela, com os olhos brilhando.-Ou vai ganhar um ferimento muito pior do que estes.
    
    
    
    
    Wulfgar riu, e ele e Aislinn saram para o ar frio da manh. Ela estremeceu sob a capa, e Wulfgar a abraou. Atravessaram o ptio na direo do castelo. Quando 
chegaram debaixo de um enorme carvalho, Wulfgar abraou-a e encostou no tronco da rvore, beijando-a no rosto e no pescoo.
    -  Nunca pensei que pudesse amar tanto uma mulher quanto eu a amo, Aislinn. Meu mundo est na palma de sua mo.
    Aislinn riu e encostou o rosto no gibo de pele de lobo.
    -  J estava na hora de isso acontecer.
    Aislinn virou de frente para o castelo, que se erguia como uma enorme sentinela guardando a terra.
    -  Ser um lugar seguro para os nossos filhos - murmurou Wulfgar com a boca nos cabelos dela.
    -  Sim, para os nossos vrios filhos - disse Aislinn, apontando para o cata-vento no topo da mais alta torre. - Veja!
    Um enorme lobo de ferro, feito na forja de Gavin, girava com a brisa da manh, como que farejando a presa. Wulfgar olhou para o lobo de ferro por algum tempo.
    -  Deixe que aquele animal procure os ventos de guerra-disse, em voz baixa. - Eu encontrei a minha paz em voc. No vou mais vaguear pelas florestas  procura 
da luta. Eu sou Wulfgar de Darkenwald.
    Wulfgar a fez virar de frente para ele, e os dois vultos se tornaram um s  luz do novo dia.
    Darkenwald encontrara um lugar para todos.
    
    
    
    
    
  Fim
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
